Velvet Touch

11 Lar Doce Lar


Notas iniciais
E as fortes emoções não param! Rsrs... Que comecem os jogos! Demorou, mais saiu. Espero que gostem amores...

O som que anteriormente a chegada de ambos era de calmaria e contava com o os bips lentos e compassados do monitor que acompanhava os batimentos cardíacos de Marina, agora havia se transformado totalmente. Os bips aumentaram razoavelmente de frequência, volume e intensidade, sendo possível ouvir o coração da fotógrafa pulando descompassado no peito. O movimento de sobe e desce do seu tórax passou a ser realizado de maneira densa, dolorida, e deficiente. Antes que as assistentes pudessem pensar em fazer alguma coisa, duas enfermeiras invadiram o quarto às pressas e solicitaram que todos saíssem do recinto. Clara que segurava a mão de Marina sustentava uma expressão aflita e angustiada por conta da mudança repentina no clima do quarto, não queria se retirar, mas as enfermeiras pediram novamente, agora de maneira mais incisiva e contrariada ela rumou porta afora.

_O que é que você está fazendo aqui Carlos Eduardo? – perguntou a dona de casa, sentindo suas veias esquentarem de raiva.

_Calma Clara... Calma! Eu vim aqui porque você não me atende cara. Eu estou entrando em pânico com esse silêncio todo. Você não me fala nada, eu não sei se... Se... A Marina está bem ou não, se ela vai me denunciar ou não... Eu... Preciso estar preparado! – respondeu Cadu, evidenciando a real preocupação que o levava a estar ali.

_Você é um cafajeste egoísta mesmo né Carlos Eduardo? Pois saiba que eu serei a PRIMEIRA a apoiar a Marina se ela quiser te denunciar. Inclusive, pode contar com o meu incentivo pra que ela queira! Seu cafajeste! – Clara falava, gesticulando sem parar e aumentando seu tom de voz a cada palavra que saia de sua boca, chamando a atenção dos enfermeiros que passavam pelo corredor.

_Ah, então esse que é o maridinho dessa aí?! Você que atirou na minha Marina seu cretino, filho da puta?! – esbravejou Victória, assustando Vanessa que a via descer do salto pela primeira vez na vida – Você pode ter toda a certeza do mundo que se a Marina enlouquecer e resolver não te denunciar, eu mesma farei essa denuncia. Seu troglodita imbecil! – afirmou, apontando o dedo na cara de Cadu.

_Sua Marina? Você que é a tal namorada dela então?! – riu debochado – coitada! Mal sabe que está na mesma situação do que eu. Nem te conto o que a “sua Marina” – desenhou aspas no ar com os dedos – andou fazendo com a minha mulher enquanto você estava fora, minha querida! – ironizou Cadu, abusando da paciência de todos os presentes.

_Epa, epa, epa.. Calminha ai vocês dois. Victória, por mais que eu queira mata-lo, agora não é hora de discutir com esse... Enfim, não é o momento e menos ainda o local para fazermos isso. Clara, por favor, controle seu marido, ex-marido, ou sei lá o que ele é aqui, que nós vamos voltar lá para dentro – disse Vanessa, observando a saída das enfermeiras que haviam entrado no quarto da fotógrafa minutos antes. Clara fez uma cara de indignada fazendo menção de dar as costas ao marido, mas Vanessa a impediu – Quando você se resolver com esse aí, volte lá para dentro. Depois vocês todos podem se matar, mas aqui não. Agora não! – completou, tentando conter os ânimos por ali.

Mais uma vez contrariada, Clara deixou que a ruiva e a loira voltassem para o quarto de Marina enquanto ficava parada ali, sem conseguir nem ao menos olhar nos olhos daquele homem irreconhecível que um dia fora o seu marido.

_Clara... Você falou sério quando disse que ia incentiva-la a me denunciar? Você vai ficar do lado dela se ela quiser colocar o pai do seu filho na cadeia? E o Ivan? Você não pensa nele? – falava em tom baixo, como se tentasse seduzi-la, chantageá-la em seu único ponto de fraqueza e demove-la desta ideia, mesmo que para isso precisasse usar o seu próprio filho.

