Notas iniciais
Heeeey, olha quem finalmente está de volta?! Isso mesmo minha gente, Velvet Touch! Rsrsrs... Como começar a dedicar esse cap? #VelvetFans do twitter, vocês são as melhores! Meninas que subiram TAG essa semana, vocês são FODAS! Gang das escritoras, vocês são família, e sempre estarão aqui nas dedicatórias. Mozão, ah, mozão é a razão de eu ainda escrever! Minha coisinha linda! Bueno... Dedicatórias feitas, tenho um aviso a deixar aqui: PREPAREM O CORAÇÃO. O CAP CONTÉM CENAS FORTES! rsrsrs...

O relógio ainda não marcava nem dez da manhã, e Clara sentia como se um furacão já tivesse passado em sua vida. Havia discutido mais cedo com a namorada por pura bobeira, Melissa já tinha batido em sua porta fazendo o convite para o tal jantar, e agora esperava nada mais e nada menos do que Cadu, que pelo tom de voz ao telefone, vinha completamente enfurecido com a ideia de deixar Ivan ir viajar por todos aqueles dias com a ela e a namorada.

Antes mesmo que tivesse tempo de recompor as ideias, ouviu o som da campainha ecoar novamente pelo apartamento, estridente e chata. Abriu a porta sem esperança de ser alguém portando notícias melhores, e estava redondamente correta. Sem ser convidado, Cadu passou feito um foguete esbarrando no braço da ex-mulher, adentrando seu antigo apartamento como se ainda fosse dono daquele espaço, e como se essa fosse uma atitude completamente natural e justificável.

Clara observou a marcha do chef de cozinha, que estacionou seu corpo no centro do tapete de sua sala. Respirou fundo, já cansada e sentindo-se indisposta com todos os desastres daquela manhã.

_Oi Carlos Eduardo. Bom dia! Estou muito bem sim, obrigada. E claro, pode entrar, fique a vontade! – disse irônica, encarando-o nos olhos e indicando o espaço à sua frente com a mão, como se lhe desse passagem para onde na verdade ele já tinha ido.

_Clara, que história é essa de levar o meu filho para a Argentina com aquela mulherzinha? – respondeu ignorando deliberadamente a colocação feita pela mulher a sua frente, elevando seu tom de voz uma oitava acima do necessário.

_Êpa! Quem você pensa que é para entrar aqui assim? Que tipo de tom de voz é esse? – apesar de ter tentado manter a calma, Clara irritou-se de imediato – Primeiro lugar, você está na minha casa, a Marina é minha mulher, então o mínimo que deve a mim e a ela é respeito. Segundo lugar, ele não é “seu filho” – desenhou aspas no ar, com a ponta dos dedos – ele é nosso filho. E em terceiro lugar, não estou pedindo nada mais do que uma troca nas datas de dois dos dias que você ficaria com o Ivan.

_Eu já praticamente não fico com o menino, e você ainda quer me tirar mais dias com ele? Você acha mesmo isso justo Clara?

_Você é surdo ou o que? – perdeu o resto de paciência que ainda lhe restava – Eu disse que tiraria os dias de você? Já ouviu falar no significado da palavra troca? Para de ser estúpido!

_Estúpido? Tá com a linguinha afiada depois que se juntou com aquela lá hein. Convivência demais com a laia dela é?!

Clara sentia o sangue arder nas veias. Tentou mais uma vez preencher os pulmões, sustentando uma respiração longa e lenta, contudo, a ladainha e o desrespeito de Cadu lhe esgotavam tanto, que nada surtiu efeito. Pensou no quanto não valia a pena se indispor, pensou em Ivan e no quanto esse tipo de cena o entristeceria, encarou mais uma vez o homem a sua frente, e deixou que o ar deixasse seus pulmões devagar.

_Carlos Eduardo, sai daqui – declarou apontando em direção à porta, deliberadamente expulsando-o de sua casa.

_O quê? Você está me expulsando, Clara?

_Sim. Eu estou! Já decidi que não vou mais me estressar com você e o seu lenga lenga. Eu estou com a Marina, goste você ou não. O Ivan não tem nenhum problema com isso, e eu de verdade não sei qual é o seu.

_Quem disse que ele não tem problemas com essa baixaria que você resolveu viver? Ele é só uma criança e não vou deixar que você exponha ele a isso!

_Tá vendo essa aliança aqui – ergueu a mão direita na altura dos olhos do ex-marido – foi ele quem escolheu para que eu desse para ela. Tá bom pra você?

Cadu ficou mudo por alguns segundos. No fundo, sabia que estava criando caso gratuitamente com Marina e lembrou-se da conversa que havia tido com o filho sobre esse tema, em seu próprio apartamento, tempos atrás. Definitivamente, tinha que assumir que todo aquele show não passava de orgulho ferido, e o medo das possíveis reações de Clara a aquela cena e toda a gritaria a qual ele a expunha naquele momento, o fez recuar e resolveu mudar o tom da conversa.

_Ele escolheu?! – pigarreou fraco – Hãn... Desculpe-me pela exaltação Clara. Isso ainda não está muito bem digerido por mim.

_Se você não está feliz com a minha relação, tudo bem. Eu não desejo isso, e acredito que um dia, quando conseguirmos nos perdoar de verdade, ainda poderemos ser amigos. Mas sinceramente, chega de colocar o Ivan no meio disso Cadu. O menino nem dorme de empolgação, e não tem outro assunto que não seja essa viagem. Custa?!

_Tudo bem. Nós podemos rever o cronograma dos dias que ele ficaria comigo e como podemos trocar as datas – disse deixando os braços caírem ao lado de seu corpo.

_Certo! Vou pedir para os nossos advogados se falarem a respeito disso – rebateu Clara, andando em direção à porta em um convite explícito para que o ex-marido se retirasse.

_Não podemos resolver isso nós mesmos? – pediu em um tom de voz baixo, e verdadeiramente calmo.

