Velvet Touch

33 Consequências


Notas iniciais
Oie minha gente! Tudo bem? Demorei pacas de novo né?! Eu sei. Desculpem! Mas, toda vez que eu acho que as coisas se ajeitaram, e que vou ter tempo pra escrever de boas, alguma coisa acontece, algum projeto novo aparece, e toma meu tempo que em teoria estaria livre. Por isso, não vou prometer nada pra vocês, ate porque toda vez que prometi não cumpri, então minha palavra deve ta valendo pouquinho hahahaha. A única coisa que digo é, demore o que demorar, Velvet terá um final! Rsrs... Dedico o Cap a Lyvis, que trabalha comigo e chata do jeito que é, me cobra capitulo de Velvet basicamente todo o dia, rsrs ♥. E também a todas meninas fofas e respeitosas que até hoje me procuram pra conversar sobre o futuro de Velvet. Vocês são tudo umas linda ♥ Enfim... Espero que gostem!!!

Clara sentou no banco do motorista, e guiou o carro de Marina sem dizer uma só palavra em todo o caminho que percorriam em direção ao Leblon. Estavam mais próximas da casa da fotógrafa, mas por algum motivo que não parecia muito claro nem a ela mesma, naquele momento, Clara queria a segurança de seu próprio apartamento. Marina, seguindo a onda da outra, sem saber exatamente o que a dona de casa pensava, resolveu não ser ela a primeira a abrir a boca.

Não tinha reparado antes, mas agora que a adrenalina de fato baixara, olhou para sua mão direita e com certo embrulho no estômago, deu-se conta de que ainda carregava vestígios do sangue de Melissa por entre os dedos.

Calada, abriu e fechou a mão flexionando os dedos o mais devagar que conseguiu. Sua mão literalmente latejava de dor, e por um segundo, ficou com medo de ter quebrado alguma coisa. Respirou fundo. Tentou conter a careta involuntária que se instalava em seu rosto, mas sem conseguir controlar o pulsar dolorido e compassado que repuxava sabe-se lá o que em meio aos ossos e músculos de sua mão, falhou com louvor em seu propósito.

—Tá doendo muito? – perguntou Clara de súbito, percebendo a expressão de Marina mudar consideravelmente.

—Um pouco – mentiu – Mas, tá tudo bem! – mentia tão mal que não conseguia enganar nem a si mesma.

—Hum... – murmurou Clara, distante, com expressão de aflita e relativamente perdida em seus próprios pensamentos.

Marina não entendeu a razão, o tom, tampouco o propósito do murmúrio da outra. No entanto, a verdade, de fato, era que a fotógrafa estava mais perdida do que cego em tiroteio em meio a tudo o que tinha acontecido nas últimas 12 horas. A ficha de tudo aquilo parecia ainda não ter caído direito, e no fundo, gostaria de que toda aquela situação, na verdade, não passasse de um pesadelo de extremo mal gosto.

Contudo, sem dúvida nenhuma, não gostava nada do que lia – ou ao menos tentava ler – no silêncio e na expressão fechada que Clara ostentava ao volante.

Sem controlar efetivamente, sua mente começou a vagar pelas mais variadas e retóricas perguntas e possibilidades. Por que Clara tinha optado em voltar para o outro lado da cidade, sendo que sua casa estava bem ali? O que aquele silêncio todo queria dizer afinal? Será que Clara estava brava com ela? Com Melissa? Tinha a ver com a briga dela com a italiana, ou com o contexto geral de toda aquela situação? Por que ela parecia estar tão distante dali? No que será que ela pensava tanto? Porque ela não dizia nada?

Quando estava prestes a enlouquecer, ouviu o barulho inconfundível do freio de mão de seu carro sendo puxado. Não tinha sequer percebido, mas naquela altura do campeonato, já estavam estacionadas em frente ao prédio de Clara. Ainda sem falar nada, saiu do carro, e esperando que Marina a seguisse com a mesma pressa que tinha, logo alarmou o veículo atrás de si, marchando prédio adentro.

Mesmo sem entender os motivos da outra, a fotógrafa seguiu-a pelo elevador, e poucos segundos depois, estavam em frente à madeira branca da porta de seu apartamento.

—Clara, tá tudo bem? – perguntou sem conseguir se conter mais – Eu posso ir para a casa, se você quiser. Posso... Te dar um pouco mais de espaço – disse receosa com a possibilidade da outra concordar com a sugestão que propunha – A gente não precisa falar em nada disso agora.

Ignorando completamente o que Marina dizia, a carioca girou a chave na fechadura e fez um sinal para que a fotógrafa lhe acompanhasse. Batendo a porta atrás de si, rompeu de uma vez o silêncio que sustentava até ali.

—Marina, você ficou maluca ou o que? – ralhou com a fotógrafa, visivelmente irritada – O que foi que deu na sua cabeça de ir atrás da Melissa desse jeito?

—Eu... – assustou-se, pega literalmente de surpresa tanto pela pergunta, quanto pelo tom de Clara – Não fui atrás da Melissa, Clara! Fui até a casa da Vic – defendeu-se automaticamente.

—Por quê? – perguntou seca – O que era tão importante que você tinha que sair e me deixar aqui sozinha? – a irritação em sua voz era crescente, aumentando um pouco mais a cada palavra que dizia.

—Por quê? Porque eu precisava conversar com alguém! – mentiu parcialmente – Você... Disse que ela sabia de tudo, eu tinha que ir até lá entender o que estava acontecendo. Entender porque ela não tinha me dito nada... – explicava-se com pressa. Porém, foi interrompida pela outra mesmo assim.

