Velvet Touch
13 O Acordo
Notas iniciais
Marina ficou ali, estática. Ainda não acreditava que Clara tivesse saído e a deixado daquele jeito, e o pior, de propósito. Respirou fundo algumas vezes, mas era como se seu corpo não quisesse se acalmar, e o cheiro que a assistente deixara em seus lençóis não facilitava em nada a sua situação. Num ato quase masoquista, a fotógrafa passou a mão no travesseiro ao seu lado e o abraçou, aspirando o perfume da dona de casa com vontade, fechou os olhos e deixou-se embriagar por um momento. Pensou no gosto que a boca de Clara tinha, e em como tudo era diferente com ela. Como tudo era mais intenso ao mesmo tempo em que era mais carinhoso. Mais emergencial, ao mesmo tempo em que era mais calmo.
Perdeu-se em seus pensamentos por alguns momentos e quando se deu conta, seu corpo começava a suar, e Marina sentia seu sexo pulsar molhado por entre suas pernas. Respirou fundo pela milésima vez, bateu as mãos na cama como se ainda protestasse contra a atitude de Clara, e lentamente levou seu corpo até o banheiro, desligando o chuveiro e entrando debaixo da água gelada.
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Clara sabia que tinha sido maldosa com Marina, mas a verdade é que não se arrependia nadinha do que tinha feito. Infelizmente, sua amada não poderia mesmo fazer maiores esforços físicos, e ela como a única pessoa teoricamente responsável naquele relacionamento, deveria manter a cabeça – e todo o resto do corpo – no lugar. Lembrou-se das reações e de como seu corpo toma vida própria quando está perto da fotógrafa, e decidiu que brincaria com essas sensações antes que pudessem de fato consumar aquele amor que as queimava de dentro para fora.
Lembrou-se da carinha de Marina quando foi embora na noite anterior e decidiu que faria uma surpresa para a fotógrafa naquela manhã, tomando o caminho de Santa Teresa mais cedo do que o habitual.
_Bom dia dona Marina! – disse Clara com uma voz carregada de saudade enquanto entrava no quarto da amada.
_Bom dia, sua bandida! – respondeu a fotógrafa que ainda não tinha superado totalmente a provocação feita por ela na noite anterior.
_Antes que você brigue comigo, preciso te avisar que tem uma visita. Vim checar se você estava apresentável né, porque eu não sei o que seria de você sem mim – brincou a assistente, dando-lhe um selinho rápido – Posso pedir pra entrar?
_Visita? Mas, quem? – questionou curiosa como sempre.
_Pode ou não pode branquela?!
_Branquela? Meu Deus, mas você tá perdendo o respeito MESMO hein... Pode abusada! – respondeu mostrando-lhe a língua.
Clara saiu do quarto, voltando poucos minutos depois de mãos dadas com Ivan. O menino entrou tímido e Marina ainda não o tinha visto quando de repente ele apareceu bem na sua frente, em pé ao lado da cama.
_Oi Marina! – sorriu com aquele mesmo sorriso doce de Clara – Você tá melhor? – disse com uma voz tão preocupada que Marina se emocionou, sentindo os olhos marejarem.
_Oi Ivan – abriu seus braços e o menino jogou-se naquele espaço, apertando-a em um abraço forte – Eu tô melhorando sim. E você garotão? Está bem? Eu tô roubando demais sua mãe nos últimos tempos né?!
_Um pouquinho só. Mas eu já sou quase um homem né Marina?! Eu sei me cuidar sozinho. Não fique preocupada com isso não... Eu empresto minha mãe pra você! – respondeu acomodando-se ao seu lado na cama.
_Ah, você já é um homenzinho mesmo. Mas, vem cá sua mãe me avisou que eu tinha visita, mas não que a visita era tão ilustre assim! – disse Marina, sincera, olhando em direção a Clara que sorria feito boba assistindo a interação dos dois.
_Nem olha pra mim. Quem insistiu pra vir e pra que fosse surpresa foi esse bichinho aqui – revelou bagunçando o cabelo do filho – Eu não sei de nada disso!
