Velvet Touch
8 O Namoro
Notas iniciais
O relógio marcava duas da manhã quando Marina finalmente chegou a sua casa. Ela e Vic tiveram problemas com o voo devido ao mau tempo que fazia em Paris, e a chegada que estava prevista para às dez da noite acabou sofrendo grandes atrasos. Ambas estavam exaustas e voltaram para o Brasil cheias de malas devido as compras e presentes ganhos em sua passagem pela Europa. Marina, mesmo estando longe do velho continente por algum tempo, ainda era queridinha por lá, mantendo o seu trabalho em alta com os críticos locais. Nos últimos dias os jornais estavam a bombardeando querendo saber qual era a sua real relação com Victória, já que toda a mídia local sabia e prestigiava o relacionamento que ambas tiveram no passado. Ambas recusaram-se a falar sobre isso, e Marina na verdade nem poderia faze-lo. Afinal, como é que poderia dar uma declaração para a imprensa, se nem ela mesma sabia o que é que estava vivendo com Vic naquele momento?
Durante os dias que ficaram em Paris, Vic foi o amor de sempre. Fazia de tudo para agradá-la, mas sem forçar a barra. Apenas por gostar de vê-la sorrir, e fazer parte do motivo de seu sorriso. E sim, ela conseguiu fazer com que a fotógrafa voltasse a sorrir durante todos aqueles dias. Foram em seus bistrôs favoritos, parques, restaurantes, piquenique ao pé da torre eiffel, e se não fosse suficiente na noite anterior a de volta ao Brasil, a loira mexeu seus pauzinhos e conseguiu reservar o Café Marly, um charmoso bistrô localizado em frente ao Museu Louvre e um dos mais balados de toda Paris, para um show intimista com a cantora Juliette Katz, a preferida de Marina na cidade luz.
A loira não a pressionou em nenhum momento em relação a compromisso ou qualquer outra coisa, e pela primeira vez em muito tempo Marina conseguiu deitar a cabeça no travesseiro e se sentir leve. Não que a fotógrafa não tenha pensado em Clara durante esse tempo, muito pelo contrário. Havia pensado muito mais do que gostaria, e trazia na bagagem para casa uma saudade sufocante em seu peito. Por diversas vezes quis ligar para a assistente, mas conteve-se e optou por curtir os momentos que estava vivendo ao lado de Vic. Apesar da falta que aquele sorriso havia lhe feito, Marina tinha que admitir que ficar longe de todo o drama que Clara trazia consigo a tinha feito muito bem.
Victória terminou de subir as malas e partiu para um banho rápido enquanto Marina, sem nenhuma coragem de desfaze-las aquela hora, as organizava em um canto do imenso quarto. Ela ainda não sabia muito bem como as coisas ficariam entre ela e a loira, mas havia insistido para que Vic permanecesse hospedada em sua casa, e dessa vez não lhe ofereceu o quarto de hóspedes e sim o seu próprio, deixando o convite irresistível para a professora. Saindo do banho, Vic encontrou a fotógrafa dormindo, exausta. Como Marina tinha adormecido com a mesma roupa que chegara, a loira tirou seus sapatos e a calça jeans que usava, ouvindo-a resmungar entre uma coisa e outra. Resolveu não correr o risco de acordá-la apenas ajeitando-a na cama e depois de se considerar a pessoa mais sortuda do mundo por poder estar ali, deitou-se ao seu lado e a abraçou, entregando-se ao mesmo sono sereno e cansado que sua pequena desfrutava.
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Clara levava Ivan para a escola ainda sem conseguir tirar aquele sonho maluco de sua cabeça. Era como se ainda pudesse sentir o gosto dos lábios da fotógrafa devorando os seus, e os arrepios que o seu toque lhe causava, mesmo sem ainda tê-la tocado daquela maneira. Após deixar o filho na escola, seguiu para o bistrô de Cadu, pois tinha combinado de se encontrar com o marido para conversarem a respeito de como ficaria a rotina do Ivan, bem como sobre os papéis do divórcio. Assim que chegou ao galpão avistou Luíza perdida por ali, como já era de costume.
