Velvet Touch
26 Bariloche
Notas iniciais
Clara não sabia o que dizer. Como assim na casa de quem ela havia esquecido a bolsa? Piscou algumas vezes, buscando focalizar o celular a sua frente, e levou alguns segundos para de fato conseguir ler o que estava escrito na tela. Assim que conseguiu, arregalou os olhos. Parecia tudo íntimo demais ali. Linda? Como assim? O pânico lhe atingiu. Porque Melissa a estava chamado assim? Certamente, a italiana não tinha vocação para rejeição, e todo aquele carinho não parecia ser normal depois de um “fora”. Fechou os olhos, apertando-os com força. Como conseguiria explicar aquilo para Marina?
Apesar de ter entrado no banho com a intenção de clarear as ideias, ele parecia não ter ajudado, e sentia como se nada em seu corpo tivesse mudado. Tudo continuava estranho, embaralhado, bagunçado. Por um momento, perdeu-se no desarrumado de sua mente, e sem que se desse conta, simplesmente esqueceu de que a namorada estava ali, na sua frente, e de que aquele momento, não era apenas um pesadelo. Era? Não dava para escapar daquela conversa. Dava? Definitivamente não. Não dava para escapar da verdade. As respostas teriam que ser dadas, e teriam que ser dadas agora. Respirou fundo.
_Hein Clara? Na casa de quem você esqueceu a sua bolsa ontem? E não ouse dizer que foi na Helena – Marina sentia seu coração pulsar forte, porém, parecia bater completamente fora de lugar.
_Não, não foi na Helena – Clara encarou-a nos olhos, tomando coragem para dizer o que tinha que ser dito – Precisamos conversar! – Marina arregalou os olhos e sentiu o corpo gelar por completo. Da cabeça aos pés.
_O Ivan está em casa? – perguntou preocupada com o que o menino pudesse presenciar, ou que tipo de coisa pudesse ouvir.
_Não. Ainda não. Ele foi passar a noite com o Cadu ontem, volta no fim da tarde – Clara tentava captar as reações da namorada, mas olha-la nos olhos era difícil. Pesado. E pela primeira vez na vida, ela experimentava o gosto amargo que a tal "ressaca moral" lhe obrigava a sentir.
_Ok. Vou te esperar na sala – a fotógrafa soltou as palavras junto com o pouco ar que lhe restava.
Sem dar tempo para questionamentos, Marina deu as costas para a outra e rumou em direção à sala de estar. Se antes já estava desconfiada, e rodando feito uma barata tonta pelo quarto da namorada, agora já não conseguia mais explicar o que era aquele turbilhão de emoções não identificadas que moravam em seu peito. Na tentativa de aquietar-se, respirou fundo. Extremamente fundo. Como se quisesse roubar todo o ar do mundo, apenas para os seus pulmões. Como se para voltar a funcionar e a pensar corretamente, seu cérebro precisasse de um pouco mais de oxigenação do que o normal.
Deixou que seu corpo caísse no sofá, e inadvertidamente, sua mente começou a correr atrás de bons motivos que pudessem justificar aquela mensagem, aquele clima, aquela frase de Clara, enfim, tudo aquilo. Obviamente, não conseguiu encontrar nada que não fosse dolorido demais para se pensar ou se conceber como verdade, e, portanto, decidiu que não se torturaria tanto assim com especulações. Determinou para si mesma, que sofreria apenas com a verdade, fosse ela qual fosse.
Em pouquíssimos minutos, que na verdade pareceram horas, Clara saiu do seu quarto e partiu de encontro à fotógrafa. A ansiedade a consumia. O medo quase a paralisava. Contudo, não tinha como, e na verdade, nem ela mesma queria efetivamente fugir daquilo. Daquela conversa. Chegou à sala e encontrou Marina ali, sentada no sofá, com os olhos fechados e as mãos caídas, repousando uma de cada lado de seu corpo.
_Marina... – chamou Clara, no tom mais pacificador que conseguiu fazer. Marina abriu os olhos e encarou-a firmemente.
_E então, o que é que está acontecendo aqui? – perguntou direta, sem rodeios ou adiamentos.
_Primeiro eu quero pedir para que você me escute até o fim. Depois você pode falar e fazer o que você quiser, mas me dá a chance de falar com você até o final. Tudo bem?
_Clara, você tem outra pessoa? – sua voz tremeu e mesmo batendo fora do lugar, seu coração pareceu falhar.
_Não! É claro que eu não tenho – apressou-se em dizer – Calma... Eu vou te explicar.
_Você me traiu? Está me traindo? – sua voz tremeu mais ainda, e ficava difícil sustentar seu olhar nos olhos de Clara. Tinha medo da respostas que poderia obter para essas perguntas. Tinha medo do que poderia enxergar naqueles olhos castanhos, que pareciam tão confusos hoje.
_Não, amor. Eu não traí você. Mas... Eu menti pra você sobre o jantar de ontem – confessou considerando-se a pior pessoa do mundo naquele momento. Sentiu o peso das palavras que acabara de dizer, e automaticamente deixou de conseguir olhar para a mulher a sua frente. Baixou os olhos, a cabeça, os ombros.
_Fala Clara. Fala de uma vez, pelo amor de Deus! O que aconteceu? – pediu a outra, sentindo a urgência do desespero começar a tomar conta de si.
_Bem... Quando você saiu daqui ontem, menos de cinco minutos depois alguém tocou a campainha. Abri sem olhar achando que fosse você voltando, ou o Cadu que estava para chegar. Porém, não era nenhum de vocês dois. Quem apareceu aqui na porta de casa foi... A...
_A MELISSA! – completou Marina, sentindo a irritação preenche-la de uma vez – Foi ela não foi? O que essa mulher queria, Clara? Você foi encontrar com ela ontem? É isso que você tem pra me contar? – levantou-se num pulo. Ficar sentada frente aquilo era demais para ela.
_Marina... Por favor! Escuta até o final – pediu Clara, levantando-se e segurando os braços da namorada – Senta, por favor!
A fotógrafa encarou-a novamente. Porém, dessa vez, sustentava um olhar diferente. Um olhar que era o resultado da soma da mais pura desconfiança, com um prelúdio de dor, decepção e mágoa. Um olhar, que definitivamente, Clara não desejaria nunca ter visto lampejar naqueles olhos castanhos. Contudo, Marina atendeu ao pedido da namorada, e sentou-se em silêncio. Afinal, era melhor saber da verdade pela boca dela, do que morrer no martírio da ignorância.
_Infelizmente, é exatamente isso o que eu tenho para te contar. Eu fui até a casa da Melissa ontem à noite – disse monitorando as reações da outra, buscando escolher suas palavras com o máximo de cuidado possível – Quando ela apareceu aqui, era pra me convidar para um jantar. Um jantar que tinha como proposta resolvermos toda essa situação entre nós duas.
_”Toda essa situação entre nós duas” – Marina citou a frase que a namorada acabara de dizer – Que situação toda é essa, Clara? Até onde eu sei, a Melissa não vale um real furado, e se queria levar você para um jantar na casa dela, com certeza não seria na intenção de tomar um “pé na bunda” – desenhou aspas com a ponta dos dedos no ar.
_Marina, nós duas somos adultas, e por mais que tenha sido uma coisa que eu demorei a entender de onde vinha, sabemos que sempre houve um desconforto entre eu e essa mulher.
_Um desconforto? Vamos ser claras aqui? – a fotógrafa sentia o nervosismo crescer dentro de si.
_Nós já falamos tanto sobre isso, amor! Tanto! – sua cabeça ainda pesava, seu corpo ainda não respondia direito aos seus comandos, e era difícil, realmente difícil organizar suas ideias, e formar as melhores ou mais brandas frases para continuar aquele assunto – Eu não fui lá por nenhum tipo de lazer ou prazer, e muito menos atrás disso. Me escuta até o final.
_Não? E você foi até lá atrás do que? Clara, você mentiu pra mim! Você MENTIU pra mim – colou o dedo indicador contra o próprio peito – Pra mim! DESLAVADAMENTE! – a indignação era evidente na voz de Marina – E pra que? Pra ir encontrar com aquela vadia da Melissa! – seu tom de voz subira, e agora ela esforçava-se para permanecer sentada ali – Você tá entendendo o que você tá me falando? – encarou-a, como se perguntasse como ela podia lhe pedir calma frente tudo aquilo.