_É que minha mãe às vezes joga uns caôs pra cima de mim, sabe Marina?! Então queria saber se você estava melhor de verdade ou se era só papo dela, sacou? – abriu o jogo, provocando risos na fotógrafa e um olhar indignado de Clara.
_Saquei sim Ivan. É, sua mãe tem dessas mesmo né?! – disse num tom de voz mais baixo, como se compartilhasse um segredo – Mas, vamos combinar que você pode vir sempre que quiser pra cá pra conversarmos, ai a gente confere se ela está enganando algum de nós dois. Fechado?! – estendeu a mão para o menino que a apertou, selando assim o pacto entre eles.
_Combinado! – sussurrou.
_Eu juro que não acredito nisso que tô vendo. O que é isso? É alguma espécie de complô contra mim agora? Olha lá vocês dois hein...
_Complô mãe? Nossa! Que nada a ver isso aí... Tô só aqui conversando com a minha amiga Marina. Só isso.
_É Clara, para de ser maluca. Tá lendo muita coisa do Dan Brown... Eu hein?! Credo! – disse piscando para Ivan, que sufocava o riso ao seu lado.
_Como vocês dois são caras de pau! – deixou seu corpo cair por cima do de Ivan, atacando-o com cosquinhas na barriga – E você, descarada, só vai escapar das cosquinhas hoje porque não tá lá muito inteira ainda! – brincou Clara, rindo para a fotógrafa que riu de volta, e juntou-se ao ataque contra Ivan.
_Pô Marina! Achei que... Você... Tava do... Meu lado cara – dizia o menino entre gargalhadas, e Marina o puxou para seu colo, salvando-a das investidas da mãe.
_Viu bobinho, era só pra te salvar! – beijou o topo de sua cabeça.
_Ah, eu tô é ferrada com vocês dois mesmo. Mas, Ivan, bora pra escola bichinho. Já estamos atrasados!
_Ah mããããe, tenho que ir mesmo? Queria ficar mais aqui – choramingou e Clara olhou para Marina, buscando apoio.
_Faz assim Ivan, você vai pra escola hoje e na semana que vem você volta e a gente se joga lá embaixo na piscina, o que você acha?
_Já é! – respondeu o carioquinha, animando-se de imediato – Mãe, agora você se ferrou, a MINHA AMIGA Marina me convidou, vai ter que me trazer de novo! – disse rindo e abraçando Marina novamente – Ela vai ficar morrendo de ciúmes, você vai ver – cochichou.
_Sua mãe é uma ciumenta mesmo. Mas, ela que aguente! Agora você é MEU AMIGO – disse imitando o mesmo tom usado pelo garoto.
_E depois vocês vêm me dizer que não estão de complô! Ai, ai... Olha o problema que eu fui arrumar para a minha cabeça! Bora menino, bora porque você ainda é MEU FILHO e tem que ME obedecer.
_Viu Marina, falei que ela ia ficar com ciúmes. Apelou já! – gargalhou Ivan, dando a mão para a mãe, que lhe bagunçou os cabelos e beijou o alto de sua cabeça.
Clara sorriu para Marina e saiu para levar seu filho até o colégio, deixando um beijo no ar para sua amada.
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Cadu saiu completamente desorientado da casa da fotógrafa no dia anterior, e sem se importar muito com sua própria situação clínica, passou a noite fora de casa sentado em um bar que sempre frequentara, próximo ao seu antigo apartamento, no Leblon. Havia pensado diversas vezes durante a madrugada em ir até sua antiga casa, e tentar conversar com sua esposa mais uma vez, mas ele sabia que não tinha mais o que fazer a respeito de seu casamento. Tinha visto nos olhos da esposa que nada do que ele dissesse ou fizesse iria de fato redimi-lo, e remoía-se internamente tentando afogar a culpa que sentia por tudo o que fizera contra a fotógrafa. Ironicamente, o mesmo dia que tinha tomado à decisão de confronta-la para que não lhe tirasse Clara e Ivan, Cadu é que os tinha entregue para Marina. No fundo, ele sabia que se Clara estava tão íntima assim da artista, não podia ser uma iniciativa apenas de Marina, afinal, quando um não quer, dois – ou duas – não brigam. A verdade era que sua própria esposa havia permitido que chegasse nesse ponto.
