Velvet Touch
15 Meu Malvado Favorito
Notas iniciais
Como de costume, Clara foi a primeira a acordar. Marina tem um talento para dormir que é absolutamente inacreditável, e um relógio biológico que só a desperta sem nenhuma ajuda após o meio dia. A assistente, por sua vez, tinha o hábito de acordar cedo, e já tinha se acostumado a ser ela a acordar a amada quando passavam a noite juntas, coisa que aliás, amava fazer. Contudo, naquela manhã, antes de acordá-la se permitiu observa-la dormindo por alguns instantes, admirando cada mínimo traço de seu rosto que de tão perfeito, parecia ter sido desenhado à mão, e naquele momento estampava o retrato da mais pura e serena tranquilidade.
Deixou seus pensamentos voarem para tudo o que tinha acontecido na noite anterior e definitivamente, aquilo tinha sido a melhor “loucura” que Clara já fizera na vida. Lembrava-se de cada toque que a fotógrafa investira contra seu corpo e apesar de não ter experiências anteriores com outras mulheres, deduziu pela performance da chefe, que Marina a ensinaria tudo que precisasse saber.
Ainda observava seu sono quando a ouviu resmungar seu nome, e foi inevitável sorrir ao deduzir que provavelmente estava protagonizando algum sonho na mente de sua amada. Marina era para Clara, muito mais do que ela mesma um dia pensou que pudesse vir a ser. Desde que seus olhares se cruzaram naquela exposição, ela sabia que suas vidas estariam ligadas para sempre, mesmo sem entender e imaginar que seria pelo lado romântico da coisa naquele primeiro momento. Acariciou seu rosto e depositou um beijo no topo de sua cabeça, deixando um suspiro lhe escapar baixinho por entre os lábios.
Com cuidado, Clara desvencilhou-se dos braços brancos e delicados que envolviam sua cintura e resolveu preparar um café da manhã para sua amada. Vestiu-se com uma camisa larga que achou jogada no guarda roupa, colocou sua calcinha e desceu assim rumo à cozinha. Preparou um café da manhã cheio de guloseimas que sabia que Marina amava, e quando já estava terminando de organizar tudo em uma bandeja para voltar ao quarto, deu de cara com Vanessa que parecia estar chegando em casa exatamente naquele momento.
_Bom dia Clarinha! Tudo bem? – cumprimentou a ruiva, com um bom humor que sem dúvida ainda tinha traços de álcool, e provavelmente a lembrança de uma noite no mínimo interessante.
_Bom dia Vanessinha! Tudo bem comigo sim, e com você, pelo jeito tudo as mil maravilhas, certo?
_Ah, tudo uma beleza mesmo! Assistimos o nascer do sol agora pouco lá no alto de Santa Teresa e sinceramente, não tem vista mais bonita do que essa nesse mundo – disse deixando Clara confusa com o plural utilizado pela ruiva.
_Olha, até alguns minutos atrás eu concordaria com você Van, mas agora sou obrigada a discordar por completo! – disse Melissa, que chegava caminhando ao lado de Victória, ambas indo de encontro a elas ali na cozinha, esquadrinhando todo o corpo bronzeado de Clara com olhos no mínimo desejosos – Oi...
Clara ficou absolutamente desconcertada quando percebeu as segundas, terceiras e quartas intenções que o olhar de Melissa lançava sobre si e sentiu-se corar automaticamente. Percebendo a reação envergonhada da outra, a italiana não perdeu tempo e cumprimentou-a com dois beijos no rosto, depositando o segundo beijo perigosa e desnecessariamente perto demais dos lábios da carioca.
_Muito prazer em te conhecer. Eu sou a Melissa, e você?!
_Cla..ra – gaguejou, meio desnorteada pela investida tão direta da morena desconhecida a sua frente.
