Velvet Touch
3 A Briga
Notas iniciais
Marina ficou parada olhando para Clara sem saber o que fazer. A assistente por sua vez, continuava a encarar a chefe, também imóvel. Victória percebendo a mudança na fisionomia de Marina seguiu seu olhar e assim que viu Clara na pista, entendeu de imediato o que estava acontecendo. Delicadamente soltou o corpo da fotógrafa e apressou-se em se desculpar.
_Marina, me desculpe. Eu... Eu me descontrolei. Perto de você é difícil manter a mente clara!
_Não. Você não tem do que se desculpar Vic. Não tem mesmo! — respondeu Marina como se estivesse voltando a si — ambas queríamos, ambas somos solteiras e aconteceu. Está tudo bem! — tranquilizou-a, ainda olhando fixamente para Clara que agora que começava a fazer menção de se mexer.
_Vai lá, está tudo bem — disse a loira, entendendo a confusão que se formava na expressão da fotógrafa.
_Me desculpe.
_Não tem do que pedir desculpa — disse sorrindo e Marina sorriu de volta.
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Clara que antes tinha ficado estática, agora praticamente corria pelas escadas indo de volta ao lounge. Segurava as lágrimas com toda a força que tinha dentro de si, e mesmo assim uma ou outra teimava em cair sorrateiramente por seu rosto. Chegando ao terceiro andar do bar, pegou suas coisas rapidamente, deixando todos, menos Vanessa sem entender nada.
_Viu o que não queria ver, não é Clara? Eu te avisei que dessa aí você devia ter ciúmes. Eu te avisei! — disse a ruiva, já um pouco bêbada e destilando seu veneno de sempre.
_Pessoal eu preciso ir agora, amanhã nos vemos no estúdio, tchau — disse, fuzilando Vanessa e despedindo-se de maneira geral antes de disparar escada abaixo.
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Marina não queria fazer uma cena, na verdade nem sabia porque estava se sentindo tão culpada, mas independente de qualquer coisa, não iria se expor e muito menos expor Clara a uma possível discussão na frente das meninas. Ficou esperando por ela na saída do bar, e não demorou muito para o furacão passar por ali. A assistente estava meio desgovernada e não a viu parada ali, passando direto pela figura da fotógrafa e indo em direção a avenida chamar um táxi. Marina foi atrás dela e lhe puxou pelo braço.
_Clara...
_Me solta Marina! — esbravejou.
_Calma, eu só quero conversar com você.
_Conversar? O que você quer conversar hein? Já vi tudo o que tinha pra ver aqui hoje. Devia era ter ficado na minha casa! — a assistente falava alto e gesticulava sem parar.
_Clara, calma... — disse a fotógrafa aproximando-se da assistente, que prontamente esquivou-se de seu contato.
_Não encosta em mim! Vai lá com a sua francesa loira. Já vi que não foram só aulas de fotografia que ela te deu em Londres não.
_Hei, pera aí. Que show todo é esse hein Clara? O que exatamente você está me cobrando aqui? — retrucou, exaltando-se pela primeira vez.
_Pra que queria que eu viesse hein? Pra que pudesse assistir de camarote a essa putaria sua?!
_Clara! Menos, muito menos. E não refira-se assim a Victória, por favor. As coisas não são assim como você está berrando.
_As coisas não são assim? Hahaha — Riu irônica. E são como hein? Lindo você defendendo aquela lá. E menos? É, tá certa. Eu já não tenho mais o que falar pra você. Ah, e quer saber o que mais? O Cadu estava certo!
_Como é que é? O Cadu estava certo sobre o que Clara? — questionou Marina elevando o tom de voz razoavelmente.
_Você não presta Marina! — cuspiu as palavras em cima da fotógrafa, e assim que viu o semblante arrasado de Marina e as lágrimas que começaram a rolar copiosamente por seu rosto, arrependeu-se intensamente do que havia dito.
A assistente a tinha acertado em cheio, transformando as palavras em uma bela de uma bofetada, e Marina não tinha mais forças para continuar aquela discussão. Ela não merecia aquilo. Não depois de tudo o que tinha feito e ainda fazia por Clara. Tentou secar o rosto, abaixou a cabeça e sem despedidas deu as costas para Clara, caminhando de volta para a entrada do bar. Quando já estava quase na porta, sentiu uma mão lhe puxar.
_Marina... Me desculpa, eu... Eu falei sem pensar! Não te vejo assim. Me perdoa! — suplicava a assistente, causando furor em Marina.
_Me solta Clara — a encarou com raiva, sustentando o olhar no fundo dos seus olhos — Volte para a sua casa e viva o seu mundinho de conto de fadas junto daquele seu marido machista e escroto. Vai lá brincar de casinha e fingir que é feliz! Cansei dessa palhaçada. Pra mim deu! — rosnou a fotógrafa, desvencilhando-se do braço de Clara e voltando para o bar.
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Victória estava consumindo-se de preocupação com a sua pequena. Sim, era assim que a chamava antigamente e era assim que se lembraria dela para sempre. Aquela menina linda, apaixonada por fotografia e encantada com a vida, com as cores do mundo e com a beleza do simples. Não demorou muito mais do que duas ou três aulas para se apaixonar por Marina. No início se condenava por nutrir aqueles sentimentos pela aluna, mas rapidamente percebeu que não poderia ser diferente. Marina tinha entrado em sua vida para ficar, e isso, com certeza era definitivo e irrevogável!