_Poderíamos. Aliás, deveríamos! Mas, sabemos muito bem que a coisa entre nós não anda das melhores, e eu realmente não quero ter que brigar ou discutir por isso de novo – Clara já segurava a porta de entrada do apartamento, mantendo-a aberta ao lado de si.

_Tudo bem Clara! Vou esperar novidades com o Nando então – caminhou lentamente em direção ao corredor – Também espero que um dia tudo isso passe e possamos ser amigos novamente – acrescentou sincero, buscando o fundo dos olhos da mulher a sua frente – Boa viagem! – meneou a cabeça em despedida e saiu.

Assim que fechou a porta a sua frente, Clara levou as mãos a cabeça. Que manhã tinha sido aquela afinal?! Respirou fundo, e antes que pudesse esvaziar os pulmões por completo, sentiu o celular vibrar no bolso dianteiro de sua calça. Puxou o aparelho e deparou-se com uma notificação de mensagem de texto não lida. Desejou com todas as suas forças que a tal mensagem fosse de Marina, contudo, não era este o nome que aparecia ao lado do envelopinho em sua tela.

–-//--

Apesar de a ansiedade ser notória e pulsante, as horas passaram rápido para Melissa aquele dia. Passou e repassou o plano que traçara milhares de vezes em sua cabeça, sempre tratando de cuidar e checar milimetricamente um por um dos detalhes que lhe ocorriam a cada nova análise. Não podia parecer interessada demais no comparecimento da dona de casa a aquele jantar, e por isso fez a confirmação de sua presença exatamente do jeito que havia combinado com ela mais cedo. Encaminhou um SMS simples, sem muita pista ou rodeios, apenas com o seu endereço, a confirmação do horário, e agora olhava a telinha do aparelho em sua mão e lia a resposta igualmente sucinta que recebera da dona de casa "Ok. Estarei aí".

Olhou no relógio em seu pulso, e viu os ponteiros preguiçosamente tomarem a distância de 180 graus um do outro. Como se a tarde tivesse passado com a mesma velocidade que uma piscadela, já estava atrasada, e agora faltava apenas uma hora para que Clara chegasse. Subiu as escadas de dois em dois degraus e correu para o banho. Deixou a água quente cair em seu corpo como se lhe fizesse carinho, e apesar da pressa permitiu a si mesma que demorasse um pouco mais do que o necessário por ali.

Assim como na visita que fizera pela manhã, não queria parecer agressiva, tampouco dar ares de sedução ou romance para a noite, afinal, não podia assustar sua convidada e menos ainda colocar todo o seu plano a perder. Abriu seu guarda-roupa, e por mais que estivesse pensando em que roupa colocaria durante todo o banho, ainda assim sofreu com a escolha do figurino de logo mais. Passou cabide por cabide, olhou peça por peça e depois de minutos a fio, decidiu que vestiria um macacão social, preto, básico. Calçou sapatos de salto alto, porém, não um dos mais altos que possuía, e deixou a maquiagem leve.

Olhou-se no espelho e involuntariamente sorriu para o reflexo que via ali. Tudo saia de acordo com o que ela gostaria, e sem dúvida as escolhas até ali estavam todas perfeitas. Voltou seu olhar para o relógio, e considerando que Clara fosse pontual, sentiu seu estômago gelar ao se dar conta de que a dona de casa estaria em sua sala dentro de apenas poucos minutos. Ajeitou mais uma vez os cabelos, espirrou um pouco mais de perfume contra seu pescoço e desceu as escadas degrau a degrau, saboreando o gosto da expectativa que tomava conta de seus sentidos, e sem dúvida nenhuma, não dava mais para ser disfarçada.

Como raríssimas vezes fazia, passou na cozinha para checar como estavam os preparativos para o jantar, e surpreendeu-se em como seus funcionários acataram seus pedidos e estavam especialmente dedicados naquela noite. Provou e aprovou o vinho que seria servido, e deu uma última olhadela na mesa que fora colocada em frente a piscina, na área externa de sua casa. Pensou no último jantar que havia sido servido ali, e na ruiva e na loira que ocupavam a as cadeiras a sua frente naquela ocasião. Sabia que Vic era um perigo para o bom andamento das coisas, e tinha certeza que aquele encontro com as duas no shopping acabaria lhe trazendo algum tipo de percalço no caminho. Balançou a cabeça de um lado para o outro, dissipando a ideia de sua mente, e voltou até sua sala. Jogou-se no sofá e solicitou ao maître que lhe servisse uma taça de vinho. Respirou fundo, tomou um gole, e buscou acalmar-se. Logo mais ela estaria ali. A dona do sorriso mais encantador de todo o Rio de Janeiro.

–-//--

Clara literalmente corria com tudo. Depois que Cadu saíra de sua casa mais cedo, não havia parado um segundo que fosse. Levou Ivan para o judô, depois para o colégio, e como se não bastasse à chateação de ver o ex-marido aquela manhã, ainda recebeu uma ligação do chef pedindo para passar aquela noite com o filho, uma vez que logo ele viajaria com ela e a namorada. Apesar de estar fora do combinado, Clara ponderou e deixou, afinal, tinha que admitir que apesar da chatice e de toda a indisposição com Cadu, que o mesmo estava até sendo relativamente flexível, e como teria que encontrar Melissa aquela noite, nada a impedia de deixar o filho dormir com o pai.

Apesar de toda a correria que fora seu dia, o convite da italiana para o jantar daquela noite não deixou de ecoar um segundo sequer em sua mente. Pensou, pensou, pensou, e chegou à conclusão de que sim, realmente havia aceitado o convite por puro impulso e desejo de que aquela mulher fosse embora de sua porta. Contudo, se era para ser sincera consigo mesma, precisava admitir que não era apenas isso que a motivava a ir neste jantar.

Definitivamente, Clara tinha muito bem resolvido quem amava, o que e quem queria para a sua vida, não sendo esta uma questão de fato. Mas, não podia esconder de si mesma o incômodo que aquela mulher havia lhe causado quando se conheceram, e principalmente o quanto a irritava o fato de como tudo isso afetava sua fotógrafa. Marina tinha toda aquela pose, defendendo seu território nisso tudo com a elegância da ironia e do desdém, mas no fundo, a namorada sabia o quanto ela fragilizava-se a simples menção do nome de Melissa, e isso, sem dúvida nenhuma, estava absolutamente errado.

