Velvet Touch
10 O Tiro
Notas iniciais
Clara ficou ali, parada naquela mesma posição por um bom tempo até deixar que seu corpo caísse no sofá atrás de si. Ela não podia acreditar nas coisas que o marido havia lhe dito, e apesar de tudo, ainda estava bem surpresa por sua reação, ao atingi-lo com um tapa. Nunca pensou que um dia isso aconteceria, uma vez que Cadu sempre foi um dos homens mais carinhosos e dóceis que já conhecera e tivera o prazer de conviver, e não conseguia entender como ele podia ter se transformado tanto no último mês.
Obviamente, não esperava uma separação fácil, mas as coisas estavam completamente fora de controle e ela temia pelas atitudes do marido, principalmente quando ele se enchia com toda aquela raiva e agressividade como vira acontecer horas atrás, bem ali na sua sala. Clara não reconhecia nenhum traço de seu antigo esposo naquele Cadu, e sabia que enfrentaria um verdadeiro inferno durante todo esse processo de separação, e pelo visto, teria que lutar pela guarda do filho, expondo o garoto a essa guerra particular entre ela e o em breve ex-marido.
Nada daquilo estava certo. Nada estava no lugar que deveria estar, mas Clara estava disposta a enfrentar o mundo se Marina estivesse ao seu lado. Seus pensamentos voaram para a noite anterior, e a lembrança dos toques da fotógrafa a acenderam por completo, fazendo com que ela se esquecesse automaticamente de tudo o que havia acontecido naquela manhã. Limpou o rosto e decidiu tomar um banho para tentar relaxar e dormir um pouco. Estava pregada por ter passado a madrugada em claro, e já que Ivan estava com Helena, pensou em tirar um cochilo antes de ligar para a sua amada. Definitivamente, precisavam conversar e ela tinha que contar logo para a morena tudo o que sentia pro ela, as decisões que tomara e principalmente, o fato de já ter pedido o divórcio.
No meio do caminho para o banheiro sentiu uma pontada no peito, como um pressentimento ruim, e automaticamente pensou em seus dois amores: Ivan e Marina.
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_Cadu... Não faça nada que você vá se arrepender depois! Você tem um filho pra criar... Tem o seu bistrô para fazer funcionar. Pense nisso! – Marina tentava argumentar com o chef, trêmula.
_Cala essa sua boca! Não me venha com papinho furado Marina. Eu não vou perder tudo para você! Não vou mesmo!!! – esbravejava, completamente fora de si.
_Você não está perdendo nada pra ninguém Cadu. Um casamento não é garantia de felicidade! Você ama a Clara, e ela também ama você. Não tem um dia sequer que ela não fale em você e no Ivan aqui nesse estúdio. Ela não vai abandoná-los. Mas... O amor se transforma! – A voz da fotógrafa falhava enquanto via o homem a sua frente agitar a arma, sem deixar de mira-la. Ela não sabia o que falar e as palavras emergiam de seu coração.
_A CLARA É A MINHA MULHER!!! – berrou erguendo um pouco mais a arma e focando-a em direção à figura da fotógrafa – ELA NÃO PODE TE AMAR! NÃO PODE!
_Cadu... Calma... Por favor! – Marina sentia a ira do homem crescer, e agora temia seriamente por sua vida – Abaixa essa arma. Não é assim que você vai resolver as coisas... Pense no Ivan...
_Por favor? Você destrói a minha vida, arruína a minha família e ainda se acha no direito de me pedir favores? — A fotógrafa engoliu em seco. A situação era tensa demais e ela não conseguia formular mais frases em sua cabeça – E tudo isso pra quê hein Marina? Tudo isso por uma transa?! Por um corpo novo na sua cama?! Você me dá nojo!
_Eu a amo Cadu! Eu a amo de verdade! Não é assim como você pensa... Eu não a quero dessa maneira. Eu...
_AMOR??? O QUE VOCÊ SABE SOBRE O AMOR??? Você é só uma riquinha mimada que acha que pode ter tudo e todos quando quiser. Você só usa as pessoas para se divertir no meio dessa vidinha fútil, inútil, besta! – o chef desatou a falar, balançando a arma de um lado para o outro – Você não sabe nada sobre o amor! Por que você faz isso Marina? É pra exibir as garotas que você leva para a cama como um troféu? Uma conquista em cima dos homens? É isso?