—Ela não te contou porque eu pedi para não contar, Marina! – exaltou-se, subindo o tom de voz sem perceber – E a verdade, independente da Vic estar ou não a par da situação, é que você só não ficou sabendo antes de tudo isso, porque não quis! – acusou sem dó, vendo o golpe atingir Marina com sucesso.

—Clara... – Marina estava tonta. De fato, não esperava por aquilo naquele momento – Eu sei que eu errei. Eu sei que eu não ouvi você, mas tenta se colocar na minha posição – pediu, sem saber se de fato queria pedir para que ela fizesse aquilo – Eu, não tinha como saber. Eu... Como eu ia imaginar uma coisa assim? Um absurdo desse? – de tão nervosa, culpada, e acuada naquele momento, sua voz soava trêmula.

—Como? Se você tivesse me ouvido, Marina! Se você tivesse me dado UMA chance de falar com você!!! – sem que quisesse efetivamente fazê-lo, Clara despejava, tacava, e gritava todas as suas mágoas em cima da fotógrafa – Mas não... Você tinha todos os dados e fatos, não é?! Tinha todas as “verdades” na sua mão – desenhou aspas no ar, encarando-a firmemente.

—Clara... Por favor! Eu... – literalmente, Marina não fazia a mínima ideia do que dizer. Afinal, no fim das contas, tinha ela algum argumento válido para rebater tudo aquilo? Olhou para o teto. Respirou fundo – Eu não estou dizendo que tenho razão em momento nenhum. Nem que fui correta na maneira com que te tratei, mas, só se coloca no meu lugar. Se fosse você na minha posição, com todas aquelas fotos, o vídeo... Seja honesta comigo, como é que você pararia para me ouvir dizendo que nada daquilo tinha acontecido?! – racionalizou seus motivos.

—Sabe o que mais me fode, Marina? É que eu pararia! Eu te ouviria! EU TERIA CONFIADO EM VOCÊ!!! – gritou mais uma vez – A Melissa tacou um monte de casinho seu na minha cara. A Melissa tentou me dizer que eu era só mais uma delas. NITIDAMENTE! Mas, o que eu fiz? Eu te ouvi! Eu morri de ciúmes, eu gritei, eu briguei, mas eu confiei em você quando você disse que eu era diferente. Quando você jurou que comigo não seria igual! – apontou para o próprio peito – Mesmo eu não tendo como saber para quantas delas você já tinha dito a mesma coisa! Com quantas delas já tinha sido “diferente”.

—São coisas totalmente diferentes, Clara! Você tá falando como engenheiro de obra feita, e assim fica realmente fácil demais me crucificar – reagiu, quase que por instinto – O que você tinha nas mãos sobre aquelas meninas? O que? Não tinha absolutamente nada! – exaltou-se também – Não tinha contexto, não tinha interesse de ninguém por ninguém. Só tinha as palavras de uma pessoa como a Melissa. Só! Se tivesse fotos minhas com alguma delas, se assistisse ao vídeo que eu assisti... Ah, Clara... Aí sim, seria bem diferente! Aí sim, teríamos um contexto parecido para discutir agora! – defendeu-se mais uma vez, e apesar de não usar o melhor dos tons, tentava pontuar o seu lado da história.

—Seria Marina? E como você pode saber? COMO? – indignou-se – Não ouse falar por mim, tampouco sobre como eu agiria ou não! – apontou o dedo em direção à fotógrafa, que dessa vez, automaticamente baixou a cabeça – Você não tem esse direito! Eu SEMPRE confiei em você. Contra tudo e contra todos, SEMPRE CONFIEI.

—Ok! EU ERREI, Clara! Sim, eu errei. E Deus sabe o quanto vou penar com isso o resto dos meus dias, mas, eu a vi cercando você. Eu vi você indo cada vez pra mais perto dela. E isso... – encarou o castanho dos olhos da outra – Isso não tem nada a ver com histórias do passado como foi naquela exposição em São Paulo. Tem a ver com possibilidades. Com o presente. O Futuro! Eu vi você se deixando levar...

—Me deixando levar? OI? – jogou os braços para o ar, indignada – Me deixando levar pra onde Marina? A única coisa que eu fiz foi sair de perto daquela mulher! Se eu fui até a casa dela naquele dia foi pra tentar tirar ela de perto de você, de mim, DA GENTE! – berrou – Nunca estive indo em direção à Melissa, para a Melissa ou qualquer coisa do tipo!

—Clara...

—Ela mexeu comigo? Sim. Ela mexeu! Eu já senti ou quis efetivamente alguma coisa com a Melissa nessa vida? NÃO!

—Clara... Acho melhor a gente deixar essa conversa pra outra hora – percebendo que aquilo não as levaria a lugar algum, tentou amenizar as coisas e adiar aquela discussão – Hoje foi um dia péssimo pra todo mundo, você tá cansada, e obviamente nós não estamos nos entendendo. Eu tô falando uma coisa, e você tá assimilando outra! – voltou a encara-la nos olhos – Essa conversa não vai levar a gente pra lugar nenhum agora. Nós só vamos conseguir nos machucar um pouco mais com tudo isso!

—Eu NÃO ACREDITO que depois de tudo o que aconteceu, eu tô aqui parada ouvindo isso! – indignou-se a carioca mais uma vez – Eu juro que eu não acredito! – disse, suspirando alto e passando a andar de um lado para o outro da sala.

