Velvet Touch
18 Ciúmes
Notas iniciais
Marina estava com uma fisionomia estranha e relativamente aérea, como se estivesse em qualquer outro lugar do mundo, menos ali. Clara não sabia como deveria agir, não conseguia decifrar o que se passava na cabeça da namorada e na verdade não tinha nem entendido muito bem a sua reação de instantes atrás. Pela primeira vez, Marina lhe passou a chave para que fosse dirigindo e sem falar nada deu a volta no carro, sentando-se no banco do passageiro e colocando o cinto de segurança.
Saíram da casa em Santa Teresa e tomaram o rumo do Aeroporto Santos Dumont. O silêncio dentro do carro era mortal, e como a assistente não tinha certeza se deveria ou não tocar no tema "Melissa", resolveu ligar o rádio para desanuviar um pouco o clima e tentar puxar qualquer assunto que não envolvesse a italiana. Pelo menos por ora.
_Sabe que eu ouvi você falando com o Ivan esses dias de madrugada? Fiquei quietinha fingindo que estava dormindo, mas ouvi quase toda a conversa. Você foi tão fofa com o bichinho amor! – disse quebrando o silêncio e acariciando seu rosto – E eu não sabia que entendia tanto assim de revista em quadrinhos!
_O Ivan que é um fofo. Tinha tido um pesadelo e o Cadu não acordou quando ele chamou – limitou-se a dizer apenas o que podia, afinal, além de ter prometido segredo ao seu melhor amigo sobre os detalhes relacionados ao estado de Cadu naquela noite, não queria passar nem perto de criar um drama que envolvesse o chef e a namorada – não te falei nada depois pra que não se preocupasse. E, bom, sempre fui meio moleca né Clara, então lia e discutia meus personagens favoritos com os meninos.
A resposta da namorada veio carregada de tanta indiferença que o frio na barriga que sentira mais cedo no estúdio voltava a rondar o estômago da assistente. Percebendo que não tinha conseguido mudar a situação, resolveu limitar-se apenas em pousar sua mão na coxa da outra, fazendo-lhe algumas carícias entre uma marcha e outra.
_Clara, de onde você conhece a Melissa? – perguntou de uma vez, encarando-a e aproveitando a parada do carro no farol.
_Hãn... Para ser bem exata, nos conhecemos na sua cozinha. Sexta de manhã, quando fui fazer nosso café – contou um pouco receosa ao lembrar-se de como estava vestida naquele dia, e em como as apresentações tinham acontecido.
_Porque eu descobri isso só hoje? E por ela? – a voz de Marina saia baixa, calma, mas levemente tensa.
_Amor... Estávamos em um clima super gostoso, super íntimo, depois da nossa primeira noite juntas... Eu só não achei que fosse importante falar sobre aquilo, e depois acabei esquecendo mesmo, só isso.
_Hum... Sei... E porque é que o clima pesou tanto entre vocês hoje? – perguntou desconfiada de que havia mais para saber do que o que a namorada estava contando.
_Que clima? Amor, não viaja! – respondeu a assistente, tentando não entrar nos detalhes do que havia acontecido quando conhecera a morena.
Marina a encarou por alguns segundos, depois voltou a virar o rosto para o lado oposto ao de Clara e calou-se. Seguiu assim pelo resto do caminho, e dessa vez a assistente também permaneceu em silêncio. Chegaram ao aeroporto e a fotógrafa desceu do carro partindo em direção ao porta-malas, ainda sem dizer nada. Clara bateu as mãos no volante, irritada consigo mesma por não saber como lidar com aquilo. Não conseguia decidir se era melhor dizer a verdade, ou se o melhor mesmo era continuar bancando a desentendida e ficar na dela. Saiu do carro e mesmo sem saber muito bem o que estava acontecendo, decidiu que não deixaria que Marina embarcasse naquele clima com ela.
_Amor, o que foi hein?! Você não vai viajar nesse climão comigo, vai? E eu nem sei o porquê disso tudo... – disse abraçando suas costas, e depositando um beijo em sua nuca.
_Ah, você não sabe Clara?! Você sabe quem é a Melissa? – desvencilhou-se do abraço da outra e girou seu corpo, ficando de frente para ela.
_Sei que ela é uma artista plástica famosa, de quem você é fã, pelo que percebi nas apresentações hoje. Qual é cara, porque ela te incomoda tanto Marina? Porque de repente Melissa virou tema de discussão entre a gente?
