Velvet Touch
32 O Confronto
Notas iniciais
Imediatamente, Marina sentiu o sangue ferver em suas veias. De fato, a última pessoa que esperava ver abrindo a porta da casa de Vic, era Melissa. Mas, no fim, como se aquela mulher tivesse o poder de se materializar em todas as áreas e momentos de sua vida, lá estava ela.
—Educada como sempre – provocou a italiana, sem fazer ideia do perigo que era cutucar a fotógrafa naquele momento.
Respirou fundo. Sabia que se começasse com aquilo não conseguiria parar. Sabia que se rebatesse Melissa pela primeira vez, não conseguiria mais responder bem pelos seus atos. E no final, no fundo, no fundo, a verdade é que tudo ainda pulsava demais em seu peito para que conseguisse encarar a italiana.
Sem que percebesse de fato, respirou fundo mais uma vez, prendendo o ar em seus pulmões. Desviou o olhar da figura de Melissa, e sem se mexer um milímetro que fosse, vasculhou o apartamento a procura de Victória. Não demorou muito, e o castanho de seus olhos logo cruzou com o azul dos dela, e em apenas uma fração de segundo, a loira entendeu tudo o que havia acontecido.
Instantaneamente, mesmo sem saber como, onde, ou porque, Victória simplesmente sabia que a fotógrafa enfim havia ouvido e acreditado na verdade. Sabia que ela estava completamente arrasada. Que aquele era o pior momento, e o pior lugar para ter encontrado com Melissa em toda a sua vida. Via a raiva pela italiana lampejando em seus olhos. Mas, principalmente, sabia o quanto Marina estava magoada consigo mesma, e com ela.
—O que essa filha da puta tá fazendo aqui, Victória? – repetiu a pergunta que fizera anteriormente, direcionando-a especificamente para a dona da casa.
—Ela veio acertar questões da exposição, Mari – respondeu no tom mais calmo, sereno, e pacificador que conseguiu.
—É, e inclusive, se você nos der licença, temos mais o que fazer! – disse Melissa, intrometendo-se na comunicação muda entre as duas fotógrafas – Vamos Vic – completou, dando dois passos para fora do apartamento, indo perigosamente em direção à Marina.
Como se essa afirmação martelasse em sua subconsciência, a fotógrafa mais uma vez teve certeza de que não responderia por ela se aquilo começasse, e por mais fantasiosa, surreal e absurda que a possibilidade pudesse lhe parecer, tentou reencontrar a calma dentro de si.
Como se o tempo tivesse parado, e os segundos ganhado a dimensão de horas inteiras, Marina respirou fundo novamente. Uma, duas, três vezes. Contou até dez em ordem crescente e decrescente, e repetiu inúmeras vezes a palavra “calma” para si mesma. No entanto, como esperava antes mesmo de começar a tentar, Marina falhou miseravelmente em seu propósito.
Inconscientemente, esticou um dos braços em direção ao batente da porta, espalmando sua mão na madeira fria na altura do peito de Melissa, impedindo sua passagem por ali.
—Tá com pressa, Melissinha?! – assistiu as palavras escaparem por sua boca, e como se realmente não controlasse suas ações plenamente, devolveu os dois passos que ela dera em sua direção, colocando-a para dentro do apartamento novamente.
—Mari... Não faça nada que você vá se arrepender depois... – o tom de voz de Vic, soava literalmente como o mais preocupado e carinhoso alerta que alguém podia dar numa situação como essa.
—Fazer alguma coisa que eu possa me arrepender, Victória? – ironizou, dando outro passo para dentro do apartamento e batendo a porta atrás de si – Com essa daqui? – apontou o dedo em direção a Melissa – Com a pessoa que iludiu, drogou, e abusou da MINHA mulher – direcionou o dedo para seu próprio peito, subindo o tom de voz que usava – O que você supõe que eu possa fazer, de que vá me arrepender depois? – perguntou retoricamente, sem desviar seus olhos dos de Melissa.
—Parece que, supostamente, eu deveria estar com medo de alguma coisa aqui, certo Marina? – a italiana devolveu a provocação, sustentando o olhar da outra, e não deixando-se intimidar em nenhum momento.