_Cadu, você não sabe do que está falando. Eu não sou assim! E eu já disse... EU AMO A CLARA! – gritou, esquecendo-se por um minuto do perigo que corria — Eu quero construir uma vida com ela, uma família!
O chef ficou mais vermelho do que já estava e fulminava Marina com um olhar que era a tradução do mais puro e intenso ódio. Ele abaixou um pouco sua arma, mantendo aquele contato visual por alguns segundos. A fotógrafa imaginou que ele estivesse buscando se acalmar, e não disse nada, esperando por sua próxima atitude e torcendo para que ele recuperasse a sensatez. Contudo, ao contrário do que torcia Marina, Cadu não estava buscando o equilíbrio, mas sim tomando uma decisão. Ele ergueu novamente a arma em sua direção.
_A Clara nunca será sua Marina. NUNCA! Você não estará aqui para fazer dela mais um troféu na sua coleção! – decretou.
A partir daí tudo aconteceu muito rápido. Pressentindo a decisão do chef, Marina fechou os olhos e saltou, jogando o corpo para o lado no mesmo instante em que o dedo de Cadu pressionou o gatilho de sua pistola.
O estrondo ecoou pelo estúdio, completamente ensurdecedor.
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Depois daquela sensação estranha, Clara desistiu do banho e do cochilo, trocou de roupa e desceu até o apartamento de Helena para checar se o seu filho estava bem. Sempre fora uma mulher muito sensível, e dificilmente seu coração errava quando lhe dava aqueles avisos. Após certificar-se de que Ivan estava bem e entretido com o Virgílio fazendo uma escultura de argila na oficina, Clara continuou inquieta e resolveu tentar falar com Marina. Ligou uma, duas, três, sete vezes e o celular da amada dava sempre a mesma mensagem “Esse telefone encontra-se fora da área de cobertura ou desligado”. Percebendo a aflição na expressão da irmã mais nova, Helena se aproximou.
_Clara, tá tudo bem? Com quem você tenta tanto falar ai nesse celular?
_Ai irmã! É com a Marina... Eu ligo, ligo, ligo, e nada dela me atender. Só dá caixa postal.
_Vai ver o celular está desligado, acabou a bateria, sei lá. Mas, porque você precisa tanto falar com ela agora? Aconteceu alguma coisa? – perguntou curiosa.
_Eu não sei, e esse é o problema. Eu tive um daqueles meus pressentimentos, sabe?! Aliás, desde ontem que minha vida tá meio maluca, e aconteceu uma cena completamente desnecessária com o Cadu hoje mais cedo no apartamento, enfim... Ai, eu não sei. Só sei que meu coração está apertado, e se não é nada com o Ivan, provavelmente é com a Marina, irmã! Você sabe como são esses meus pressentimentos, eles não falham. Não falham – disse já aflita com a falta de notícias.
_Credo, Clara! Vira essa boca para lá. Não deve ter acontecido nada. Mas, se você está tão aflita assim, porque não vai até a casa dela dar uma olhada?
_Tenho tanta coisa para te contar irmã. Nossa! Você nem imagina os últimos acontecimentos da minha vida. Mas, você está certa. Vou aproveitar que o Ivan está com o Virgílio aqui e vou dar um pulo em Santa Teresa. Quem sabe eu já não volte com minha vida resolvida de lá hoje também, risos.
_Olha só! Pelo jeito a coisa anda bem nesse seu romance paralelo hein?! Risos... Vai lá, vai lá e depois me conta tudinho. Tim tim, por tim tim – disse Helena animada.
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Vanessa dormia profundamente em seu quarto, tentando curar-se de uma ressaca das bravas que havia adquirido graças ao porre que tomara na noite anterior, enquanto tentava esquecer a cena que interrompera no quarto da fotógrafa, quando ouviu um barulho estranho, alto, que parecia vir de algum lugar por ali. Sua mente estava confusa, densa, pesada, e nem de longe poderia imaginar do que realmente tratava-se o estrondo que a acordara. Abriu os olhos lentamente, piscando algumas vezes até conseguir enxergar o quarto em sua frente e foi quando ouviu um grito estridente, e esse ela reconhecia e muito bem. Era a voz de Marina que berrava!