_Nossa! Eu nunca, na minha vida inteira, imaginei que você pudesse um dia ser tão baixo e nojento como vem sendo! – disse decepcionada, entendendo perfeitamente a intenção do marido – Eu ainda não falei nada do que quero falar para você, e tenho que concordar com a Vanessa, aqui neste hospital não é hora nem lugar pra isso. Agora, você atirou em uma pessoa e goste você ou não, eu AMO aquela mulher que está lá dentro internada por sua causa e absolutamente nada nesse mundo vai mudar isso – suas palavras saiam com uma sinceridade tão intensa, que Cadu não conseguia encontrar uma brecha para rebater aquelas afirmações.

_Clara... Isso não é real. Não pode ser real! Eu... Eu sei que eu decepcionei você, eu sei que perdi a cabeça e não tinha o direito de estar aqui neste momento, mas, pelo amor de Deus, eu não posso ir para a cadeia. Eu não posso submeter o Ivan a isso! – afirmou, levando as mãos até a cabeça, deixando as lágrimas caírem por seu rosto e já soando desesperado.

_Você deveria ter pensado em tudo isso antes de fazer a loucura que fez. E esteja certo que se isso tomar este rumo, eu protegerei o meu bichinho do tipo de ambiente que é um presídio, e você nunca mais verá o Ivan. Agora me faça um favor, não me chame mais de “sua mulher”, porque eu não sou. Tudo o que você tinha de mim, você perdeu quando puxou aquele gatilho. Inclusive a minha compaixão – decretou, dando as costas para o esposo e rumando sentido o quarto de sua amada.

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Clara entrou no quarto e por mais que já esperasse por alguma cena parecida, seu coração doeu ao ver Victória ocupando o lugar que ocupara todos os dias antes de sua chegada. Ela segurava a mão de Marina e lhe acariciava os cabelos, assim como a assistente fizera todas as vezes que a fotógrafa estava dormindo, como agora. A assistente respirou fundo e rebateu os pensamentos que lhe ocorreram naquele momento. Ela havia prometido para Marina que não sairia do lado dela, e cumpriria sua promessa até o fim, mesmo que pra isso tivesse que aguentar cenas como aquela. Vanessa percebeu a expressão da dona de casa e chamou-a para sentar ao seu lado.

_Clara, segura a emoção ai. Eu já conversei com ela e pedi para não ter nenhuma discussão aqui dentro. Pense na Marina, por favor – pediu Vanessa, que estava assumindo uma posição inédita em sua vida, a de pacificadora.

_Fica tranquila Vanessa, estou aqui por ela e essa daí não vai conseguir me tirar do sério não.

_Essa daí não Clara. Eu sou a namorada dela, pelo menos até que ela me diga e me convença do contrário. Então você me respeite como tal! Aliás... Como é que você tem coragem de estar aqui depois de tudo a que expôs a Marina hein? Como você tem essa cara de pau de bancar a menina apaixonada depois de causar tudo isso aqui a ela? Hein? – acusava a loira com veemência, tentando manter seu tom de voz baixo e controlado, porém, sem muito sucesso.

_Meninas... – advertiu Vanessa levantando da cadeira em que estava e colocando-se no meio das duas, que se aproximavam perigosamente – Victória, por favor. Combinamos de não ter essa conversa aqui...

_Eu sei Vanessa, eu sei. Mas, é muita coragem dessa mulher. Muita coragem! – indignou-se a francesa, fulminando a rival com um olhar ameaçador.

Apesar de Clara devolver e sustentar o olhar da outra ela hesitou, com se buscasse dentro de si uma resposta que pudesse dar e no momento em que abriu a boca para rebater as acusações feitas pela loira, o monitor cardíaco de Marina disparou novamente e ela acordou de sobressalto, ofegante, provocando a correria da loira, da morena e da ruiva que partiram disparadas em direção à cama, parando Vic de um lado, Clara de outro e Vanessa aos seus pés.