—Deveria? – a fotógrafa deu mais um passo apartamento adentro – Porque você não conta pra gente o que andou aprontando, Melissinha? – sem perceber, Marina cerrou os punhos.
—Ah, Marina... Sério mesmo?! – riu debochada – Você... – apontou em direção à fotógrafa – Logo você, foi cair no conto do vigário, é isso? – encarou-a de volta – Esperava mais de Marina Meirelles!
—Como você consegue viver consigo mesmo, Melissa? – o nojo que sentia pela outra, era completamente evidente e palpável em cada uma das palavras que Marina proferia – Como você consegue se olhar no espelho?
—Gente, o que é que tá acontecendo aqui? – perguntou Vanessa, cansada de tentar achar respostas na tensão e no silêncio de Victória, e irritada por não entender absolutamente nada em relação a cena que assistia se desenrolar ali – Alguém pode me explicar? – Olhou para a fotógrafa – Marina?
—Acontece Vanessinha, que a nossa amiga Marina aqui, não quer aceitar os fatos! – perdendo de vez a noção do perigo, deu um passo em direção à fotógrafa – E aí, preferiu acreditar em seja lá qual a história que a Clarinha inventou pra ela.
Sem pensar duas vezes ou medir a força que usaria, Marina espalmou o rosto de Melissa num tapa estalado. Assustando tanto Victória, quanto Vanessa, que até o momento apenas observavam a cena.
—Você não ouse falar o nome dela, Melissa. Ou eu acabo com você aqui mesmo! – ameaçou, certa de que cumpriria sua promessa sem maiores esforços ou arrependimentos.
—Uau, estamos bravinhas mesmo hoje, hein?! – provocou rindo, levando a mão ao rosto e sentindo o calor provocado pela tapa de Marina espalhar-se por toda sua face – Pena que você não me assusta, tampouco me intimida Marina!
—Marina... Calma – pediu Vic, aproximando-se de onde as duas estavam – Eu sei perfeitamente como você tá se sentindo agora – encarou-a nos olhos – Mas, isso não vai levar ninguém a nada. Por favor...
—Se sentindo como, Vic? – intrometeu-se Melissa mais uma vez – Mulheres traem todos os dias! O único mal da Marina é ser arrogante o suficiente pra não conseguir aceitar que aconteceu com ela, e que foi comigo!
—Chega Melissa... Chega desse seu teatro imbecil. Fala! – exigiu, cansando da encenação barata que a outra fazia – Fala a verdade! – apontou o dedo no rosto da italiana – Admite o quão podre você é! Quão baixo você consegue ir, só pra ter o que não te pertence! Só pra ter alguém que não te quer, e que nunca te quis! Vai... ADMITE AGORA! – berrou.
—A verdade Marina? É isso que você quer? – a italiana gritava de volta – Pois a verdade é que a sua querida namoradinha foi com as próprias pernas para a minha casa naquela noite.
—Pra sua casa sim, mas pra sua cama NÃO! E essas são duas coisas completamente diferentes, Melissa! – rebateu confiante, sem pestanejar.
—Te garanto que as mesmas pernas que a levaram até a minha casa, a guiaram até a minha cama. Sem ajuda nenhuma! – mentiu descaradamente, lembrando-se da noite em que tudo acontecera, e de como a assistente tinha ido parar realmente em seu quarto – Por sinal, depois daquela noite com a Clarinha, sabe que eu acabei comprovando muita coisa a seu respeito Marina?! – se a ironia fosse líquida, escorreria lentamente dos lábios da italiana.
—Ah é, Melissa? Como o que, por exemplo? – sabendo que daí não podia sair coisa boa, respirou fundo pela milionésima vez.
—Principalmente o bom gosto, digamos assim – sorriu maliciosa e desafiadora – Depois de provar, da pra entender perfeitamente porque você escolheu a Clara para ser a bola da vez – automaticamente, deu um passo para trás, esperando por uma tapa, que, para a sua surpresa, não veio.
Marina a encarou nos olhos, cerrando involuntariamente os dentes em sua boca. As cenas das fotos, a imagem do quadro, os sons do vídeo das duas juntas, corriam por sua mente como uma locomotiva desenfreada. Lembrou-se de poucas horas antes. Lembrou-se de Clara totalmente fragilizada, quebrada, inconsolável, deitada em seu colo e soluçando de chorar por tudo aquilo.