Vanessa e Victória se entreolharam com olhos arregalados, ambas conheciam bem Marina e sabiam que por mais que ela tivesse todo um discurso sobre liberdade em relacionamentos, morria de ciúmes das pessoas pelas quais se declarava apaixonada. Já imaginando todo o pano para a manga que aquilo ali daria se a fotógrafa aparecesse, e percebendo o desconforto de Clara, Victória resolveu tentar acabar com aquela cena o mais rápido possível.
_Hãn... Nos empolgamos um pouco ontem, viemos assistir o nascer do sol por aqui, e resolvemos aproveitar para apresentar o estúdio para a Melissa. Falando em apresentar, Clara essa é Melissa Albertini, ela que é a mentora do projeto que fechei em São Paulo ontem. Melissa, essa é a Clara. Namorada e assistente da Marina aqui no estúdio – apresentou Vic, fazendo questão de encarar Melissa nos olhos, como se pedisse para que pegasse leve.
_Prazer, Melissa! Já ouvi muito sobre o seu trabalho.
_O prazer é com certeza meu. Sempre ouvi comentários sobre a respeito do bom gosto da Marina, mas... Realmente! – a mediu de cima a baixo, sedutoramente – Pelo que vejo ele vai além das especulações feitas por aí.
Desta vez, quem arregalou os olhos foi Clara, visivelmente chocada com a coragem e o descaramento de Melissa.
_Bom meninas... Fiquem a vontade por aí, eu vou voltar lá pra cima – encarou a italiana nos olhos – A Marina está me esperando.
Clara pegou a bandeja e seguiu para o quarto de sua amada, imaginando se deveria ou não contar a ela sobre o que tinha acontecido na cozinha, mas rapidamente decidiu não falar nada, afinal, podia ter sido apenas algo pontual e o clima com Marina estava tão leve e gostoso que não queria estragar aquilo por nada no mundo. Assim que entrou no quarto se deparou com a cena de Marina tateando o lugar onde seu corpo deveria estar na cama.
_Opa, opa, já tô voltando amor. Não precisa morrer de saudade não! – brincou Clara.
_E onde você foi tão cedo assim? Posso saber? – respondeu ainda de olhos fechados e em meio a um bocejo interminável.
_Fui fazer o café da manhã para a minha menina, aonde mais eu iria bocó?! – disse colocando a bandeja na mesinha ao lado da cama, e depositando um beijo em sua bochecha.
_Sua menina, é? – abriu os olhos já sorrindo e selou os lábios dela com os seus – Adorei esse título.
_Que bom que adorou, porque não pretendo te destituir dele tão cedo – riu, retribuindo o beijo que acabara de receber.
Marina abraçou a cintura de Clara, subindo as mãos por suas costas e puxando-a até que caísse deitada por cima de seu corpo. Tomou seus lábios com ímpeto, e ambas sentiram o calor já familiar que existia entre as duas começar a incendiar seus corpos.
_Amor... O seu café vai esfriar! – sussurrou Clara com os lábios colados aos de Marina – Fiz com tanto carinho pra você.
_Hum... Sabe o que é? – passava seu nariz lentamente pelo queixo da assistente – Tô com fome de outra coisa!
_Marina... – advertiu Clara – A senhorita ainda está tomando remédios e tem que se alimentar direitinho. Toma o café que fiz pra você vai... Seja boazinha!
Marina suspirou, vencida pela doçura do pedido de Clara. Soltou sua cintura, beijou a pontinha de seu nariz e acomodou-se sentada, apoiando as costas na cabeceira da cama. Clara sentou ao seu lado e puxou a bandeja para o meio das duas.
_Nossa você que fez tudo isso aí? Como você está prendada – brincou Marina.
_Estou não, eu SOU prendada tá?! Bobona – respondeu Clara fingindo indignação e arrancando gargalhadas da fotógrafa.
_Muito mulherzinha mesmo!
_Muito abusada mesmo! – disse Clara mostrando-lhe a língua e levantando da cama.