_Eu sei que eu menti, Marina. E você não tem ideia de como eu estou me sentindo por conta disso, desde ontem. Desde o momento em que eu pronunciei as palavras – mais uma vez, Clara baixou a cabeça.
_É claro que eu não tenho ideia. Vai saber do que mais eu não tenho ideia aqui, não é?! – alfinetou, verdadeiramente magoada com todas as novidades que a outra lhe contara – Eu te liguei, Clara! Você falou comigo. E o que você fez? – perguntou retoricamente – VOCÊ IVENTOU UMA ESTÓRIA! UMA ESTÓRIA! NA MINHA CARA! – gritou, perdendo o controle por um segundo, porém, logo em seguida respirou fundo, voltando a acalmar-se – Aliás, vamos a pergunta de um milhão de dólares: não me contou desse jantar com a sua amiguinha, porque mesmo? – Clara temia por esse momento, mas teve que assistir a ironia instalar-se sorrateiramente no discurso da outra – Hein? Porque tinha que ser segredinho de vocês?
_Marina eu sei de tudo isso. Eu menti, eu errei. Eu sei! Mas, não faz isso. Não coloque tudo a prova por conta desse jantar. Eu... – por mais que Clara lutasse contra, sua voz embargava mais a cada palavra, e uma lágrima teimosa insistiu em rolar por seu rosto – Jamais quis trair a sua confiança. Jamais planejei ou arquitetei fazer algo assim! – usava toda a sinceridade que o pouco de força que tinha, lhe permitia encontrar dentro de si – Tanto que estou aqui, te contando toda a verdade. Porque... Não era segredinho, ela não é minha amiguinha. Eu só queria resolver isso, eu... – as lágrimas caiam sem pedirem permissão a sua dona – Amor... Desde São Paulo que vejo o nome dela rondando nossa relação, como se fosse um fantasma rondando alguma casa mal assombrada. Desde São Paulo que vejo esse nome tirar sua paz, seu sono, seu equilíbrio. E eu... – foi interrompida pela outra.
_Ah, você vê tudo isso e decide que a melhor coisa a fazer é ir jantar em segredo na casa dela, e tomarem um pilequinho juntas? É isso? – Marina riu, absolutamente sarcástica – Engraçada essa sua linha de raciocínio, Clara!
_Marina... Por favor! Me escuta! – implorou a outra, num fio de voz.
_Fala sério, Clara! Vamos direto ao ponto disso tudo! – sem conseguir mais conter-se, colocou-se em pé, e já profundamente irritada com tudo aquilo, com todo aquele lenga lenga, negou-se a amolecer com as lágrimas que via deslizar pelo rosto da mulher a sua frente.
_O ponto, Marina, é que eu fui até lá pra dizer com todas as palavras e letras, que eu não quero ninguém além de você na minha vida! – disse de uma vez, e mesmo receosa, levantou-se também. Enxugou o rosto e caminhou em direção a outra. Definitivamente, sabia que a armadura de Marina estava lá. Sabia o quanto tudo aquilo a tinha ferido. Mas, precisava toca-la. Precisava fazer com que ela soubesse o quanto estava sendo sincera. Precisava que ela acreditasse! – Fui até lá pra dizer que você é a única mulher pra mim! – aproximou-se um pouco mais da fera, e a viu dar dois passos para trás – Pra dizer pra ela, que nada, no mundo, pode me fazer mais feliz do que ser sua – olhava tão intensamente nos olhos da namorada, que se possível fosse, tinha plena certeza de que conseguiria enxergar sua alma. A passos lentos e curtos, voltou a aproximar-se – Nada, Marina. No mundo inteiro! – seu tom de voz agora era baixo, e colou seu corpo ao da fotógrafa.
_Jura? – lentamente, as defesas da fotógrafa começaram a cair, uma a uma – Jura Clara?
_Juro meu amor – os dedos da assistente agarraram-se a cintura da outra – Juro!
_Porque você não me contou? – a respiração de Marina já começava a pesar, e Clara, percebendo a deixa, mesmo sentindo a pequena resistência que a outra ainda impunha, conseguiu encosta-la na parede atrás de si.
_Eu queria resolver isso sozinha – passou o nariz pelo pescoço da outra, subindo em direção a sua orelha – Me desculpa! – sussurrou o mais baixo que pôde – Eu fui uma idiota, amor. Uma completa idiota! – mordiscou a ponta de sua orelha – Mas esse foi meu único erro, meu único pecado!
Marina respirou fundo, aspirando o perfume que vinha dos cabelos recém lavados de Clara, e sentiu a última peça de sua armadura despencar.
_O que você falou pra ela? – perguntou já descompassada, sentindo a língua da namorada contornar sua orelha.
_Que eu te amo! – sussurrou novamente, e pôde sentir o corpo da outra tremer contra o seu – Que você, é a única pessoa que eu quero pra mim – voltou a beijar seu pescoço, com a mesma calma e delicadeza de quem lapida um diamante bruto – A única, Marina! A única... – escorregou a boca por sua mandíbula, e mesmo com medo de uma possível rejeição, Clara selou os lábios da outra com os seus, e por mais que a mente da fotógrafa lhe dissesse que não, Marina não resistiu, e rapidamente percebeu seus lábios dando passagem para a língua quente e úmida da namorada.
O beijo que trocavam, começou salgado. Amargo. Como se entranhado em cada molécula de saliva, houvesse o gosto das lágrimas do arrependimento de Clara, e da mágoa infligida a Marina. Como se aquele toque, traduzisse tudo, mesmo sem dizer nada.
_Me perdoa, Marina! – pediu Clara, interrompendo o beijo que trocavam, e segurando o rosto da outra por entre os dedos.
Marina encarou-a nos olhos, e sem dizer nada, voltou a promover o encontro de seus lábios com os dela. Desta vez, o amargo do beijo anterior desaparecera, deixando espaço para uma sensação mais quente e intensa. Independente do turbilhão de emoções que ainda habitava o peito de ambas, o desejo que existia entre elas gritava naquele momento, e as mãos de Marina já não restringiam-se mais ao seu próprio corpo, agarrando-se ao quadril da outra com força.
O ritmo do beijo ganhou intensidade, e as línguas de ambas degladiavam-se com força dentro de suas bocas, roubando-as o ar sem muita dificuldade.
_Eu te amo, Marina! Te amo! – disse Clara, deixando a voz falhar em uma ou duas palavras, enquanto entrelaçava seus dedos aos cabelos da outra.
_Também te amo, Clara! – respondeu empurrando o corpo da namorada em direção ao sofá.
Como se quisesse fundir o corpo de Clara ao seu, Marina tinha pressa, e assim que os joelhos da outra tocaram o braço do móvel atrás de si, a fotógrafa deitou-a, deixando que seu corpo caísse por sobre o dela. Suas bocas não se desgrudavam, suas mãos não descansavam um minuto sequer da tarefa de sentir cada parte do corpo da outra por entre os dedos, e o calor que emanava da pele de ambas, apenas aumentava a cada movimento que faziam naquele sofá.
_Só você faz isso comigo! – declarou a assistente, segurando a mão de Marina e levando-a até o meio de suas pernas. A fotógrafa sentiu a ponta dos dedos molhar, e por um segundo não acreditou que tocava apenas o jeans da calça de Clara.
_Só eu, Clara? – perguntou em meio a um gemido, que saíra involuntariamente de seus lábios.
_Só você, Marina Meirelles! – Clara sabia que era apenas um nome, mas a forma com que o dizia, fazia-o parecer uma das coisas mais sacanas e obscenas que já dissera para a namorada. Provocando um leve tremor não apenas no seu, mas no corpo da outra também.
Os dedos de Marina pressionaram o jeans da calça de Clara, tocando seu sexo por sob o tecido azul escuro com força. Deixou seus lábios escorregarem pelo pescoço da namorada devagar, permitindo que a ponta de sua língua acompanhasse todo o percurso percorrido, deixando um leve rastro de sua saliva para trás. Sentiu as mãos de Clara liberarem seus cabelos e descerem até sua cintura, pressionando-a ainda mais contra si.
_Me leva pro quarto?! Por favor... – a assistente sabia que Marina gostava quando ela pedia. Sabia que ela gostava de ouvir que a outra a queria, de saber quando ela queria, como ela queria, onde ela queria – Me leva, Marina. Agora! Por favor... – sussurrou, sabendo que a cada "por favor" que saia de sua boca, uma partezinha pequenininha da sanidade da outra morria, e era exatamente isso o que ela queria.