Não conseguia raciocinar. Não conseguia escolher o que fazer. Não era fácil não perder as estribeiras rápido perto de Melissa, ainda mais em uma situação como aquela. Queria dar corda o suficiente para que a italiana se enforcasse sozinha, assumisse o que tinha feito, e aproveitar o testemunho de Victória e Vanessa para aquela confissão, na mesma proporção que queria simplesmente partir para cima de Melissa, e arrebentar com a cara de cínica daquela mulher. Engoliu em seco.
—A imensa diferença entre nós duas, Melissa, é que eu, nunca precisei tomar nada da Clara. Nada! Ela sempre me deu tudo. Nada do que já tive, e tenho dela hoje, foi minimamente arrancado, invadido, ou tomado à força! – sem intervalos, continuou a encara-la – Repito: como você consegue se olhar no espelho, sendo a pessoa que você é? Como consegue conviver com você mesma, sendo esse ser humano ridículo, nojento, e mesquinho? – mais uma vez o nojo e o desprezo que a fotógrafa sentia pela italiana ficava evidente em cada palavra que pronunciava.
—Repito: não é culpa minha se você não conseguiu dar conta da “sua mulher”, Marina – desenhou aspas no ar – Não é culpa minha você não conseguir aceitar que dessa vez, a balança pesou contra você. Que dessa vez, não foi você que traiu, mas sim a que foi traída – provocou, apontando o dedo em direção a outra – Não é culpa minha se ela aceitou meu convite e foi até a minha casa, tampouco se depois do nosso agradável jantar, se sentiu confortável e disponível o suficiente para subir as escadas em direção ao meu quarto, e a minha cama!
—Chega Melissa, CHEGA! – exaltou-se Marina, cansada da encenação que obrigava-se a assistir até ali – Você não precisa mais sustentar esse seu teatrinho besta! Admite Logo! Assume aqui pra gente o quão podre você é!
—Admitir o que Marina? – perguntou num tom igualmente cansado – Admitir que eu queria mesmo a Clara na minha cama, e não apenas jantando comigo naquela noite? – encarou a outra mais uma vez – Pois bem, eu admito! Mas, me diz, qual a novidade pra você nisso?
—Novidade? Pra mim nenhuma, Melissa. Realmente nenhuma! Você nunca fez questão de esconder o quanto era importante para o seu ego conseguir roubar a Clara de mim – disse, jogando os braços para o ar – De mim, você nunca escondeu! Me desafiou desde o primeiro momento em que me viu. Mas, pra ela você mentiu! – acusou – ASSUME!
—A Marina, me poupe! Sempre ficou muito claro qual era meu interesse na Clara. Claro para você, e claro para ela! – afirmou, com a maior calma e cara de pau do mundo – E mesmo com essa clareza toda, a verdade é que a sua namoradinha nunca conseguiu se afastar completamente de mim – disse, desafiando-a claramente – Antes de vir aqui dar showzinho e me acusar sabe-se lá exatamente de que, você já se perguntou o porquê disso tudo? Já se perguntou por que ela aceitou o meu convite afinal? Aliás, já se perguntou por que ela não te convidou para acompanha-la até lá?
—Não foge pela tangente, Melissa! Não tente responsabilizar quem nem aqui está para se defender! E outra, o que é problema meu e dela, eu resolvo com ela, e não com você! – Marina sentia que a qualquer momento perderia o fio de controle que ainda tinha.
—Fugir pela tangente? Estou te fazendo perguntas simples, Marina! Você é que entrou aqui dona de uma razão inabalável, acreditando em sei lá eu qual conto de fadas que a Clara inventou pra você – acusou, fingindo uma indignação tão genuína, que beirava a ser digna de Oscar – Me exigindo supostas verdades, que, de fato, você se recusa a ouvir! – riu, debochada – Olhando para um lado só da história, fica fácil de acreditar no que for mais confortável, mais tragavel. No entanto, você acreditando ou não, nada vai mudar o fato de que sua querida namoradinha, foi sim com as próprias pernas para a minha casa aquela noite! – afirmou categórica.