_Melissa é a maior galinha do mundo artístico, Clara! Ela sai por aí pegando todas as mulheres que vê pela frente, e geralmente costuma ser irresistível – o tom de voz da fotógrafa subira uma oitava – E se você quer mesmo saber, ela me incomoda porque a presença dela incomoda você Clara. Não sou idiota! – cuspiu Marina.
_Opa! Pera aí Marina. O que é que você está insinuando com isso? Posso saber? – perguntou um pouco confusa.
_Não se faça de desentendida, já disse que não sou idiota! Já fui mestre na escolinha de sedução dela Clara! Sei muito bem identificar quando uma pessoa está tentando seduzir outra, e até ai tudo bem, você é linda mesmo. Mas, a partir do momento que ela consegue mexer com você, aí eu tenho um problema! – o ciúme começava a aparecer claramente no discurso da fotógrafa, e Clara não sabia se achava aquilo o máximo ou se ficava chateada.
_Mexer comigo? De onde você tirou que ela mexe comigo? Aliás, o que você quer dizer com isso?
_Mexe Clara! Assume! Eu vi... – rosnou a fotógrafa.
_Você viu o que meu Deus do céu? Tá maluca Marina? – Clara gesticulava sem parar, elevando seu tom de voz para o mesmo que a fotógrafa usava.
Marina respirou fundo, olhou em volta, e involuntariamente levou a mão até sua testa, coçando e bagunçando o desenho de suas sobrancelhas. Puxou o ar mais uma vez, e buscou acalmar-se. Fazia muito tempo que não tinha uma crise de ciúmes, e definitivamente o estacionamento do aeroporto não era o local mais apropriado para se ter uma. Clara percebeu que a fotógrafa tentava se acalmar, e aproveitou o momento, chegando mais próxima da outra e deixando as mãos pousarem em sua cintura.
_Amor... Isso tudo é ciúmes? – disse encostando o quadril de Marina no porta-malas do automóvel – É disso que se trata todo esse seu nervosismo?
_Não Clara. Não é ciúmes! – negou Marina, sem obter um mísero de sucesso que fosse.
_Pois é o que está parecendo. Você fica linda desse jeitinho, bravinha, mas se não tirar esse bico agora daí, ele vai sair na mordida! – ignorando completamente onde estavam, Clara avançou nos lábios vermelhos de Marina e mordeu-os.
_Clara eu sei que sempre disse pra você que não sou exclusivista nem nada, mas é praticamente impossível conceber a imagem de outra pes... – Marina foi interrompida pelos lábios da assistente.
_Será que mesmo depois desse fim de semana, você ainda não conseguiu entender que eu sou sua? – disse nos lábios vermelhos da outra.
_O quanto você é minha? – rebateu já sorrindo e abraçando seu pescoço.
Clara inclinou-se até colar os lábios em sua orelha.
_Completamente. Só sua! – sussurrou sincera e sensualmente.
Marina sentiu todos os mínimos pelos de seu corpo se arrepiarem e involuntariamente suspirou, vencida.
_Eu te amo, Clara!
_Eu também amo você, sua boba ciumenta! – brincou, deixando um beijo na pontinha de seu nariz.
As duas riram e Marina percebeu que estava começando a ficar atrasada para fazer seu check in. Pegou as malas do carro e correram para o saguão do aeroporto. Fizeram tudo o que tinham que fazer e Clara a acompanhou até a entrada para a fila de embarque, de onde não poderia passar.
_Vou ficar aqui morrendo de saudade de você, linda. Vou correndo pra São Paulo amanhã à noite! – declarou Clara abraçando-a.
_Eu que vou ter um treco de saudades. Ainda mais que fiquei mal acostumada com você dormindo os últimos dias comigo – o brilho no olhar da fotógrafa mudou sutilmente, passando de apaixonado para sacana – Como eu vou sobreviver sem essa boca – beijou seus lábios – esse toque – puxou as mãos de Clara até sua boca, depositando um beijo em cada uma – sem esse corpo gostoso na minha cama – mediu a assistente dos pés a cabeça e viu aquele sorrisinho tímido aparecer no rosto da dona de casa.
_Assim eu não deixo você embarcar Marina. Não judia de mim, poxa... – disse fazendo charme e exibindo um biquinho.
_Pois, saiba que... – subiu com a ponta do nariz pelo seu pescoço e encostou os lábios em sua orelha – Vou pensar muito em você, principalmente durante cada um dos meus banhos! – sussurrou a fotógrafa, usando toda a sensualidade que podia e Clara sentiu o tecido de sua calcinha molhar, entendendo perfeitamente o que a namorada queria dizer com aquela observação.