Arqueou as costas, buscando a melhor posição para levantar-se de onde estava, e foi ajudada pelas mãos delicadas e firmes da outra. Ambas colocaram-se em pé, e as mãos da assistente voltaram a agarrar-se aos cabelos castanhos da namorada, enquanto as de Marina permaneceram espalmadas em suas costas, apoiando-a em pé. A assistente conduzia o corpo magro da fotógrafa em direção ao quarto em que estavam antes, porém, a pressa e a urgência em sentir a pele e o toque da namorada, fizeram com que Clara a encostasse por um minuto na primeira parede que encontrou pelo caminho.
_Tira essa blusa, Marina! – pediu Clara, já subindo os dedos por baixo do tecido fino da regata da outra, e puxando-a por sobre sua cabeça.
Sem deixar com que suas bocas se desgrudassem por completo, ambas permitiam que gemidos baixos e rápidos escapassem de suas gargantas, aumentando a temperatura e o atrito entre os dois corpos por ali. Imitando os movimentos de Clara, Marina também arrancou-lhe a blusa, jogando-a em direção ao sofá. Subiu com a ponta dos dedos pelas costas nuas e bronzeadas da assistente, e desenhando o caminho de sua coluna com as unhas, desceu novamente até sua cintura.
Involuntariamente, as mãos de Marina agarraram-se ao quadril de Clara, e sem que tivesse efetivamente pensado em fazer esse movimento, a assistente subiu seu joelho até a cintura da namorada. Os lábios da fotógrafa desciam pelos ombros da outra maliciosamente, com endereço certo, quando ambas ouviram um leve tilintar de chaves soar do lado de fora da porta do apartamento.
_Tá esperando alguém? Quem mais tem a chave daqui? – toda a desconfiança voltara a voz de Marina, e ela agora dava dois passos para trás, afastando-se da namorada.
Clara ficou em silêncio por alguns segundos. Lembrou-se do que a namorada dissera sobre a porta estar destrancada quando chegara, e gelou ao dar-se conta de que não sabia quem poderia estar entrando naquele momento. Respirou fundo e por mais difícil que parecesse naquela situação, buscou raciocinar. Só uma pessoa tinha a chave além dela, mas, e a sua própria chave, onde estava?
Tudo passava muito rápido na mente de Clara, Marina não tinha dito se a chave estava lá ou não, e como sua memória continuava insistindo em não funcionar, o desespero dava sinais de que estava chegando. Mas, pera! Se a porta estava trancada agora, quer dizer que a namorada tinha trancado, então a chave tinha que estar lá quando ela entrou. Certo? Certo! Respirou aliviada, soltando o ar que não percebeu que havia segurado nos pulmões.
_Ninguém mais tem a chave. Só o Ivan... – ambas entreolharam-se e ouviram uma voz masculina chamar pelo nome de Clara.
Definitivamente não era a de Ivan, era muito mais máscula e grave do que a do menino, mas, era muito familiar a ambas. Cadu estava lá.
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Como se fossem duas adolescentes, em meio a risadas abafadas e sob o impacto de um certo susto, ambas correram para dentro do quarto. Marina sentou na beirada da cama, e subitamente teve um mini ataque de riso ao lembrar-se de que as blusas que vestiam antes, estavam agora espalhadas pela sala, e que a percepção do que havia sido interrompido segundos atrás, não demoraria a chegar à consciência do ex-marido de sua namorada. Clara, por sua vez, pegou a primeira camiseta que encontrou pela frente e vestiu-a, apressando-se para voltar à sala.
_Tá com pressa amor? – perguntou Marina, segurando o braço da outra e puxando-a para cima de si.
_Marina! – o tom de voz de Clara era um misto de desejo, com uma breve advertência – O Ivan!
_Saudade de você! – sussurrou em seu ouvido – Volta logo pra cá! – escorregou a ponta da língua em volta da orelha da outra.
Clara sentiu cada pelinho de seu corpo arrepiar-se, contudo, a voz de Cadu chamando seu nome novamente, do lado de fora do quarto, lhe despertou do transe que Marina sempre lhe provocava. Respirou fundo, lançou um olhar cheio de promessas para a namorada, e há muito custo pessoal, sem mais delongas, levantou-se de onde estava e rumou em direção à voz que lhe chamava no outro cômodo.
Assim que bateu a porta do quarto, respirou fundo mais uma vez. Encostou rapidamente o corpo na madeira fria atrás de si, e chacoalhou a cabeça, movendo-a de um lado para o outro, no intuito de clarear a mente, que agora, embaralhava-se não apenas pelos motivos desconhecidos de antes, mas principalmente pelo que acabara de acontecer entre ela e a namorada. Clara sabia que Marina não a tinha perdoado, e lá no fundo, tinha plena consciência de que não poderia julga-la por isso, tampouco, cobrar algo da namorada nesse sentido. Fechou os olhos com força, arrependendo-se mais uma vez de ter aceito aquele convite. Desencostou-se da porta, e deu os três passos que a separavam da sala de estar de seu apartamento.
_Oi mãe! Cadê a Marina? – cumprimentou Ivan, entrando despreocupado pela casa, e jogando sua mochila em cima do sofá – Vi o carro dela estacionado lá fora.
_Tudo bem comigo sim, viu?! – riu baixo, tentando disfarçar a tensão que sempre aparecia quando tinha Cadu por perto – E a Marina está aqui sim – afirmou encarando o ex-marido por um segundo.
_Ô mãe, desculpa! – desculpou-se o garoto abraçando Clara – Mas, cadê ela? Precisamos combinar as coisas todas para a viagem, cara! Ela disse que ia me ligar, e nada! – reclamou o menino, insistindo em saber onde Marina estava.
_Ela... Tá... Lá no quarto... Dormindo! – respondeu tentando não rir, tampouco gaguejar demais – Vai lá falar com ela! – disse sabendo que essa seria mesmo a próxima atitude do filho.
Acompanhou a saída de Ivan da sala, e olhou em direção ao ex-marido, que permanecia mudo até ali. Viu o olhar de Cadu fixar um ponto no chão, ao lado do sofá. Acompanhou seus olhos e encontrou sua blusa ali, caída ao lado da de Marina.
_Pelo visto, chegamos cedo demais! – alfinetou o chef, entendendo sem maiores problemas a estranheza da cena anterior – Atrapalhamos muito?
_Cadu. Não começa! – o tom de voz de Clara, deixava evidente que ele estava passando dos limites, e pedia para que parasse por ali.
_Clara, você disse que não ficava se agarrando com ela na frente do Ivan! – sem que percebesse, seu tom de voz subira.
_Eu não devo nenhuma satisfação a você, Carlos Eduardo. Portanto, não tenho nada para te dizer quanto a isso. Ah, e se sua memória está tão ruim assim, o Ivan estava com você até poucos minutos atrás!
_No meio da sala?! É isso mesmo? Que foi, o quarto é tedioso e monótono demais para aquela lá? E se o Ivan tivesse entrado aqui direto? – Cadu deu dois passos a frente, aproximando-se da ex-esposa.
_Cadu, pela última vez. Estou na minha casa, essa é a minha vida, não lhe devo satisfações, e sei muito bem cuidar do meu filho – Clara ponderava palavra a palavra, mantendo o tom de sua voz baixo o suficiente para que o som não chegasse aos ouvidos de Marina, e menos ainda de Ivan.
_Que nojo, Clara! – a expressão no rosto do chef, deixava evidente de que o que dizia, não eram apenas palavras – Que nojo!
_Cadu, chega! – ordenou Clara, já sem um pingo de paciência.
_É Cadu, supere! Já deu tempo pra isso, não deu não? – disse Marina, aparecendo inesperadamente ao lado de Clara – Mesmo ninguém tendo pedido ou perguntado, você já deu a sua opinião. Agora, já pode ir – os olhos castanhos da fotógrafa encaravam os do chef firmemente, sem se dar tempo nem mesmo para piscar.
_E quem você pensa que é, pra falar comigo assim? Aliás, o que você pensa que é dentro dessa família? – desafiou-a, aproximando-se da fotógrafa e erguendo o dedo indicador próximo ao seu rosto.