Encarou seus próprios olhos no espelho e sem ter que pensar muito, de fato decidiu que iria aquele jantar. Não sabia o que exatamente Melissa pretendia com tudo isso, mas, decidiu que precisava colocar um ponto final nessa história. Apesar de não ter pensado na logística da coisa, muito menos no que falaria para Marina, dois motivos essenciais a impediam de envolver a namorada nesse evento. Primeiro: Melissa e Marina não podiam dividir o mesmo ambiente por mais de cinco minutos sem que tudo virasse um show de ironia e sarcasmo, e isso, sem duvida, não resolveria nenhum dos problemas de Clara com a italiana. Segundo: bem ou mal, Clara conheceu, se incomodou, se estranhou e balançou pelas investidas de Melissa sozinha, e era assim que queria resolver essa situação, sozinha. Afinal de contas, ambas eram adultas, vacinadas, e a italiana já tinha passado dos limites ha muito tempo. Clara tinha que dar um fim nisso de uma vez por todas. Marina não merecia passar por isso, aliás, não merecia, não precisava, e a carioca não a deixaria mais passar por essa situação.

Espiou o relógio e olhou de novo a mensagem de Melissa. Ela não morava longe de sua casa, mas indo para o banho tão em cima da hora não poderia garantir pontualidade a italiana. Enviou-lhe um SMS informando que se atrasaria um pouco e rumou banheiro a dentro. Uma vez que não considerava esta noite nenhuma ocasião especial em sua vida, Clara tomou apenas uma ducha rápida, fez a maquiagem mais básica do mundo, vestiu um jeans azul claro, uma camisa branca e calçou um sapato de salto baixo. Ao final de tudo, olhou-se no espelho e ajeitou a franja. Respirou fundo, como que encorajando a si própria, repassou o discurso que havia preparado em sua mente para jogar em cima da artista, e só percebeu que estava tão concentrada nesse movimento, quando o toque de seu celular lhe fez saltar de susto.

_Oi amor – disse Marina do outro lado da linha.

_Oi amor! Tudo bem? – respondeu com a voz relativamente falha.

_Tudo e você? Sei que não fui embora no melhor dos climas daí hoje, mas, será que podemos voltar a ficar de bem uma com a outra?

_Claro que podemos linda. Claro! Discussões acontecem, já nem lembrava mais disso – as palavras saiam relativamente estranhas da boca de Clara, e mesmo não o fazendo, ela sentia como se mentisse para a namorada.

_Posso te levar pra jantar em algum lugar? Tô com saudade! – confessou manhosa.

_Hãn... É... – a assistente não sabia o que dizer. Certamente, não queria ter que mentir para Marina, mas no momento, uma vez que contar sobre o jantar com Melissa não era uma opção, não lhe ocorria nada além dessa alternativa – Não vou poder amor. A Helena me chamou para jantar na casa dela, colocarmos o papo em dia e tudo o mais – fechou os olhos e sentiu uma pontada no coração. Era a primeira vez que mentia deslavadamente para a namorada.

_Hum... Entendi! Tem certeza que você está bem? – perguntou desconfiada pelo tom trêmulo da voz da outra.

_Tenho sim. Tudo bem! – mais uma vez, sentia que as palavras soavam como mentiras.

_Tudo bem então amor. Mas, qualquer coisa, se você se animar de sair mais tarde, me liga. Vou ficar em casa a noite toda – mesmo sem saber exatamente o motivo, definitivamente a fotógrafa tinha ficado com uma pulga atrás da orelha.

_Porque não chama as meninas para jantarem com você? – Clara agora esforçava-se para parecer o mais natural possível.

_Boa ideia! Vou ligar para a Vic. Ela e a Van não se desgrudam por nada mais – riu baixo.

_Verdade. Elas ficam fofas juntas! Fora que são duas a menos no seu fã-clube né Meirelles?! – gastou o seu melhor riso, e mesmo não sendo em 100%, havia conseguido dissipar o tom desconfiado da voz da fotógrafa.

_Ciumenta linda! – brincou Marina.

_Olha quem fala né?! – retrucou e ouviu a outra rir.

_Tudo bem então amor. Qualquer coisa, me liga! Bom jantar.

_Obrigada linda!

Ambas despediram-se e desligaram. Repetindo o movimento que fizera antes, Clara respirou fundo em frente ao espelho e como se repetisse um mantra em sua cabeça focou sua atenção em uma única frase: "Vai dar tudo certo!"

–-//--

Marina não sabia exatamente o porque, nem com o que, mas o fato era que Clara estava estranha. Pensou novamente na discussão que tiveram aquela manhã, e de tão boba que fora, chegou a sorrir. Tudo aconteceu porque a fotógrafa havia recebido um telefonema de Renata, informando que ela e a amiga estariam no Rio de Janeiro dentro de duas semanas em virtude de um congresso promovido pela faculdade de ambas. Uma vez que duas semanas era o tempo quase exato em que ela, a namorada e Ivan voltariam de Bariloche, reiterou o convite que havia feito a estudante depois da exposição em São Paulo. Contudo, Clara não sabia do convite antes, e considerando toda a chateação que tinha tido durante a noite da exposição, sem nem ao menos lembrar-se direito, ou perguntar a namorada sobre quem se tratava efetivamente, deu um pequeno chilique de puro ciúme.

No primeiro momento, Marina ainda meio sonolenta e dispersa, não havia percebido que se tratava apenas de ciúmes, e encarou a coisa de uma maneira não muito positiva, interpretando o tom da namorada como irônico e desconfiado. Tiveram uma breve discussão, completamente gratuita e desnecessária, e sabendo da chegada de Cadu em breve por ali, a fotógrafa achou por bem ir embora de uma vez. Deixando as coisas relativamente bagunçadas e mal conversadas entre elas sobre aquele tema, que apesar de ser bobo, não perdia a necessidade de ser esclarecido da maneira correta.