Marina não sabia como agir. Não estava entendendo nada do que acontecia ali naquela sala, e por mais que não quisesse, começou a irritar-se de verdade com tudo aquilo. Sim, era óbvio que Clara estava descarregando toda sua mágoa em cima da fotógrafa, afinal, ela tinha uma imensa lista de motivos para isso, mas, o que Marina não conseguia entender, era porque a namorada havia resolvido descarregar aquilo tudo em cima dela naquele momento, ali, logo depois de tudo o que já tinha acontecido mais cedo no apartamento de Victória. Qual tinha sido o gatilho de tudo aquilo?

Tentou descobrir enquanto olhava Clara zanzar bufando de um lado para o outro da sala, e chegando a conclusão de que definitivamente não descobriria absolutamente nada sozinha, optou por arriscar aquele tema.

—Clara, do que se trata tudo isso, afinal?! – fez a pergunta de uma vez – O que tá acontecendo? Isso é por eu não ter ouvido você, ou é por eu ter quebrado a cara daquela filha da puta?!

Imediatamente Clara parou de andar, virou-se em direção à figura da fotógrafa, e sem pestanejar, encarou Marina nos olhos.

—Você não entende nada mesmo, né Marina?! – disse cansada, porém, aparentemente mais calma. Devagar foi chegando mais perto de onde a fotógrafa estava – Que direito você tinha de fazer isso comigo?

—De fazer o que com você, Clara? – desesperou-se Marina, sem saber exatamente do que a outra falava naquele momento – Eu já não sei mais do que você tá falando! – encarou-a de volta, pedindo sinceramente por uma resposta honesta – O que tá acontecendo?

—Que direito você tinha, de dar a aquela mulher a chance de te tirar de perto de mim?! Logo agora! Depois de tudo isso, depois de toda essa avalanche... – instantaneamente, os olhos da assistente se encheram d’água – Por que você fez isso, Marina? – acariciou seu rosto com a ponta dos dedos – Porque foi atrás dela?

—Clara... Eu... Eu não fui atrás dela! Eu... Fui falar com a Vic, e ela abriu a porta, eu não sabia que ela estava lá! – mais uma vez, explicava-se rápido, com pressa – E aí... Você conhece a Melissa, ela é nojenta. Ela me provocou. Eu tentei, tentei muito! Mas... Não deu! Simplesmente não deu para não fazer nada depois de ficar sabendo de tudo o que você me contou aqui – Marina justificava-se como uma criança se justifica para os pais depois de ter sido pega fazendo alguma arte incontestável.

— Por que tinha que ter partido pra cima dela desse jeito? – seu tom de voz agora era baixo, calmo, quase desamparado.

—Eu não sei em que momento tudo começou realmente – baixou a cabeça – Ela... Aquela mulher é nojenta, Clara!

—Disso eu sei muito bem.

—Eu... Minha intenção não era essa! – ergueu os olhos à procura dos de Clara – Não que eu me arrependa. Em nenhum momento! Mas, eu não tinha essa intenção. Não fui, de verdade, atrás dela.

_Por que você ficou lá depois que ela abriu a porta? – Clara tentava montar a defesa de Marina em sua mente, buscando entender como as coisas haviam chego até aquele ponto – Porque não foi embora?

—Não consegui. Ela me provocou, eu respondi... E simplesmente não deu pra segurar, Clara! Não deu. Não depois de ter visto você desmoronar no meu colo por causa dela! Eu... Literalmente me descontrolei! Eu... – sua voz tremia, e quase que inconscientemente, olhou para sua mão direita. Pequenas manchas de um vermelho seco ainda estavam lá – Simplesmente não dava pra deixa-la sair de lá impune, Clara! Não dava!

Sem dizer nada e com extrema delicadeza, Clara segurou o queixo de Marina e trouxe os lábios dela de encontro aos seus.

—Eu não vou deixar ela me tirar de perto de você! – afirmou a fotógrafa, deixando sua mão escorregar pela nuca da assistente – Eu prometo!

Sem de fato escolher mover-se dessa forma, Clara copiou o movimento de Marina, e involuntariamente, escorregou suas duas mãos em direção à nuca da outra, unindo seus lábios mais uma vez.

—Promete mesmo, Marina? – perguntou com a boca colada na dela – Não mente pra mim, por favor!

—Prometo! – respondeu num sussurro – Só você pode me mandar embora da sua vida!

Clara a encarou nos olhos. Estava realmente irritada e preocupada com tudo aquilo. Sabia que Melissa não era do tipo que deixava as coisas baratas, ainda mais no caso de uma surra daquelas. No entanto, a verdade é que no fundo, no fundo, era impossível não admitir para ela mesma o quanto a atitude de Marina a envaidecia. O quanto, apesar dos motivos que levaram a fotógrafa a tomar atitudes extremas serem absolutamente doloridos, impensáveis e intragáveis, a excitava o fato de sua namorada ter saído tanto do escopo da própria personalidade, a fim de, por mais que de uma forma pouco efetiva, defendê-la daquela mulher e de tudo aquilo.

Em questão de segundos, sem que nenhuma das duas percebesse ou assimilasse efetivamente a mudança, o ar entre elas pesara. As vozes baixaram, as respirações aceleraram, e a distância entre seus corpos sumia segundo a segundo.

—Porque você não foi embora quando viu que ela estava lá? – perguntou novamente, enquanto beijava o pescoço da fotógrafa, indo lentamente em direção a sua orelha – Por que não dava pra deixa-la sair de lá impune? – relativamente ofegante, repetiu a afirmação que a outra fizera.

Marina, por sua vez, em uma resposta muda e automática, sentiu seu corpo inteiro tremer.

—Porque ela mexeu com você, Clara... – respondeu ainda receosa. No entanto, antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, sentiu o quadril de Clara colar ao seu, no mesmo instante em que seus dedos se agarraram a sua cintura.