_Cadu, Cadu... Não queremos que o Ivan saiba de nada que ele não precisa saber – retrucou, usando um tom levemente ameaçador, e baixando a mão do homem a sua frente – Não queremos que o menino veja, tampouco ouça, qualquer coisa que ele não precisa ver, nem ouvir. Queremos?
_Era só o que me faltava! Vai me ameaçar com o meu filho agora? É isso mesmo? Sua... – mais uma vez, o tom de voz de Cadu passara do necessário, contudo, antes que pudesse concluir a frase, Clara interveio.
_Carlos Eduardo! Chega! Ninguém vai colocar o Ivan no meio de nada aqui – olhou para a namorada, pedindo pela cumplicidade que sempre tiveram – Não é Marina?
_Até hoje, nunca coloquei amor. Não será agora que vou colocar! – segurou a mão de Clara, devolvendo o olhar que a outra lhe dava – Agora, se nosso amigo aqui não parar de gritar, havemos de convir que essa passa a ser uma tarefa bem difícil, não acha não Cadu?! – voltou a encarar o chef.
_Mas você é muito petulante mesmo! Sua... Sua vadia! Você acha que vai ocupar o meu lugar? – deu mais um passo a frente – É isso que você quer, não é?! Pois saiba você, que nunca, NUNCA – enfatizou a palavra, sentindo a mão de Clara espalmar seu peito, fazendo pressão para que se afastasse da fotógrafa – Uma mulher poderia ocupar o lugar de um homem dentro de casa! NUNCA!
_Primeiro, controle o seu palavreado comigo. Seu filho está no quarto ao lado! E segundo, roubar o seu lugar? Nunca quis roubar nada de você, Carlos Eduardo! – Marina sentia o nervosismo bater a sua porta – E sinceramente, essa sua ladainha já deve ter cansado até os vizinhos. Vira o disco! Vai viver a sua vida de uma vez!
_Essa aqui é a minha vida! Você que é peça sobresalente nesse quebra-cabeça – voltou a apontar o dedo em direção a fotógrafa – Ela vai cansar de jogar esse joguinho com você, idiota!
_Jura que vamos voltar nisso? Mesmo? Ah, Cadu! Me polpe vai. Aceita que dói menos vai querido! – a ironia na voz de Marina era tanta, que a sensação na sala era a de que poderiam toca-la.
_Aceitar? Aceitar o que exatamente, "querida" – desenhou aspas com os dedos, imitando o tom de voz usado por Marina.
_Marina! Cadu! – Clara não sabia como agir, mas sem dúvida nenhuma, assistia uma cena que sempre tentou evitar que acontecesse novamente – Parem os dois! Cadu, você está ofendendo a minha mulher, a minha relação e a minha casa. Chega!
_Aceitar que a Clara está em outra! – Marina não queria deixar aquela discussão ridícula render, mas como se fosse mais forte do que ela, quando percebeu, já estava retrucando mais uma vez às respostas do chef – Que nós nos amamos de verdade, e principalmente, que nós não precisamos da sua aprovação para vivermos felizes, Carlos Eduardo. Menos ainda da sua benção! – cuspiu a fotógrafa de uma vez.
_Diga o que quiser, Marina. Engane-se do jeito que achar melhor! Mas, você nunca vai poder dar a Clara o que eu já dei. Nunca! Ela vai cansar de você e te jogar fora! Pode escrever isso! – disse convicto.
_Ah, é?! E o que você, todo poderoso machão, acha que pode dar a ela que eu não posso, hein?! – Marina ia deixando a compostura de lado, e já sentia seu auto-controle escorrer pelos dedos, indo direto para o ralo.
_Ah! – gargalhou – Muitas coisas, Marina! Começando por diferenças físicas óbvias! Aliás, o que será que nós interrompemos hoje, quando chegamos mais cedo, hein?! Há o que interromper, afinal? – voltou a gargalhar, sarcasticamente.
_Como você é baixo! Como você é nojento Cadu! – a voz de Marina saia traduzindo perfeitamente suas palavras, em um tom completamente enojado por aquilo que acabara de ouvir.
_Nojento? Nojento é imaginar vocês duas se pegando pelos cantos! Nojento é o que vocês fazem – encostou o dedo indicador no peito da fotógrafa – Nojento, Marina, é no que você vem transformando a mãe do meu filho! No que você vem transformando a minha casa!
A partir daí, tudo aconteceu rápido demais para que Clara pudesse impedir. A mão de Marina, moveu-se como se por vontade própria, e com uma força que até mesmo a fotógrafa desconhecia, sentiu-a espalmar o rosto de Cadu.
_Você tá maluca? – gritou o chef, colocando uma das mãos sob a pele vermelha de sua bochecha, e dando dois passos para trás como resposta ao impacto inesperado.
_Chega. Parou vocês dois! Cadu, sai daqui! Sai, e vá com a consciência de que você não é bem vindo mais nesta casa – disse Clara, realmente enfurecida, e empurrando o corpo de Cadu para longe de Marina.
_Como não sou mais bem vindo, Clara? Tá maluca você também? NÓS TEMOS UM FILHO QUE MORA NESSA CASA! – berrou, segurando os braços de Clara, e perdendo a estribeira de vez.
_Mãe? – a voz de Ivan soou tímida, ainda na entrada da sala – O que tá acontecendo? Vocês estão brigando? – arregalou os olhos ao ver a cena de seu pai segurando a mãe pelos braços daquele jeito – Pai? O que você tá fazendo?
Cadu olhou na direção do garoto, e por mais que quisesse soltar Clara, não conseguiu fazê-lo, paralisando completamente ao constatar a expressão de medo em seu rosto. Clara, por sua vez, aproveitou-se da distração do ex-marido e se desvencilhou das mãos que lhe prendiam ambos os braços.
_Tá tudo bem, filho – apressou-se em dizer, lançando um olhar suplicante para Marina.
_Tá tudo bem garotão! Vem, vamos comigo lá pra dentro um pouquinho – disse a fotógrafa, entendendo e acatando o pedido de ajuda que vinha dos olhos da namorada. Passou o braço pelos pequenos ombros do garoto, dando-lhe um meio abraço.
_Isso amor, vai lá com a Marina. Eu e seu pai, só estamos terminando de resolver um assunto. Coisa de adulto – forçou um sorriso que saiu muito mais amarelo do que gostaria – Não é Cadu?
Cadu fez menção de protestar, mas o olhar de Clara disse muito mais do que ela poderia colocar em palavras, e pela primeira vez naquela noite, Cadu conteve-se, e com um aceno positivo de cabeça, apenas assistiu Marina retirar seu filho da sala.
_Parabéns, Carlos Eduardo! Agora eu quero você fora da minha casa! – havia tudo na voz de Clara. Raiva, mágoa, chateação, decepção – Nossas conversas estão restritas aos nossos advogados, e fique feliz se daqui para frente você ainda puder encontrar com o Ivan!
_Não Clara! Não. Isso não – o desespero habitual começava a dominar sua mente – Me desculpe! Eu... Eu, não volto mais aqui. Prometo!
_Não quero ouvir o som da sua voz por um bom tempo. Essa viagem veio em muito boa hora! – declarou a dona de casa, com um tom verdadeiramente magoado – Estou cansada dos seus espetáculos sem motivo! Sai. Sai daqui – Segurou a porta aberta, apontando o indicador em direção ao corredor – Preciso ver como o meu filho está!
O chef não sabia o que dizer. Fato é, que nada daquilo era realmente necessário. Respirou fundo, tentou recobrar o juízo, baixou a cabeça e seguiu o dedo da ex-esposa, retirando-se do apartamento.
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Cadu arrastou-se até o elevador, e saiu do prédio completamente desorientado. As últimas palavras de Clara ecoavam em sua mente, e por mais que tentasse acreditar que ela as havia dito apenas movida pela emoção e o calor da situação, não conseguia convencer a si próprio de que seria tudo tão simples assim.
Odiava admitir, mas, essa briga não tinha razão de ser. Marina tinha vencido esse duelo. Há muito tempo atrás. E ele simplesmente não conseguia aceitar. Ainda doía demais aceitar! Ainda passava noites inteiras lendo os papéis que o divorciavam de sua esposa, de sua rotina, de seus sonhos, de sua vida. Os papéis que o afastavam de seu tesouro mais precioso na vida.