_Oi Lu. Tudo bem? — perguntou aérea, com os pensamentos divagando para santa teresa com uma facilidade ímpar naquele dia.
_Oi tia! Eu estou bem e você? Como está hein? Eu fiquei sabendo e meio sem entender também... Poxa, que chato! — disse a estudante sem saber que Clara não fazia a mínima ideia do que ela estava falando.
Antes que pudesse perguntar para a sobrinha do que se tratava, ouviu a voz de Cadu atrás de si. Ele soava animado e extremamente bem disposto.
_Clara... Você já está ai!
_Sim. Combinamos às 8h, então já estou aqui. Onde podemos conversar? — respondeu seca.
_Pode ser no meu escritório lá dentro. Assim temos mais privacidade — disse indicando com o braço para aonde deveriam seguir.
Clara o acompanhou, torcendo para que aquele martírio terminasse logo e fosse o mais indolor possível, principalmente para o seu bichinho. Assim que entraram no escritório Cadu assumiu um ar irônico e quase zombeteiro.
_É minha querida, parece que ela prefere as loiras e ricas! — disse entregando-lhe o exemplar de uma dessas revistas sensacionalistas de fofoca.
Clara pegou o exemplar em suas mãos e ficou pálida ao ver a notícia que estampava a capa. Não queria acreditar na imagem que seus olhos captavam. Era ela, a sua Marina aos beijos com Victória em um bistrô no Louvre, e abaixo da foto que parecia ter sido tirada de forma não autorizada, em letras garrafais lia-se a frase: ELAS ESTÃO DE VOLTA!!! A assistente perdeu completamente a fala. Sabia que corria esse risco desde o momento em que Marina aceitara ir viajar com ela para Paris, mas, não podia dizer que isso amenizava o choque de receber essa notícia, ainda mais assim. Por uma revista que lhe fora entregue por Cadu. Percebendo o choque e a decepção nos olhos da esposa, o chef não perdeu tempo.
_Eu te falei várias vezes Clara! Eu te avisei que ela só queria você na cama dela e pronto. Eu falei que ela não prestava. Acredita em mim agora? — disse irônico — você jogando toda a sua vida para o alto pelo que? Por quem? Ela nunca te amou como você pensou um dia. Eu cansei de falar para você que só seria mais uma na cama dela. Que nada disso valia a pena!
_Cadu, cala a boca. Pelo amor de Deus! Você não sabe nada da vida da Marina para vir acusá-la desse jeito — as lágrimas começaram a escorrer por seu rosto ao pronunciar o nome da fotógrafa — você não sabe de nada — repetia tentando mais convencer-se a si mesma de que as coisas não eram como o esposo fazia questão de lhe esfregar na cara naquele momento.
_Eu não acredito que depois de tudo isso você ainda esteja chorando por ela! Será que você não percebe o absurdo de tudo isso? — perguntou indignado com o estado que Clara ficara ao receber a notícia do envolvimento de Marina com Victória.
_Realmente Carlos Eduardo, eu nunca pensei que você fosse tão insensível. Você pode não concordar ou não compreender, mas poderia ao menos respeitar a dor alheia.
_Dor alheia? Ai Clara, poupe-me desse drama adolescente — debochou — Vou deixar você ai com suas lágrimas e não falaremos mais em divórcio. Vou te dar a chance de repensar todos os absurdos que me disse aquela noite e conversaremos depois. Assim que você voltar a ser adulta e recuperar a sensatez!
Clara não tinha forças para se concentrar e elaborar uma frase em resposta, portanto deixou que o esposo saísse sem lhe dizer mais nada. A revista ainda estava em suas mãos e por mais que lhe cortasse o coração, decidiu ler toda a matéria.