O sol nascia no horizonte quando ele levantou-se para ir até seu apartamento. Decidiu ir pela areia, e caminhava cambaleante ainda completamente embriago, com os sapatos nas mãos quando começou a sentir-se mal. A exemplo do que acontecera antes na casa de Marina estava completamente sem ar, pálido e suando frio. Caiu sentado na areia, sem conseguir sustentar seu corpo em pé e levou a mão ao peito, que subia e descia violentamente, mais como se o agredisse do que se o mantivesse respirando. Pegou o celular que estava no bolso da calça e suas mãos agora tremiam. Pensou em ligar para Clara, mas não sabia se ela ainda o atenderia, e por isso discou rapidamente o número da Drª Silvia, sua cardiologista.
A médica estava correndo na praia de Ipanema aquela manhã e não se demorou para chegar até Cadu. Foi conversando com ele no celular e tentando regularizar sua respiração através de algumas técnicas que pedia para que ele repetisse, e assim que chegou Cadu estava melhor, mas ainda sentia falta de ar e suava frio sentado na areia, sem forças para levantar. Silvia o amparou até chegarem ao calçadão e de lá, o colocou em seu carro para leva-lo ao hospital e realizar maiores exames, apesar da preocupação e da correria do momento, a médica não pôde deixar de reparar no forte cheiro de álcool que Cadu exalava.
_Cadu, esse cheiro de whisky você conseguiu bebendo quantas doses? Está cansado de saber que não pode beber, né?! Se você não me ajudar a cuidar de você vai ser difícil – ralhou a médica.
_Ah Silvia... Minha vida está de pernas para o ar! Acabei exagerando na bebida ontem mesmo – disse de cabeça baixa, como uma criança que acaba de ser pega fazendo alguma coisa errada. Sua voz ainda soava trêmula e a falta de ar continuava evidente.
_Cadu, se você não se cuidar, vai ficar mesmo complicado. Agora no hospital vou pedir alguns exames mais específicos, porque mesmo com essa sua bebedeira, não era para a coisa estar tão ruim assim.
Assim que chegaram ao hospital, a médica identificou-se na recepção e explicou que tinha uma situação de emergência para atender. Os enfermeiros buscaram Cadu com uma cadeira de rodas, guiando-o hospital adentro.
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Depois de deixar o filho no colégio, Clara correu de volta para Santa Teresa. Ainda não tinha conseguido matar a saudade de Marina, já que agora, não contentava-se mais em apenas ver sua amada. Sentia saudade do toque, do abraço mais íntimo, dos lábios macios e do sossego que só tinha quando era embalada pelo som da sua respiração tranquila. Chegou novamente a Santa Teresa, passou no estúdio e encontrou Gisele e Flavinha com uma certa impaciência estampada no rosto. Ambas andavam de um lado para o outro no espaço, como se esperassem algo ou alguém há muito tempo.
_Bom dia gente, vocês estão bem?
_Mais ou menos – responderam as duas simultaneamente.
_O que aconteceu?
_Victória e Vanessa sumiram e ninguém consegue falar com elas. Daqui a pouco as modelos estão chegando, e só Deus sabe dessas duas – disse Flavinha, verdadeiramente aflita por não ter notícias das meninas.
_Mas, oi? Como assim? – Clara sorria descaradamente com a notícia, pensando apenas no ponto positivo que aquilo poderia representar.
_Assim Clara! O celular das duas só dá caixa postal. Eu tô começando a ficar preocupada, porque a Vanessa pode ser tudo, menos irresponsável com o trabalho dela aqui.
_Flavinha... Vamos pensar positivo! – continuava a sorrir – Vocês tentaram ligar lá no Copacabana Palace? Talvez Vanessinha tenha ido dormir por lá... Quem sabe! – deixou a possibilidade no ar.
Antes que pudessem falar mais alguma coisa as duas chegaram ao estúdio. Vanessa com a mesma roupa do dia anterior, e Victória com cara de quem tinha passado muito bem a noite.
_Nossa, finalmente vocês chegaram! Eu já estava quase tendo um treco aqui, gente. Pelo amor de Deus! – disse Gisele, visivelmente aliviada.