Seguiu ainda zonzo pela rua, e resolveu parar no bar que sempre visitara com Felipe e Nando. No entanto, não encontrou nenhum dos dois por ali, e decidiu ir para seu próprio bistrô. Seu rosto ainda latejava em virtude da tapa que recebera de Marina, e agora, não era apenas ele que doía. Mas sim, seu próprio peito. Sentia como se o seu coração inflasse por ali, e pressionasse seu tórax para fora. Como se fosse uma bomba, prestes a explodir a qualquer momento. Ao mínimo ruído.
Por um minuto, desejou que tudo isso acabasse logo. Por um minuto, pensou que a melhor solução fosse sair sorrateiramente pela direita de sua própria vida. Mas tratou de espantar essa ideia de sua mente, antes que lhe fosse tarde demais. O pouco de consciência que lhe restava, soprava em seus ouvidos para que não fosse dirigindo, e atendendo aos pedidos de seu anjinho particular, decidiu pegar um táxi até seu destino.
Entrou no galpão como se fosse um furacão, sem se dar conta de que era observado de longe por Verônica, que tomava um cappuccino em uma das mesas próximas ao balcão. Sem cumprimentos ou acenos, partiu em direção ao seu escritório. Trancou a porta, jogou-se em sua poltrona, abriu uma garrafa de Jack Daniel’s, e permitiu-se afogar todas as suas mágoas nos copos que enchera na sequência.
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Passado o susto do menino, Marina conseguiu fazê-lo esquecer o que havia visto mais cedo na sala, e sem que tocassem aberta ou diretamente no assunto, a fotógrafa o distraiu com a promessa de diversão quase infinita durante toda a viagem que fariam no dia seguinte.
Marina ajudou tanto Clara quanto Ivan a fazerem suas respectivas malas, e ao cair da tarde, partiu com ambos em direção a sua casa em Santa Teresa. Agora, foi a vez dos dois a ajudarem com suas bagagens, e não muito tempo depois, após todas as tarefas cumpridas, os três jogavam-se na imensa cama da fotógrafa, completamente exaustos. Pediram uma pizza, e como da outra vez, assistiram alguns filmes juntos por ali.
Marina e Ivan passaram o tempo todo tagarelando, e mesmo já tarde da noite, ainda conversavam sobre como seria o voo, a casa onde ficariam, o clima, a neve, e outros inúmeros detalhes e expectativas em relação aos dias em Bariloche. Já Clara, estava estranhamente quieta. Instrospectiva. Não que sua mente tivesse se aquietado, muito pelo contrário, afinal, a assistente ainda se esforçava para tentar preencher as lacunas de sua memória, e o insucesso que vinha obtendo nessa tarefa já começava a afetar seu humor.
Independente da insônia de Clara, ou da empolgação sem limite de Ivan, o dia raiou muito mais rápido do que qualquer um dos dois esperava, e em pouco tempo, já estavam a caminho do aeroporto do Galeão. Pegaram um transito razoável no caminho até lá, e já no aeroporto, a espera pelo voo só serviu para piorar o medo de Clara em relação a todas as horas de viagem que teria que se submeter dentro do avião.
Apesar de não serem tantas horas de voo assim, elas eram demais para Clara, portanto, a assistente aceitou a sugestão de Marina, tomando dois comprimidos para dormir assim que acomodou-se na poltrona que lhe cabia dentro da aeronave. Sem muita demora, em poucos minutos já estava completamente grogue de sono, e logo adormeceu. Ivan, ao contrário da mãe estava ligadíssimo, e mais uma vez, assim como fora na noite anterior, não parava de tagarelar com a fotógrafa sobre tudo o que pretendiam fazer nos dez dias que em ficariam juntos.
Mesmo sem saber de onde saia tanto assunto, os dois passaram todas às cinco horas em que permaneceram na aeronave conversando, e para a sorte de ambos, Clara não acordara antes do avião já estar taxiando na pista de pouso que lhe fora destinada. Apesar de não ter acompanhado o momento do pouso da aeronave, as pernas da assistente saíram bambas da mesma forma devido à adrenalina que invariavelmente sentia em momentos como este.
O relógio de pulso de Clara marcava 16h30, e assim que desceram do avião, bem como em todo o caminho que percorreram até chegar à casa de Marina, os olhos de Ivan já procuravam pela neve, e por mais que não a tenha avistado logo de cara, a temperatura deixava claro que ela não deveria estar muito longe dali. Chegaram a casa, e a expressão de admiração e empolgação que se via no rosto do menino, em virtude do mar de neve branca e gelada que cercava toda a casa, irradiava e contagiava ambas as mulheres ali, transformando-as, por um breve momento, em crianças novamente.
Clara, que sonhara com esse momento desde muito pequena, compartilhava de toda a perplexidade do filho, e sem que se desse conta totalmente, abraçou a namorada.
_Obrigada por isso, amor! – agradeceu com toda a sinceridade que conseguia encontrar dentro de si.
_Esse seu sorriso, e aquele sorrisinho pequenininho ali – apontou na direção de Ivan, que sentia o gelado da neve pela primeira vez em seus dedos – Não tem preço nessa vida! – olhou Clara nos olhos – Eu te amo!
_Eu também amo você, Marina! – acariciou seu rosto – Amo demais! – selou seus lábios com um beijo que acabou rápido demais, assim que foram interrompidas em virtude de um impacto gelado que acertara as costas de ambas.
_Ah, moleque! Você mexeu com a pessoa errada! Eu sou conhecida como a maior ninja, do mundo, quando o assunto é guerra de neve – ameaçou Marina, correndo na direção de Ivan, retribuindo-lhe a bolada que acabara de receber.
Ivan saiu correndo em volta da casa, e o ataque de riso provocado pela cara de mau forçada que Marina fazia, lhe fazia perder sempre a dianteira contra a fotógrafa. Clara, por sua vez, só observava a correria dos dois, e deliciava-se com o som da risada de seu filho ecoando por ali.
_Ei, vocês dois! Que tal colocarem roupas apropriadas para esse frio primeiro? Eu não quero saber de ninguém resfriado depois, e vocês estão tropicais demais para esse tempo! – riu, acompanhando um dos empregados da casa até o carro para que pudesse descarregar as malas.
_Ivan, vem cá! – chamou Marina, acenando com a mão e em tom de segredo, assim que passavam pela parte de trás da casa – Acho que sua mãe tá muito quietinha ali, não tá não?!
_Concordo! Acho que ela tá precisando de um pouco de animação ali – respondeu com o mesmo tom conspiratório usado pela fotógrafa, e sem que dissessem mais nada um para o outro, trocaram apenas um aceno de cabeça e agacharam-se, já formando grandes bolas de neve nas mãos.
Marina, como estrategista do malévolo plano contra sua namorada, apontou para que Ivan corresse pelo lado direito, enquanto ela iria pelo esquerdo, pois assim, Clara não teria escapatória. Fez a contagem até três em silêncio, erguendo apenas os dedos indicador, médio e anelar em sequencia, e sem mais delongas, ela e Ivan partiram para o ataque.
Clara, distraída com as malas, acabou nem percebendo o súbito silêncio dos conspiradores que corriam para lhe atacar, e só percebeu que era o alvo de ambos, assim que avistou seu filho, correndo e gritando em sua direção. Em um movimento espontâneo e automático, Clara ergueu os braços, e fechou os olhos, já esperando pelo impacto que viria a seguir.
Com um sorriso que não cabia em seu rosto, Ivan tacou-lhe a bolada de neve o mais forte que conseguiu, acertando-a na altura da barriga, enquanto Marina, delicadamente lhe acertava as costas com um novo, e bem mais suave, impacto gelado.
_Ah, vocês dois me pagam! – apesar de tentar fingir nervosismo em seu tom de voz, ameaçou-os sorrindo – Não farei chocolate quente para nenhum dos dois hoje à noite! De castigo! – completou, batendo em sua própria blusa, que ficara cheia de floquinhos brancos.
_Ah mããããe! Nãããão! A gente te ama tanto! – disse manhoso, querendo dissuadir a mãe de sua decisão – Não ama Marina?
_Com certeza. Ama demais! – concordou com o pequeno – Aliás, sua mãe tem razão sobre não ficarmos resfriados. Então, que tal entrarmos para nos agasalhar e ganharmos esse chocolate quente como prêmio por bom comportamento? O que você acha Ivan?
_Eu acho que super merecemos. Sem dúvida!