A ideia de chamar a assistente para jantar era justamente essa. Arrumar o clima ruim que havia ficado entre elas, explicar quem era Renata e porque a havia convidado para conhecer seu estúdio quando estivesse no Rio de Janeiro. Porém, havia resolvido fazer o convite tarde demais, e essa pauta teria que ficar para depois.

Por um momento, Marina pensou novamente na conversa que acabara de ter com a namorada, e aquela sensação de estranheza continuava ali. Atrás da orelha, em forma de uma pulguinha. Intacta. Procurou motivos plausíveis ou ao menos razoáveis, mas não encontrou nada. Revisou cada bobagem que dissera na discussão pela manhã, e por mais que tenha sido algo desnecessário, também não tinha nada demais ali. Forçou a memória mais um pouco, e por mais uma vez tentou achar um bom motivo, mas, obtendo o mesmo resultado anterior, decidiu que não deveria passar de uma impressão sua e esquecer. Soltou o ar pesadamente, deu de ombros e pegou o celular já discando o número de Victória.

–-//--

Exatamente às 19h30, Clara descia do táxi em frente à casa da italiana. Nem se quisesse poderia negar a si mesma o quanto aquela situação toda a deixava nervosa. Por mais que sua intenção fosse a melhor possível, tinha plena consciência de que estava literalmente brincando com fogo. Afinal de contas, em uma única noite, já havia mentido para a namorada, e estava agora entrando em território inimigo de livre e espontânea vontade.

Pediu um minuto ao taxista, parou em frente à porta de entrada da mansão e repassou mais uma vez seus objetivos mentalmente: "Eu vou entrar, falar o que tenho para falar e sair. Mais nada. Vai dar tudo certo!" Falava como se quisesse convencer a si mesma de que não teria problemas, e com um leve aceno de cabeça dispensou o táxi ao mesmo tempo em que tocou a campainha. Não demorou muito e uma senhora de meia idade, impecavelmente vestida abriu a porta.

_Srta. Fernandes? – apesar do tom formal que usava, a mulher soava gentil.

_Isso, eu mesma. A Melissa... – deixou a pergunta sobre o paradeiro da morena no ar.

_A Srta. Albertini lhe aguarda na piscina – sorriu convidativa – Poderia me acompanhar? – perguntou dando-lhe espaço para que adentrasse a sala de estar da casa.

_Claro! – Clara sorriu de volta, disfarçando sem muito sucesso o nervosismo escondido por trás dos lábios esticados e seguiu-a.

A casa era realmente enorme, e excepcionalmente linda. O bom gosto de Melissa para as artes plásticas era óbvio e redundante, mas Clara impressionou-se mesmo assim com a coleção exposta nas paredes por ali. Havia quadros assinados por celebridades realmente importantes do mundo artístico, e alguns deles ostentavam o nome da própria italiana.

Caminharam até um pouco mais a frente e algum tempo depois, Clara finalmente estava na área externa da casa. Não demorou muito para que o castanho de seus olhos cruzasse com o verde dos olhos da outra, e em pouquíssimos segundos, o corpo da dona de casa enrijeceu-se por completo, sua expressão perdeu a simpatia, o andar perdeu a graça, a fala deixou o traquejo de lado.

_Boa noite, Clarinha! – cumprimentou Melissa.

_Boa noite, Melissa. Vamos direto ao ponto desse encontro? Não tenho muito tempo – despejou em cima da outra.

_Tudo bem. Podemos ir direto ao ponto, sem problema nenhum – disse levantando-se de onde estava e indo em direção a carioca – Você quer começar? – perguntou séria, olhando-a nos olhos.

_Sim. Bom, eu... – foi interrompida por Melissa, que ergueu a mão até a altura de seu rosto, sinalizando para que parasse.

_A gente pode sentar pelo menos? – indicou a mesa e as duas cadeiras atrás de si.

_Tudo bem – suspirou, ansiosa para sair logo dali.

Deixou que Melissa fosse a sua frente, e sentou-se na cadeira que estava livre, defronte à italiana.

_Bom, na verdade eu vim aqui apenas para lhe dizer e reiterar o que eu já te disse. Eu tenho uma pessoa na minha vida. Uma pessoa excepcional, que eu demorei muito para ter ao meu lado, e que sinceramente, amo com todas as forças que existem dentro de mim. Amo mais do que a mim mesma. E Melissa, sem dúvida nenhuma, não é uma aventura com você que vai destruir tudo o que eu tenho e ainda terei com a Marina.

_Uau. Treinou esse discurso antes de vir para cá, Clara? Eu nunca quis destruir o que você tem ou deixa de ter com a Marina – mentiu, rindo sarcasticamente para si mesma – Você acha que eu sou o quê, afinal? – o tom de voz da outra beirava a mais pura indignação, e receber aquele tipo de resposta, definitivamente não estava nos planos de Clara.

_Não tem a ver com o que eu pense que você é ou deixa de ser, Melissa. Tem a ver com a forma com que você age!

_Com a forma com que eu ajo? Clara, mencione para mim uma vez – ergueu o dedo indicador graciosamente – apenas uma vez, que eu tenha feito algo invasivo. Uma vez que eu tenha realmente invadido o seu espaço.

_Melissa – o nervosismo não deixava com que Clara organizasse seus pensamentos corretamente – Não estamos aqui para isso. Estamos aqui para resolver, ou melhor, resolver não. Estamos aqui para colocar um ponto final nessa situação entre a gente.

_E que situação seria essa? – perguntou desafiadora.

_Essa coisa toda! Essa suposta liberdade que você parece achar que tem! – passou perto de explodir, mas respirou fundo um segundo antes de ser tarde demais.

_Eu não acho que tenho nada, Clara. Já te forcei a alguma coisa nessa vida? Alguma vez te agarrei ou qualquer coisa do tipo?