_Ué... Mas porque todo esse pânico? Nem estamos atrasadas ainda – disse Vanessa, fazendo-se de desentendida.
_Tá tudo bem com vocês? – perguntou Flavinha.
As duas entreolharam-se e sorriram uma para a outra. Um sorriso íntimo, como se compartilhassem um segredo.
_Está tudo bem sim. Desculpem por não termos dados notícias antes meninas, ontem nos empolgamos no bar, ficou tarde para a Vanessa voltar para Santa Teresa sozinha de táxi, e eu achei melhor que ela ficasse no hotel comigo. Os celulares... Hãn... Ficaram sem bateria – explicou Victória, sem convencer quase ninguém.
_Pois é minha gente. Foi só isso que aconteceu, estamos bem! Agora... As modelos devem estar para chegar, vocês as organizam ai para a Vic, por favor? Vou tomar um banho, trocar de roupa e já volto pra cá – disse saindo do estúdio e piscando para Victória.
Clara riu, e resolveu ir logo ao encontro de sua amada.
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Marina estava cansada de não fazer nada, mas sabia que também não poderia abusar demais então tentava controlar o tédio e mantinha-se dentro das tais “orientações médicas”. Precisava recuperar-se logo para voltar a sua rotina normal, ao seu trabalho, e ter a sua liberdade e independência de volta. Ainda mais depois do que Clara lhe dissera na noite anterior. A fotógrafa sempre fora uma mulher muito intensa, e dificilmente manteve seus relacionamentos amorosos longe de sua cama por muito tempo. Era fogosa, incansável e praticamente insaciável quando o assunto era sexo, e essa situação toda, estava deixando-a completamente maluca.
Lembrava-se daquela noite em que Clara tinha invadido o seu quarto, e em todas as sensações que aquele corpo bronzeado tinha lhe proporcionado naqueles minutos de intimidade. Sem precisar fazer esforço nenhum seu corpo já começava a esquentar, e pegou o copo d’água que estava ao seu lado na cama. Fechou os olhos, e seus pensamentos voaram para a lembrança do toque dos lábios de Clara em seu pescoço, quando de repente estremeceu.
_Tá pensando em que gatinha? – sussurrou a assistente em seu ouvido.
_Que susto, Clara! Você ainda vai me matar com essa mania de entrar de fininho – disse sorrindo e procurando os lábios da outra com os seus.
_Quase não é exagerada né amor?! Credo! Mas, não foge não... Tava pensando em que, ou em quem, pra estar tão concentrada assim que não me ouviu chegar?
_Você quer mesmo saber no que e em quem eu estava pensando? – perguntou maliciosamente, olhando-a com todo o desejo que guardava para aquela mulher, e teve o prazer de ver Clara respirando fundo a sua frente.
_Claro que eu quero. Eu sempre quero... Saber o que se passa aí nessa sua cabecinha! – disse sem esperar pelo puxão que Marina lhe deu em seguida.
_Como eu sou uma pessoa que gosta de deixar tudo muito claro, vou te mostrar no que eu estava pensando, Clarinha... – pronunciou as palavras encarando a boca de Clara, que não conseguiu evitar que sua respiração falhasse por um momento.
Marina puxou a assistente para um beijo apaixonado, segurando seu rosto com as duas mãos e não permitindo que Clara se esquivasse daquele contato. A resposta da dona de casa surpreendeu a chefe quando sentiu suas mãos descendo por suas costas, e puxando-a para cima de seu corpo. A fotógrafa sorriu nos lábios da outra, sentindo que a amada enfim cederia aos seus encantos. As mãos de Clara agora seguravam seu quadril, e como se quisesse encaixa-la entre suas pernas, a assistente as afastou um pouco, acomodando a fotógrafa no vão que se formou entre suas coxas, e surpreendendo-se em como se encaixavam tão bem uma na outra.