_Ai, ai... Vocês dois juntos é dor de cabeça na certa para mim, tô até vendo! – disse contemplando os sorrisos pidões de ambos – Ok, vamos lá para dentro tomar esse chocolate.
Os três rumaram casa adentro, e Ivan não parava de falar como a neve era fofinha, e em como queria construir um boneco de neve com a fotógrafa nos próximos dias. Fizeram planos de esquiar no dia seguinte, e apesar de Clara apavorar-se com a ideia de descer aqueles montes enormes apoiadas em dois pedaços de plástico apenas, a sensação de descobrir coisas novas ao lado da mulher que lhe apresentou um mundo completamente novo, era sempre sensacional.
Assim como prometera, Clara abastecera as canecas de todos com um delicioso chocolate quente, que aprendera a fazer ainda pequena, com sua mãe. E não muito tempo depois de acomodarem-se em casa, o cansaço da viagem começou a bater nos três. Ivan já coçava os olhos com as costas das mãos, e Marina deixava sua cabeça pousar nos ombros da namorada, aproveitando o cafuné delicado que recebia.
Devido ao remédio que tomara, e as horas que dormira no avião, Clara era a mais descansada dos três, e assim que percebeu que tanto a namorada quanto o filho dormiam tranquilamente, cada um em um sofá da sala, decidiu arrumar os quartos para que pudessem descansar adequadamente. Acendeu a lareira, arrumou as camas, e por mais que tudo até ali estivesse lindo, aquela pulguinha que habitava a parte de trás da sua orelha não a deixava estar plenamente em paz, ou plenamente satisfeita.
Desde o momento em que acordara no avião, sentia sua memória lhe pregando peças, e já não sabia se os pequenos flashes que via passar em sua mente eram reais, ou apenas seu imaginário tentando preencher as lacunas que lhe incomodavam tanto sobre aquela noite que passara com Melissa.
Parecia lembrar, em algum canto de sua cabeça, de ter se sentido mal em algum momento, mas, no fim das contas, ela não tinha passado mal aquela noite, tinha? Aliás, elas tinham jantado efetivamente? Não se lembrava de ter comido, nem bebido nada. Ah, não. Tinha a imagem de uma taça de vinho em sua mão sim. Mas, afinal, porque ela tinha aceitado beber com Melissa? Fechou os olhos, e pela enésima vez tentou concentrar-se. Tentou achar as respostas de que tanto precisava.
_Pensando em que? – perguntou Marina, aparecendo de surpresa no quarto e abraçando as costas da namorada.
_Nada demais, amor – respondeu de imediato, virando-se de frente para a fotógrafa – Você acredita em mim, não acredita?
Por mais que Clara não o tivesse dito, Marina sabia perfeitamente do que ela falava, e no fundo, por mais que ainda não a tivesse perdoado pela mentira, por mais que o fato de Clara ter aceito um jantar com a Melissa, ter ido até a casa dela, ainda a matasse por dentro, Marina acreditava cegamente na fidelidade da namorada.
_Acredito que não aconteceu nada entre vocês! Só não posso te dizer que não estou chateada, magoada. Confiança é como um cristal – deixou a frase no ar.
_Eu sei. Eu sei que errei em mentir para você, amor. Sei que não me perdoou por isso ainda. Sei que vou ter que reconquistar algumas coisas, e na verdade não me preocupo com isso. Afinal, tenho a vida inteira do seu lado para ter de volta qualquer coisa que tenha perdido – disse arrumando repetidamente uma mecha de cabelo que insistia em soltar-se da orelha da outra.
_A vida inteira, é?! – perguntou Marina, apertando o abraço que trocavam.
_Sim. Não quero ir, tampouco estar em qualquer outro lugar que não seja com você! – os olhos de Clara fitavam os castanhos da namorada, e como se pudesse sentir a sinceridade de em cada letra das palavras ditas por Clara, Marina acreditou cegamente no que a outra lhe dizia – A não ser, é claro, que você não queira ficar – disse sentindo a dor dessa possibilidade, mesmo que extremamente remota.
_E pra onde mais eu iria? – perguntou retoricamente – Não tem nenhum outro canto do mundo que eu deseje estar!
_Eu te amo! – ambas disseram juntas. Trocando um beijo intenso e apaixonado na sequencia.
O beijo tomou proporções maiores do que ambas pensaram que ele teria, e quando Clara deu-se conta, estava deitada na cama, sentindo o corpo de Marina pesar sob o seu.
_Amor, o Ivan... – lembrou a assistente.
_Eu já coloquei ele na cama. Estava apagado! – disse beijando o pescoço da outra, indo em direção a sua orelha – E a porta está trancada – sussurrou.
Clara não teve tempo de responder, tendo seus lábios selados pelos da outra rapidamente.
_Saudade de você! – conseguiu dizer, com a boca colada na de Marina.
_Saudade amor? Do que? – perguntou, maliciosamente.
_Saudade de sentir você – respondeu passando a ponta dos dedos pela lateral do corpo da outra – Do seu toque – segurou a mão de Marina, guiando-a por sua coxa – Do seu cheiro – subiu a ponta do nariz pelo pescoço da fotógrafa, que deixou escapar um breve suspiro – Da sua boca – tomou-lhe os lábios novamente, contudo, desta vez não dosou mais o ímpeto com que o fazia, e agarrou a cintura da fotógrafa, prendendo-a ao seu corpo.
As línguas de ambas acariciavam-se com desejo em suas bocas, traduzindo a pressa, a saudade e a vontade que as duas tinham de amar-se naquele momento. Marina deixou que suas mãos descessem pelo corpo de Clara, arranhando desde sua cintura, até seus joelhos. Clara, por sua vez, puxava a blusa da namorada, tentando tira-la por sobre sua cabeça o mais depressa possível, porém, conseguindo êxito apenas na terceira tentativa.
Rapidamente, assim que livrou-se da blusa, Clara desfez-se do sutiã da fotógrafa, liberando seus seios para que pudesse senti-los mais livremente. Deixou suas unhas descerem pelas costas brancas da outra, e sem perder tempo, abocanhou seu seio direito. Sem que percebesse efetivamente, Marina gemeu, sentindo a língua de Clara brincar com seu mamilo, passando de um lado para o outro, de cima para baixo, repetidas e inúmeras vezes.
Desvencilhando-se da boca de Clara, Marina puxou seus joelhos para cima, sentando sobre o quadril da namorada e passando a abrir os botões da camisa que a outra vestia, um a um, bem devagar. Os olhos castanhos da fotógrafa encaravam os de Clara, sustentando um olhar malicioso, desejoso, sacana. E sem que Marina a tocasse de fato, Clara sentia um gemido formar-se em sua garganta.
Assim que tirou os botões de seu caminho, a fotógrafa deixou que a camisa de Clara lhe caísse por sob os ombros, expondo seu corpo bronzeado por ali. Delineou toda a sua barriga com a ponta da língua, subido em direção ao seu pescoço. Deixou que seus dedos abrissem o botão e o zíper de sua calça jeans, enquanto continuava beijando-lhe o pescoço, devagar, trilhando um caminho de pequenos beijos até sua orelha.
A língua da fotógrafa subia e descia por ali, enquanto deixava com que sua respiração pesasse no ouvido de Clara, fazendo-a suspirar embaixo de si.
_Saudade de ter você pra mim! – disse, deitando seu corpo novamente por sobre o de Clara, deixando com que sua coxa preenchesse o vão entre as coxas da outra, pressionando-a contra seu sexo.
_Eu sou sua, Marina! – declarou, em meio a um gemido – Só sua!
_Só minha? – perguntou, descendo com a boca por seu pescoço, mandíbula, boca, queixo, peito, ombros – Tem certeza?
_Tenho! Só sua – respondeu, sentindo os dedos de Marina posicionarem-se em seu quadril, começando a puxar sua calça para baixo.
Os beijos de Marina continuaram descendo, passando dos ombros para a barriga, umbigo, cintura, até alcançarem a costura da calcinha da outra. Ajoelhou-se na cama, terminando de tirar a calça da outra, e colocando-se em pé deixou com que a sua própria lhe escorregasse pelas pernas, pousando silenciosamente no chão do quarto. Ambas usam lingeries pretas, e a visão de Clara deitada ali, daquele jeito, entregue a ela, seria sempre algo com que Marina não aprenderia a lidar totalmente, descompassando-se todas às vezes em que a contemplava dessa forma.