_NÃO! – gritou Marina claramente acordando de algum tipo de pesadelo.

_Amor, amor... Calma! Tá tudo bem. Eu tô aqui. Tá tudo bem! – disse Victória, antecipando-se a Clara, que preferiu calar-se apertando a mão direita de sua amada.

_Vi? Cadê ele? – perguntou perscrutando o quarto com os olhos.

_Shhh... Calma pequena. Foi só um sonho, tá tudo bem! Tá tudo bem! – disse beijando sua testa e afagando seus cabelos enquanto tentava acalma-la.

Sua frequência cardíaca voltou a se estabilizar e a enfermeira apenas espiou para dentro do quarto, perguntando a Vanessa se estava tudo bem e saindo ao obter a confirmação da ruiva de que havia sido apenas um susto. Marina ainda não enxergava o quarto com clareza, e a imagem de Cadu apontando uma pistola prateada em sua direção não lhe saia da cabeça.

_Cadê a Clara? Ela... Foi embora com ele?

_Eu tô aqui Marina. Falei que não ia sair do seu lado, e não vou meu amor... – respondeu a assistente, pressionando os dedos por entre os da fotógrafa e causando uma careta involuntária em Victória que a encarava do outro lado da cama.

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Marina passou seu último dia no hospital de maneira agitada, além da tensão natural causada pela presença de Vic e Clara no mesmo ambiente, tinha recebido aquela “visita” completamente inesperada de Cadu que trouxe consigo algumas memórias, das quais Marina definitivamente não queria lembrar-se tão cedo. Além do pesadelo que tivera naquela tarde, sua noite também não havia sido das mais tranquilas, tendo acordado Vic duas vezes com sustos no meio da madrugada. Era a primeira noite que passava sem Clara no hospital, e a saudade de sentir o toque e o cheio da assistente já lhe esmagava o peito com força. Desde que ouvira dos lábios da amada a confissão de que seu sentimento era recíproco, não conseguia mais tirar aquelas palavras de seu pensamento. Sabia que tudo aquilo era de certa forma injusto com Victória, mas, preferiu esperar até estar em casa para poder conversar melhor com a loira e explicar o que de fato estava acontecendo.

As fotógrafas acompanharam juntas o amanhecer, dessa vez não visualmente, mas através dos ponteiros dos relógios de ambas. Marina ansiava por poder estar em sua casa novamente, e apesar do cansaço que abatia o seu corpo, não aguentava mais ficar deitada o tempo todo. Sentia falta do trabalho e preocupava-se com o fato de estar absurdamente atrasada com as fotos para a próxima exposição, que agora, já se aproximava rapidamente, estando apenas a vinte dias de distância no calendário.

Assim como havia prometido no dia anterior, Dr. Alberto havia deixado à alta de Marina encaminhada junto à chefia de enfermagem, liberando-a naquela manhã. Vanessa foi busca-las e a fotógrafa decepcionou-se ao não encontrar a figura de Clara no carro, mas optou por não fazer perguntas na frente de Victória. Chegando a mansão, ambas ampararam Marina até seu quarto, acomodando-a da melhor maneira possível nos travesseiros e edredons espalhados pela imensa cama. A ruiva sentiu o clima de tensão pairando no ar do cômodo e dando uma desculpa qualquer, deixou as fotógrafas a sós. Marina sabia que aquela era a hora certa, e puxando Vic para o seu lado na cama, começou a falar.

_Vi... Hãn... Nós precisamos conversar! – disse insegura, sem saber muito bem como a loira reagiria ao que tinha para lhe contar.

_Tem a ver com a Clara, não é? – perguntou Victória, indo direto ao ponto.