"Victória Bouvier e Marina Meirelles parecem ter voltado as boas. Victória que até pouquíssimo tempo atrás estava envolvida com Stephanie Gonzalez, modelo com quem trabalhou em sua última exposição fotográfica e de apenas 20 anos de idade, retomou seu relacionamento com sua ex-aluna de fotografia, a já internacionalmente conhecida Marina Meirelles, atualmente residente no Brasil. Ambas estavam em clima de lua-de-mel em uma noite bem especial e romântica que Victória preparou para sua amada ontem no Marly, seu bistrô preferido em toda a Paris. Com direito a show de Juliette Katz e muitos beijos roubados, a loira e a morena curtiram a noite Parisiense juntinhas, demonstrando que por mais que não tenham confirmado seu relacionamento abertamente, voltaram sim a ser aquele casal lindo e fofo que não há muito tempo arrancava suspiros e olhares desejosos de toda a Europa."
Clara levou as mãos ao rosto, tentando enxugar as lágrimas que escorriam descontroladamente por sua face. Pelo canto do olho pôde ver a expressão vitoriosa do marido que espiava do lado de fora da sala, e sentindo-se completamente sufocada saiu de lá o mais depressa que conseguiu. Além de ainda estar cedo demais, não tinha cabeça para ir ao estúdio naquele momento, e resolveu ir até a praia para esparecer.
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_Marina... Marina! — chamava uma indignada Vanessa pela milésima vez do lado de fora do quarto.
_Já vou, já vou... — respondeu a fotógrafa irritada por ser acordada tão cedo — Oi Vanessa! Pronto, o que foi menina? Vai tirar o pai da forca? — perguntou sorrindo e abraçando a ruiva. Tinha sentido saudades de seu jeitinho rabugento durante os dias que ficaram longe uma da outra — Aconteceu alguma coisa, ou é só saudade mesmo bocó?
_É claro que eu tô morrendo de saudade de você Marina! Mas, não seria louca de te acordar a essa hora só por isso. Então, bom... — disse entregando a revista para a fotógrafa — acho que você não vai gostar muito do tom da reportagem. A não ser que seja verdade, é claro — falou curiosa, mas sem querer saber de verdade.
_O que? Mas... Gente... — Marina estava perplexa.
_Imaginei pelo ângulo que essa não fosse uma foto autorizada por vocês — pigarreou tentando sem sucesso disfarçar o ciúmes em suas palavras — Marina... É verdade? Vocês... Reataram?
_Eu... É... Bom... Nós não falamos nada sobre isso ainda, e... Eu preciso conversar com ela agora. Ai, Deus!!! Isso saiu só aqui no Brasil Van?
_Já tá na internet desde cedo, e pelo que eu vi essa reportagem é na verdade uma cópia de uma que saiu na Closer francesa.
_Na Closer??? Não acredito! Ai meu Deus Van... O meu pai... Quando eu penso que as coisas aquietaram na minha vida, lá vem mais uma bomba! — disse apreensiva pela reação de seu pai as fotos que provavelmente já tinha visto ou veria em breve — Van... Eu, preciso conversar com a Vic sobre isso. Vê com a Flavinha se isso já está repercutindo em algum aspecto. Daqui a pouco eu desço — disse voltando para o quarto.
_O que foi pequena? Tá tudo bem? Que cara é essa? — perguntou Vic ainda sonolenta enquanto Marina lhe passava a revista.
_Vi, você não tem nada a ver com isso, tem? — perguntou.
_É sério mesmo essa pergunta? É mesmo pra te responder? — retrucou a loira, indignada com a insinuação mesmo que mínima feita pela fotógrafa.
_Desculpa. É que eu tô meio em choque... Era um evento fechado! Como?
_Ué Mari, quantas vezes isso já não aconteceu com a gente? Esses caras são malucos, quase se matam por uma foto dessas. Os famosos furos. E também, vamos combinar que não dificultamos né?! O Marly é todo de vidro lá no terraço, não é difícil adivinhar de onde veio a foto.