_Ah amoooor, aonde você vai agora? Só me abandona!
_Tomar banho, dramática. Tenho que trabalhar ainda hoje, e pra você ainda por cima, sabia?! – Marina olhou-a com desejo – Nem adianta me olhar desse jeito aí não. Pode tomar o seu café direitinho, que a hora que eu voltar não quero ver nada nessa bandeja, entendeu mocinha?
_Sim senhora! – imitou o sinal de continência sorrindo, divertindo-se e adorando todos os cuidados que a dona de casa dispensava a ela durante aqueles dias.
Assim que Clara entrou no banho, seu celular começou a tocar. Tocou uma, duas, três vezes e Marina começou a se preocupar, pensando que poderia ser algo com Ivan, ou algum tipo de emergência. Pegou o aparelho que estava jogado embaixo do travesseiro para ver quem ligava, entre as chamadas perdidas havia uma de um número de telefone fixo sem identificação, e todas as outras eram de Helena, que já ligava novamente. Chamou por Clara, mas ela cantarolava no banheiro e não a ouviu. Preocupada, resolveu atender.
_Alô?!
_Oi... Clara? – perguntou Helena, percebendo que não era sua irmã que falava.
_Oi Helena, é a Marina. A Clara está... no banho! – até pensou em algo diferente para dizer, mas sua mente não funcionava direito naquela hora da manhã – Tá tudo bem?
_Ah... Tá... – respondeu um tanto desconcertada pela informação – Oi Marina, tudo bem? Na verdade é um probleminha com o Ivan. Mas nada grave!
_Com o Ivan? O que aconteceu? Ele tá bem? – perguntou preocupada.
_Então, não sei direito. Ligaram da escola dele, dizendo que tentaram falar com a Clara no celular, mas não conseguiram. Pelo que a diretora me falou, ele está meio enjoadinho por lá, mas não está com febre nem nada mais preocupante, deve ter sido alguma bobagem que comeu, ou coisa assim.
_Entendi... Faz assim Helena, eu vou avisar a Clara aqui e já vamos busca-lo lá no colégio, tudo bem?
_Certo! Avisarei a diretora que vocês já estão indo pra lá. Mandem notícias depois, porque eu fico preocupada aqui. Mães... Sabe como é né?! – riu.
_Sei como é sim – risos – Mas muito obrigada, Helena. Se cuida e pode deixar que mandaremos notícias, um beijo.
Desligou o celular já levantando e escolhendo uma roupa para vestir-se, fazia um friozinho raro na cidade maravilhosa, então optou por botas, calça jeans, camisa branca, uma jaqueta de couro preta que amava e rapidamente estava pronta para sair. Considerou o que a Helena havia dito no telefone e pensou se deveria alarmar Clara com a ligação da irmã ou não. Sabia que a dona de casa entrava em pânico com qualquer coisinha que envolvia Ivan, e resolveu poupá-la de maiores preocupações desnecessárias. Foi até o outro banheiro, lavou o rosto e escovou os dentes correndo, voltou para o quarto, pegou sua bolsa, pintou os lábios de vermelho, bateu e abriu um pouco a porta do banheiro onde Clara tomava seu banho, colocando apenas sua cabeça para dentro.
_Amor?!
_Oi linda.
_Eu vou precisar sair um pouquinho, mas daqui a pouco estou de volta, tá?!
_Sair? Cedo assim? Tá tudo bem?
_Tá amor. É rapidinho, só vou buscar uma coisinha e daqui a pouco tô de volta.
_Tá né – respondeu Clara desconfiada – Não demora hein... Temos que terminar de escolher as últimas fotos para a exposição e já estamos atrasadas com isso.
_Como você está mandona né?! Meu Deus! – disse rindo e viu Clara abrir um pouco o box, colocando a cabeça pra fora.
_Não me lembro de ter ouvido reclamações ontem à noite nesse quesito – sorriu maliciosamente para a outra – Nossa! Você está linda demais pra uma saidinha básica. Jesus!