_Não literalmente. Mas, não se faça de santa agora, né?! Achei que iríamos conversar como adultas. Me enganei? – alfinetou.

_Absolutamente. Você não ter respostas para as minhas perguntas não faz com que nossa conversa se infantilize, não acha? – pronunciou palavra por palavra, com a maior calma do mundo. Percebeu o golpe atingir Clara em cheio, e resolveu que era hora de começar o ataque real – Clara, convenhamos. Ninguém chega perto demais quando de fato não tem espaço. Se tudo com a Marina é tão lindo, maravilhoso, e vocês estão aí vivendo um conto de fadas, porque toda essa reação a mim? Porque o incomodo? Porque a mudança de ares quando tô perto? – disse inclinando o rosto para frente, como se realmente a desafia-se a responder suas perguntas.

_Eu assumo. Você realmente me incomodava no começo. Mas, sinto muito em lhe dizer isso Melissinha – usou de toda a ironia que conseguiu achar dentro de si – Você só me incomodava tanto, pela semelhança com a Marina – Melissa riu.

A paciência de Clara estava pelas tampas, e resolveu tomar um pouco do vinho que repousava silenciosamente na taça a sua frente, a fim de que ele a auxiliasse a engolir a italiana do outro lado da mesa.

_Olha só! Então quer dizer que sou parecida com a grande Marina Meirelles?! – riu novamente, esbanjando sarcasmo – Tudo bem Clara, se você quer enganar a si mesma, vá em frente.

_Pelo visto foi mesmo um erro ter vindo até aqui – disse mais para si mesma do que para a outra, e em um movimento rápido, colocou-se em pé.

Melissa sabia que um gole era pouco e precisava fazer com que Clara ficasse. Precisava que a dona de casa continuasse a beber o vinho daquela taça que fora cuidadosamente separada para ela. Pensou rápido, e decidiu que a melhor estratégia naquele momento era recuar.

_Me desculpa, Clara – disse colocando-se também em pé – Não estou usando o tom certo aqui. Já estamos aqui, então vamos terminar essa nossa conversa. Por favor!

Clara olhou no verde dos olhos da outra e não conseguia tirar a máscara de doçura que eles carregavam. Não conseguiu enxergar a maldade que no fundo, no fundo, estava lá. “Já estamos aqui”. De tudo o que Melissa dissera até agora, aquelas três palavras eram as únicas que pareciam realmente fazer sentido. Afinal, toda a merda já estava feita. Já havia enganado a namorada, já havia ido, já havia se exposto, já estava lá. Pensou por um segundo e a conclusão veio rápido: sim, o melhor a fazer era gastar mais alguns minutos de seu tempo ali e sair com tudo resolvido.

Sem responder nada, Clara apenas sentou-se novamente. Melissa acompanhou o gesto da outra, e pareceu perceber que ela precisava de um minuto, portanto permaneceu em silêncio. Olhou para as taças em cima da mesa, lembrou-se do comprimido que amassara e depositara mais cedo na que fora destinada a Clara, e um breve e involuntário sorriso estampou seu rosto por uma fração de segundo, como se quisesse sorrir em segredo, apenas para si mesma. Em um movimento calculado, sugestivamente pegou a taça que lhe cabia e levou-a a boca, servindo-se de um bom gole do vinho que oferecia a sua convidada.

_Os Franceses que me perdoem. Amo o país deles, o romance natural que é Paris, mas ainda acho que por mais que eles papem a maioria dos prêmios, ninguém, no mundo inteiro, produz vinhos tão deliciosos quanto a minha Itália – disse realmente encantada com o sabor do líquido em sua boca – Você não acha, Clara?

_Sinceramente? Eu não entendo nada de vinho – permitiu-se rir. Mais de nervoso do que qualquer outra coisa, mas permitiu-se mesmo assim – Mas, sim. Tenho que admitir que esse aqui está realmente muito bom – afirmou enquanto tomava alguns bons goles do líquido italiano, seco e tinto que tinha em suas mãos.

_Olha Clara, eu não quero a sua antipatia. Não quero criar caso com você, menos ainda com a Marina – Melissa nunca teve problemas e menos ainda escrúpulos que a impedissem de mentir ou enganar em prol de seu próprio benefício, e usava agora essa habilidade com maestria. Sem deixar rastros ou levantar suspeitas.

_Não é o que parece né Melissa?! – a voz de Clara começava a embolar levemente.

_Porque não, Clara? – perguntou como uma criança arteira, que sabe exatamente o porque esta sendo deixada de castigo, mas que mesmo assim azucrina a mãe antes de aceitar sua punição.

_Não banca a inocente! Ambas sabemos que você faz de tudo para tirar a Marina do sério. E isso... – sentiu uma pontada forte lhe atingir a cabeça, fragmentando sua consciência em pedaços – Isso, definitivamente... – começou a sentir-se tonta – Não está certo!

_Eu não faço nada para tira-la do sério. Bom, ta bom. Talvez um pouquinho, mas... Clara?

_Eu não quero mais isso, Melissa. Eu amo a Marina, e não quero mais ter aborrecimentos com ela por conta de algo que nem sequer existe entre a gente – a voz de Clara foi baixando, e mesmo sentada, espalmou com cuidado uma das mãos sobre a mesa, buscando equilibrar-se.

_Clara? Você está bem? – perguntou a italiana, cinicamente.

_Tudo bem, só um pouco tonta! – respondeu tentando colocar-se em pé, já com certa dificuldade. Melissa, que esperava por aquela deixa, levantou de imediato, indo em direção a Clara do outro lado da mesa.

_Deve ser alguma queda de pressão. Você comeu alguma coisa hoje? – continuava o seu teatro com perfeição.

_Sim, rotina normal – deu um passo desequilibrado para frente, e Melissa apoiou-a, segurando-a pelo braço.

_Vem Clara, talvez deitar um pouco ajude. Quer que eu ligue para alguém? – jogou a pergunta para ter certeza de que Marina não sabia daquele encontro. Clara mordeu a isca.