_Vi... Meu pai... Ele vai querer me matar! Você sabe muito bem como ele é com as questões relacionadas a minha sexualidade, ainda mais quando me exponho desse jeito! Isso tá na Closer Vi. NA CLOSER! — disse Marina descontrolando-se.
_Calma pequena. Calma! Vem cá — abraçou-a e no mesmo instante seu celular tocou — É o Dani. A coisa já deve ter repercutido — falou ao ver o nome de seu relações públicas piscando no visor do aparelho.
_Oi Dani. Já tô sabendo!
_Pois é dona Victória! Você está ficando maluca ou o que? Mal acaba de sair de um relacionamento, que diga-se de passagem já era um escândalo e repercutia todo dia nessa vida e ai você de repente aparece de novo com a Marina? O que tá acontecendo? Porque eu fiquei sabendo disso pela Closer? — dizia indignado e com seu jeito efeminado de ser.
_Bom, na verdade não é bem assim como está na reportagem né Dani, você sabe muito bem que se estivéssemos mesmo reatado nossa relação, o primeiro a saber seria você. Justamente pra evitar esse tipo de coisa. Olha, preciso desligar. A Marina acabou de descobrir isso aqui também e tá preocupada com o pai e tudo o mais, preciso dar um suporte pra ela aqui.
_Tudo bem, sei bem como é esse seu suporte. Safada! Mas, meu telefone está bombando aqui e querem uma declaração. O que eu falo?
_Por enquanto não fala nada. Eu vou conversar com ela primeiro! Eu te ligo Dani — afirmou, desligando o celular.
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Clara chegou ao estúdio ainda desnorteada. Não sabia se deveria perguntar sobre as últimas notícias para a fotógrafa, mas também não conseguiria recuperar sua paz se não ouvisse da boca dela a confirmação ou não daquela reportagem. Assim que entrou deu de cara com Flavinha, que parecia bastante agitada e atendia muito mais telefonemas do que o habitual.
_Oi Flavinha, bom dia! Tá tudo bem por aqui?
_Mais ou menos. Saiu uma reportagem sobre a Marina... — parou ao lembrar-se do que a matéria tratava — Você... é...
_Eu já vi sim. Hãn... É verdade Flavinha? Elas realmente voltaram?
_Eu não sei Clara, não sei mesmo. Inclusive, estou querendo saber, porque tem muita gente ligando e querendo uma declaração da Marina.
_Hum... Entendi. Ela tá ai? Já acordou?
_Já sim. Tá lá na piscina, acho que falando com o pai no celular.
Sem pensar duas vezes a assistente foi até a piscina procurar por Marina, e deu de cara com as duas lá fora, cada uma em seu respectivo aparelho celular. A fotógrafa não percebeu que Clara estava ali, e discutia quase aos berros com o pai no telefone.
_Para pai. Para! Eu já te falei um milhão de vezes que não vai adiantar dar chilique comigo! As fotos não foram autorizadas. Eu não sabia que estava sendo fotografada e menos ainda que iria parar na Closer no dia seguinte! Que inferno!
_Inferno Marina? Inferno é ter que ver esse tipo de nojeira sua! Até quando você vai se comportar dessa maneira hein? Até quando vai me dar esse tipo de desgosto?
_Desgosto? Você se desgosta por vontade própria e não por minha culpa! Eu já tô cansada desse seu papo. Já falei milhões de vezes que isso não é uma fase. ESSA SOU EU PAI!!! — gritou — Eu não escolhi ser assim. Eu não optei por nada disso. Eu simplesmente me descobri sendo o que sou, e é isso que você não entende. Não é uma escolha! EU SOU GAY GOSTE VOCÊ OU NÃO!!!
_Você só me decepciona mesmo Marina Meirelles! — respondeu o pai, desligando o telefone em seguida.