—E o quê que tem? – perguntou, passando a ponta da língua quente em volta da orelha de Marina – Por que você não podia deixar ela ir, Marina? Me conta! – exigiu, suspirando baixo e quase que involuntariamente ao final da frase.

—Porque ninguém tem esse direito! – respondeu agora convicta – E só eu posso tocar em você, Clara! – afirmou, entrelaçando seus dedos aos cabelos da morena, e selando seus lábios nos dela.

—Só você? – provocou, com a boca grudada a da fotógrafa – Como você sabe?

—Porque eu sinto isso... – sem ter percebido que haviam dado alguns passos pelo apartamento, viu-se dentro do quarto de Clara – Quando eu te beijo... – beijou a boca da outra como se nunca a tivesse beijado – Quando eu te toco... – desceu com a ponta dos dedos pela lateral do corpo bronzeado da carioca, como se ainda não conhecesse as curvas que o esculpiam – Quando você me olha desse jeito... – encarou o castanho dos olhos da outra com os seus, como se fosse a primeira vez que a olhasse.

Lentamente deitou-a sobre os lençóis, deixando seu corpo pesar sobre o dela.

—O que mais, Marina? – perguntou ofegante, puxando-a para mais perto de si.

A boca da fotógrafa descia devagar pelo pescoço da assistente. Sua língua escapava vez ou outra por entre seus lábios, deixando um leve rastro de saliva por onde passava. Subitamente, desvencilhando-se das mãos firmes de Clara, sem deixar de encarar a assistente, Marina levantou-se da cama.

—Vem para o banho comigo? – convidou maliciosa – Prometo que respondo a todas as suas perguntas lá.

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Depois de passar mais uma manhã na companhia solitária dos bips e ruídos das máquinas ao seu lado, Cadu não se sentia bem. Sentia como se algo estivesse esmagando seu peito, mas, não sabia dizer se era uma dor física, ou apenas uma maneira de seu corpo responder a tensão involuntária em que se encontrava.

Silvia havia prometido passar por lá mais tarde para lhe dar notícias em relação às mudanças em seu tratamento, mas, deitado ali, era como se as horas não passassem, e a verdade era que mesmo internado há poucos dias, o chef sentia o cansaço de mil vidas se acumularem tanto em seu corpo, como em sua mente.

Não aguentava mais pensar em nada, em ninguém, e as únicas imagens que buscava manter vivas em sua memória, naquele momento, eram as que envolviam tanto o seu filho, quanto o sorriso de Clara. Lembrava-se do tempo em que ainda eram felizes, ainda se amavam, se olhavam, se beijavam. Lembrou-se da sensação de segurança e calmaria eterna que sentia todos os domingos, quando preparava o almoço para os três, e depois iam caminhar no calçadão do Leblon contemplando o pôr do sol.

Sim, ele sabia que tudo isso havia acabado. Aliás, independente da situação, o tempo que passara no hospital até ali, havia lhe servido de muita coisa. A ociosidade, o silêncio, a solidão, e o arrastado das horas, o tinham obrigado a passar por alguma espécie de meditação forçada, e mesmo que o resultado de suas percepções não tivesse sido muito agradável, finalmente conseguia se dar conta de muitas injustiças, ações, reações e julgamentos precipitados que praticara recentemente.

Percebeu que Clara estava certa, e que no fundo, ele sempre soube que, na verdade, tudo isso tinha acabado muito antes de Marina arrebatar o coração de sua ex-esposa. Que mesmo sem querer admitir, sabia que tinha deixado tanto Clara, quanto o casamento deles de lado há muito tempo. Sabia que se Marina teve terreno para construir sua casa na vida da dona de casa, esse espaço tinha sido ele próprio que deixara em aberto, sozinho, desprotegido, frágil.

Era doloroso demais pensar em tudo aquilo, encarar tudo aquilo, aceitar sua própria culpa no cartório. Afinal, era muito mais simples pintar a imagem de Marina como a de uma “destruidora de lares”, e não precisar assumir as próprias responsabilidades por seus fracassos e descasos pessoais. No entanto, apesar de ainda preferir a versão antiga da história, depois de olhar para todos os novos ângulos que tinha olhado, não podia mais simplesmente esbravejar e praguejar as sete pragas do Egito contra Marina, e tirar seu corpo fora.

Com isso, tornou-se quase impossível conseguir separar a parte boa da ruim quando o tema era Clara. Quase impossível lembrar-se do sorriso dela, sem lembrar que ele tinha perdido a chance de vê-la sorrir daquela maneira para o resto da vida. Contudo, mesmo tendo um preço alto a pagar, Cadu ainda preferia manter tudo intacto em sua mente. Almoços, caminhadas, sorrisos, risadas, palavras.

Afinal, não era a própria Silvia que sempre dizia que ele deveria se agarrar a parte boa da vida, e não desistir de lutar?! “Apenas seguindo orientações médicas” pensou distraído, rindo baixo consigo mesmo, e como se seus devaneios o tivessem tirado fisicamente do quarto onde estava, se assustou ao perceber a presença da médica ao seu lado.

—No mundo da lua é? – perguntou Silvia, notando a distração de seu paciente – Planeta Terra chamando! – forçou um sorriso amarelo, e relativamente cansado.

—Você não está com cara de boas notícias, Silvia... – afirmou receoso, enquanto a assistia fazer o velho ritual de checagem médica padrão.

—Isso é cara de plantão de 48h chegando ao fim – sorriu mais amarelo do que antes. Fechou os olhos, e em silêncio, respirou fundo por um instante, tomando coragem para continuar com o discurso que precisava fazer – Mas, independente do plantão, você tem razão Cadu. Não trago boas notícias.