— Ela foi até a sua casa por que você a enganou, e sabe muito bem disso! – aproximou-se um pouco mais da italiana, encostando a ponta de seu dedo bem no centro do peito da outra, sentindo o resto que ainda tentava manter de controle se esvair lentamente de seu corpo – Você cercou a minha mulher de todas as formas. Você expos o meu passado pra ela da forma mais leviana possível. Você teve a pachorra de convidar ela para posar pra você – a cada afirmação que fazia, a fotógrafa lembrava-se de um novo motivo para sentir raiva da mulher a sua frente, e pouco a pouco, foi deixando com que esse sentimento tomasse conta de si – Você mentiu, enganou, ludibriou e usou da boa fé genuína que a Clara tem nas pessoas. Você fingiu estender uma bandeira branca para leva-la até sua armadilha – a mão de Marina que estava livre, fechou-se automaticamente, cerrando seu punho com toda a força que tinha – Você teve a indecência e o mau caratismo de tentar destruir a nossa relação desde o início, desde o momento em que a conheceu. Você fez da Clara um troféu a ser conquistado. A linha de chegada de algum tipo doentio de joguinho de poder que decidiu jogar comigo. Você usou a MINHA mulher pra me atingir. Pra tentar mostrar que pode mais do que eu, ou qualquer imbecilidade do tipo! – desencostou seu dedo do peito da italiana, levando-o em direção a seu rosto – Você, Melissa, me dá nojo! Você me dá pena! Mas, pro seu azar, mesmo com dó de alguém como você, minha paciência e minha tolerância tem limite, e eu, sem dúvida nenhuma, não sou a mais nobre das criaturas.
Sem que tivesse efetivamente calculado esse momento, sem pensar ou tentar se conter mais, com a mão que pairava ansiosa ao lado de seu corpo, Marina golpeou o rosto de Melissa sem dó.
Mesmo que esperasse por algo parecido em algum momento, o impacto do soco acabou por pegar a italiana de surpresa, e não havendo nada para apoiar-se imediatamente as suas costas, desequilibrou-se antes mesmo de sentir o baque do segundo soco de Marina lhe atingir em cheio.
A fotógrafa viu o corpo da outra ir de encontro ao chão. Sem raciocinar por um segundo que fosse, montou em seu quadril, e não parou o que estava fazendo, desferindo socos fortes e relativamente desordenados que acertavam ora o rosto, ora a boca, ora as mãos e até os ombros da italiana.
Meio desnorteada, Melissa tentava inutilmente segurar Marina. Vendo que não teria sucesso e menos ainda força para revidar ou parar os punhos da fotógrafa, concentrou-se em tentar proteger seu rosto. Sentiu os ossos da mão da fotógrafa acertarem sua boca em cheio, e automaticamente percebeu seu lábio inferior rasgar de cima a baixo. A dor era latejante, e por um segundo, percebeu suas vistas escurecerem.
Marina, por sua vez, não sabia de onde havia tirado tanta força, e mesmo após sentir o sangue quente e viscoso que jorrava da boca de Melissa escorrer por entre seus dedos, não deixou de repetir o movimento contínuo de seus punhos. Sem pensar nas consequencias bateu mais uma, duas, três, quatro, cinco vezes.
Estava literalmente descontrolada e cega por tudo o que transbordava em seu coração naquele momento. No fundo, sabia que tinha que parar o que estava fazendo, mas a memória de tudo o que aquela mulher a tinha lhe feito passar, de todo o mal que causara em seu relacionamento, da imagem de Clara chorando inconsolavelmente em seu colo, não a deixavam raciocinar.
Não saberia dizer exatamente em que momento esse botão havia se acionado dentro de si, tampouco podia afirmar se, de fato, teria parado o que estava fazendo, caso Victória não a tivesse agarrado e arrancado de cima da italiana, arrastando-a a força pelo corredor em direção ao seu quarto.
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Clara acordou desnorteada, como quem desperta assustado de um pesadelo conturbado. Levou alguns segundos para perceber onde estava, e localizando-se no sofá de sua sala, percebeu que não tinha a mínima noção de por quanto tempo havia dormido por ali. Assumiu o risco de espreguiçar-se, e ouviu seu corpo inteiro estalar. Seus músculos doeram um a um, como se quisessem ter sua existência lembrada individualmente. Sua cabeça pesava quilos, e podia sentir seus olhos igualmente pesados e inchados em seu rosto.