A ruiva levantou-se em um pulo, vestiu seu roupão e correu em direção ao som. Não sabia exatamente de onde vinha e partiu em direção a piscina, olhou no ambiente e não encontrou a fotógrafa, então correu para o estúdio. Assim que entrou no espaço foi á vez de Vanessa gritar! No primeiro momento ela não entendeu nada da cena que contemplava, mas não era difícil de juntar as peças do quebra-cabeça. De um lado do estúdio estava à figura de Cadu, com as mãos na cabeça, uma aparência desesperada e uma arma que escorregava por entre seus dedos, enquanto seu corpo caia de joelhos batendo de encontro ao chão. Do outro lado, o corpo de Marina estava estirado no chão, e havia um tom de vermelho diferente daquele do tecido espalhando-se por sua camiseta.
_O que você fez? O QUE VOCÊ FEZ? – Vanessa gritava as perguntas enquanto corria em direção ao corpo da fotógrafa – Marina... Marina... Marina fala comigo!!! Fala comigo Marina, pelo amor de Deus!
_Eu... Eu... Não... Eu não queria... Eu... – Cadu balbuciava, sem conseguir falar qualquer coisa que fizesse sentido, zonzo, como se ainda tentasse acreditar no que havia acabado de fazer.
_Isso não vai ficar assim, seu louco! Reze para que ela fique bem, porque caso contrário, eu vou atrás de você até o inferno! Seu filho da puta! – rosnou a ruiva no mesmo instante em que Clara entrou no estúdio.
Clara ficou pálida e assim como Vanessa tinha feito minutos atrás, não demorou para conseguir juntar as peças daquele quebra-cabeças. Ela ignorou por completo a presença de Cadu ali e atirou-se ao chão ao lado de Marina.
_Marina, meu amor... Fala comigo! Marina... Abre os olhos Marina! – as lágrimas lhe banhavam o rosto, seu coração parecia sair pela boca e ela agora soluçava, completamente desesperada enquanto suas mãos sujavam-se com o sangue que escorria do peito de sua amada e lavavam o chão a sua frente.
_Não encosta nela Clara... Eu tô ligando para a emergência, não mexe nela. Pode... Pode dar algum problema. Só... Só fala com ela... Não deixa ela desmaiar... Meu Deus! – falou Vanessa, deixando de lado toda e qualquer rivalidade, compartilhando da dor e da preocupação da assistente naquele momento, enquanto relatava o ocorrido ao telefone chamando socorro.
Clara ergueu os olhos em direção ao esposo, e ao ver a imagem de Cadu ajoelhado ali, eles queimaram de ódio. Ela não conseguia formular uma frase inteira em direção ao marido, e não saberia descrever exatamente o que sentia naquele momento. Era um misto de ódio, raiva, angústia, decepção, descrença. Sentiu vontade de correr até ele e esbofeteá-lo até perder as forças, contudo, a aflição era tamanha pelo estado de Marina que a única coisa que ela queria naquele momento era que ele sumisse dali e a poupasse de ter que olhar para sua cara.
_Reze. Mas reze muito! Porque se qualquer coisa acontecer com ela. Qualquer coisinha, eu juro que te mato Carlos Eduardo. Eu não tô brincando. Eu te mato! — disse, encarando-o ameaçadoramente.
_Clara eu não queria... As coisas fugiram do meu controle... Eu... – ele tentava argumentar, buscando convencer mais a si mesmo do que a esposa de que merecia qualquer tipo de absolvição pelo que fizera.
_Carlos Eduardo, é melhor você sair da minha frente. Some daqui antes que eu ligue para a polícia e te coloque atrás das grades agora mesmo! – decretou – SAI DAQUI AGORA!!! – gritou percebendo que ele não havia se mexido. O esposo assustou-se com o grito disparado por Clara, e resolveu que a melhor coisa a fazer era mesmo sair dali e Clara ainda chorava ao lado de Marina, enquanto assistia o homem arrastar-se para fora do estúdio, deixando a arma responsável por todo aquele pesadelo bem ali, caída perto da porta.