—A medicação não funcionou, não é? – perguntou num fio de voz, encarando as próprias mãos que repousavam em seu colo. Visivelmente com medo da afirmativa que provavelmente receberia.

—Infelizmente, não tivemos o resultado esperado, tampouco o mínimo de evolução necessária para que possamos descartar o transplante – involuntariamente, segurou uma de suas mãos por entre os dedos. Sem dúvida nenhuma, já tinha dado essa notícia a dezenas de pacientes, contudo, a fé que tinha depositado desde o início na recuperação do chef havia sido tamanha, que partilhava da frustração de Cadu quase que de forma igualitária – E... Como essa era nossa última aposta possível, vamos precisar partir para essa opção, Cadu.

Por mais que esperasse por essa notícia, e seu corpo já lhe desse indício de que a medicação não estava fazendo o efeito necessário, nada conseguiria prepara-lo efetivamente para aquela notícia, e como não poderia deixar de ser, em apenas um segundo, em uma frase, seu mundo literalmente caiu.

—Não há nada mais que possamos fazer, mesmo? – perguntou desnorteado – Tem certeza?

—Infelizmente temos sim, Cadu – respondeu cabisbaixa – Mas, eu vou cuidar de todos os procedimentos pessoalmente para você – disse encarando-o nos olhos, e voltando a assumir a postura de sua médica – Você não está sozinho nessa, e além de mim, terá a melhor equipe médica do seu lado também. Assim que eu sair aqui do quarto, vou colocar você na lista de espera para o transplante.

—E... Dá para ter alguma ideia de quanto tempo demora até conseguir um doador? Quanto tempo eu tenho para esperar? – perguntava no automático, emendando uma pergunta na outra – O que eu tenho que fazer agora?

—Calma Cadu. O seu caso é grave, é um quadro que vem se agravando, mas você não está assim à beira da morte não, meu amigo – continuou encarando-o firmemente, tentando tranquiliza-lo – Você agora vai descansar, e provavelmente em dois dias vai poder ir para casa. Vamos precisar intensificar a medicação, e infelizmente, nada de bistrô por enquanto. Vai ser liberado do hospital, mas não pode fazer nenhum esforço! Repouso total.

—Repouso total? – sua mente girava – Mas, Silvia, eu moro sozinho. Como vou conseguir fazer repouso total? E meu bistrô? Se comigo lá, de olho, a coisa já não está andando como eu gostaria, imagina se eu não estiver lá. Quem vai tocar? Como vai ser?

—Eu sei que é complicado Cadu, mas você precisa pensar lá na frente. Se não fizemos isso agora, dessa forma, ai sim podemos não conseguir esperar o tempo necessário até o doador aparecer – disse sincera, chamando-o de volta para encarar a realidade – Preciso que você me ajude a te ajudar nisso! Preciso contar com você nesse processo, Cadu – afirmou, apertando suas mãos – Você é forte, jovem, vai superar tudo isso e vai conseguir recomeçar a sua vida!

Cadu não sabia o que dizer, o que pensar, o que achar. Era muita coisa para assimilar. Muita coisa para entender, compreender e aceitar. Sua cabeça doía, seu coração inflava no peito, o suor escorria gelado por seu corpo, e a sensação que tinha era de que desmaiaria a qualquer momento. Respirou fundo uma, duas, três vezes. Contou até dez. E no primeiro momento de lucidez, apenas uma imagem veio a sua cabeça.

—Clara... – disse baixo.

—O que? – perguntou Silvia, sem entender direito.

—Preciso falar com a Clara.

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Como se quisessem lembra-la de tudo o que acontecera, cada um dos mínimos músculos do corpo de Melissa doíam. Da mesma maneira que acontece com toda e qualquer vítima de agressão, fechar os olhos era um tormento para a italiana. Não conseguiu dormir um minuto sequer, tampouco relaxar seu corpo para que deixasse o estado de alerta se diluir e passar.

A lembrança involuntária e constante da cena de Marina sentada em seus quadris, golpeando-a com socos raivosos e desgovernados, a fazia estremecer sem que percebesse, e mesmo ali, sentada na confortável poltrona de seu jatinho, a viagem de pouco mais de 12h até Milão nunca tinha sido tão sofrida e desagradável.

Era verdade que não queria ter ido. Não queria ter saído na rua naquele estado, com seu rosto do jeito que estava, seu corpo dolorido como estava, mas o que mais lhe incomodava em tudo isso, era sua dignidade, ou, na verdade, a falta dela naquele momento. Nunca tinha sido tão humilhada em sua vida, e sem dúvida nenhuma, não estava nada acostumada com essa posição.

Olhando pela janela do avião, seus pensamentos voaram para o rosto de Clara. Qual era o problema com ela afinal? Porque essa mulher, apesar de tudo, ainda estava com a Marina? O que essa fotógrafa mequetrefe tinha de tão especial? Porque ela não conseguia competir e, de fato, ganhar de Marina uma vez na vida? Não conseguira no passado, e pelo jeito, não conseguiria agora.

No fundo, mesmo não querendo se deixar fraquejar por sua consciência, Melissa sabia que tinha ido longe demais nessa disputa. Sabia que tinha escolhido um caminho complexo de se percorrer, mas, para ela, a verdade era que Clara tinha ido até a sua casa aquela noite. Desacompanhada. E a italiana, em sua mente doente, tentava apegar-se a essa atitude da dona de casa como uma brecha para que ela atacasse. Tentava distorcer os fatos a seu favor, livrando-se de culpas, e considerando seus atos criminosos, apenas como encorajadores e desinibidores.