Tateou pelo sofá, procurando com as mãos o corpo magro sobre o qual adormecera horas antes, e não achando nada, estranhou a ausência de Marina por ali. Com muito esforço, chamou pelo nome da fotógrafa, e não obtendo resposta nenhuma, levantou-se de onde estava e partiu a sua procura pelo apartamento. Procurou em seu quarto, no quarto de Ivan, no banheiro, na cozinha, e nada.
Por um segundo, por mais surreal que parecesse, pensou que a noite anterior e a discussão de horas antes pudessem ter sido apenas um sonho, ou sua mente lhe pregando uma peça de muito mau gosto. No entanto, antes que pudesse acreditar na maluquice da própria teoria, assim como acontecera tempos atrás, no fatídico dia em que Cadu tomara a infeliz decisão de atirar em Marina, um mau pressentimento acompanhado de um frio na espinha lhe acometeu de súbito.
Dessa vez, ela sabia em seu coração que não podia ter nada a ver com Ivan, e se não podia ter nada a ver com seu menino, só podia ser com a sua fotógrafa. Automaticamente, correu até seu quarto, e revirando cada canto da cama achou seu celular escondido por entre os lençóis bagunçados. Voltou para sala, e enquanto discava o numero de Marina no visor do aparelho, já inquieta, começou a andar de um lado para o outro do apartamento.
Porque ela tinha ido embora afinal? Será que tinha acontecido alguma coisa? Será que a Marina tinha desacreditado novamente do que ela dizia e simplesmente saído de sua vida mais uma vez? Enquanto ouvia o som de chamada no celular, a cabeça de Clara girava. Aflita, esperou pela terceira vez consecutiva todos os toques se encerrarem, e a voz de Marina surgir doce e meiga em sua caixa postal.
Deixou recado pela milésima vez, quando de repente, sua mente deu um click. “Meu Deus, ela foi atrás da Melissa!”. Conhecendo sua namorada como conhecia, era tão óbvia que essa poderia ser uma reação de Marina, que Clara realmente não sabia como não tinha pensado nisso antes.
Instantaneamente seu coração apertou no peito. Definitivamente não estava disposta a voltar à casa de Melissa por nada nesse mundo, mas quando o assunto era Marina, tudo era superável e contornável. Respirou fundo. Contou até dez. Tirou mais uma vez seu celular do bolso, e agora discava o número de Victória na tela, afinal, se ela teria que fazer uma missão de resgate em território inimigo, que pelo menos fosse acompanhada de aliados.
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Mesmo sob a contenção esforçada de Vic, Marina não desistia de tentar soltar-se da loira e voltar até a sala. Tinha perdido de vez todo e qualquer tipo de controle que um dia pudesse ter tido em relação à Melissa, e neste momento, a única coisa que queria era voltar à posição que estava antes, e sentir novamente seus punhos indo de encontro ao rosto da italiana.
—EU VOU ACABAR COM VOCÊ MELISSA!!! – berrava pelo corredor do apartamento.
—Para Marina! Você tá descontrolada! CHEGA! – Vic berrou de volta, tentando trazer um pouco de lucidez a mente de sua ex-aluna, no entanto, naquele momento, Marina estava realmente fora de si.
—Você vai pagar pelo que fez com a Clara, sua filha da puta! – continuou a berrar – ME SOLTA, VICTORIA!!!
Depois de muito custo, Vic conseguiu arrastar Marina até que chegassem ao seu quarto, e num movimento rápido, trancou a porta atrás de si.
—O que você tá fazendo, Victória? Tá protegendo aquela filha da puta? É isso?
—Pode parando por aí, Marina! Sabe muito bem que não tem nada disso, e se eu estou tentando proteger alguém aqui, esse alguém é você! – disse apontando em direção à fotógrafa.
—Me proteger de quem, Victória? Tá maluca? – perguntou, indo em direção à porta do quarto – Eu vou voltar pra lá agora! Aquela filha da puta vai pagar pelo que ela fez!