_Isso é um jogo tão baixo, mas tão baixo, que olha... Não tá fácil!
Antes que Marina pudesse falar mais alguma coisa, a voz da mulher ecoando pelos alto-falantes dava a última chamada para os passageiros de seu voo. No mesmo instante que a voz apareceu, o celular de Clara tocou, ela olhou no visor e era um número desconhecido de sua agenda de contatos. Num impulso de curiosidade atendeu rapidamente.
_Oi?!
_Clara?
_Isso. Quem fala? – perguntou curiosa e receosa ao mesmo tempo.
_É a Melissa. Tudo bem? Preciso saber se você vem para o estúdio hoje – disse logo, antes que Clara pudesse desligar o telefone.
Assim que escutou o nome da italiana ecoar em seus ouvidos, olhou para Marina e mesmo sem conseguir saber o porquê, havia uma dose de culpa em seus olhos.
_Hãn... Até onde me programei eu vou sim. Por quê?
_Por nada, só queria saber se teria o prazer da sua companhia por hoje. Vou voltar ao trabalho e te vejo em breve então. Beijos e até logo!
Clara desligou o telefone meio desnorteada e foi absolutamente impossível disfarçar isso para a namorada.
_Era ela não era? – perguntou Marina, sentindo toda a sua irritação voltar e assistindo a assistente confirmar com um aceno positivo de cabeça – Como é que ela tem o seu celular?
_Não sei, as meninas devem ter passado – respondeu deixando novamente uma dose de culpa invadir seus olhos.
Marina respirou fundo e contou até dez mentalmente. Ouviu a voz feminina soar novamente, repetindo a última chamada para que embarcasse e decidiu ir logo.
_Bom, eu vou indo. Se não vou perder o voo e você o seu encontro! – definitivamente fazia tanto tempo que Marina não tinha uma crise de ciúmes, que tinha se esquecido de como eram e como é que deveria agir para controla-las.
_Marina... – Clara respirou fundo – Para com isso vai... Por favor! – pediu indo abraça-la, porém, a fotógrafa esquivou-se do abraço.
_Tenho que ir, aviso quando eu chegar ao hotel – depositou um beijo rápido e chocho nos lábios da outra e saiu.
–-//--
O ritmo no estúdio era intenso. Melissa havia levado algumas das principais obras que seriam imitadas pelas lentes de Victória, e a fotógrafa trabalhava incansavelmente na escolha das melhores modelos para cada uma das telas. A italiana tinha adquirido uma intimidade rápida tanto com Vic quanto com Vanessa, e isso se devia única e exclusivamente à noite que as três passaram juntas. Apesar do receio inicial de que isso pudesse de alguma forma mudar as coisas entre ela e Victória, Vanessa agora tinha certeza de que nada mudara, e via-se gostando cada dia mais da companhia e do jeito da loira.
O clima estava tranquilo entre as três, e a única coisa que preocupava Victória era o assédio de Melissa em cima de Clara. Ouvira a morena ligando para ela minutos antes, e tinha certeza de que Marina já percebera tudo o que estava acontecendo. Era óbvio que a loira ainda não havia digerido tão bem assim o fato de Clara estar com sua pequena e não ela, mas, seu amor era de fato generoso, e nesse momento o que mais a preocupava era a tensão e os conflitos que essa atitude da italiana poderia causar. Conhecia Marina como ninguém, talvez até mais e melhor do que Vanessa, e apesar de sua pequena não ter lá muitos chiliques de ciúmes nem nada, geralmente assumia uma postura de ataque em situações como esta, e apesar de não conhecer Melissa tão bem assim, sabia que ela jamais recuava ou desistia de seus interesses, principalmente quando eles eram sexuais.
Se a loira estava apreensiva, Melissa estava confiante. Mesmo sem ainda entender exatamente em que nível e de que jeito, sabia que tinha mexido com Clara, e isso lhe dava toda a confiança de que, na verdade, nem mesmo precisava. A italiana tinha uma personalidade marcante, e sabia muito bem do poder de sedução que conseguia exercer sobre as outras pessoas, principalmente sobre as mulheres que caíam em sua mira. Ainda meio perdida na imagem do sorriso tímido de Clara e em suas bochechas vermelhas, Melissa tentava concentrar-se na tela que estava a sua frente. Sentia-se inspirada e uma das telas que havia levado para o estúdio estava em branco. Depois de alguns minutos desistiu de pincelar algum desenho ou figura específica e optou por um abstrato. Assim que jogou a primeira bomba de tinta azul em direção ao branco a sua frente, ouviu a voz da dona de casa chamando seu nome.