Olhou para escada pela milésima vez e seu coração quase se desfez quando viu sua pequena ao pé da escada naquele estado. Definitivamente, não iria deixar que ela aparecesse ali assim. Correu ao seu encontro, antes que ela pudesse começar a subir e ela se jogou em seus braços. Vic a abraçou com ternura, sem dizer nada e a tirou daquele lugar, puxando-a para um canto mais reservado.
_Linda, fica calma. Tudo vai ficar bem! Não fica assim. Você quer conversar?
_Tô sem forças Vi. Me tira daqui?
_Vamos fazer assim, você vem pro hotel comigo, eu aviso as meninas pego suas coisas e deixo a chave do seu carro com elas. Tudo bem?
_Tudo. Vou te esperar lá fora.
Victória voltou a subir as escadas, explicou a situação por cima para a Flavinha que mesmo preocupada com a amiga, resolveu não ir incomoda-la naquele momento, passando apenas o número de seu celular, pedindo para que Victória cuidasse dela e não deixasse de dar notícias. A loira passou no caixa mas não precisou pagar as comandas, ambas eram celebridades e não tiveram saldo a acertar na casa. Correu para entrada, abraçou Marina que ainda chorava copiosamente e a conduziu até o táxi.
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Clara estava mais sem rumo do que qualquer coisa. Havia machucado Marina e sabia disso. Nunca tinha visto a fotógrafa tão magoada em todo aquele tempo que a conhecia, e aquele olhar, provocado pelas palavras dela mesma, não saia de sua memória. Com todos os acontecimentos, a noite acabara cedo, e quando o relógio marcava 0h23 a assistente já descia do táxi em frente a seu prédio. Pensou no marido que estaria a sua espera e na explicação que teria que dar pelos olhos inchados de tanto chorar. As palavras da chefe lhe martelavam a cabeça novamente "Vá lá brincar de casinha e fingir que é feliz! Cansei dessa palhaçada. Pra mim deu!"
Apertou o número de seu andar no elevador torcendo para que Cadu já estivesse dormindo. A última coisa que precisava era ter mais uma discussão aquela noite! Tomou um susto quando entrou no apartamento e deu de cara com o marido deitado no sofá, mas para sua sorte Cadu parecia dormir suavemente. Clara passou de fininho para o quarto, tirou sua roupa, guardou os sapatos, colocou seu pijama e assim que deitou na cama, o marido abriu a porta quarto. Clara fechou os olhos, e para todos os efeitos fingiu estar dormindo, quando na verdade seu coração estava destroçado, e sua mente entrava em um conflito sem fim embasado em uma única questão: "o que foi que eu fiz?", Clara se condenava impiedosamente e mais uma vez as palavras da fotógrafa lhe tiravam o ar "Cansei dessa palhaçada. Pra mim deu!". Havia raiva sim, mágoa, mas também havia decisão naquele olhar. Clara estremeceu, engolindo as lágrimas que já não podia mais deixar cair. Se a possibilidade já era insuportável, a realidade seria massacrante. Definitivamente ela não podia perder Marina.
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Marina foi abraçada a Victória como uma criança assustada que se abraça a seu ursinho de pelúcia após um pesadelo. A voz de Clara ecoava em seus ouvidos com aquela frase: "Você não presta!"e por mais que tentasse, não conseguia conter as lágrimas. Chegando ao hotel, Vic a colocou na cama, tirou as botas que calçava e lhe levou uma taça de vinho, para acalmar os ânimos. Sentou na cama, e Marina depositou a cabeça suavemente em seu colo, enquanto recebia cafunés e carinhos da loira.
_Mari, eu estou aqui se quiser conversar, mas se não quiser, tudo bem. Estou aqui do mesmo jeito — disse com aquele olhar doce e preocupado que Marina lembrava-se muito bem.
_Obrigada por me tirar de lá Vi.
_Não me agradeça por isso, pequena.
_Nossa, quanto tempo que não te ouço me chamar assim. Sempre achei a coisa mais fofa do mundo! — disse a fotógrafa toda manhosa, aninhando-se mais no colo da loira.
_É a minha pequena. Sempre vai ser! — respondeu corando enquanto beijava os cabelos da morena.
_Sempre?
_Sempre! — afirmou sem pestanejar.
Marina sentou-se ao lado de Vic na cama. Olhou-a profundamente, e quando estava prestes a perder-se no azul de seus olhos, disparando um sussurro baixo e rouco, pediu:
_Faz amor comigo?
_Não vamos fazer nada que você vá se arrepender amanhã minha linda — respondeu, abraçando a ex aluna.
_Não terei do que me arrepender. Te garanto! — respondeu Marina beijando o pescoço da professora.
_Tem certeza disso? — a loira perguntou, já entregue aos braços de sua pequena que a respondeu com um aceno afirmativo de cabeça.
Sem perder tempo, Marina beijava lentamente todo o pescoço da loira disparando em direção ao seu ouvido, onde sussurrou em tom sensual:
_Estava com saudades de você, "professora" — chamou, trazendo a tona uma série de recordações — Do seu cheiro — aspirava seus cabelos — Do seu corpo — passeou a mão por todo o corpo da loira arrancando um suspiro involuntário da outra — Dessa sua boca — disse, perdendo-se nos lábios da professora que respondia e correspondia com fervor as investidas da aluna.
Marina queria se sentir amada. Precisava disso! Se entregou por completo a Victória naquele momento, sem medo do que poderia acontecer, ou do que poderia parecer.
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