Marina voltou a beijar Clara, contudo, desta vez, os beijos subiam pelas coxas da outra, indo em direção a sua virilha. Sem pedir permissão, a pontinha da língua da fotógrafa aventurou-se por entre seus lábios, subindo e descendo lentamente pelo sexo de Clara, por sobre o pano da calcinha.
_Tira amor, não faz assim! – pediu, ansiosa para sentir a língua de Marina em seu sexo – Por favor!
Sem pestanejar, Marina obedeceu-a, puxando o tecido preto da calcinha por suas pernas, até tira-la completamente por seus pés. Assim como fizera segundos atrás, beijou-a desde a panturrilha até a altura de sua virilha, deixando com que sua língua passeasse por entre os lábios, marcando o corpo da outra com um leve rastro de sua saliva.
Sem aviso prévio, a fotógrafa escorregou com a ponta da língua pelo sexo da outra, vendo-a contorcer-se involuntariamente na cama. Repetiu esse movimento uma, duas, três, quatro vezes, até que ela própria não conseguiu mais resistir a vontade que tinha de sentir o gosto daquela mulher em sua boca, e invadiu o sexo de Clara de uma vez, chupando-a devagar.
As mãos de Clara agarraram-se aos cabelos da namorada, e sem que pudesse controlar, os gemidos lhe escapavam em um volume cada vez mais alto e intenso. Marina subia e descia com a língua pelo clitóris da outra, vagarosamente, e Clara já não conseguia mais manter-se quieta, jogando seu quadril de encontro à boca da namorada e rebolando compassadamente em sua língua.
_Ah, Marina! – gemeu o nome da outra, no exato momento em que sentiu o dedo da fotógrafa lhe invadir de surpresa – Você me deixa louca! – afirmou em meio a novos gemidos.
Os dedos de Marina a penetravam devagar, num movimento de vai e vem completamente ritmado, lento, vagaroso. Na mesma velocidade com que sua língua a chupava. Lentamente, a fotógrafa aumentou a velocidade com que seus dedos entravam e saiam do corpo de Clara, e sentiu o sexo da outra contrair-se em volta deles.
_Amor... Não para não! – pediu ao sentir Marina cessar os movimentos que fazia com sua língua – Eu...
_Goza pra mim, Clara! – o tom de voz da fotógrafa era grave, intenso, e traduzia o mais puro desejo.
Sem pestanejar, o corpo de Clara a obedeceu de imediato, arrebatando-a em um orgasmo intenso e lento.
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Assim como prometera ao garoto no dia anterior, Marina guiava o carro agora em direção a estação de ski que sempre frequentara com seu pais na infância. Fazia muito tempo que não praticava, mas esquiar era como andar de bicicleta. Uma vez aprendido, não tinha como se esquecer mais, e bastou alguns minutos para recuperar a memória de como fazia para se equilibrar e andar com os skis.
Ivan era esperto, e rapidamente entendeu a parte básica da coisa. Clara, por sua vez, atrapalhava-se constantemente com os bastões, e acabava por sofrer alguns tombos que quase matavam Marina e Ivan de susto, e logo na sequencia de riso. Foram na pista para crianças, e seguindo os outros meninos, Ivan quis descer um dos morros mais altos que existiam por ali. Depois de muito discutir, combinaram que ele só iria se Marina fosse junto, e como isso não era nem de longe um problema para o menino, partiram em direção ao ponto inicial da descida.
Clara, como toda boa medrosa, desceu até o ponto de chegada de ambos, e com o coração na mão ficou rezando para que nada lhes acontecesse. Já Marina, sentia um certo frio na barriga. Não pela descida, pois aquela não era nem de longe uma descida que lhe desse medo, mas sim pelo fato de ser a primeira vez em que tinha total responsabilidade por cuidar e proteger Ivan, e isso, sem dúvida nenhuma, era motivo mais do que suficiente para lhe botar medo.
Posicionaram-se na marca de largada e esperaram pela buzina que liberava suas partidas.
_Ai cara, isso aqui é sinistro demais! – disse Ivan, transbordando animação.
_É, sinistro! E lembre-se da aulinha, hein?! Essa pista não tem nenhuma curva, então, bastão sempre pra cima durante a descida.
_Pode deixar! Fica tranquila, que eu aposto que ainda ganho de você para chegar lá embaixo! – desafiou-a, caindo na risada.
_Ah, é?! Veremos isso mocinho, veremos!
Assim que Marina terminou de responder a provocação feita pelo garoto, ambos ouviram o som da buzina gritar, e sem pestanejar, deram partida em seus skis. Marina segurou o impulso que dava com o bastão, esperando que Ivan a alcançasse antes que começassem a descer, e quando menos esperava, viu o menino passando ao seu lado, confortavelmente rápido e lhe mostrando a língua.
Aceleraram sua corrida, e não demorou para que Marina passasse por Ivan novamente, contudo, assim que chegaram no ponto mais crítico da descida, a fotógrafa segurou sua velocidade e deixou-se ser ultrapassada pelo garoto, que como se já esquiasse há muitos anos, descia em disparada a linha de chegada, ganhando a corrida que apostara com Marina, sem saber que contara com a ajuda da própria fotógrafa para tal.
Apesar do excelente desempenho na pista, Ivan atrapalhou-se na hora de fincar os bastões no chão e não conseguiu equilibrar-se em pé nos skis para até parar totalmente, virando uma pequena bolinha de neve loira por ali.
_Ei, e ai garotão, tudo bem? – perguntou Marina, ajudando o garoto a levantar-se e bater a neve de cima de si, enquanto Clara corria até onde estavam.
_Filho! Você está bem? O que aconteceu? – perguntou, exagerando-se na preocupação.
_Calma gente, calma! Eu tô ótimo! – disse erguendo os braços e chacoalhando-os no ar para tirar o resto de neve que tinha – E... GANHEI DE VOCÊ!!! – Apontou para Marina, caindo em um ataque de riso sem fim.
_Há Há, como você é engraçadinho né?! – fez-se de magoada – Duvido que você ganha de novo. Eu quero uma revanche! – desafiou-o.
_Ai, ai, vocês dois! – advertiu Clara, com medo de que o filho sofresse outra queda.
_Ah, mãe, relaxa! Vamos lá logo patinha, vou ganhar de você de novo mesmo – zombou o garoto, tirando onda com a cara de Marina.
_Ah, mas isso eu quero ver! – disse, virando-se em direção ao teleférico que os levaria de volta para o alto da montanha, sendo seguida pelo menino.
Mais uma vez, Clara optara por ficar na linha de chegada, aguardando a passagem dos dois, e acabou tendo que fazer isso por diversas e diversas vezes durante o dia, até que Marina, já exausta, não aguentava mais o esforço de tentar acompanhar o pique de Ivan, e desistiu de encoraja-lo a novas revanches ou desafios naquele momento.
Almoçaram por lá mesmo, e depois de muitas outras horas de subida e descida de montanhas, voltaram para casa. O chocolate quente de Clara tinha feito sucesso na noite anterior, e enquanto ela o preparava, Marina e Ivan montaram um enorme boneco de neve em frente a casa, posando para várias fotos, e arrastando Clara para o frio novamente a fim de ser clicada ao lado da obra de arte dos dois, depois de concluída.
Como se tivesse poder relaxante, bastou que os três deitassem juntos na cama, para que tanto Marina quanto Ivan simplesmente apagassem, caindo em sono profundo. Clara cobriu-os, e depositando um beijo na testa de cada, lembrou-se das peripécias que ambos fizeram durante todo o dia, e com um sorriso no rosto, permitiu-se adormecer junto com os dois.
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Os dias seguiam gelados, porém, isso não incomodava em nada a parceria entre Marina e Ivan, que pareciam melhores amigos de uma vida inteira. Clara não sabia fazer outra coisa a não ser admirar e brigar com seus dois amores. Ora por estarem correndo pela casa e bagunçando tudo pelo caminho, ora por se jogarem de cabeça na neve sem se agasalhar corretamente, ora por empolgarem-se tanto no vídeo game à noite e passarem da hora de dormir.
Durante o dia, a lista de atividades que tinham não chegava ao fim. Fizeram inúmeros bonecos de neve, anjos na neve, guerras de neve, e até comer neve Ivan comeu. Afinal, quem nunca quis experimentar aqueles floquinhos branquinhos que sempre assistimos cair nos filmes americanos, não é?!