—TE PROTEGENDO DE VOCÊ MESMA! – gritou em resposta – Você NÃO vai sair desse quarto até recuperar a sua lucidez, Marina!
—Recuperar a minha lucidez? – perguntou retoricamente – Eu acho que eu nunca mais vou conseguir recuperar minha lucidez Victória! – levou às mãos a cabeça – E VOCÊ SABIA DISSO TUDO!!! – apontou em direção à loira – Você sabia desse absurdo todo e não me disse nada! – acusou – Porque, Victória? Por que você me deixou fazer o que eu fiz com a Clara? POR QUÊ? – o desespero, a culpa, e a raiva eram evidentes no tom de voz da fotógrafa.
Victória sentiu o baque. Sabia que isso aconteceria, mas, sabia também que aquelas acusações não lhe cabiam por inteiro. Sabia que essa culpa não era 100% dela. Mas, sabia também que não adiantava tentar argumentar sobre nada naquele momento, pelo menos não com a Marina naquele estado.
—Desculpa, Marina – foi o máximo que conseguiu dizer – Me desculpa!
—Desculpar? Como eu posso te desculpar? Como a Clara pode me desculpar um dia? COMO? – perguntava mais para si mesma do que para a francesa – Porque, Victória? Me dá UM motivo plausível pra você não ter me contado isso! UM!
—Você estava cega e surda, Marina! Você não quis ouvir ninguém!!! – rebateu, sem conseguir deixar aquela pauta para depois – Você não deixou a Clara falar, você não me deixou falar! Você só quis saber dos supostos "fatos" que tinha em mãos – desenhou aspas no ar.
—Você deveria ter tentado!!! – cuspiu as palavras – Me assistiu escorraçar a Clara da minha casa, da minha vida! Me ouviu prometer esquecer que ela existe! Me viu jogar com a Paula, atrás de distração! – acusou, apontando o dedo em direção a outra – E VOCÊ TAVA LÁ ASSISTINDO TUDO ISSO!!! CALADA!!! EU CONFIAVA EM VOCÊ, VICTÓRIA!!!
—EU TENTEI FALAR COM VOCÊ, SIM!!! – respondeu no mesmo tom – Tentei argumentar, te fazer pensar por outro lado, olhar de outro ângulo. Tentei te contar tudo, mesmo com a Clara tendo me pedido segredo, eu tentei! Mas, você rebateu tudo, sem nem pensar a respeito! Não quis ouvir o que eu tinha pra te dizer – acusou de volta, apontando em sua direção – E por mais que agora você queira achar que não, você sabe muito bem disso tudo! Não coloque a prova confiança ou qualquer outra coisa que você possa se arrepender depois!
—Segredo? Porque a Clara te pediu segredo sobre uma coisa dessa? – perguntou confusa, sentindo as verdades despejadas pela outra lhe acertarem em cheio – Porque ela não queria que eu soubesse? Ela... Como assim?
Por mais que Marina não quisesse o discurso da loira repercutia dentro de si, e o peso das palavras que ouvira, pareciam querer mata-la lentamente, pouco a pouco. No fundo, mesmo por trás de uma cortina de fumaça criada pela raiva, a fotógrafa sabia que Vic estava redondamente certa.
Sabia que ela era a única responsável por não ter sabido antes de tudo aquilo. Sabia que era a única responsável por ter tratado a mulher que amava do jeito que tratou. Sabia que por mais que tentasse e quisesse culpabilizar alguém, que aquele título era dela própria.
Involuntariamente, deu dois passos para trás, indo em direção a cama. Assim que sentiu seus calcanhares tocarem o colchão atrás de si, sentou-se, visivelmente abalada com tudo o que rodava em sua cabeça naquele momento.
—Eu não sei – respondeu sincera – Ela me pediu para não falar com você sobre isso, dizendo que queria primeiro ter como provar o que estava dizendo! – aproximou-se da fotógrafa, sentando-se ao seu lado na cama – Vocês conversaram? – embora ainda buscasse se recompor de toda a adrenalina de momentos antes, perguntou no tom mais calmo que conseguiu.