_Oi meninas. Melissa, não quero atrapalhar vocês, mas podemos conversar um minuto? – perguntou seca, deixando a bolsa cair na mesa ao lado da artista.
_Você não me atrapalharia nem se quisesse. Claro que podemos! – respondeu gastando um de seus melhores sorrisos e provocando uma troca de olhares tensa entre Vanessa e Victória.
As duas saíram do estúdio e foram para a área externa da casa, parando em frente à piscina.
_Bom Melissa, vou ser bem direta... Eu não te conheço, não sei qual é a sua, e sinceramente, não tenho interesse nenhum em saber. Só queria deixar muito claro pra você que eu tenho um relacionamento com a Marina, e pretendo mantê-lo intacto. Eu demorei e passei por muita coisa para ficar com ela. Eu a amo – declarou Clara de uma vez.
O sorriso que estampava o rosto da italiana, não só continuava ali como se arreganhara um pouco mais, indo de ponta a ponta em seu rosto.
_Não tem interesse nenhum? Tem certeza? Porque essa conversa, assim, do nada? Brigou com a namorada por minha causa? – provocou a morena.
_Isso não é da sua conta, e não tem porque você ser pauta de nenhuma discussão nossa – mentiu a assistente – Eu só quero deixar as coisas muito claras pra você.
_Olha Clara, eu não estou querendo acabar com nenhum relacionamento que você tenha com qualquer pessoa. Mas, não posso garantir que você vá perder esse incômodo que tem com a minha presença assim tão fácil – continuou com as provocações – Olha pra você! Porque sua respiração tá desregulada assim? Porque você está vermelha? – perguntou aproximando-se da outra – Não tô te pedindo em casamento – deu mais dois passos, colando seu corpo ao de Clara – Aliás, ainda não estou te pedindo nada – depositou um beijo em seu pescoço – Tá sujinho de tinta aqui... Culpa minha! – sussurrou em seu ouvido e saiu, deixando uma Clara completamente desnorteada e irritada para trás.
Clara respirou fundo algumas vezes, tentando entender o que é que tinha acontecido ali. Porque ela não se mexeu antes do beijo de Melissa em seu pescoço? Porque aquilo estava acontecendo agora? Porque essa mulher tinha que aparecer bem no melhor momento da sua vida? E a pergunta que mais lhe assustava era: Porque ficava tão incomodada com a proximidade dela? Balançou a cabeça de um lado para o outro, com força, como se tentasse dissipar as dúvidas e as perguntas que rondavam sua cabeça, e voltou para o estúdio.
_Nossa Clara! Virou o Smurf? – brincou Victória – Tá tudo azul aí no seu ombro.
A assistente foi até o espelho e realmente estava com o ombro esquerdo e um pedaço do pescoço pintados todos de azul, e impressionou-se por não ter percebido na hora que a tinta lhe acertou. Suspirou, ainda irritada.
_Aff... Vou tomar um banho. Já venho!
Melissa acompanhou a saída de Clara com olhos maliciosos e recebeu olhares repreensivos de Victória como resposta.
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A viagem de Marina foi uma porcaria. Passou aquela quase uma hora no avião pensando na maneira com que tinha ido embora, e em toda essa situação entre Clara e Melissa. Não era acostumada a ter que lidar com situações assim, e muito menos em ter que administrar a insegurança que tudo isso lhe proporcionava. Chegou a São Paulo e partiu direto para o hotel. Suas reservas foram feitas no Hilton Morumbi, e no caminho foi ligando para Carlos, o dono da galeria onde faria sua exposição. Após conferir se todos os painéis haviam chegado e sido recepcionados adequadamente pela galeria, acordou com o empresário que visitaria o local na parte da tarde, e aprovaria os layouts finais para a exposição das fotografias.
Assim que preencheu toda a papelada de check in no hotel, correu para seu quarto e se jogou na cama. Sua mente não conseguia tirar o foco da discussão que tivera com Clara mais cedo, mas o que mais lhe atormentava era aquela reação da namorada na presença de Melissa. Marina era a primeira mulher na vida dela, e talvez essa experiência tão exclusiva não fosse suficiente para Clara. Talvez a namorada quisesse conhecer outras mulheres. Talvez ela fosse uma curiosidade homossexual, apenas. Talvez... Talvez... Talvez...