_Clara... – a voz de Marina soou fraca, baixa, e ninguém além da dona de casa conseguiria entender o que ela dizia – É você?
_Sou eu meu amor, sou eu. Eu tô aqui com você! Vai ficar tudo bem... Eu prometo pra você... Só continua falando comigo... Por favor! – Clara estava realmente desesperada, e por mais que tentasse não conseguia tranquilizar o seu tom de voz.
_Eu... Não tô... Conseguindo... Respirar... – Marina falava com dificuldade, tentando puxar o ar que claramente não lhe chegava aos pulmões.
_Então não fala nada amor. Não fala nada! Você vai ficar bem... Só fica comigo, não dorme não... Olha pra mim...
Enquanto Clara falava o resgate chegou, e rapidamente os paramédicos a afastaram de Marina preparando a imobilização de seu corpo para poder coloca-la na maca e leva-la até a ambulância. A fotógrafa murmurava e gemia a cada toque em seu corpo, e tanto Clara quanto Vanessa apavoraram-se ao ver a morena tão frágil daquele jeito deitada ali. Ambas queriam acompanhar a fotógrafa na ambulância, mas, foram informadas de que apenas uma delas poderia ir junto de Marina no carro. A ruiva vendo o estado em que Clara estava, imaginou que ela não poderia dirigir, e decidiu deixar esse posto para a dona de casa, enquanto pegava o carro da própria fotógrafa para seguir até o hospital.
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_Acompanhante de Marina Meirelles?
_Aqui doutor! – responderam à ruiva e a morena ao mesmo tempo.
_Hum... – ele olhou desconfiado para ambas – Pois bem, fizemos as avaliações iniciais na paciente e ela precisará passar por uma cirurgia. Pela radiografia que tiramos do tórax fica evidente que a bala está alojada próxima ao pulmão direito, por isso ela sente tanta dificuldade em respirar.
_Mas doutor, qual o risco dessa cirurgia? – agora era Vanessa que perguntava.
_Toda cirurgia envolve riscos e não tem como minimizar as possibilidades negativas, mas, definitivamente não há alternativa nesse momento. Precisamos agir rápido, se não ela pode ter uma embolia pulmonar. Estamos preparando a sala de cirurgia nesse momento, e daqui alguns minutos a levaremos para lá. É um procedimento delicado e pode levar até oito horas para que ela saia do centro cirúrgico, por isso se vocês quiserem ir até em casa e voltar mais tarde, nossa equipe de enfermeiros estará de prontidão para lhes informar o andamento da cirurgia.
_Doutor, quais são as chances de alguma coisa dar errado? – perguntou Clara, em um fio de voz.
_Bom... – o médico respirou fundo – Contamos com uma das melhores equipes médicas do país, e lhe prometo que faremos o máximo possível para que não tenha nenhum problema. Mas, o risco vai de problemas respiratórios crônicos, perda total ou parcial de algum movimento do ombro, até o óbito.
Clara ficou pálida, sentiu suas pernas fraquejarem no mesmo instante e Vanessa empalmou suas costas, apoiando-a para que não caísse.
_Fiquem calmas. Tudo dará certo! Agora eu preciso ir... – decretou o médico, retirando-se.
As assistentes estavam atônitas. A palavra “óbito” girava na cabeça das duas, e elas se entreolhavam identificando-se uma com a dor da outra. Clara foi a primeira a dar um passo a frente, e Vanessa a abraçou com sinceridade enquanto ambas sussurravam palavras de apoio uma para a outra. Depois de alguns minutos buscando consolo nos braços da rival, Vanessa desvencilhou-se do abraço de Clara.
_Clara, a gente precisa avisar a Victória.
_É... Precisa. Mas... Vanessa, ela está do outro lado do mundo. Vai se desesperar por lá e não vai ajudar em nada agora. Deixa essa cirurgia acabar, depois você liga para ela.
_Sem contar que ninguém quer olhar pra cara dela agora né?! Risos – brincou Vanessa, tentando descontrair um pouco o clima do momento.