_Sim. Tem a ver com ela, e tem a ver com nós duas – tomou fôlego e como se aquele movimento lhe enchesse de coragem, continuou – A Clara é uma pessoa que entrou na minha vida em uma noite completamente despretensiosa. Eu a conheci na primeira exposição que fiz quando retornei ao Brasil e me apaixonei de imediato. No início, achei que fosse apenas atração física, afinal, você me conhece e sabe que me apaixono muito por aí, mas nada que seja sério de verdade. Mas com ela Vi... Tudo foi e tudo é diferente. Eu... Eu não estou só apaixonada por ela... Eu a amo de verdade! – falou sincera.

_Pequena... Eu não sou boba. Eu sabia desde o início que existia alguma coisa entre vocês. É claro que não imaginei que a coisa fosse nesse nível, como você está me dizendo agora. Mas... A única coisa que eu queria que me respondesse é: por quê? Por que você decidiu voltar comigo se está me dizendo agora, menos de um mês depois que ama outra mulher? – Vic não queria pressiona-la, sabia que ela estava frágil tanto emocional quanto fisicamente, mas não podia deixar de perguntar. Sentia seu coração estraçalhado no peito e não conseguiu não chorar.

_Me desculpa Vi... Me desculpa! – disse Marina limpando as lágrimas que escorriam pelo rosto da professora – Você não merece nada disso. Você é a mulher mais sensacional que eu já conheci em toda a minha vida. Você fez com que eu me descobrisse, não só como fotógrafa, não só como mulher, não só como lésbica, mas como pessoa. Você é responsável por muito, se não tudo o que há de bom e decente em mim, e eu nunca, nunca mesmo vou me esquecer de você – ela também chorava, com certa dificuldade em encontrar o ar em seus pulmões.

_Não chora Marina... Você não pode fazer esforço – a voz da loira falhava, e saia completamente embargada pela emoção de ouvir a declaração feita pela aluna – recomendações médicas, lembra?! – tentou sorrir – Você... Tem que ser uma boa menina agora... – Vic tentava conter o choro, mas ele vinha de seu coração e não conseguia fazê-lo parar – Tem... Que... Ficar boa logo pequena – disse acariciando seu rosto, com a cabeça baixa – Eu... Eu amo você Marina. Eu sempre vou amar você! E é exatamente por isso que eu entendo... – engoliu em seco – Eu entendo perfeitamente!

Apesar de todos os esforços que fizera Victória agora soluçava, chorando alto e dolorosamente.

_Vi... Ai... Não chora... Não faz assim... Por favor! Eu não aguento o fato de estar te fazendo sofrer. Eu... – parou assim que a loira arrastou-se até a beira da cama, colocando-se de pé.

Victória caminhou até ela, agachou ao seu lado, segurou seu rosto por entre as mãos e lhe olhou nos olhos, tentando passar toda a compreensão real e sincera que sentia em relação à novidade que Marina lhe contara. Depois de alguns segundos, que mais pareceram uma eternidade para ambas, ela respirou fundo, acariciou o rosto de sua pequena pela última vez, fechou os olhos e lhe selou os lábios, em um selinho interminável.

_Eu preciso de um tempo pra mim agora. Mas, ainda vou ficar uns dias no Brasil. Eu acabei arranjando uma reunião de um futuro projeto em São Paulo daqui dez dias, e não compensa voltar a Paris agora. Se você deixar, eu gostaria de te ajudar com as fotos finais para a exposição. Não vai dar pra você fazer os ensaios agora. E... Vou voltar pro Copacabana Palace, eu peço pra alguém vir buscar minhas malas mais tarde.

_Vi... Não quero te dar trabalho com essas fotos. Você está de férias! E... Porque você não fica aqui em casa? Tem o quarto de hóspedes... E você...

_Desculpa pequena, mas, vai ser demais pra mim. Não vou dar conta de ter que lidar com determinadas cenas que podem vir a acontecer aqui nos próximos dias. Eu agradeço mesmo, mas não posso ficar. As fotos não serão trabalho nenhum. Amanhã ligo para as meninas e vejo como podemos arrumar a agenda das modelos.

Antes que Marina pudesse contestar novamente, ela colocou seu dedo indicador nos lábios da aluna, impedindo-a de prosseguir.