Depois que fizera o que fizera com Clara, depois que passara a noite com ela, por mais absurdo que pudesse parecer, não conseguia mais parar de pensar no quanto o sorriso dela era lindo. Por um momento, pensou estar apaixonada, e tentou até acreditar na própria mentira e fingir que Clara compartilhava daquela mesma sensação. No entanto, assim que a carioca aparecera em sua casa para tirar satisfações, Melissa se deu conta de que o que mais lhe alegrava em tudo aquilo, não era ter passado uma noite com Clara, mas sim o fato de Marina estar sofrendo. O fato de a fotógrafa estar convicta de que sua namorada havia lhe traído. E ainda por cima, havia lhe traído com ela: Melissa Albertini.

Imersa ainda em seus pensamentos, viajou rapidamente ao passado. Aquela parte da sua história que quase ninguém conhecia, aquela que ela não contava para ninguém. Instantaneamente, lembrou do rosto de Sophie. Ela era tão linda, que chegava a doer. Seu jeitinho de menina, seu corpo de mulher, sua mentalidade aberta, seu espírito livre. Seu gosto pelas artes. Sua ingenuidade. Ah, a sua ingenuidade.

Suspirou baixo, chacoalhando a cabeça de um lado par ao outro. Por mais que, na maior parte do tempo, a imagem de Sophie lhe fosse reconfortante, pensar em qualquer coisa que envolvesse Marina agora não era boa ideia. A simples menção do nome, ou lampejo da imagem da fotógrafa em sua mente, lhe causava sensações que ainda não conseguia nomear. Era um misto de raiva, ódio, vingança, desafio e medo. Tudo permanecia vivo demais em sua memória até ali, e definitivamente, a visão de Clara arrastando Marina para fora do apartamento, enquanto ela ainda acordava no chão, não era uma das melhores de sua vida.

Ainda mais aérea do que o avião que a levava ao seu destino, respirou fundo, tentando se concentrar no que precisava fazer. Sem se dar muito tempo para pensar, passou a mão no telefone ao seu lado e discou o número de um velho conhecido seu.

—Alô?! Paulo?! – perguntou enquanto o avião, enfim, aterrissava em solo Italiano.

—Oi Melissa, querida! Tudo bem? – respondeu o advogado, tentando fingir algum entusiasmo em falar com uma de suas clientes mais assíduas.

—É, tudo mais ou menos. E com você? Como estão as crianças? – apesar de não fazer a mínima questão de se fazer passar por simpática, Melissa tentava ser sempre o mais cordial possível com Paulo. O homem que com suas ações rápidas e certeiras, já a tinha salvo de inúmeros problemas e situações complicadas.

—Todos bem. Obrigada! Diga, o que aconteceu? – cortando o papo furado, foi direto ao ponto – Porque tudo mais ou menos? O que você aprontou dessa vez? – riu baixo.

—Dessa vez eu não aprontei nada! – riu de volta, mentindo tanto para o advogado, quanto para si mesma.

Fazendo um resumo um tanto quanto enviesado, editado, e bem parcial em relação aos reais motivos que culminaram nos últimos acontecimentos, contou ao advogado sobre o embate que tivera com Marina.

—Melissa, Melissa... – suspirou – Como as coisas chegaram a esse ponto? Preciso entender se há atenuantes no meio desse caminho.

—Não aconteceu nada demais Paulo! Como eu te falei, eu e a namorada dela tivemos uma noite interessante, e ela não assimilou isso muito bem – mais uma vez, mentiu descaradamente – Não me diga que isso é um atenuante válido – riu.

—É, na verdade sim e não. Mas, para o que vamos fazer, não será! – ponderou por um segundo – Tem certeza que foi só isso que aconteceu? Quer mesmo dar andamento nos procedimentos legais?

—Sim, e sim. Quero isso o mais rápido possível, Paulo – afirmou categórica – Quero voltar para o Brasil com essa mulher não podendo chegar nem perto de mim!

—Certo! – sem perder tempo, começou a digitar as petições necessárias em seu notebook – Onde você está agora?

—No momento estou chegando em Milão. Vim resolver algumas coisas emergenciais. Você precisa de mim aí para fazer as coisas andarem?

—Inicialmente não, mas precisarei. O mais rápido possível. Quando você volta?

—É só você me dizer quando precisa que eu esteja ai, que eu volto. Agora me diz, quais são os próximos passos? O que vamos fazer?

Em um resumo daqueles que se faz a leigos, de forma extremamente detalhada, o advogado explicou a Melissa passo a passo do que fariam a seguir. Explicou os procedimentos, prazos, e até mesmo as possíveis consequências para a pessoa processada.

—Bom, então eu vou terminar de redigir aqui as petições necessárias, e dando tempo, hoje mesmo protocolo os processos que conversamos. Preciso de você no Brasil no máximo daqui dois dias, tudo bem?!

—Ok. Estarei ai! – sem muitas delongas ou despedidas, ambos desligaram seus telefones.

Como se estivesse profundamente aliviada, soltou um longo suspiro, e repassando a conversa que tivera com Paulo em sua mente, involuntariamente, um sorriso de pura satisfação instalou-se em seu rosto.

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Depois do longo e demorado banho que tomaram, Marina agora acariciava os cabelos úmidos de Clara, que adormecera deitada em seu colo. Não sabia dizer em que pé estavam. Na verdade, não saberia, nem de longe, classificar o status atual da relação das duas.