—Conversamos... – Marina baixou a cabeça – Ela me contou tudo. Ela... Tá arrasada, Vic! Arrasada! E, eu... Eu não sei lidar com isso – desabou, caindo no choro – É culpa minha! Tudo culpa minha! Como eu pude fazer uma coisa dessa? COMO? E logo com a Clara, meu deus!!! – indignou-se consigo mesma.
—Não é bem assim, a culpa não é sua, Marina! Calma! – passou os braços em volta do corpo da fotógrafa, apertando-a contra o seu peito – Você errou sim. Não ouviu sua mulher, não deixou ela se explicar, mas não foi você que fez com que ela ficasse arrasada assim – As lágrimas de Marina banhavam o colo de Victória – Você vai precisar ser forte agora. Socar a Melissa até a morte não vai levar ninguém a nada, meu anjo! A Clara precisa de você!
—Como ela pode precisar de mim, Vic? – chorava feito criança – Eu, e todas as minhas atitudes, são parte fundamental no que ela está passando agora! Eu deveria era correr para o mais longe possível dela!!!
—E deixar a mulher que você ama despedaçada? Sozinha? – segurou o queixo da outra – Você errou, Marina. Mas, se em algum momento foi você a responsável pela dor ou pelo choro da Clara, tenha certeza de que, no fim, só você vai ser o remédio que ela precisa pra se curar de tudo isso! – limpou as lágrimas que escorriam pelo rosto da fotógrafa – Ela te ama. Ela te ama muito! Eu vi o desespero dela, Marina. Eu vi que o maior medo daquela mulher era você nunca mais voltar pra vida dela!
Antes que Marina pudesse se recompor, responder, ou minimamente assimilar tudo o que Vic lhe dizia, o som da campainha assustou a ambas.
—Quem será agora?! – perguntou-se retoricamente a francesa, cansada de surpresas e encrencas batendo a sua porta naquela manhã, e já sem saber quem mais tinha o endereço dali.
No entanto, antes que tivesse tempo para imaginar quem chamava do outro lado da porta, o som estridente da campainha já soava novamente pelo apartamento. Indagou-se sobre o motivo de Vanessa não atender quem quer que fosse, já que estava na sala, e quando pela terceira vez o insistente e impaciente toque da campainha gritou novamente, Vic fez Marina prometer que não sairia de onde estava, e deixando-a sozinha no quarto, decidiu ir ver quem era.
No rompante de arrastar e segurar Marina em seu quarto, Vic não tinha reparado na cena que ficará para trás, e agora, dava-se conta do quanto sua sala parecia o cenário mal arrumado de alguma gravação de Grey’s Anatomy. Tinha sangue no tapete, no chão, e o corpo de Melissa continuava estirado exatamente na mesma posição que Marina deixara. Vanessa, por sua vez, estava estática e atônita. Nunca tinha visto Marina agir daquela maneira, e sem dúvida nenhuma sua expressão era a de mais puro choque.
—Amor... – chamou Vic, aproximando-se da ruiva, que permanecia em silêncio – Van... A porta amor... – tentou chamar sua atenção para a campainha – Vê quem é pra mim? – pediu, delicadamente e agora já extremamente preocupada com Melissa.
—Ela... – apontou em direção a italiana – Não se mecheu ainda! – ainda sem saber o porque de tudo aquilo, a expressão de Vanessa traduzia perfeita e literalmente todo o seu espanto em relação a cena que assistira minutos atrás.
—Tudo bem amor – apesar da própria apreensão, tentou tranquiliza-la – Eu vou lá ver como ela tá, só vê quem é na porta pra mim. Por favor...
Lentamente, como se não conseguisse fazer com que suas pernas e pés se movimentassem da forma que gostaria, Vanessa se arrastou em direção a porta, porém, antes mesmo que chegasse até a madeira escura que a separava da pessoa do lado de fora do corredor, ouviu a voz de Clara chamar pelo nome de Victória.
Sem pensar duas vezes, a ruiva girou a chave e abriu a porta o mais rápido que pôde. Sem saber do furacão que já havia passado por ali, Clara entrou despejando o motivo pelo qual tinha ido até lá.