Marina jogou o celular em cima da mesa, e com as mãos nos cabelos parecia bufar de raiva. Clara percebeu que Victória estava afastada e concentrada demais no assunto que tratava no celular para que as interrompe-se e foi até a cadeira que a fotógrafa estava sentada.
_Oi Marina.
_Oi Clara — disse a fotógrafa abrindo aquele sorriso que amolecia o coração da assistente — Estava com saudades de você! — levantou-se para abraça-la e lhe deu um beijo estalado na bochecha.
_Eu também, quase morri — respondeu a assistente em tom de brincadeira, mas falando mais sério do que nunca — Você tá bem? Sem querer ouvi você discutindo com seu pai.
_Ah Clara, meu pai é cabeça dura demais. Ele acha que minha sexualidade é uma fase, e torce para que um dia simplesmente acabe. Como se eu pudesse mudar minha orientação assim, como se mudasse de roupa. Isso me cansa de um jeito que nem sei dizer.
_Eu imagino — abraçou-a novamente — Hãn... Eu queria conversar com você um minuto. Podemos?
_Podemos sim. Pode falar!
_ Eu... Vi a revista hoje de manhã... E... Queria saber de você. É verdade que vocês voltaram? — perguntou apreensiva com a resposta que poderia obter.
_Ah, você viu... É claro! — Marina tentava disfarçar o susto pela pergunta, e principalmente a falta de resposta que tinha para tal questão — Então, nós na verdade não conversamos sobre nada disso. Eu não nego que estamos bem e que tivemos ótimos momentos juntas em Paris durante todos esses dias, mas ainda não sei te responder isso — disse sincera.
_"Ótimos momentos", é pareciam ótimos mesmo pelas fotos que vi — disse Clara deixando o ciúmes falar mais alto do que a razão — É isso que te encanta? Glamour? É disso que se trata?
_Clara eu não tô te entendendo. Que tom é esse? Que perguntas são essas? — rebateu confusa com o rumo que a conversa tomava.
_Eu achei que você me amasse. Aliás, eu acreditei que você me amasse! Como é que pode me dizer assim, com a maior naturalidade do mundo o quanto está sendo ótimo namorar outra pessoa?
_Epa! Calma, calma. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Não me venha com esse papo ciumento agora não Clara! Quem fica em cima do muro aqui é você! Eu me expus totalmente quando assumi tudo o que sinto por você, e o que tive em resposta? Suas dúvidas e indecisão. Eu também mereço ser amada, sabia? Eu mereço viver também! — falou a fotógrafa, exaltando-se.
Do outro lado da piscina, Victória desligava o celular e voltava toda a sua atenção para a discussão das duas a sua frente. Não tinha tido coragem de pressionar Marina para entender o que se passava entre ela e a assistente, mas pelo tom que a coisa tomava sem que estavam próximas e pelas atitudes que ambas tinham uma para com a outra, Victória percebia que tinha em Clara uma grande rival na luta pelo amor da fotógrafa. Entendendo que presenciava um discussão que provavelmente envolvia a tal capa de revista, Vic decidiu se fazer presente, e caminhou confiante em direção as duas mulheres.
_Eu sei muito bem o que eu quero Marina, e você? Você sabe? Assume logo que era tudo papo seu e que não estávamos falando de amor aquele dia, como eu ingênua achei que fosse! Assume!
_Hei meninas, vocês estão gritando. Está tudo bem por aqui Marina? — perguntou Vic, parando ao lado da amada e encarando Clara nos olhos.
_Hum... Que bonitinha vindo defender a namorada! — ironizou a assistente, sustentando o olhar da loira com raiva.
_Tá Vi. Tá tudo bem sim. Só a Clara que está enlouquecendo e querendo me deixar louca junto com ela! Vem... Precisamos conversar. E temos uma declaração para dar a imprensa ainda hoje — disse puxando Victória pela mão.
_E aí Marina, vai assumir ou não vai o namoro hein?! — perguntou Clara, fazendo pouco caso e irritando Marina ao extremo.