Será que Clara, apesar de todos os pesares, mágoas, e tudo o mais, a aceitaria efetivamente de volta? Será que ela estaria ali, naquela posição, se todo o bafafá com Melissa não tivesse acontecido naquela manhã? Ela, Marina, conseguiria, de verdade, estar de volta a vida de Clara? Afinal, depois de tudo o que tinha feito à aquela mulher, tinha de se ter uma boa dose de coragem para querer voltar. Uma boa dose de tolerância consigo mesma.

Em meio as perguntas e considerações que povoavam sua mente, ouviu o barulho da porta do apartamento abrindo, e poucos segundos depois, a voz do Ivan chamando pela mãe.

—Clara... – carinhosamente Marina beijou o topo de sua cabeça – O Ivan chegou... – disse baixo, percebendo que ela relutava em abrir os olhos.

Como se o nome do menino fosse o mais eficaz dos despertadores, ao contrário da preguiça anterior, acordou de pronto. Olhou nos olhos de Marina, e definitivamente, nunca havia tido sentimentos tão conflitantes em relação a fotógrafa como tinha agora.

—Eu... Não quero confundir a cabeça do Ivan com tudo isso, Marina... – disse, sem saber exatamente o que queria dizer com aquilo.

—E não vai, Clara! Pelo menos no que depender de mim, isso não vai acontecer! – buscou tranquiliza-la.

Mais uma vez, a voz do menino soou pelo corredor.

—Mãe, você tá ai? – perguntou junto a porta entreaberta do quarto.

—Já tô indo, filho – respondeu no automático, a fim de impedir que o garoto entrasse no cômodo.

Sem dizer mais nada, levantou da cama, vestiu uma camiseta qualquer, e o primeiro shorts que viu saltar do guarda-roupa.

—Você prefere que ele não me veja aqui? – perguntou Marina, já angustiada com uma possível resposta positiva da outra.

Clara virou em direção a ela, e voltou a encarar seus olhos, demorando-se alguns segundos para determinar sua resposta.

—Não sei – disse sincera.

Sem dar chance de Marina descobrir o que fazer com aquela resposta, deu-lhe as costas e caminhou quarto afora.

Sem saber exatamente como agir, e no fundo, sentindo o baque do real significado da resposta de Clara, a fotógrafa resolveu não tomar nenhuma decisão, a não ser a de se vestir e jogar uma água no rosto.

Sentou na beirada da cama, e se antes sua mente já girava em torno das inúmeras possibilidades, agora parecia haver uma locomotiva desgovernada não só em sua cabeça, como também em seu peito.

Claro que ela sabia que não seria “fácil assim”. Que não seria da noite para o dia que Clara voltaria a confiar nela como companheira, mas vivenciar a realidade daquilo de fato, enxergar nos olhos dela a dúvida, a hesitação, o receio, até um possível medo, doía muito mais do que ela podia ter imaginado que doeria.

Fechou os olhos. Como se assistisse a um filme em sua cabeça, se viu jogando as fotos em cima de Clara, ali mesmo naquela cama; a expulsando de sua casa, chamando-a de tudo o que a chamou, xingando-a de tudo o que a xingou. Respirou fundo. De que forma conseguiria resolver tudo aquilo agora? Como conseguiria conviver com as consequências de suas próprias atitudes?

Como se a tirasse de outro mundo, o toque do celular de Clara chamou Marina de volta para o quarto. Tocou uma, duas, três vezes, e pela força do hábito, olhou no visor do aparelho para ver quem chamava. A identificação do número aparecia como “Dra. Silvia”, e lembrando do comentário que Clara fizera sobre a saúde do Cadu naquele fatídico jantar, logo imaginou que pudesse ser algo mais grave com o Chef.

Esperou mais dois toques, e como Clara parecia não ouvir o som do aparelho chamando, decidiu que assumiria o risco de se encrencar mais ainda com a carioca, e saiu do quarto logo de uma vez.

—Mariiiiina! – exclamou o menino ao vê-la entrar na sala, indo em sua direção – Caraca, minha mãe não disse que você estava aqui – olhou em direção a Clara, sem entender o porque do segredo – Tudo bem? – a felicidade de Ivan por encontrar a fotógrafa ali era tamanha, que nem mesmo se quisesse, conseguiria disfarça-la.

—Tava dormindo, bonitão! – mentiu, abraçando e beijando o garoto loirinho a sua frente – Você tá bem?

—Tô sim! Tava com saudade de você aqui – disse sincero, abraçando-a mais uma vez.

Por cima dos pequenos ombros do menino, Marina procurou os olhos de Clara do outro lado da sala, e a verdade é que a outra ainda não sabia se estava gostando ou não da cena que assistia. Contudo, não fazia cara de muitos amigos em relação a fotógrafa naquele momento.

Ainda com Ivan agarrado em seu pescoço, Marina ergueu o celular para a outra, indicando o nome da médica com os lábios mudos.

Rapidamente, Clara pegou o aparelho de sua mão e aproveitando que Ivan estava distraído demais com a presença dela ali, dirigiu-se ao quarto e retornou a ligação para a Silvia.

Sem rodear muito, a médica despejou de uma vez o que estava acontecendo, e instantaneamente, Clara empalideceu. Apesar do quadro de Cadu não estar evoluindo como o desejado, não esperava que as coisas chegassem a esse ponto.

—Ele me pediu para te ligar dessa vez, Clara. Está bastante abalado, e gostaria de ver você e o Ivan! – contou Silvia.

—Certo – respondeu já voltando em direção a sala – Eu tô indo praí. Obrigada de novo, Silvia.

Despediu-se rapidamente, e encarou Marina.

—Tá tudo bem? – perguntou no automático, afinal, a expressão de Clara a entregava totalmente.