—Vic, você precisa vir comigo, a Marina foi atrás da Meli... – interrompeu-se assim que se deu conta da cena a sua frente. Automaticamente levou uma das mãos até a boca – Meu deus do céu!!! O que aconteceu aqui? A Marina... Ela... – não conseguia organizar suas ideias – Cadê ela?
—Tá lá no meu quarto, Clara – respondeu Vic de pronto, percebendo a preocupação gritante nos olhos da assistente – Ela tá bem!
Sem pensar duas vezes, ignorando toda a cena de horror que se desenrolava na sala de Victória, correu até o quarto.
—Marina? – perguntou afoita, entrando no cômodo rapidamente – Amor, você ta bem? O que você tá fazendo aqui? Porque me deixou sozinha? O que aconteceu na sala? – imendou uma pergunta atrás da outra, analisando, abraçando, e apertando o corpo de Marina junto ao seu – Você que fez aquilo com a Melissa? Ela te bateu? – passou os dedos por seu rosto, analisando cada pedacinho de Marina – Você ficou maluca?
—Tá tudo bem, amor. Ela não conseguiu encostar em mim, eu tô bem! – passou os braços pelo pescoço de Clara, envolvendo-a em um abraço apertado.
—Marina... – chamou Vic pelo corredor – Preciso de você aqui na sala.
Sem questionar, Marina atendeu ao chamado da loira, caminhando a passos largos em direção a sala de estar. Chegando lá, sentiu seu estômago apertar, e como se fosse possível, ficou mais pálida do que o normal.
Havia sangue demais, e barulho de menos. Vic estava agachada ao lado de Melissa, concentrada em medir sua pulsação. Clara, que havia seguido a namorada de volta para a sala, ainda não acreditava no que via, e sem pensar agachou-se ao lado da loira.
—Mari... Pega aquela cadeira ali pra mim, por favor – pediu a francesa, apontando uma das cadeiras no canto da sala de estar.
—Pra quê? Pra acordar essa daí? – ignorando o choque inicial com a cena que encontrara ali, cuspiu as palavras com desprezo.
—Por favor... – Vic repetiu o pedido, encarando Marina nos olhos.
Contrariada, a fotógrafa arrastou-se até o canto da sala, trazendo uma das cadeiras consigo na volta. No entanto, antes mesmo de entrega-la à Victória, ouviu a voz de Melissa soar baixa e fraca.
—Clara... – disse, abrindo os olhos e deparando-se com o castanho dos olhos da assistente bem a sua frente – Tá tudo bem? – perguntou relativamente desnorteada, vendo a outra levantar de onde estava, e afastar-se de seu corpo.
Marina trincou os dentes. Era inacreditável como mesmo estando naquela situação, Melissa conseguia lhe tirar do sério.
—Eu já disse pra você não falar o nome dela! – falou no automático, e não demorou para que sentisse os dedos de Clara pressionando seu antebraço, pedindo silenciosamente para que não começasse com aquilo novamente.
Melissa sentiu seu corpo inteiro doer, e para falar a verdade, não conseguiu assimilar muito bem o que estava acontecendo por ali. Vic segurava um pano umedecido com alguma coisa em sua testa, e de fato, não se lembrava exatamente do porque havia ido parar ali no chão.
Experimentou mexer as mãos, e sem dizer nada, assustou-se ao ver manchas de sangue em sua camiseta. Ainda meio tonta, e como se o vermelho que manchava o pano de suas roupas fosse a chave para alguma memória reprimida, um filme começou a passar em sua mente. Lembrou-se de abrir a porta e encontrar Marina do lado de fora. Da discussão. De algumas palavras. De uma tapa. Gritos. Um soco. E a escuridão.
Piscou forte, tentando focalizar a sala a sua frente, e como se seus olhos instintivamente procurassem por ela, encontrou a responsável por seu desmaio sendo arrastada pela namorada em direção à porta. Subitamente, Marina parou, encarando-a de onde estava. Automaticamente, Melissa se encolheu.
—Acordou Melissinha?! – desdenhou a fotógrafa – Que pena!
—Mari... – advertiu Vic – Não é hora pra isso! – encarou Clara nos olhos – Clara, leva ela pra casa, por favor!
Sem questionar, Clara terminou de arrastar Marina para fora do apartamento, batendo a porta atrás de si.
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