Os lábios da chefe sugavam os da assistente sem pudor, e Marina sentia a língua da outra brincar com seu lábio inferior, lambendo-o de forma lenta e provocante. Clara desceu seus beijos até o pescoço da fotógrafa, deixando sua língua aventurar-se pela pele branca e quente da outra, enquanto a ouvia suspirar seu nome no pé de seu ouvido – Ah, Clara... – pronunciava seu nome com tanto desejo que a assistente arfava cada vez que ela falava. Suas mãos subiram para a nuca da chefe, entrelaçando os dedos em seus cabelos e a puxando para cima, em direção aos seus lábios novamente.
A beijou com ternura. Um beijo intenso, lento, e desejoso. Marina desceu suas mãos pela lateral do corpo de Clara, indo de encontro as suas coxas bronzeadas e parcialmente expostas devido à fenda de sua saia. Passou suas unhas por ali, subindo seus dedos lentamente por debaixo do tecido preto, até alcançar seu quadril – Essa aqui também é preta, igual à daquele dia? – perguntou no ouvido da outra, tocando a lateral de sua calcinha com a ponta dos dedos, e seu tom de voz era tão sacana que Clara estremeceu no mesmo instante em que sentiu o tecido de sua lingerie molhar – Tsc, tsc, tsc... Hoje é branca! – respondeu a assistente, com a voz rouca.
Marina passou a beijar seu pescoço, descendo lentamente e guiando os lábios em direção ao colo de Clara. Seus dedos agora brincavam subindo e descendo pela parte interna da coxa da assistente – Ai Marina... Você... Ah... Lembra do que... Com..bi...namos ontem? – perguntou extremamente ofegante – Eu não combinei nada, amor. Não sei nem do que você está falando – respondeu a outra, fazendo-se de desentendida e prosseguindo o passeio de seus dedos, agora pelo abdômen da dona de casa, que cravava as unhas em suas costas.
Clara sabia que não seria fácil resistir a Marina por muito tempo, mas, com o resquício de consciência que ainda tinha naquele momento, lembrou-se das palavras categóricas do médico com relação a esforço físico, e decidiu que tinha que parar as coisas por ali. O que Clara não sabia é que no mesmo instante em que ela tomava essa decisão, Marina também tomava uma, e sentiu o dedo da fotógrafa invadir sua calcinha, explorando seu sexo de cima a baixo. Soltou um gemido alto, que não conseguiu sufocar, e sentiu o corpo da fotógrafa estremecer em cima do seu. Marina deslizava a ponta de seu dedo pelo clitóris da assistente lentamente, quase sem toca-la realmente, provocando reações que Clara de fato, nunca imaginou sentir. Ela puxou a fotógrafa para um beijo e a ouviu gemer, um gemido diferente, que Clara logo leu em seus olhos que não era de prazer, mas sim de dor.
A assistente beijou-a mesmo assim, porém, com o máximo de delicadeza que pôde, e desceu suas mãos de encontro às dela, tirando-as de onde estavam. Marina já esperava por isso. Tinha certeza que aquele gemido que lhe escapara provocaria essa reação em Clara, e antes mesmo que ela a tivesse já amaldiçoava mentalmente aquela fisgada aguda que sentira no ombro segundos atrás – Não amor... Tá tudo bem! – tentou convencer a outra, mas sabia que aquela era uma batalha perdida. Clara era um poço de autocontrole quando decidia ser, e ela sabia melhor do que ninguém disso – Nada disso mocinha... – respondeu, ainda tentando controlar sua respiração.
Marina ainda tentou convencê-la do contrário, mas Clara agora segurava suas mãos e pesava seu corpo sobre o dela. Viu a expressão de frustração da fotógrafa, e tentou amenizar a situação enchendo-a de beijos por todo o rosto, boca e pescoço. Deitou ao seu lado e a abraçou.
_Não sei como você consegue Clara, sinceramente. Eu tô quase enlouquecendo – confessou Marina, desconfiando levemente do desejo da outra.
_Ei... Não faz essa carinha ai de desconfiada não. Você viu muito bem o estado em que me deixa! – disse segurando seu rosto – Eu também sou louca por você meu amor. Maaaaaas...
_Esse “mas” é que me mata!
_Amor, esperamos até agora. Não custa nada esperar mais alguns dias! – Marina a olhou com uma cara de “só se for pra você” – Tá, custar, custa. Mas, eu tenho que cuidar de você primeiro. Sua consulta médica é daqui treze dias, certo?