_Você quer mesmo saber Clarinha? — disse sarcástica — Pois bem. Que assim seja! Eu assumirei sim. Se a Vic me quiser, ela me terá! Satisfeita? — declarou, deixando tanto Victória quanto Clara boquiabertas a sua frente.
_Se eu quiser? Eu preciso de você na minha vida, minha pequena! — disse a loira, abraçando-a com força.
_Então você me têm Vic. Vem... Vamos lá pra cima! — respondeu Marina, arrasando com o coração de Clara que já não conseguia mais conter as lágrimas que transbordavam de seus olhos.
–-//--
Os dias de Clara se arrastavam. Desde que as fotógrafas assumiram seu relacionamento, não aguentava mais esbarrar com a loira pelo estúdio, e como se já não bastasse ter que vê-las juntas o tempo todo e saber que ela estava hospedada na casa de Marina, a chefe ainda havia recebido e aceito um convite para realizar uma exposição conjunta com Victória em Londres, dentro de três meses. De prazeroso, trabalhar todos os dias tinha se tornado altamente torturante, e Clara sentia-se como se estivesse prestes a explodir. Não tinha retrocedido em seu divórcio com Cadu, mas as palavras que o chef lhe dissera naquela fatídica manhã não lhe saiam da cabeça. Será mesmo que Marina não a amava de verdade? Será que tudo o que ela havia feito tinha sido apenas para leva-la para a cama? Será que a Marina poderia ser tão baixa assim? A assistente sentia sua cabeça girar enquanto lia pela milésima vez a declaração que ambas tinham encaminhado para a imprensa quinze dias antes.
"Na verdade não queríamos que nosso relacionamento fosse exposto da maneira que aconteceu, mas sim, estamos juntas e felizes novamente."
Essa era a parte que mais lhe doía. "Juntas e felizes".
_Alô, planeta terra chamando! — brincou Ivan, tirando Clara de seu devaneio.
_Oi filho. Desculpa, eu tava aqui distraída... Pensando na vida!
_Eu percebi né. Tô te chamando aqui já tem horas! Vamos embora? Se não o professor vai falar um monte de novo. Você sabe que ele implica quando chego atrasado no judô.
_Tá certo, tá certo. Vamos sim filho, pega sua mochila lá. Olha, quem vai te buscar no judô hoje é seu pai tá?
_Oba! Faz tempo que ele não vem me visitar né mãe?! Tô com saudades!
_É filho, seu pai tá cheio de coisas lá com o bistrô, mas, fica tranquilo que ele nunca esquece de você viu. Nunca mesmo! Ele te ama muito — disse a mãe tranquilizando o garoto.
Ivan pegou suas coisas e quando já estavam no carro, retomou a conversa com sua mãe a respeito do pai.
_Mãe... Porque você e o papai estão brigando tanto?
_Ai filho... É complicado! As pessoas mudam com o tempo, e eu e seu pai não estávamos nos entendendo mais. Isso acontece.
_Hum... Mas, ele fica falando sempre que você tá meio maluca. Com umas ideias malucas na cabeça. Eu fico sem entender nada.
_Ah, ele fala isso pra você é? Bom... Seu pai não consegue acreditar, tampouco aceitar algumas verdades que a vida me impôs filho, e fica se referindo a elas como maluquice — respondeu magoada por descobrir que Cadu referia-se dessa maneira a ela nas conversas com seu filho.
_Entendi. Ah mãe, mas, eu acho que vocês deveriam se acertar, sabe? Mesmo que não voltem a morar juntos, vocês podiam parar de brigar tanto assim. Porque você não conversa com ele?
_Eu também acho filho. Pode deixar que eu vou falar com seu pai, tá?! Prometo!
_Tá. Combinado! — respondeu já descendo do carro em frente a escola de judô.