_Ainda bem que você quase não é exagerada né?! Ah, e eu ainda estou querendo saber quem é você e o que fez com a Clara! – as duas riram.
_Essa é a sua Clara, meu amor! Versão exclusiva – disse mantendo a malícia viva em seu sorriso.
Marina sentiu seu corpo inteiro se arrepiar, e só não invadiu aquele box no mesmo instante, por conta do motivo que a tirava de casa tão cedo.
_Tem sorte de eu não poder entrar aí nesse box agora – disse adentrando de vez o banheiro, aproximando-se do rosto de Clara, segurando-o com uma das mãos e trilhando um caminho de pequenos beijos vermelhos, que começaram em sua bochecha e seguiram até que colasse a boca em seu ouvido – Você começou um jogo perigoso ontem, e quem brinca com fogo... – sussurrou sensualmente, passando sua língua pela orelha da outra, mordendo a pontinha bem devagar – pode se queimar, minha linda Clara! – olhou-a lascivamente e saiu, deixando uma Clara zonza e sem fôlego nenhum para trás.
–-//--
Finalmente a inauguração do galpão cultural tinha data definida, e Cadu não via a hora de colocar o seu negócio para funcionar. Tinha dado tudo e mais um pouco de si naquele empreendimento, e além de ser seu sonho saindo do papel e tomando forma, o bistrô representava também o começo de uma nova fase em sua vida. Por mais que fosse uma fase forçada, ainda assim era um recomeço e ele precisava desesperadamente que o bistrô fosse um sucesso.
_E então Laerte, está mesmo confirmado a inauguração para sábado que vem?
_Opa, está sim meu amigo. Esse lugar aqui vai bombar! E tenho certeza que o seu espaço gourmet vai ser um sucesso. Está tudo muito bacana aqui Cadu, de verdade.
_Oh cara, muito obrigado! Eu preciso mesmo que seja um sucesso, preciso dar um UP e recomeçar a minha vida bem, ao menos financeiramente – os dois riram e assim que terminou de falar seu celular tocou, era o Nando. Pediu licença para Laerte e saiu para atender em seu escritório.
_Oi Nando, tudo bem?
_Oi Cadu, tudo e você? Cara... Estou te ligando para passar as novidades do divórcio. A data já está marcada no cartório, e precisamos comparecer lá na terça-feira agora às 16h para poder oficializar a papelada – sabia que a notícia era chata, assim como toda aquela situação do amigo, então resolveu falar de uma vez.
_Hum... Entendi. E eu preciso levar alguma coisa em particular? Testemunhas eu sei que não precisa, mas tem algum documento? – a tristeza era evidente em cada palavra que dizia.
_Não, fica tranquilo quanto a isso. Tudo o que precisa já está aqui comigo, e eu estarei lá com você nesse momento cara, assim como você esteve comigo quando a situação foi inversa.
_Obrigado Nando! Ah, e sobre a guarda do Ivan? Como estamos nesse ponto?
_Os advogados delas me retornaram a proposta dando OK em três dias por semana. Pelo menos isso nós conseguimos Cadu, um dia a mais com o Ivan – comemorou o advogado, tentando animar o chef do outro lado da linha.
_Bom pelo menos isso né cara! Fazer o quê?! Beleza Nando, agora preciso desligar porque o nosso negócio aqui meu amigo, está prestes a bombar e tenho que estar com tudo prontinho para isso. Ah, e não marque nada sábado que vem, a inauguração foi confirmada e você tem obrigação de comparecer – tentou sorrir e despediu-se do amigo.
Ficou sentado em seu escritório por um tempo, com o celular na mão e imaginando onde Clara estaria naquele momento. Provavelmente estava enfiada em Santa Teresa com aquela mulherzinha lá, mas mesmo assim resolveu discar seu número no aparelho e arriscar. Depois de alguns toques, a voz de Clara soou do outro lado da linha.