Marina levou as mãos à cabeça e como se isso fosse ajuda-la a ver as coisas com mais clareza, esfregou os olhos com a ponta dos dedos. Mas o que é que estava acontecendo com ela afinal? Ela passara meses lutando por essa mulher. Clara largou o marido com quem era casada há mais de dez anos, correu o risco de ter a rejeição do próprio filho, e por fim, ela própria chegou a tomar um tiro em prol desse amor. Isso tudo não podia ser de mentira! Não podia ser apenas uma atração física ou uma curiosidade sexual qualquer. Não, definitivamente não.
Resolveu ligar para a namorada como prometera que faria antes de embarcar, e tateou pela cama a procura de seu celular. Teclou o número de Clara, e viu uma foto das duas juntas aparecer no visor do aparelho. Lembrou-se perfeitamente o quanto tinha sido difícil conseguir aquela foto. Não era nada demais, era apenas um selfie das duas recém-acordadas em sua cama, mas lembrava-se muito bem do drama que a namorada fizera para tirar aquela foto. “Tô com cara de sono Marina!”, “Ah, não, eu tô feia demais agora. Descabelada! Não...”, “Para amor! Não é todo mundo que dorme e acorda linda igual a você!”. Involuntariamente ela sorriu, imaginando o quanto estava sendo insegura, boba, e quase injusta em relação a tudo o que estava acontecendo.
Sem esperar muito mais, apertou o botão verdinho e começou a ouvir os toques de chamada do outro lado da linha. Chamou, chamou, chamou, e caiu na caixa postal. Tentou mais uma vez, e o resultado foi o mesmo. Quando já estava desistindo, resolveu tentar pela terceira vez, e desta, foi atendida.
_Oi amor! – disse Marina, animada.
_Oi, tudo bem?! – respondeu uma voz estranha do outro lado.
_Hãn... Quem tá falando? – a pergunta era quase retórica, pois Marina reconheceria aquele tom mais grave em qualquer lugar.
_É a Melissa, querida. Fez boa viagem? – o sarcasmo na voz da morena era evidente e indisfarçável.
_Melissa?! Oi meu bem. Fiz ótima viagem sim, e você como está? – Marina respirava fundo, soltando o ar o mais pausadamente que conseguia.
_Ah, por aqui tudo as mil maravilhas. Victória e Vanessa estão fazendo um trabalho excepcional, e a Clara... Bom, a Clara é ótima! – provocou Melissa, gastando sua primeira ficha naquele jogo.
_As meninas realmente são sensacionais! A qualidade do estúdio Marina Meirelles, modéstia parte, não tem contestação. E realmente, a Clara é muito mais do que ótima! – tentou parecer indiferente a provocação da outra – Falando nela, cadê minha namorada?
_A Clarinha está no banho! – disse, gastando agora a sua melhor ficha.
Marina sentiu na hora o baque daquelas palavras. Como assim Clarinha? Como assim no banho? Porque Melissa atendeu o celular? Como ela sabia o que Clara estava fazendo? Marina sentia sua cabeça girar, e sentou novamente na cama. Assim que tomou ar para tentar dizer alguma coisa – que ainda nem sabia o que era – em resposta, ouviu a voz de Clara soando irritada ao fundo da ligação. Não conseguiu entender bem o que ela disse, e segundos depois era Clara quem falava com a fotógrafa no celular.
_Oi amor... – disse preocupada, já saindo de onde estava e tomando novamente o caminho do quarto da amada.
_Porque ela atendeu o seu celular? Porque ela te chamou de Clarinha? Clara! O que é que está acontecendo?
_Calma. O que essa... – como não achou palavras que não fossem consideradas de baixo calão no momento, preferiu conter-se – O que ela te falou?
_Me responde Clara! – Marina controlava-se para não gritar do outro lado da linha.
_Calma amor... Não é nada do que você está pensando! – Clara definitivamente disse a coisa errada, na hora errada.
_Não tinha nada mais clichê pra me dizer não? – ironizou a fotógrafa, ainda fazendo um esforço descomunal para conseguir se controlar.
_Marina! Não me ofenda, tá legal?! Não aconteceu nada. Eu cheguei ao estúdio e a droga da Melissa estava pintando uma tela, acabou espirrando tinta em mim, eu fui tomar banho pra me limpar e esqueci a bolsa com o celular lá no estúdio – contou Clara, sem saber o que Melissa havia lhe dito exatamente.
_Huuummm... Interessante! E aí você precisava avisar ela de que ia tomar banho? Era realmente necessário um comunicado pra isso? – a irritação fizera o tom de sua voz subir, sem que conseguisse mais evitar.