_Uhum... – respondeu desanimadíssima com o rumo que a conversa tomava.
_Então até lá, nada de você me agarrar. Tudo bem?
_E adianta eu falar que não? – Clara riu.
_Não, não adianta amor – respondeu, beijando seus lábios com carinho.
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Cadu havia ficado em observação por algumas horas no hospital, mas não precisaria ficar internado, e pediu que não comunicassem qualquer pessoa de sua família a respeito do ocorrido. Ainda aguardava a médica retornar com os resultados dos últimos exames e sua ansiedade lhe corroía um pouquinho mais a cada minuto de espera. Como se lesse seus pensamentos à médica entrou em seu quarto, com alguns papéis na mão.
_Oi doutora. Finalmente... E aí? Como estamos?
_Olha Cadu, os resultados dos exames saíram agora, e por mais que o seu quadro ainda não esteja estável, não é de tão alarmante assim. Vamos tentar mudar novamente a dosagem dos seus remédios e acompanhar mais de perto a evolução do seu quadro, se não melhorar dessa vez, vamos mesmo ter que recorrer ao transplante, como já havíamos conversado antes.
No primeiro momento Cadu ficou mudo. Não por falta de palavras necessariamente, mas pela confusão toda que se passava em sua cabeça e em seu peito ao mesmo tempo. Sua vida estava mesmo de pernas para o ar, como havia dito à Silvia mais cedo, e agora ele sentia como se caísse em um abismo sem fim. Parecia que o destino não só não lhe sorria mais, como tinha lhe virado as costas descaradamente.
_Tá tudo bem Cadu? – perguntou Silvia, preocupada com o silêncio e a expressão no rosto do paciente.
_Está sim Silvia. Tanto quanto pode-se estar nas condições que me encontro né.
_Olha, eu já vi quadros piores do que o seu reverterem-se. Isso depende muito da boa vontade do paciente, dos cuidados consigo próprio, e principalmente com o fato de se poupar de aborrecimentos e tensões desnecessárias. Vai dar tudo certo Cadu. E se não der com os remédios, vamos para o plano B, mas no final, vai dar tudo certo. Confie em mim!
_Tudo bem doutora. Eu confio! Vamos mudar então esses remédios de novo – risos – O farmacêutico nunca me viu tanto como agora. Não saiu de lá mais!
_O bom humor é um ótimo começo – disse rindo – Vou chamar a enfermeira para tirar o acesso do seu braço e já te libero com as novas receitas. A Clara vem te buscar?
_Hãn... Não. Eu pedi para que não avisassem ninguém. Meu casamento não está em um bom momento. Mas... Acho que prefiro não falar nisso agora. Tudo bem?
_Claro. Tudo bem. Desde que me deixe te dar uma carona até em casa então. Podemos tomar um suco no caminho e você me conta o que quiser contar. Combinado?
_Combinado! – respondeu o chef, animado por poder contar com a companhia da médica.
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Os dias andavam com a mesma velocidade que pode se esperar de uma corrida de lesmas para Marina. Não conseguia ficar muito tempo perto de Clara, pois a vontade que tinha era de joga-la na primeira superfície plana que visse pela frente e consumar aquele desejo que a consumia por completo. Como não podia realizar suas vontades, contentou-se com o fato de estar mais próxima de Ivan, que havia cobrado da mãe o dia na piscina que Marina lhe convidara, e feito à festa com as duas no domingo que passou por lá. O menino era um fofo, e a fotógrafa sabia o quanto aquele contato entre os dois era importante para sua amada, e permitiu-se amar o loirinho como se fosse seu próprio filho, conversando com ele ao telefone algumas vezes, e sempre renovando os convites para que fosse a sua casa.
Apesar dos pesares, a fotógrafa não podia reclamar de Clara. Ela cuidava dela com um carinho tão grande e com tanto amor, mas tanto amor, que por mais incrível que pareça, conseguia fazer com que ela se apaixonasse um pouquinho mais a cada dia. Mesmo com a lentidão, os dias passavam e a exposição aproximava-se, bem como a tão aguardada consulta médica de Marina. Ainda sem conseguir fazer as fotos efetivamente, a fotógrafa já havia voltado ao trabalho, acompanhando de perto a rotina em seu estúdio e escolhendo a dedo foto por foto até compor o grupo das que seriam expostas na galeria em São Paulo.