_Oi Cadu.
_Oi Clara, tudo bem? – falou surpreso por ter sido atendido.
_Tudo bem e você? Aconteceu alguma coisa? – perguntou relativamente indiferente.
_Tudo. Eu só queria falar com você sobre essa coisa toda da guarda do Ivan, e sobre terça-feira que vem.
_Terça-feira? O que tem terça-feira?
_Ah, os advogados daquela... – conteve-se no último segundo, respirando fundo – da Marina, ainda não te falaram nada? Nosso divórcio está marcado para terça às 16h no cartório. Eu... Eu... Queria ter certeza de que você realmente quer isso mesmo! Sabe... Ainda não consigo acreditar em nada disso, e ainda dá tempo de desistir desse divórcio.
_Olha Cadu, eu já conversei bastante com você sobre isso. Não da maneira civilizada que eu gostaria, porque afinal de contas você não me deu essa chance, mas, eu tenho certeza dos meus sentimentos sim. Eu amo a Marina – disse convicta e até um pouco sem paciência.
_Ama mesmo Clara? Isso não é só uma aventura gay, encanto repentino por fama e fortuna, ou sei lá eu o que? Você nunca nem olhou pra mulher!
_Eu a amo Carlos Eduardo, mas não tenho mais que lhe dar satisfações em relação a isso. Já te disse, você perdeu tudo o que tinha de mim quando puxou aquele gatilho! – Clara havia subido o tom de voz, e agora falava de maneira exaltada.
_Tudo bem. Tudo bem. Me desculpe! Mas... Eu precisava ter certeza disso. Agora, sobre o Ivan temos que falar. Esse fim de semana será o último antes da inauguração do galpão e queria saber se posso pegar o Ivan hoje à noite ou amanhã de manhã e ficar o sábado e o domingo com ele. Faz tempo que o moleque não fica lá em casa comigo, só por telefone não dá.
_Tá, tudo bem. Pode passar lá em casa hoje à noite para pegar ele. Mas não vai tarde, ele tem judô amanhã de manhã e precisa dormir cedo.
_Pode deixar. Vou sair umas 18h30 aqui do galpão e vou direto pra lá. Ah, e obrigada por ter consentido com os três dias por semana, mas, eu... Não sei como vou fazer para conseguir aguentar esse tipo de restrição para ver o meu menino Clara! – desabafou sincero.
_Cadu, o Ivan é um elo que sempre teremos. Mas, eu sinto muito. Você procurou tudo isso! Eu nunca na minha vida pensei que nosso casamento fosse acabar assim um dia, e você ainda por cima deveria ser imensamente grato a Marina, pois foi ela que me convenceu a não pedir a guarda total do Ivan e ceder esse dia a mais na semana, se é que você quer saber.
_Ser grato a Marina? Eu? – riu – Aí realmente já é demais né Clara?! A mulher tira a minha família inteira e tenho que ouvir esse tipo de coisa ainda! Pelo amor de Deus! Ela no mínimo está querendo posar de boa moça para impressionar vo... – parou imediatamente ao ouvir a voz meio desanimada do filho ao fundo, chamando pela mãe – O Ivan está ai? Você está em casa ou na casa daquela vagabunda? O que o meu filho está fazendo aí Clara? EU NÃO A QUERO PERTO DELE!!! – o homem agora gritava.
_Ah, poupe-me você Carlos Eduardo. Vê se cresce, por favor! Até terça-feira! Tchau – respondeu Clara, desligando o celular.
–-//--
Ivan entrou no quarto aninhado no colo de Marina e já chamando pela mãe, que não entendeu absolutamente nada. Clara abriu os braços e recebeu Ivan do colo da amada, olhando-a nos olhos, com uma expressão confusa, como se buscasse por uma explicação.