_Eu só falei... Não falei pra ela em específico, Marina! Para com isso! Você não confia em mim? – a assistente agora começava a ficar realmente chateada.
_Eu não vou nem responder a sua pergunta! Agora... Realmente engraçada essa sua aproximação da Melissa né?! Você a conhece sem querer, e “esquece” – enfatizou a palavra – de me contar. Ai depois “esquece” o celular pertinho dela, mais uma vez sem querer, é claro. E por fim, ela sabe até o que você está fazendo ou deixando de fazer e resolve que tem intimidade o suficiente para atender a sua namorada, no seu celular. Isso tudo não é muito legal?! Não é tudo uma coincidência ótima?! Me diz, o que é que você está fazendo hoje no estúdio afinal? – a ironia que recheava cada uma das palavras que saíam da boca de Marina agora acontecia de maneira completamente involuntária.
_Chega! Pode parando por aí. Eu não tenho que ficar ouvindo essas coisas, sabia?! Eu falei pra você que estaria aqui para o caso de você precisar de alguma coisa de última hora para a sua exposição. Marina, eu fiz de tudo nessa vida pra poder ficar com você! Eu não estragaria a nossa relação por outra mulher ou por outro homem que fosse! – quem gritava agora era Clara.
_Jura? Eu levei um tiro por você Clara, e levaria outro se fosse necessário! Então, não venha me dizer sobre os sacrifícios que foram feitos para que essa relação acontecesse. Eu quero saber o que está acontecendo entre você e a Melissa, e quero saber agora! – esbravejou Marina, perdendo o resto de controle que ainda lhe sobrava.
_NADA! Quantas vezes eu vou ter que te dizer que não está acontecendo nada? – berrou a assistente enquanto duas lágrimas escorriam quentes por sua face.
_Quem sabe até que você mesma se convença disso, não é?! Olha Clara, eu preciso desligar. Eu tenho que trabalhar e estou ficando atrasada.
_Não... Não desliga assim. Amor, por favor... Vamos parar com isso. Amanhã eu vou assinar aquele divórcio, com certeza vai rolar indisposição com o Cadu. Eu preciso de você do meu lado. Preciso da minha Marina comigo. Amanhã à noite eu estarei com você, e a gente conversa sobre o que você quiser falar. Mas olho no olho, e não assim – Clara tentava disfarçar o choro, mas não tinha mais muito sucesso.
Marina respirou fundo algumas vezes antes de responder. Percebeu a voz chorosa de Clara e agora uma forte culpa lhe acometia o peito.
_Desculpa. Eu... Eu não sei lidar com isso! Mas... Eu prometo que vou aprender. Estarei a sua espera amanhã aqui. E, Clara... Você sempre vai ter a sua Marina. Sempre! – declarou num tom de voz baixo, calmo, porém convicto.
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Cadu estava nervoso. Sabia que o filho tinha presenciado aquele seu episódio de bebedeira em casa, mas não comentaram nada a respeito. Ele por vergonha, e o menino, muito provavelmente para não magoar o pai. Contudo, como não tinham conversado sobre o tema, não tinha certeza se Ivan havia contado sobre essa situação ou não para a Clara e isso o afligia desde o ocorrido. Além desta questão, mesmo depois de todo esse tempo e de todos os acontecimentos, conversas e palavras que já tinham se desenrolado nesse período em que estavam separados, Cadu não queria que seu casamento chegasse ao fim. Amava Clara e por mais que se visse obrigado a abrir mão dela de uma vez por todas, não se sentia disposto, tampouco preparado para isso.
Acompanhado por Nando, o chef chegou ao cartório alguns minutos mais cedo do que precisava, e agora andava de um lado para o outro enquanto aguardava a chegada da esposa. Assim que o relógio marcou 15h50, Clara apareceu deslumbrante passando pela porta, e foi rapidamente notada pelo marido, que correu em sua direção, sem dar chance para que desviasse ou não lhe desse a atenção de que precisava naquela última tentativa que faria.
_Clara, vamos parar com essa loucura por aqui. Nosso casamento não precisa acabar! Eu posso conviver não tendo você com exclusividade pra mim. Eu... Eu aceito! – disse num tom desesperado.
_Cadu, para com isso. Você sabe que eu não sou assim, e mesmo que fosse a Marina não aceitaria essa proposta maluca sua – respondeu surpresa pela atitude do chef.