—Filho... – chamou, ignorando a pergunta da outra – Seu pai quer ver você! – despejou, meio atordoada – Vamos dar uma passadinha lá no hospital, tudo bem?

—Ele tá bem? – perguntou apreensivo, percebendo a expressão preocupada da mãe.

—Tá filho, ele só quer te ver, e temos que correr pra pegar o horário de visitas disponível ainda – mentiu – Corre lá pra pegar uma blusa, enquanto eu me troco.

Voltou para o quarto, seguida por Marina.

—Tá tudo bem, Clara? – perguntou baixo – O que aconteceu?

—O quadro do Cadu não evoluiu positivamente, e ele vai precisar fazer o transplante! – respondeu seca, sem parar a busca por outra roupa em seu guarda-roupa.

—Você não vai contar pro Ivan antes de chegarmos lá?

—Chegarmos? – virou-se em direção a fotógrafa – Como assim?

—Você não quer que eu acompanhe vocês? – disse mais deduzindo uma realidade do que fazendo uma pergunta.

—Marina... Eu não vou colocar você e o Cadu no mesmo recinto. Ainda mais com ele nessa situação, e a gente... – parou de súbito – Desse jeito! – completou.

—Tudo bem. Eu deixo vocês lá no hospital, e vou pra casa – baixou a cabeça.

—Não precisa. Eu pego um taxi com o Ivan aqui embaixo! – afirmou encarando-a firmemente.

—Clara...

— Não precisa, Marina! – insistiu.

—Ok. Vou me despedir do Ivan. Invento alguma coisa pra ele.

—Ok – disse e virou novamente em direção ao guarda-roupa, esquivando-se de qualquer tipo de despedida.

—Você me liga se precisar de alguma coisa?

—Tá – respondeu seca.

Sem ver mais muitas alternativas naquele momento, e sem entender exatamente o porque de Clara estar agindo daquela forma, decidiu que era melhor dar o espaço que ela parecia precisar, e saiu do quarto.

—-//--

A noite em Santa Teresa seguiu solitária demais.

Assim que chegara em casa, Marina procurou pela sua cama. Se jogou entre os lençóis gelados, colocou o celular do seu ladinho, e de lá não saiu mais.

Não sabia definir nem para si mesma como estava o seu estado de espirito. Aliás, a verdade é que não sabia definir uma série de coisas naquele momento. A única coisa que agora sabia, com certeza, é que estava cansada. Muito cansada! Agora que parara e efetivamente relaxou seu corpo, sentia cada um de seus músculos doerem.

Fora o cansaço e as dores, o choro, a culpa e o choque também lhe fizeram companhia durante todo o tempo. Vic havia ligado algumas vezes durante a noite, mas nem mesmo a antiga professora tinha conseguido conforta-la em meio a todo aquele turbilhão.

Sua cabeça fervilhava. Ora pensava em sua situação com Clara, no jeito que ela a tinha olhado e no que poderia fazer para tentar salvar seu relacionamento; ora lembrava das cenas bárbaras que havia protagonizado com Melissa. Sabia perfeitamente que não devia ter feito aquilo. Não devia ter continuado lá quando viu que a italiana estava no apartamento. Devia ter ido embora! Sabia que não ia conseguir manter o controle por muito tempo. Mas, apesar de todos os pesares, e da bronca que ganhara de clara por conta disso, tinha que admitir para si mesma o quanto tinha sido uma delícia quebrar a cada daquela mulher!

Ver aquela posezinha de prepotente, cínica, e nojenta dela virar pó, não tinha preço! E no fundo, apesar de seu estômago ainda embrulhar lembrando do sangue da outra manchando suas mãos, não se arrependia do que havia feito. Ela merecia! Isso e muito mais.

Por horas, esperou que o aparelho tocasse com alguma notícia de Clara. Mandou algumas mensagens em seu whatsapp, porem, recebeu apenas o silêncio como resposta.

Rolava de um lado para o outro da cama, no entanto, aflita, sem conseguir falar com Clara, e sem notícia nenhuma do que poderia estar acontecendo no hospital, nem sua mente, e menos ainda seu coração davam indícios de que iriam sossegar o suficiente para que pudesse dormir um pouco. E como já era de se esperar, assim foi até enxergar os primeiros raios de sol invadirem seu quarto.

Como se fosse combinado, assim que a claridade invadiu o cômodo por completo, a campainha de sua casa tocou. Atordoada, olhou no relógio e os ponteiros acusavam 7h30.

Mal humorada pela falta de sono, e munida de uma certeza intrínseca de que não se tratava de Clara batendo a sua porta, resolveu ignorar o som estridente que a campainha provocava no ambiente. E por mais irritante que isso fosse, assim o fez: uma, duas, três, quatro, cinco vezes, até que a insistência inabalável de quem quer que fosse, a irritou mais do que o fato de ter que levantar para atendê-lo.

Desceu exatamente do jeito que estava: desalinhada, relativamente descabelada e basicamente semi nua.

Chegando a porta, abriu-a com tudo.

—Oi – disse grossa.

—Marina Meirelles? – perguntou o homem parado a porta.

—Sim.

—Você está intimada! – afirmou o oficial de justiça, entregando-lhe dois envelopes lacrados.

—Intimada? – tomou um susto – Como assim?

—Tenha um bom dia! – sem responder, encerrou o assunto e deu-lhe as costas.

Notas finais
Tentarei atualizar um cap pro dia das namoradas, tá! Afinal de contas, namorada que é bom mesmo eu num tenho, então, vamos escrever né kkkkk ... Beijos minas!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.