Após deixar o filho ali, Clara respirou fundo e resolveu marcar uma conversa com Cadu. Ivan tinha razão em dizer que eles tinham que se acertar, afinal, foram companheiros durante tantos anos, e sempre teriam um elo fortíssimo que era o próprio Ivan entre eles. Ligou para o chef e marcou de conversarem em seu apartamento mesmo, no dia seguinte quando ele levasse Ivan para casa. Respirou fundo mais uma vez e voltou a dirigir, tomando o rumo de Santa Teresa e torcendo para que o dia fosse bom, e não visse Victória por ali.
Assim que chegou ao estúdio, percebeu que a sua torcida não tinha surtido efeito, e a primeira cena com a qual se deparou por ali foi a das duas fotógrafas conversando em um canto isolado. Marina gesticulava muito, mas não pareciam estar brigando. Curiosa, a assistente foi para mais próximo de onde estavam e conseguiu ouvir o final da conversa.
_Então amor, é melhor eu ir lá e ver o que está acontecendo. Não vou conseguir contornar essa situação daqui, pelo celular. Mas, eu vou hoje e volto o mais rápido possível, tudo bem?
_Ah, tudo bem né Vi. Vou fazer o que?! Mas, o Dani contou o que essa louca fez?
_Ele só disse q a Stephanie apareceu lá no estúdio, quebrou um monte de coisa e rasgou umas fotos que tinha dela por lá — disse visivelmente chateada com a atitude da ex namorada.
_Aff! Isso é pra você aprender a não namorar crianças mocinha! — respondeu Marina dando risada.
_Engraçadinha! Bom, então eu vou organizar as coisas com meu piloto e vou pra Paris hoje a noite mesmo. Vou morrer de saudade de você pequena! Morrer! — declarou pegando Marina nos braços e selando-lhe os lábios.
–-//--
Clara não aguentava mais aquela angústia que vinha carregando no peito. Tinha sonhado diversas vezes com a fotógrafa nos últimos dias e a lembrança do beijo que dera naqueles lábios macios, lhe atormentava a mente, fazendo seu corpo arder de desejo pela chefe. A assistente andava de um lado para o outro do apartamento com ares de desespero, quando de repente tomou uma decisão. Ivan estava com o pai e segundo a conversa que ouvira mais cedo, Victória não estaria lá aquela noite, portanto poderia ter um momento a sós com a Marina. Correu para o banho, colocou uma lingerie preta, escolheu o vestido mais sexy que achou no guarda-roupa, calçou sapatos de salto alto e caprichou na maquiagem. Por mais que aquele plano parecesse pura loucura, Clara definitivamente se arriscaria.
Chegando a casa da fotógrafa, pediu para que não fosse anunciada, e como todos os funcionários a conheciam, acataram o seu pedido. Clara disparou escada acima, indo direto para o quarto da fotógrafa que assustou-se ao vê-la ali aquela hora.
_Clara... O que você tá fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa? — Perguntou deixando o queixo cair ao ver a produção da assistente. Ela estava linda!
_Aconteceu Marina! Aconteceu! — disse chegando mais perto da fotógrafa — Eu não aguento mais isso... — aproximou-se mais — Eu não aguento mais ficar só imaginando e sonhando em fazer amor com você! Eu não aguento mais ver você nos braços de outra — colou seu corpo ao da chefe — Eu não consigo mais ficar sem sentir o gosto do seu beijo! — declarou envolvendo Marina em um beijo arrebatador e carregado de desejo.
A fotógrafa não sabia o que pensar, e na verdade, naquele momento parecia até ter se esquecido de como é que fazia para pensar em alguma coisa. Clara a agarrava com tanta sede, tanta vontade, que ela não pôde conter-se, segurando com força em seus cabelos e entrelaçando os dedos na nuca da assistente. A dona de casa sentiu naquele gesto a autorização para avançar, e jogou o corpo da chefe de encontro a cama, sem muita delicadeza. Marina delirava enxergando o desejo nos olhos da assistente, e deixava-se levar pelos toques de sua amada, quando de súbito pensou em Vic e no seu sorriso doce.
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