_Eu desejo que você seja muito feliz Marina. Você merece toda a felicidade do mundo. Mas, se qualquer coisa der errado no meio disso tudo, eu estarei sempre aqui.

Victória levou a mão de Marina até os lábios e a beijou. Levantou-se e depositou outro beijo em sua pequena, agora na testa. Um beijo longo e carinhoso, como se estivesse se despedindo pra sempre. A fotógrafa se agarrou a ela, tentando ainda controlar plenamente o choro. Ficaram assim alguns instantes, até que a loira desfez aquele contato.

_Amanhã venho te visitar, e quero ver a senhorita no mínimo corada! – disparou um último sorriso entre as lágrimas que ainda lhe molhavam o rosto e rumou em direção à porta, evitando olhar para trás.

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Victória parou no alto da escada tentando se refazer. Ela já esperava por isso de algum modo, mas não imaginava que Marina nutrisse sentimentos tão profundos assim por Clara, e essa realidade lhe rasgava o peito. Ela amava Marina, e sabia bem o quão generoso e verdadeiro era esse sentimento em seu coração. Respirou fundo, limpou o rosto, olhou para escada a sua frente e segurou-se com força ao corrimão, tomando cuidado para não cair, uma vez que suas pernas ainda vacilavam. Assim que alcançou o chão viu a figura de Clara adentrar o recinto.

_Clara, se puder, suba. Ela está precisando de você agora – aconselhou à loira, verdadeiramente preocupada com Marina.

Clara por sua vez, olhou bem para o rosto de Victória e viu o retrato de uma mulher completamente abalada. O rosto vermelho, lágrimas nos olhos, fala embargada. Mesmo assim ela ainda procurou e não encontrando sarcasmo ou ironia nenhuma em sua expressão, desarmou-se.

_O que aconteceu Victória? Você está bem? – perguntou sincera.

_Não, mas vou ficar – respondeu, tentando sorrir – Clara... Cuide bem da minha pequena. E se não cuidar, vai se ver comigo, ô se vai! – afirmou, sustentando o mesmo sorriso amarelo e saiu.

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Assim que Victória saiu, Clara disparou escada acima atrás de sua amada. Pelo estado da loira a conversa não deveria ter sido nada boa, e correu para consolar sua Marina. Encontrou a fotógrafa encostada na cabeceira de sua cama, com lágrimas nos olhos e abraçada a um de seus travesseiros. Clara subiu na cama e deitou ao seu lado, abrindo os braços em um convite para que Marina se escondesse em seus braços. A chefe abraçou-a forte demais, gemendo logo em seguida pela dor que o contato de seu peito ferido com a pele da assistente havia lhe provocado.

_Eu a magoei, Clarinha... – choramingou Marina nos braços da amada.

_Quer conversar sobre isso? – perguntou apreensiva.

_Ela foi o amor de sempre. Compreendeu tudo, sem eu precisar falar muito. Não me acusou nem nada, muito pelo contrário. Mas, acho que eu preferia que ela tivesse me xingado, esperneado, sei lá!

_Ela parece... Te amar de verdade... – sussurrou Clara, puxando o rosto de Marina na mesma altura do seu – Marina... Tudo isso vale a pena?

_Como assim Clarinha? Acho que eu não entendi – Clara tinha a estranha mania de confundir a cabeça da fotógrafa.

_Eu não mereço você Marina. Não mereço! Olha aí o que eu fiz com você! Ficar perto de mim não te trouxe nada de bom, e eu vi, eu vi você sorrindo quando voltou de Paris, quando andava de mãos dadas com ela... Eu vi tudo com os meus próprios olhos... Você estava feliz! Estava bem – Clara falava rápido, aflita — Aí de repente eu resolvo te agarrar e te desarranjo inteira de novo...

_Como assim o que você fez comigo? Você não fez nada comigo Clara... Quem fez foi... O... Cadu – estremeceu ao dizer o nome de seu algoz – Você não tem nada com isso!