Por falar na cidade cinza, Victória já tinha ido para sua reunião por lá, e para o espanto de todas e alegria de Clara, Vanessa pediu alguns dias de folga para poder acompanha-la. A chefe concedeu sem nenhum problema, uma vez que agora o trabalho era mais de produção, e poderia se virar apenas com a Flavinha e a ajuda de Gisele por uns dias. Depois de um exaustivo dia de trabalho no estúdio, conseguiu convencer Clara a passar aquela noite com ela, prometendo não quebrar o acordo que tinham e alegando carência total e completa. A assistente por sua vez, solicitou que a irmã tomasse conta de seu filho e o deixou em seu apartamento após o colégio, voltando para Santa Teresa para atender ao pedido de Marina.
_Pronto meu amor. Sou toda sua essa noite! – declarou Clara após sair do banho e deitar-se junto a sua amada.
Marina a abraçou e encostou sua cabeça no peito da dona de casa. Clara sentiu que algo a preocupava.
_O que foi linda? No que você está pensando?
_Ah, nessa consulta de amanhã.
_O que tem ela?
_E se alguma coisa der errado? Se não estiver tudo bem?
_Mas você me disse que não sente nem dor mais. Mentiu é cara de pau?
_Não sua boba. Eu não sinto mais dores mesmo, mas sei lá né amor. Do jeito que eu sou zicada, vai saber se não deu alguma meleca.
_Para de ser bobinha. Nada vai dar errado. Fica tranquila! Já pedi para a Helena deixar o Ivan no colégio amanhã, ele sabe que vou te acompanhar ao médico e também disse pra que fique tranquila, e que estará tudo bem. Disse que vai te fazer jogar futebol com ele da próxima vez que vier – risos – ele gosta mesmo de você. Sabia?
_Eu também gosto muito desse moleque. Como poderia não amar né Clara? O menino é um pedaço seu.
_Linda – declarou Clara, beijando os lábios de Marina e abraçando-a.
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Amanheceu e as duas mulheres chegavam de mãos dadas ao consultório do Dr. Alberto. Marina seguiu para a radiografia, depois para a sala de ressonância, e voltou para até a sala de espera, onde Clara a aguardava. Esperaram por alguns minutos, e comportavam-se como o casal que eram, sem medo ou vergonha por viverem seu amor. Estavam abraçadas quando o médico chamou o nome de Marina. Ambas entrar na sala do médico, e uma certa apreensão dominava o ar por ali.
_Então Marina, acabei de ver os seus exames, e você está de parabéns. Teve uma recuperação muito melhor do que a esperada até aqui, e como você me disse que não sente mais dores e também não vê mais dificuldade para respirar, vou poder te liberar de algumas restrições.
_Jura? – disse Clara, aliviada pela notícia.
_Juro! – riu o médico.
_É doutor, dizem por aí que motivação é tudo nessa vida né?! – falou Marina, olhando maliciosamente para a mulher ao seu lado e assistindo-a corar automaticamente.
_Realmente, motivação é importante – concordou o médico, sem entender muito bem o que estava acontecendo – Bom Marina, com isso eu vou te liberar para voltar a fotografar, pode começar a pegar peso novamente com esse braço, mas, por favor. Nada de abusar também. Volte com calma, aos poucos, que tudo está caminhando bem até aqui.
Ambas agradeceram ao médico por seu tempo e pelas explicações dispensadas posteriormente e saíram sorrindo do consultório. Já no carro, Marina não perdeu tempo.
_Há! Tô liberada para fazer esforços físicos meu amor.
_Eu acho ótimo, porque tenho uma surpresa pra você hoje a noite.
_Uma surpresa?
_É, uma surpresa. Só ganha se comportar-se direitinho durante o dia!
_Não aguento mais me comportar!
_Vai por mim... Você vai querer ganhar essa surpresa! – disse Clara sedutoramente, antes de beijar seus lábios com paixão.
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