_Mas... Clara, eu não quero um triângulo amoroso não. Eu não preciso vê-la, ela não precisa me ver. Eu não estou pronto para deixar você por completo! Pelo menos pensa nisso... A gente adia isso tudo aqui e você pelo menos pensa... Por favor! – o tom de sua voz era de súplica, e Clara não sabia direito como responder aquele absurdo.
_Vai ficar tudo bem Cadu... Você vai se acostumar a viver de outra forma, e outra, daqui pouco tempo você estará com outra pessoa ao seu lado. É lindo, charmoso, inteligente. Não faltarão pessoas que te amem e possam te dar o conforto do lar que você precisa – a voz da esposa saia calma, pausada, tentando claramente acalmar o homem a sua frente. Nunca quis que as coisas chegassem aonde chegaram, mas agora era um caminho sem volta.
_Se eu sou tudo isso porque você não pode voltar a me amar? Eu prometo ser um marido melhor, prometo não te prender, não ficar te controlando... Ser mais responsável – ele agora havia dado alguns passos a frente e estava perto demais para o gosto de Clara. Não que sua proximidade a incomodasse, mas, depois dos últimos acontecimentos nunca sabia o que poderia esperar do esposo.
_Nós já conversamos milhares de vezes a respeito de tudo isso, Cadu. Eu amo a Marina, eu quero ficar com ela. Só com ela! – enfatizou a última parte, assumindo um tom de voz mais sério e viu Nando se aproximar.
_Oi Clara, tudo bem? Daqui alguns minutos já devem nos chamar. Seus advogados foram agora pouco buscar um café lá no fundo.
_Oi Nando – cumprimentou-o com dois beijos no rosto – Eu estou bem. Ou tão bem quanto se pode estar para eventos assim, não é?! Obrigada pelo aviso, vou me encontrar com eles.
_Cadu, você está ficando maluco ou o que cara? Que história é essa de aceitar a Marina na vida de vocês? Amigo, você precisa virar essa página! Aceita logo esse divórcio por que ela não quer voltar atrás. Não adianta!
_Olha só quem fala né Nando?!
_Faça o que eu digo, não faça o que eu faço – deu de ombros.
Alguns minutos depois Clara voltava para a sala de espera acompanhada de dois homens engravatados e bem educados. Logo que chegaram, foram chamados de encontro à juíza que deu início às formalidades habituais. Depois de todos os discursos feitos, e todos os documentos lidos, chegou a hora das assinaturas. Os advogados de ambos estenderam as mãos e pincelaram os olhos pelos papéis, mais por hábito do que por qualquer outra coisa, e logo em seguida entregaram junto com uma caneta para seus respectivos clientes.
Sem pestanejar, Clara assinou de pronto e entregou o documento diretamente nas mãos da juíza. O mesmo não aconteceu com Cadu, que ficou olhando fixamente para o documento sem conseguir agir ou reagir a tudo aquilo. Respirou fundo, ainda tentando assimilar o fora que levara de Clara minutos antes, a dura realidade que caia em seu colo com a assinatura daqueles papéis, e percebeu que seu coração estava consideravelmente acelerado. Suas mãos suavam frio, fazendo com que a caneta lhe escorregasse por entre os dedos. Sua respiração começou a falhar, e sentiu as vistas escurecerem a sua frente, fazendo com que Clara virasse apenas um borrão do outro lado da mesa. Seu corpo escorregou, desprendendo-se levemente de seu controle e quando se deu conta, estava deitado no chão gelado da sala, sendo acordado pela esposa.
_Cadu... Cadu... Acorda Cadu! Fala com a gente! – Clara segurava o rosto do marido entre as mãos, sacudindo-o devagar.
_Tá tudo bem! – disse o chef de maneira quase ininteligível, recobrando os sentidos e lembrando-se de onde estava – Me ajuda a levantar aqui Nando.
O amigo o ajudou a ficar em pé, mas logo voltou a sentar-se, sem forças.
_Liga para a Drª Silvia, Nando... O Cadu não se cuida direito, e não tá legal.
_Não, não... Não precisa ligar agora Nando. Deixa que eu já ligo para ela – disse sem graça por ter tido outra de suas crises na frente de Clara.
_O senhor está bem? – a voz que perguntava agora era mais imponente e vinha da juíza, que permanecera sentada durante toda a comoção que acontecera a sua frente. Já havia visto cenas assim inúmeras vezes, e a reincidência já a tornava parte de seu ofício.
_Estou sim senhora. Podemos continuar! – decretou determinado.