_Não! – respondeu rápido demais, alto demais, e deu a Melissa todas as certezas de que precisava.

_Então vem, vou te levar para o quarto, deitar um pouco vai te ajudar – usou o tom mais inocente, preocupado e aveludado que conseguiu, e viu Clara buscar forças dentro de si para encara-la nos olhos.

_Melissa... – o tom de advertência em sua voz foi o máximo que conseguiu fazer. Agora, era difícil articular as palavras, e a vibração de suas cordas vocais parecia ser fraca demais para conseguir levar o som até sua garganta.

Prestativa como nunca, a italiana passou o braço de Clara por seu pescoço, enlaçou sua cintura, e apoiando-a ajudou a dona de casa a chegar ao andar de cima da casa. Assim que entraram em seu quarto, Melissa deitou-a na cama. Clara estava com os olhos abertos, mas Melissa podia ver a droga que lhe dera fazendo efeito. Suas pupilas exageradamente dilatadas e o olhar desfocado denunciavam isso sem muito esforço.

Deixou-a deitada sozinha ali por alguns minutos, indo de encontro a um objeto preto que encontrava-se estacionado em cima de sua poltrona, do outro lado do quarto, posicionado lateralmente a cama. Apertou alguns botões, regulou algumas coisas e sorriu satisfeita. Olhou-se no espelho e viu seus lábios esticarem-se em um sorriso maldoso. O verde dos olhos lampejou e ela podia jurar que chegou até mesmo a escurecer um pouco, traduzindo seu mais puro desejo. Voltou para onde Clara estava deitada e decidiu não perder mais tempo, deixando seu corpo pesar sobre o dela.

Clara não entendia muito bem o que estava acontecendo. Sua visão, audição, olfato, tato, tudo parecia estar fora de lugar, de timing, de hora. As coisas moviam-se devagar a sua volta, e sentia alguma coisa fazer pressão e deslizar pela lateral de seu corpo, mas não sabia dizer exatamente o que era. Vez ou outra, captava a aparição de um feixe de luz que piscava forte e rápido, vindo de algum lugar desconhecido no cômodo. Contudo, assim como as sensações que atingiam seu corpo, não sabia dizer do que aquilo se tratava. Olhou em volta, buscando reconhecer o ambiente em que estava, mas ao invés disso sentiu o quarto a sua frente girar.

Percebeu seus braços sendo levantados até o topo de sua cabeça e lentamente sentiu a pressão em suas costelas aumentar. Ainda sem entender do que se tratava tudo aquilo, Clara sentiu a adrenalina crescer em suas veias, preenchendo cada centímetro de seu corpo e sem que tomasse consciência disso, sentiu sua respiração pesar e acelerar ao sentir os lábios úmidos de Melissa tocarem seu pescoço. Automaticamente, como se em um movimento reflexo e não ordenado, jogou a cabeça para trás, dando mais espaço e liberdade para que a outra continuasse o caminho que fazia com a boca em direção a sua orelha.

A italiana, que por sua veztinha plena consciência de suas ações, por mais que soubesse o quanto aquele cenário era falso, delirou ao ouvir um gemido baixo escapar dos lábios de Clara. Melissa ansiava pelo momento em que poderia ter Clara para si há muito tempo, e por mais que nunca tivesse imaginado que seria dessa forma, isso definitivamente não importava para ela agora.

Deixou a ponta de sua língua passear pela orelha da outra, subindo e descendo lentamente. Enquanto isso, suas mãos ocupavam-se da tarefa de acariciar todo o corpo de Clara. Ombros, braços, seios, cintura, coxa. Descia os dedos vagarosamente por cada pedaço de pele bronzeada que encontrava ali. Exposta ou não. Sussurrou obscenidades no ouvido da outra, e sentiu uma reação involuntária escapar de seu corpo, que tentava inutilmente mexer-se abaixo de si.

_Eu sabia que você me queria, Clara. Sempre soube. Você sempre soube! – disse enquanto descia seus lábios novamente pelo pescoço da outra.

Melissa beijava Clara com desejo, com paixão, e deixou que sua boca seguisse pelo mesmo caminho que fora trilhado por suas mãos minutos antes. Ombros, braços, seios, cintura, coxa. Ao fim do trajeto, permitiu-se contemplar o corpo da carioca esparramado em sua cama, e não conseguiu conter um breve suspiro, que saiu de forma praticamente involuntária e reflexa. Clara era realmente linda, e de acordo com a visão da italiana, uma única coisa estava errada ali naquela cena: roupa demais. Clara estava com roupa demais.

Agradeceu aos céus pela escolha de figurino da outra para aquela noite, e não demorou-se em começar a abrir os botões da camisa que usava. Sentada em seu quadril, abriu os dois primeiros botões com a ponta dos dedos, e assim que esse movimento expos o sutiã branco e rendado de Clara, Melissa achou que com os dedos era pouco demais, e decidiu que terminaria o processo com a boca. Inclinou seu corpo para frente, e antes de continuar o que começara, deixou a ponta de seu nariz escorregar por entre os seios da outra, de baixo para cima, depois de cima para baixo.

Automaticamente, como que em resposta ao cheiro levemente adocicado do perfume que Clara usava, Melissa sentiu-se molhar um pouco mais. Respirou fundo, e trocou o nariz pela língua, descendo devagar por ali, indo em direção ao botão seguinte de sua camisa. Abriu todos os quatro botões restantes com a ajuda dos dentes, e a cada novo pedacinho de Clara que era revelado, a italiana repetia o movimento anterior, passando a ponta de sua nariz e de sua língua por toda a nova área descoberta.

Deixou que a camisa da carioca lhe escorregasse pelos ombros, e usou da mesma calma e paciência que tinha em despi-la para que conseguisse se desvencilhar por completo da peça. Depois da camisa, era vez da calça, e Melissa sentia a urgência começar a aumentar dentro de si. Deixou que suas mãos cuidassem de abrir o botão e o zíper do jeans da outra, puxando-o lentamente para baixo, até tira-lo por completo e atira-lo em algum canto perdido do quarto.