_Sim, foi o Cadu. Que é o que? MEU marido, que veio atrás de você por MINHA causa.

_Seu EX-MARIDO, que veio atrás de mim por ORGULHO de macho ferido – afirmou convicta.

_Co...Como assim? – gaguejou, chocada com a certeza no tom de voz da outra – Como assim ex-marido?

_Eu sei que você já pediu o divórcio, Clara! Eu não sei quando, e não sei qual a situação atual de vocês, na prática, mas eu sei que isso já aconteceu. Ele... Ele mesmo que disse isso aqui... Naquele dia... No estúdio – estremeceu mais uma vez ao lembrar-se da voz do chef ecoando por suas memórias – Por que você não me contou Clara? Por quê?

_Eu... Não sei... Eu queria evitar justamente que vocês travassem qualquer embate idiota. Eu não sei... Queria que as coisas estivessem confirmadas no papel, sem lacunas que nos permitisse voltar atrás – disse sem pensar.

_Você tá com medo de voltar atrás? – perguntou a fotógrafa já chorando novamente.

_Não! Não estou... Eu só... Estamos separados têm mais ou menos um mês. Eu pedi o divórcio no dia que discutimos aqui na piscina, antes de você ir para Paris. Foi uma cena complicada, meio trágica até – contava a assistente – Ele disse que não me daria o divórcio nunca, e colocou até o Ivan no meio da história, ameaçando lutar pela guarda do meu bichinho... Eu... Eu ia te contar Marina, ia te contar naquele dia em que toda essa loucura aconteceu. Sai daqui de manhã te dizendo que precisávamos conversar, mas, aconteceu tudo isso... E... Enfim... – Clara enrolava-se com as palavras, tentando achar uma boa explicação para dar a sua amada.

_E porque não tinha contato ainda? Antes tudo bem, eu estava com uma pessoa, não sabia nada do que você sentia, mas você estava há dias comigo no hospital! Tá com medo de não estar apaixonada o suficiente? – Clara permaneceu calada, apenas balançando a cabeça negativamente – De eu não ser suficiente pra você? – balançou a cabeça novamente – É pelo Ivan? Fala Clara... Do que você tá com medo? – a fotógrafa arfava e sentia seu peito voltar a doer.

_A CULPA DISSO TUDO É MINHA MARINA!!! – explodiu a assistente, colocando-se de pé – Se eu tivesse me mantido longe de você, se eu... Se eu tivesse ficado nesse casamento... Você não estaria assim agora!!! – Clara andava de um lado para o outro do quarto e as lágrimas rolavam pelo seu rosto copiosamente.

Marina assustou-se com a explosão da amada, e tentando controlar a própria respiração retomou o tom de voz baixo.

_É por isso que você estava estranha lá no hospital?

_É Marina! Não é porque eu duvide de nada disso. Não é porque eu não saiba o quanto estou apaixonada por você. Mas... Marina... – disse aproximando-se da fotógrafa e afagando seu rosto – Você quase morreu... E por minha causa!

Antes que a assistente pudesse se distanciar da cama Marina a puxou bruscamente, utilizando-se de seu braço bom. A assistente não esperava por aquilo, e acabou caindo no colo da fotógrafa.

_Clara, eu te amo mais que tudo nessa vida e se fosse preciso, eu levaria outro tiro pra poder ficar com você – disse séria, sincera, olhando fixamente em seus olhos – Nada disso aqui é culpa sua. Mas mesmo que fosse, você, e só você pode ser o meu remédio.

A assistente fechou os olhos e perdeu-se em um suspiro longo, como que saboreando aquelas palavras, e quando tornou a abri-los havia um brilho diferente no seu olhar, e um sorriso que iluminava todo o seu rosto. Sem pensar em mais nada, Clara mirou os lábios da fotógrafa unindo-os aos seus em beijo intenso, lento, demorado, apaixonado e carregado com todo o amor que sentiam uma pela outra. Quando suas bocas separaram-se, o fizeram apenas para que os lábios pudessem sorrir um para o outro. Nada mais precisava ser dito, aquele beijo tinha sido a tradução de tudo o que estava sufocado no coração de ambas, e naquele momento, elas finalmente sentiam-se completas, uma no abraço da outra.