Durante a noite, apesar da baixa temperatura nas ruas, as noites de Clara e Marina não deixaram de ser quentes. Nenhuma sequer. Afinal, mesmo quando não podiam se amar, impedidas pela presença de Ivan no quarto, o amor e a cumplicidade entre elas parecia ter crescido durante aquele período juntas, e a sintonia que tinham ficava cada dia mais afinada e intensa.
Por mais que nenhum deles quisesse, os dias passavam rapidamente, e a data da viagem de volta parecia se aproximar em uma velocidade recorde. Como se cada um dos bons momentos que passavam juntos, fizesse com que os ponteiros do relógio corressem em disparada para frente, acelerando a volta para suas rotinas normais. Todos, sem exceção, sentiam a proximidade dessa data, e reagiam a ela a sua maneira.
Ivan, com sua inocência de criança, perguntara diversas vezes o porquê de Marina não morar com eles, porque ela e seu pai não podiam ser amigos e saírem todos juntos, e mesmo sem ainda terem voltado para casa, já queria que a fotógrafa lhe dissesse quando se veriam de novo para brincarem juntos novamente.
Clara e Marina, por sua vez, sentiam isso como uma separação, e a medida que os dias em que estariam refugiadas do resto do mundo ali se esvaiam, ambas pareciam sentir a necessidade de fundir-se uma a outra. Mantendo-se cada vez mais próximas e íntimas.
Na última noite que passariam em Bariloche, após fazerem amor pela terceira vez, Clara observava Marina dormir calmamente em seus braços. Vez ou outra, acariciava seus cabelos, beijava suas bochechas e a ouvia resmungar qualquer coisa sem sentido durante o sono. Sentia seu peito inflar toda vez que pensava no amor que tinha por aquela mulher, e ali, decidiu que, de fato, a queria para a vida inteira. Que queria unir-se a ela de todas as maneiras que alguém pode se unir a outra pessoa. Decidiu que nada, nem ninguém, seria capaz de separa-la daquela mulher. Nada. Nunca.
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À volta para casa foi conturbada. Os três haviam se atrasado na chegada até o aeroporto em Bariloche, tiveram problemas para despachar as malas, o voo sofreu atrasos em seu horário oficial de decolagem devido ao mau tempo, porém, Marina agora admirava os dois amores de sua vida dormindo tranquilamente um ao lado do outro durante as últimas horas de voo.
Deixou sua mente vagar por aqueles dias, e apesar do clima em que fora para lá com a namorada, não tinha como chegar à outra conclusão a não ser a de que a viagem toda tinha sido ótima. Pôde estar mais próxima de Ivan, passar mais tempo com Clara, e justamente no momento em que a fotógrafa pensava e especulava se poderia haver alguém, no mundo, com a mesma sorte do que ela, a voz tranquila e quase entediada do piloto dava o aviso de apertar cintos no alto falante da aeronave, informando para que a tripulação que se organizasse para o procedimento de pouso, que se daria no aeroporto internacional do Galeão, na cidade do Rio de Janeiro.
Como se desse um click em sua mente, Clara despertara durante a descida do avião, e a partir desse momento, os dedos da fotógrafa deixaram de ter paz, voltando a ser esmagados um a um pelas mãos suadas e trêmulas da namorada. Com um dos braços, protetoramente, Clara apertou Ivan junto a seu corpo, e do outro lado, escondeu o rosto no pescoço de Marina, buscando sentir a sensação de proteção e tranquilidade que já lhe era tão familiar e recorrente, sempre que estava no abraço da outra. A fotógrafa a acolheu nos braços, tentando acalmar os nervos da namorada com um cafuné leve e um beijo na testa, porém, como sempre, sem muito sucesso.
Apesar dos apertões da namorada, pela janelinha, Marina assistiu a descida do avião e acompanhou a empolgação de Ivan com o momento, assim como fora na viagem de ida. Ao contrário da mãe, o menino adorava a sensação de voar, e ambos acompanharam animados ao pouso da aeronave em que estavam.
Já em terra firme e com os batimentos cardíacos normalizados, Clara não sabia fazer outra coisa a não ser sorrir. Pegaram suas respectivas bagagens, caminharam pelo saguão, e foram de encontro ao motorista de Marina, que já os esperava no salão de desembarque. Gentilmente, o mesmo responsabilizou-se por organizar os carregadores que levavam as malas de todos para o carro, e guio-os até o local onde o automóvel estava estacionado.
As muitas horas de voo e as turbulências que enfrentaram para voltar ao Rio, refletiam no semblante de todos, e a expressão que carregavam traduzia o mais puro cansaço. Fizeram um breve desvio no caminho a fim de deixar Ivan na casa de Cadu, como pedira o garoto, e em seguida, foram para o Leblon, em direção ao apartamento de Clara. Marina informou ao motorista que passaria a noite com a namorada, e depois de subirem todas as intermináveis malas de Ivan e Clara no chão da sala do apartamento, solicitou ao que levasse as suas para Santa Teresa, dispensando-o por hora.
Marina levou as malas de Ivan para o quarto, ajudando Clara com as dela logo em seguida. Assim que carregou a última, percebeu que havia um montinho de correspondências espalhadas pelo chão. Pegou-as e levou todos os envelopes para o quarto.
_Amor, tinha um monte de carta espalhada lá na entrada – disse despreocupadamente, colocando os envelopes todos em cima da escrivaninha, ao lado da cama.
Clara, por sua vez, deixou seu corpo cair na beirada da cama, e olhava pela milésima vez para as malas a sua frente, sem um pingo de coragem de desfaze-las.
_Ah amor, dá uma olhada no que tem ai pra mim, por favor! – o cansaço e a preguiça a consumiam – Duvido que tenha algo além de contas para pagar – riu baixo.
Marina sorriu para a namorada e passou os envelopes um a um por suas mãos. De fato, assim como Clara dissera, todos tratavam-se de contas a serem pagas. Contudo, um último envelope, diferenciava-se dos demais. Era pardo, maior, parecia estar cheio com alguma coisa, e vinha endereçado a mão.
_Linda, tem um envelope endereçado a mão aqui, parece uma encomenda ou coisa assim. Vou deixar aqui pra você, tá?! – disse deixando o envelope novamente onde estava.
_Encomenda? Não amor, não pedi nada – respondeu distraída, abrindo a primeira das malas que pousava no chão a sua frente – E de qualquer jeito, não teria nada que você não pudesse ver – disse inclinando seu pescoço para trás e depositando um beijo rápido nos lábios da outra – Aproveita que você já está no embalo, e abre pra mim – sorriu.
Assim como a namorada lhe pedira, Marina voltou a tomar o envelope em suas mãos e o abriu, soltando a cola da aba que o mantinha fechado com facilidade. Sem olhar para o conteúdo do envelope, a fotógrafa colocou a mão lá dentro e puxou uma folha de papel sulfite dobrada. Assim como no rosto do envelope, a mensagem vinha escrita a mão, em uma caligrafia impecável.
"Para que guarde com você, a lembrança de uma noite, que por si só, já foi inesquecível! Sempre com saudades, beijos, Mel."
Marina piscou forte algumas vezes. Não tinha como acreditar, tampouco entender aquele bilhete. Noite inesquecível? Mas, o que significava aquilo, afinal?! Respirou fundo, e em silêncio, continuou vasculhando o envelope.
_Amor, eu tô com uma preguiça de desfazer isso agora. Acho que vou tomar um banho, e pedir alguma coisa para jantarmos, o que você acha? – Clara continuava seu diálogo com a namorada, sem se dar conta de que ele já havia virado um monólogo há tempos.
_Linda, você esses dias disse que nunca me trairia. Lembra? – perguntou, com a maior naturalidade do mundo.
_Claro! Mas... Por que esse assunto agora? – por mais que tentasse manter a voz calma, não conseguia disfarçar o susto, tampouco o incômodo com aquele tema rondando sua relação novamente.
_Tem certeza disso? – a voz de Marina continuava igual. Fria. Sem um pingo de emoção.
_Amor, você tá me assustando! – Clara colocou-se em pé, girando o corpo para que ficasse de frente para a namorada – Claro que eu tenho certeza! Já disse mil vezes, quero só você na minha vida! Por que?
_Que bom, Clara! Então, me faz um favor? – pediu, olhando-a nos olhos e erguendo uma das inúmeras fotos que tinha em mãos – Me explica o que quer dizer isso aqui!
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