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As horas não passavam, e a sensação que Clara tinha era que os ponteiros de seu relógio corriam para trás ao invés de fazerem seu curso normal. Ela negou-se a sair da sala de espera do hospital por um minuto que fosse, e Vanessa tinha voltado para casa para tomar um banho e pegar roupas para a fotógrafa. Já haviam se passado doze horas, quatro a mais do que às oito prometidas pelo médico, e o corpo da assistente estava completamente moído de ficar jogada naquela poltrona. Clara não conseguia raciocinar direito, e ainda não tinha pensado a respeito do que faria em relação à atitude que Cadu tivera mais cedo, e que agora colocava Marina entre a vida e a morte. A assistente não conseguia focar sua atenção em nada, e quase não percebeu quando a enfermeira lhe chamou para indicar que a cirurgia havia, enfim, terminado.
A enfermeira não tinha maiores informações a respeito de como o procedimento tinha acontecido, e disse que o Dr. Alberto, o médico que havia conversado com ela e Vanessa mais cedo, logo estaria ali para dar maiores informações sobre tudo. Desta vez não demorou, e em poucos minutos o médico estava lá.
_Então doutor, como ela está? Está tudo bem?
_Calma. O procedimento foi um sucesso, e não acreditamos que a Srtª Marina vá ter algum tipo de sequela. Mas é claro que ela ainda está em observação e precisamos esperar 72 horas antes de ter certeza de qualquer coisa. Demorei um pouco para vir lhe dar a notícia, pois estava acompanhando o pós-cirúrgico dela na UTI para poder liberá-la para o quarto.
_E quando eu vou poder vê-la? Ela está acordada?
_Ela já acordou e está descendo para o quarto. Mas, pode ser que quando você estiver lá ela esteja dormindo, está sob o efeito dos remédios e a anestesia ainda não saiu completamente do organismo dela.
_Doutor, me diz a verdade. Ela está bem mesmo?
_Está sim – ele sorriu – Pode ficar tranquila. Vamos eu te levo até o quarto da paciente – disse guiando-a por um imenso corredor até chegar a porta do quarto de Marina – Pronto, Srtª?
_Clara.
_Pronto Clara, já pode vê-la. A Marina pode ter um acompanhante em seu quarto, então caso você ou outra pessoa quiser passar a noite com ela, vou deixar a liberação junto à equipe de enfermagem.
Clara despediu-se do médico e adentrou o quarto com pressa, ansiosa para rever sua amada. Encontrou a fotógrafa dormindo, e seu coração quase se desfarelou ao ver Marina ligada a todos aqueles aparelhos. Ela tinha uma aparência péssima. Estava pálida, fraca, e parecia absolutamente frágil deitada ali. Respirava com a ajuda de alguns aparelhos, e Clara não sabia dizer se era um movimento fácil ou difícil de se fazer. A assistente aproximou-se da cama e depositou um beijo demorado na testa da fotógrafa, sem perceber que molhava seu rosto com as lágrimas que escorriam inadvertidamente de seus olhos.
_Clarinha? – sussurrou a fotógrafa.
_Oi meu amor. Sou eu... – respondeu sorrindo – Como adivinhou?
_Reconheceria o seu cheiro em qualquer lugar, sua boba. Porque você está chorando?
_Ah... Porque eu sou uma boba, como você disse. Uma boba completamente apaixonada por você Marina. Completamente! – segurou a mão da fotógrafa, olhando ternamente em seus olhos – Eu sei que essa talvez não seja a hora nem o lugar, mas, eu preciso te dizer isso. Eu tô perdidamente apaixonada por você! Quando eu te vi daquele jeito lá no estúdio... Eu... Ai, Marina... Eu pensei que você... – interrompeu a frase com medo de pronunciar as palavras – Eu não ia aguentar... Eu... – Ela caiu em um choro copioso e intenso.
_Ei... Calma! – tentou se mexer na cama, mas seu corpo não respondia aos seus esforços – Eu tô bem meu amor. Tá tudo bem! Não chora... – disse Marina tentando acalmar Clara que se desmanchava em lágrimas ao seu lado.