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A claridade da manhã invadia o quarto, e Clara foi a primeira a acordar. A dona de casa havia solicitado a irmã mais velha que cuidasse mais uma noite de seu filho, pois, precisava ficar ao lado de Marina naquele momento, e sabia que teriam que ter uma conversa delicada sobre o que a fotógrafa pretendia fazer em relação a tudo o que tinha acontecido, e principalmente se iria ou não denunciar o Cadu. Apesar de não ter compartilhado com ninguém de sua família o que realmente tinha acontecido, Helena entendia o momento da fotógrafa e não tinha nenhum problema em ajudar a caçula com os cuidados de Ivan. A assistente olhou no relógio e ele marcava oito da manhã.

_Amor... – sussurrou no ouvido de Marina, que finalmente tinha tido uma noite decente de sono desde que tudo acontecera – Acorda dorminhoca! – ouviu a fotógrafa resmungar, ainda sem abrir os olhos – Tá na hora do seu remédio amor...

_Nossa... Como foi que eu sobrevivi todos esses anos sem ter você pra cuidar de mim assim? – disse com a voz rouca, ainda cheia de sono.

_Boba! Anda... Abre esses olhinhos lindos ai que eu vou pegar água – disse levantando-se da cama.

Marina sentia-se no céu, mas tinha medo de abrir seus olhos e ser pega em um sonho ou qualquer coisa parecida. Ter Clara ali a acordando pela manhã, chamando-a de amor e cuidando dela com tanto carinho... Parecia tudo bom de mais para ser verdade.

_Cara, não acredito que ainda não abriu esses olhos mocinha! – brincou Clara ao voltar para cama e deparar-se com a mesma cena que vira antes de levantar – Se não abrir os olhos dentro de dois segundos não ganha beijo de bom dia! – disse, tendo seu rosto sendo imediatamente puxado pela fotógrafa que lhe deu um selinho demorado.

_Bom dia, amor! – disse Marina, ainda sonolenta.

_Bom dia, linda! – Clara sorria feito boba – Ó toma aqui o seu remédio direitinho, não me obrigue a brigar com você! – brincou assumindo o mesmo tom autoritário materno que usava com Ivan.

_Sim senhora! – Marina pegou os comprimidos da mão da assistente e tomou toda a água que ela havia lhe entregue – Pronto. Agora mereço um prêmio né?! Tipo, incentivo por bom comportamento e tal... Afinal, eu... – não conseguiu terminar a frase, tendo seus lábios arrebatados pelos de Clara com ternura.

Assim que o beijo se desfez, a expressão de Clara mudou. Ela precisava ter aquela conversa logo com a fotógrafa, e decidiu que era melhor não adiar mais.

_Amor... Nós precisamos conversar sobre o que vamos fazer em relação a tudo isso que aconteceu – começou Clara com cuidado, sabia o quanto aquele assunto era delicado e como apenas a menção do nome Cadu repercutia em sua amada.

_Uhum... – concordou Marina, que já tinha uma decisão em mente sobre o tema – Então, eu queria que você o chamasse aqui. Pode ser?

_Hãn... Chama-lo até aqui Marina? Mas... Por quê? O que você pretende fazer?

_Você vai saber amor – disse Marina, calando-se em seguida e deixando Clara extremamente preocupada e curiosa a respeito de sua decisão.

_Não quer dividir comigo? – perguntou receosa.

_Você vai saber amor. Fica tranquila! Só marca esse encontro com ele... Se ele puder ainda hoje, mais tarde, eu prefiro que seja logo – afirmou, mantendo-se misteriosa.

Notas finais
Aiiinnn *_* ... Clarina is real! Rsrs... Comentários, críticas, sugestões? Beijos...