Clara tentava focar sua atenção, suas forças, sua consciência. Mas, parecia que nada fazia sentido ali. Aliás, tentar tudo isso parecia não fazer sentido também. Sentiu algo quente pesar em cima de si, e logo depois uma pressão diferente, intensa e molhada em seu seio esquerdo. Não sabia dizer o que era, mas era gostoso, era quente, era bom. Mesmo sem querer, ouviu um novo gemido lhe escapar por entre os lábios, e deixou seus braços caírem nas costas da outra, agarrando-se aos seus cabelos.

A língua de Melissa trabalhava intensamente. Ela lambia, sugava, mordia e chupava os seios de Clara um após o outro, com uma fome que nem ela mesma sabia reconhecer, e a cada novo gemido ou suspiro da outra, sentia seu próprio sexo molhar-se um pouco mais. Escorregou a língua pela barriga de Clara, brincando com seu umbigo no meio do caminho e parando em sua virilha. Passou com a ponta do nariz em seu sexo, e literalmente enlouqueceu ao sentir que ela estava sim molhada. Muito molhada.

Sem conseguir esperar ou prorrogar mais esse momento, puxou a calcinha da outra com as duas mãos, tirando-a em uma fração de segundo. Passou com a língua pela parte interna das coxas de Clara, voltando até sua virilha, e mesmo com a ansiedade que sentia em provar o gosto daquela mulher, conteve-se, provocando a outra com lambidas lentas e suaves em volta de seu sexo, antes de invadi-la por completo.

Clara gemeu. Alto. Muito mais alto do que ela mesma achou que tivesse sido. Ao mesmo tempo em que parecia não conseguir captar as coisas a sua volta, e mesmo com tudo relativamente fora de hora e de lugar, Clara agora percebia todos os seus cinco sentidos aguçarem-se. Sentia seu corpo tremer a cada investida da língua faminta e quente que subia e descia de encontro a seu clitóris, embriagando-a um pouco mais a cada minuto. Fechou os olhos, e sem ter alternativa, entregou-se aquele momento.

_Ah, Marina... – gemeu o nome da namorada, contudo, Melissa deliberadamente ignorou essa parte – Eu vou gozar! – anunciou ao mesmo tempo em que a italiana sentiu o gosto do líquido quente que vinha do interior de Clara preencher sua boca sem delicadeza alguma. Melissa lambeu cada gota que escorreu pelo sexo da outra, e sentiu seu próprio sexo contrair-se por entre as coxas, gozando em silêncio.

A Italiana escalou o corpo de Clara, beijando cada pedaço de pele que encontrou por ali, encerrando seus beijos no pescoço da outra, e se antes a dona de casa já estava sem forças, agora estava literalmente imóvel. Melissa ainda selou seus lábios rapidamente, antes de tirar seu corpo de cima do dela. Olhou-a dormir por alguns segundos e seguiu em direção ao banheiro. Tomou uma ducha rápida e checou o relógio. Ainda era cedo, mas não queria de jeito nenhum que Clara amanhecesse ali. Não sabia por quanto tempo aquele tal de "boa noite cinderela" ainda funcionaria, e decidiu que não queria arriscar colocar tudo a perder agora.

Deixou-a dormir por mais um tempo, e quando percebeu que ela fazia menção de despertar, acordou-a delicadamente. Clara ainda estava grogue. Completamente grogue. Com cuidado e muito custo, Melissa vestiu-a novamente, e pediu a ajuda de seu maître para coloca-la no carro, alegando que ela havia bebido demais e não estava passando bem. Sem questionar, o homem lhe ajudou, e em poucos minutos estavam de partida em direção ao Leblon.

–-//--

Apesar de ter tido um jantar agradável na companhia de Vic e Vanessa, Marina não havia conseguido relaxar efetivamente. Aquela pulguinha que instalara-se mais cedo, ainda continuava ali, atrás de sua orelha, e todas as tentativas que fizera de simplesmente esquecer aquele assunto, tinham falhado com louvor.

Decidiu deitar mais cedo do que o habitual, e deixou a televisão tagarelar em um filme qualquer. De fato, não estava ouvindo nada do que os atores falavam, e se alguém a perguntasse tampouco saberia dizer qual o nome do filme que supostamente assistia. Perguntava-se porque Clara não havia lhe mandado um SMS sequer, e tentava achar respostas que amenizassem a decepção que sentira todas as vezes que olhou para a tela de seu celular e não encontrou nenhum sinal de vida da namorada por ali.

Virou-se de um lado para o outro na cama durante horas, sem conseguir adormecer por completo. Nas vezes em que o cansaço lhe vencia e finalmente pegava no sono, tinha sonhos estranhos dos quais não conseguia lembrar-se direito ao acordar, mas que lhe traziam uma sensação esquisita, como aquela que se tem quando se acorda de um pesadelo. Viu os primeiros raios de sol invadirem a sacada de seu quarto, e não conseguiu acreditar que já amanhecia lá fora.

Revirou mais uma vez em sua cama, cobriu o rosto com um dos travesseiros ali, mas nada adiantou. O dia começava no Rio de Janeiro, e a luta que a fotógrafa travara a noite inteira com seu sono, acabava ali. Levantou-se sem muita preguiça, afinal, precisaria ter efetivamente dormido para que a tivesse, e foi até seu banheiro. Olhou-se no espelho e viu as olheiras ali. Evidenciando a guerra que travara com os travesseiros e lençóis aquela noite. Despiu-se lentamente, e entrou no banho, esperando que a água quente curasse a ressaca da noite não dormida.

Permitiu-se gastar um bom tempo ali, e assim que saiu do box, resolveu que iria até a casa da namorada. Ainda era cedo, mas sabia dos hábitos e horários da assistente, e com a certeza que só a convivência dá, sabia que ela já estaria acordada. Além disso, a verdade é que não adiantava nada ficar ali se torturando mais ainda, e no fim a única maneira de entender o que estava acontecendo, era indo ao encontro de Clara.