Cadu sentia seu orgulho um pouco mais ferido. Humilhara-se para Clara minutos atrás, sendo novamente rejeitado, e agora ainda por cima desfalecia a sua frente sem mais nem menos. Queria sair o mais rápido possível dali, e resolveu parar de tentar adiar o inevitável. Pegou a caneta de Nando e assinou os papéis de uma vez, entregando-os ao seu advogado e amigo, e por mais que Clara tivesse tentado evitar, soltara um suspiro involuntário de puro alívio.
_Posso ter perdido você. Mas ainda vou lutar pelo meu filho! – falou segurando o braço da agora ex-esposa.
_Cadu, não me obrigue a pôr em prática tudo o que já estamos cansados de conversar a respeito disso. Eu realmente estou de saco cheio das suas grosserias, e agora, não tenho mais motivo nenhum para aceita-las. Então, não me obrigue a piorar as coisas que você acha que já estão ruins – respondeu, fuzilando o chef com os olhos.
_Eu sou pai. E eu sei que tenho meus direitos! – disse elevando um pouco o tom de voz e chamando a atenção de todos na sala para si.
_Algum problema entre vocês? – perguntou Albuquerque, um dos advogados que representava Clara.
_Sim. Parece que meu ex-marido resolveu ter problemas com o acordo que temos para a guarda do nosso filho agora. Nando, você poderia esclarecer para ele que eu posso deixar de ser generosa e ninguém vai ganhar com isso. Inclusive e principalmente nosso filho?! Eu estou realmente cansada desse mesmo disco, Carlos Eduardo. Converse com o seu e os meus advogados sobre a mudança de três para dois dias por semana.
_Clara calma. Vamos manter as coisas como estão. É uma situação delicada e a gente fala o que não tem que falar. Por favor! Mantenha assim. Você sabe o quanto o Cadu é louco pelo Ivan – intercedeu Nando.
Clara olhou para o ex-marido que bufava ao seu lado, passou para Nando, e finalmente encontrou os olhos de seu advogado. Todos os olhares lhe pediam para ser razoável, e decidiu deixar as coisas como estavam. Balançou a cabeça para cima e para baixo, concordando com Nando e sem dar mais chances para conversas desnecessárias com Cadu, despediu-se de todos com a desculpa de ter um compromisso importante em seguida e saiu de lá o mais rápido que pôde.
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Por mais que tivesse plena certeza de seu divórcio e do tamanho de seu amor por Marina, era como sua irmã havia dito uma vez “um casamento, por mais que esteja mal das pernas, a gente sempre balança quando ele acaba”, e era exatamente assim que Clara se sentia. Balançada. Não via a hora de buscar suas malas e ir correndo até o aeroporto, para estar logo nos braços de sua amada. Precisava senti-la por perto, seu cheiro, seus beijos, seu toque, mas o que mais ansiava era por aquela segurança e a certeza de que tudo ficaria bem que só conseguia encontrar quando se perdia em seu abraço.
Pediu ao taxista que acelerasse e rapidamente estava em seu apartamento. Terminou de jogar algumas roupas e guardou o presente que comprara mais cedo para a namorada na mala. Escolheu um vestido azul no guarda-roupas, maquiou-se, passou o perfume que Marina mais gostava e considerou-se pronta para sair.
Desceu rapidamente no apartamento da irmã para checar como o filho estava, e já não ficou mais tão surpresa quando o menino lhe fez um verdadeiro inquérito sobre Marina: como ela estava, se tinha perguntado dele, se ele podia ligar no celular dela caso não conseguisse falar com a mãe, e se elas o levariam para passear depois para compensar os dias que ficariam em São Paulo. Clara respondeu a todas as perguntas de maneira afirmativa e pediu para que ele fosse pensando em um lugar para irem depois que ambas voltassem de viagem. Despediu-se do filho com milhares de beijos e rumou porta afora.
Tudo parecia demorar. O elevador estava lento, o trânsito estava péssimo e mais uma vez, Clara solicitou ao taxista que acelerasse, agora já não apenas por pressa, mas por estar realmente em cima da hora para pegar seu voo. Chegando ao aeroporto correu saguão adentro e foi realizar todos os procedimentos de embarque, despachou suas malas, passou a bagagem de mão pelo raio-x, caminhou pelos detectores de metal, e assim que entrou na sala de espera para embarque tomou um verdadeiro susto.
Melissa estava lá. Vestido preto curto, seios parcialmente a mostra, cabelos presos num rabo de cavalo, olhos safados e levemente delineados que deixavam o verde mais vivo e intenso do que já era, além de um sorriso de menina levada que involuntariamente tirava o fôlego de todos os presentes na sala. Inclusive de Clara.
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