_Jura Marina? Você tá bem mesmo? O médico me disse que foi tudo muito bem no procedimento cirúrgico, mas... – ela soluçava.
_Clara... Olha pra mim... – disse séria, chamando a atenção da assistente – Eu não vou deixar você soltinha por ai não. Eu te amo! E nada disso aqui vai me impedir de viver esse amor com você. Nada! Entendeu?
_Eu te amo tanto Marina, tanto! – respondeu a assistente sorrindo largamente e beijando a mão de sua amada – Eu não vou sair do seu lado, tá?! Nunca!
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Haviam se passado três dias desde que Marina tinha feito o procedimento cirúrgico, e o celular de Clara não parava de ser bombardeado constantemente por ligações e mensagens do seu ex-marido. Ele ainda não sabia o que aconteceria, e não tinha certeza se seria ou não denunciado pela fotógrafa, e por ironia do destino, tinha duas grandes preocupações no momento: sua vida e a vida de Marina. Cadu se arrependia profundamente de tudo o que tinha acontecido, mas, sabia perfeitamente que apenas arrependimento não bastaria para que fosse perdoado, e não sabia como agir em meio a tudo isso. Clara o havia proibido de ver Ivan enquanto as coisas não se acertassem com a Marina, e eles pudessem resolver o que fariam a respeito de tudo aquilo, então a vida do chef resumia-se a ir do bistrô para seu apartamento e vice-versa, acompanhado sempre por uma agonia sem fim e um medo absurdo de todo e qualquer homem fardado que se aproximasse dele.
Já a rotina de Clara resumia-se ao hospital. Assim como prometera a Marina no dia em que tudo aconteceu, ela não saiu do lado da fotógrafa, indo para casa apenas para tomar banho, dar um beijo no Ivan e pegar algumas roupas. O médico havia passado naquele dia mais cedo no quarto, e informado de que o perigo inicial havia passado, e Marina poderia voltar a respirar sem os aparelhos. Toda essa situação com a fotógrafa acabou por aproximá-la muito de Vanessa, que agora apesar de ainda não aceitar plenamente o romance das duas, mostrava-se menos azeda e seu discurso acontecia sem maiores alfinetadas, afinal, depois de quase perder Marina de vez, somente o fato de a fotógrafa estar viva e sorrindo já lhe trazia paz. Haviam avisado a Victória de tudo o que estava acontecendo, mas devido a uma onda de mau tempo que atingia toda a Europa, a loira ainda não havia conseguido voltar ao Brasil, bombardeando o celular de Vanessa incontáveis vezes por dia em busca de notícias sobre o quadro de sua namorada.
Marina havia pedido para que Clara lhe desse um tempo para resolver tudo com Victória, e que não queria fazer nada disso por telefone, mas sim pessoalmente, tão logo ela pudesse estar presente. Clara concordou, afinal, não conseguia dizer não para nada do que Marina lhe pedia. Apesar de todos os cuidados e mimos que a assistente dispensava à fotógrafa naqueles dias, Marina sentia que havia algo errado com ela, mas não quis pressiona-la para que contasse. Não estava em condições de travar discussões, e seu corpo ainda enfraquecia e cansava com muita facilidade ao menor esforço que tentasse fazer.
Já na tarde do quinto dia de internação, o médico lhe deu a grata notícia de que poderia ir para casa no dia seguinte, desde que se comprometesse em seguir algumas exigências e recomendações médicas que envolviam principalmente o repouso quase que absoluto e a ingestão correta de todos os medicamentos que ainda precisaria tomar durante os próximos dias. Todas se animaram com a novidade e Clara e Vanessa prontificaram-se em garantir que a fotógrafa seguiria a risca todas as recomendações que ele deixasse para ela. O clima ainda era leve e descontraído no quarto, quando como que se abrissem as portas do inferno, ouviram as vozes de Victória e Cadu ecoando ao mesmo tempo pelo quarto.
_O que esta mulher está fazendo aqui? – Perguntou Victória, fuzilando Clara com os olhos.
_Clara, eu preciso falar com você! – disse Cadu, que invadiu o quarto sem permissão, pegando carona com a loira.
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