_Ligaram da escola, você estava no banho. Ele não estava se sentindo bem, eu não quis te preocupar à toa e fui busca-lo – contou um pouco apreensiva, tinha feito tudo um pouco impulsivamente e não sabia qual seria a reação de Clara a aquela sua intromissão súbita.
_À toa? Mas o que você tem meu bichinho? – perguntou preocupada.
_Ah mãe, não é nada demais. Tô só enjoado. Acho que comi alguma coisa que não me caiu bem, sabe?! – respondeu dengoso, enquanto a mãe o deitava na cama.
_Ô meu Deus, vou te levar para o hospital então meu amor.
_Ah não mãe! Não é nada demais mesmo. Daqui a pouco passa, só me deixa ficar aqui quietinho com vocês – Marina sorriu ao ouvir a palavra “vocês”.
_Ele não está com febre linda, e na escola disseram que não chegou nem a passar mal. Só está indisposto mesmo – disse a fotógrafa, acariciando o rosto da assistente – Olha, eu tenho uma ideia. Que tal ficarmos todos debaixo dessas cobertas assistindo alguns filmes hoje hein Ivan?!
_Olha aí mãe, é disso que eu tô falando! – soltou um riso fraco.
Clara olhou para Ivan, depois para Marina e sorriu.
_Tudo bem, vocês dois venceram. Mas se o senhor não melhorar até de tarde, nós vamos para o médico, combinado?
_Combinado! Agora vem logo deitar vocês duas – disse o menino, arrastando-se para o meio da cama – Vamos assistir o que hein Marina?
_Hum... Adoro o “Meu Malvado Favorito”, tenho os dois DVDs aqui em casa. O que você acha?
_Jura? É um dos meus filmes preferidos do mundo! Demoro!
Marina sorriu e foi buscar os DVDs. Passou na cozinha, fez pipoca e voltou com os filmes e dois baldes enormes cheinhos para abastecer os telespectadores que a aguardavam em seu quarto. Colocou o filme para começar e abaixou ao lado de Clara na cama.
_Fiz muito mal?
_Mal? – Clara sorriu – São por coisas assim que eu te amo – sussurrou, para que apenas Marina ouvisse.
_Ow Marina, vem logo pra cá meu Deus. Vai perder o começo do filme cara!
_Calma, calma... Tô chegando! – disse deixando um sorriso para Clara.
Marina deu a volta na cama e foi deitar-se ao lado do garoto, que para a surpresa de ambas aconchegou-se mais ao seu lado do que do da mãe. O filme começou e a fotógrafa parecia ter voltado à infância junto com Ivan. Os dois davam risadas e ficavam bravos ao mesmo tempo e nas mesmas cenas, comentando o filme todo e fazendo piadinhas com o fato de Clara não conhecer tanto a história quanto os dois. Clara se fazia de indignada e brava com eles, mas na verdade estava completamente encantada pela interação dos dois amores de sua vida. Um de seus maiores medos em viver sua história com Marina era a aceitação do filho e a convivência dele com a fotógrafa, mas agora, olhando os dois ali na maior amizade, e percebendo o olhar amoroso que Marina lançava para o bichinho, seu coração não tinha como ficar mais leve. No meio do filme, Ivan puxou a fotógrafa como se quisesse lhe contar algum segredo precioso.
_Sabe que eu tô quase deixando você ser namorada da minha mãe?! Mas, não se empolga ainda não, porque eu disse quase! Ainda não deixei nada – cochichou baixinho em seu ouvido.
Apesar de completamente perplexa, Marina sorriu e beijou o topo da cabeça do garoto, quase explodindo de felicidade.