Trocou-se rapidamente, e tratou de fazer com que a maquiagem escondesse as olheiras que estavam em seu rosto. Dispensou o motorista e saiu de casa dirigindo ela mesma. Optou por ir pela Av. Atlântico, onde podia ter uma vista melhor da praia e das pessoas que já corriam e caminhavam ali pela orla. Pouco antes de chegar à casa da namorada, parou em uma padaria dessas gigantes que parece que só o Leblon tem, e além do pão francês tradicional, comprou algumas guloseimas que sabia que tanto Clara quanto Ivan gostavam.

Estacionou o carro em frente ao prédio, e estando ali, resolveu ligar para Clara. O telefone chamou, chamou, chamou, e ninguém respondeu do outro lado da linha. Tentou mais uma vez, nada. Começou a preocupar-se de fato com a integridade física de Clara, imaginando que um milhão de coisas pudessem ter acontecido a ela ou ao Ivan na noite anterior, e se achando uma pessoa horrível por não ter tentado contato com ela antes, decidiu subir de uma vez para o apartamento da namorada.

Já era conhecida do porteiro do prédio, e não precisava mais ser anunciada para subir ao apartamento de Clara, portanto, passou pela recepção deixando apenas um leve aceno de cabeça para o homem uniformizado ali e cheia de sacolas na mão, rumou elevador adentro.

–-//--

Clara acordou com uma sensação de ressaca inenarrável. Tentava puxar pela memória o que havia acontecido na noite anterior, mas só conseguia lembrar-se até o momento em que estava sentada com Melissa perto de sua piscina. Não fazia ideia de como tinha ido para casa, do porque estava com aquele gosto de guarda-chuva na boca, e menos ainda do motivo de sua cabeça latejar tanto e estar com tanta sede daquele jeito, aquela hora da manhã.

Não tinha certeza, mas parecia ouvir o som de toque do seu celular em algum lugar por ali. Tentou levantar para procura-lo mas literalmente caiu novamente entre os lençóis de sua cama. Respirou fundo e tentou inutilmente não entrar em pânico. O que tinha acontecido, afinal? O que significava tudo aquilo? Porque não conseguia se lembrar? Fechou os olhos com força e deixou-os assim por algum tempo. Contou até dez mentalmente, tentou se acalmar, e mais uma vez tentava refazer seus passos na noite anterior, quando de repente sentiu um beijo estalar em sua bochecha.

_Quem disse que eu não te acordaria um dia, não é?! Bom dia dorminhoca! – disse Marina, ignorando toda a esquisitice daquela manhã.

_Oi meu amor! – definitivamente, Marina era a única pessoa que Clara queria naquele momento. Era sufocante não poder contar a ela o quanto estava angustiada com os últimos acontecimentos, mas jogar-se naquele abraço era tudo o que precisava naquele momento.

_Você está bem amor? O que aconteceu ontem? Você sumiu, e... – foi interrompida pelos lábios da namorada selando os seus.

_Eu te amo! – declarou agarrando-se a sua fotógrafa. Como se seu inconsciente lhe soprasse que havia feito algo de muito errado.

_Também amo você, Clara – disse beijando o topo de sua cabeça – Agora me conta, o que aconteceu? Porque você está assim? Porque a porta da frente estava destrancada?

Clara engoliu em seco. O que tinha acontecido? Porque ela estava assim? Porque raios a porta da frente estava destrancada? Ela não tinha nenhuma das respostas pedidas pela namorada. Nenhuma! Por um segundo não soube o que dizer e apenas baixou a cabeça, deixando seus ombros caírem.

_Nada amor. Sonho ruim. Saudade! – Clara não enganaria nada nem ninguém, e Marina já começava a ficar muito mais desconfiada do que gostaria.

_Clara... – a namorada colocou o dedo indicador em seus lábios, pedindo para que se cala-se.

_Só tive uma noite ruim – limitou-se a dizer. E no fundo, não era nem mentira – Me dá um minutinho pra tomar um banho e acordar de verdade?! A gente conversa depois disso.

_Ok – o resto de humor que tinha, já havia ido para o brejo.

Clara levantou devagar, disfarçando a dificuldade de se equilibrar e a tontura que sentia rondar sua cabeça. Porém, sem sucesso.

_Você bebeu ontem? – perguntou Marina, levemente irritada.

_Um pouco, amor.

_Um pouco? Você está visivelmente de ressaca! Clara, o que está acontecendo aqui? – pronto, a paciência havia se esgotado.

_Amor, por favor. Um banho. Daqui a pouco falamos – disse e rumou em direção ao banheiro, literalmente fugindo da namorada.

A cabeça de Marina girava. Sabia que Helena não bebia mais do que pouquíssimas taças de vinho, e isso nunca deixou Clara daquele estado no dia seguinte. Tinha alguma coisa ali que ela não sabia. Que ela não sabia e que a namorada não queria contar! Marina começou a andar de um lado para o outro do quarto, completamente impaciente. E se já não bastasse tudo o que já havia acontecido até ali, ouviu o celular de Clara começar a tocar embaixo de algum doa travesseiros ali.

Tocou uma, duas, três, quatro vezes. Na quinta, Marina pegou o aparelho. Número privado. Antes que pudesse antender, o dono da chamada desligou. Olhou de novo para a tela e no mesmo instante em que decidiu devolver o celular para onde estava antes, um SMS piscou ali. Era um número com o DDD do Rio, porém, não estava gravado na agenda telefônica de Clara.

"Linda, me liga quando acordar. Você esqueceu a sua bolsa aqui ontem"

Assim que terminou de ler, Clara abriu a porta do banheiro. Marina tentou lembrar-se de como fazia para respirar. Encarou a namorada e ergueu o celular na altura dos olhos dela.

_Na casa de quem você esqueceu a sua bolsa ontem, Clara?

Notas finais
Espero não morrer até o próximo capítulo! Antes de me matarem na rua, lembrem-se adoro vocês, suas lindas!!! s2... Beijos