–-//--
O dia havia passado rápido. Os três permaneceram o tempo todo na cama, assistindo os filmes que eram recomendados por Ivan e Marina, até que o menino adormeceu no meio das duas, recebendo cafunés de uma de cada lado de sua cabeça. Clara checou mais uma vez a temperatura do garoto, realmente ele não tinha febre e parecia estar sentindo-se bem melhor depois de um chá que Marina havia lhe preparado após o almoço. As duas estavam agora concentradas no notebook da fotógrafa, escolhendo as últimas cinco fotos que tinham que mandar para a gráfica e conseguir as impressões dos painéis no prazo que queriam. Clara contou sobre o telefonema de Cadu para a fotógrafa que apesar de comemorar o fato de o divórcio entre eles sair logo, lamentou-se duplamente em relação à data em que tudo aconteceria, pois não poderia estar com a namorada no dia da assinatura dos papéis e ela não poderia estar com Marina nos preparativos para a exposição.
_Poxa amor, pena eu não poder estar com você aqui. Mas, você vai pra São Paulo em seguida né?! Eu preciso de você lá comigo nessa exposição.
_É claro que eu vou linda. Até parece que vou deixar você toda gata dando sopa por lá. Vai que conhece outra Clara descendo as escadas né?! – disse fingindo um certo ciúme, que na verdade não era tão fingido assim.
_Não existe outra Clara, existe a minha Clara. E ela me basta! Bobinha... – declarou, segurando o rosto da assistente entre as mãos e beijando-lhe os lábios rapidamente.
O celular de Clara começou a tocar, insistente e chato. A assistente correu para atender, mas não deu tempo de impedir que Ivan acordasse com o barulho. O nome de Cadu piscava no visor. Ela havia mandado um sms mais cedo, avisando para que ele fosse buscar o Ivan em Santa Teresa, e essa notícia apesar de não ser inesperada, tampouco surpreendente, o tinha deixado no mínimo furioso. Clara atendeu, trocou meia dúzia de palavras e pediu que ele esperasse um pouco, indo até Ivan.
_Amor, o seu pai chegou – disse acariciando seu rosto, enquanto ele despertava efetivamente – Como você está se sentindo? Você prefere ir para a casa dele agora ou só amanhã?
_Oba! Eu tô bem mãe. Vou hoje mesmo, faz tempo que não vejo o papai direito.
_Tá. Então se arruma aí que ele já está te esperando lá embaixo.
Clara voltou ao telefone e disse que o filho já estava a caminho e pediu que ele aguardasse no carro. Marina a olhou, pensando se deveria ou não acompanhar Clara e Ivan até a entrada da casa. Como se lesse seus pensamentos, a assistente arrematou sua dúvida.
_Amor, você fica aqui, tá?! Não quero vocês dois pertos um do outro. Pedimos uma ordem de restrição pra isso.
_E se ele der chilique com você lá embaixo porque o menino ficou aqui o dia todo?
_É por isso mesmo que eu não quero que você desça. Se ele der chilique eu sei me virar com o Cadu, agora vocês dois no mesmo lugar não dá. Sai faísca! Até porque você é pequenininha, mas é abusada né amor, vamos combinar – disse rindo – E outra, eu já prometi que nunca mais vou deixar que ele encoste um dedinho se quer no que é meu. Então a senhorita fica aqui.
_No que é seu? – Marina sorriu, maliciosamente.
_É, no que é meu.
_Tô gostando tanto dessa “minha Clara”! Nem te conto viu... – riu.
_E aí gente, vamos parar com a melação e vamos logo?! – falou Ivan em tom de brincadeira – Eu disse quase hein Marina, lembra né?!
_Claro! Lembro sim. Pode deixar que vou me comportar tá?! Eu prometo! Aliás, melhor ainda... Eu juro juradinho! – piscou para o menino e ele riu, correndo para lhe abraçar e se despedir com um beijo estalado em sua bochecha. Deixando Clara mais uma vez sem entender nada.
Mãe e filho desceram escada abaixo de mãos dadas enquanto Marina os observava, até que saíram de seu campo visual e ela voltou correndo para o quarto, com uma ideia na cabeça.
Hoje quem teria uma surpresa por ali era Clara!
Fale com o autor