Velvet Touch

23 Cidade Maravilhosa


Notas iniciais
Hey girls! Como vão vocês? Mais um capítulo enorme aí para vocês, e antes que reclamem da demora (rs), vou prometer aqui, solenemente que tentarei manter uma frequência para post de dia sim e dia não, tudo bem?! Ok. Obrigada, de nada! rsrsrs... Capítulo dedicado sempre as fofas da "Gang" mais mafiosa desse país, para o mozão mais lindo do mundo e para as #VelvetFãs que CAUSAM na minha vida lá no twitter, rsrsrs.... Espero que curtam =)

A saída da italiana deixou um rastro de desconforto e silêncio para trás. Marina empurrou o copo com a bebida pedida pela outra para o lado, claramente irritada com a ousadia de Melissa. Contudo, o que mais lhe intrigava era o fato de ela sempre ter alguma novidade em relação a Clara para contar. Sempre uma frase de efeito para destilar, uma semente de discórdia para plantar.

As brincadeiras e o clima agradável haviam desaparecido da mesa, mas apesar da situação toda, Shirley não deixou de soltar suas pérolas.

_Gente, vocês todos viram isso, não viram?

_Hãn... Melissa é abusada, mas no fundo não passa de uma criança mimada. Não merece ibope! – disse Victória, buscando poupar Marina ou Clara de terem que dar alguma resposta.

_Nossa! Deu para pegar a tensão entre vocês três daqui – comentou Juliana, alternando um olhar confuso entre a sobrinha e a fotógrafa.

_Tensão? Magina! Eu assisti foi um duelo de titãs aqui. Uma aula de ironia sem precedentes – a animação na voz de Shirley destoava do resto das pessoas na mesa – Isso sim que é disputar com classe!

_Disputar com classe? Melissa é uma petulante, isso sim – disparou Vanessa, ainda enciumada pelo selinho que a italiana roubara de sua namorada na noite anterior.

_A Vic tem razão. Melissa não merece nosso ibope! – disse Clara tentando mudar o rumo da conversa, e pousou a mão na coxa da namorada, como se dissesse para que não se preocupasse com as palavras da italiana.

_Uma mulher daquela lá merece muito mais do que ibope, rapaz. Não acredito que joga no outro time também. Fala sério! – Jairo pensou alto demais, recebendo um tapa repreensivo de Juliana como resposta. A esta altura, a tia de Clara já tinha entendido tudo.

Shirley riu do comentário involuntário de Jairo, e a tensão na mesa ainda era tanta, que risos nervosos ecoaram de todos ali, na falha tentativa de desanuviar o ambiente. O único riso que se omitiu foi o de Marina. Sua cabeça girava na mesma frase, e as palavras de Melissa faziam várias perguntas indesejáveis suscitarem em sua mente. O que Clara não tinha lhe contado? Porque não tinha contado? Quantas vezes ela não lhe perguntara a pauta do assunto com a italiana na noite anterior? Lembrou-se da resistência da namorada em falar no tema Melissa, das cenas que assistira na chegada de Clara ao hotel em São Paulo, da proximidade das duas na exposição.

Já completamente alheia a mesa, respirou fundo, olhou para sua mão direita e viu a aliança que Clara lhe dera horas atrás. Pensou nas palavras da assistente, no nervosismo dela ao lhe propor aquele pacto de lealdade mútua entre elas, na declaração de amor, nas promessas, e resolveu tentar acalmar o seu coração, confiando no fato de que Clara lhe contaria sobre o que se tratava a pergunta de Melissa assim que tivessem a oportunidade de ficar a sós.

O clima na mesa foi recuperando a leveza anterior aos poucos, e a fotógrafa brincava com a vergonha de Clara ao ser flagrada com mais uma marca da noite anterior, quando o celular de Juliana tocou ao mesmo tempo que o de Marina. No visor do aparelho da tia de Clara piscava o número de sua própria casa, e no da fotógrafa, o nome que aparecia na telinha era o de Renata. Ambas as mulheres pediram licença e saíram da mesa para atender a suas respectivas ligações.

_Oi Rê, tudo bem?

_Oi Mari. Tudo e você?! É uma hora ruim? – a voz da estudante soara preocupada e até um pouco culpada.

_Tudo bem sim, tô no meio de um almoço Rê. Mas, não tem problema. Porque essa voz aí?

_Ai Mari eu tô com meu coração na mão ainda por ontem! Acho que falei demais e acabei causando confusão pra você. Eu não queria não, mas as vezes falo mais do que deveria mesmo. Precisava me desculpar contigo! – a ansiedade a fazia falar rápido demais.

_Ei mocinha, calma. Respira. Você não teve culpa de nada. A noite já estava muito tensa quando vocês chegaram! Mas, vamos deixar isso para lá.

_Tem certeza? Pô, fiquei encucada com isso. Você foi tão legal comigo e com a Paulinha, e a gente melando as coisas pro seu lado sem querer – a sinceridade na voz da outra era tanta que Marina riu de sua preocupação desnecessária.

_Relaxa Rê, tá tudo bem mesmo! Agora, com tudo isso, nem conseguimos nos falar né?! Já volto pro Rio amanhã cedinho. Mas, porque você e a Paula não aparecem no meu estúdio lá qualquer dia?! – Marina tinha realmente gostado da estudante e de sua amiga.

_Sério? Nossa! Paula vai piraaaaaaar, Mari. Pirar! – disse animada – Com certeza apareceremos por lá! – mais uma vez, Marina riu, e agora Clara já olhava para trás, tentando decifrar com quem a namorada falava.

_Combinado então! Me manda o seu e-mail que depois te passo o endereço certinho.

_Com certeza passo sim. Mas, só me diz uma coisa Mari, tá tudo bem com você e a sua maluca? Tô mal com isso aí meu – apesar de vinda do interior, o jeito paulistano de falar a fazia parecer natural dali, daquela cidade cinza e garoenta.

_Olha, se tivesse me perguntado uma hora atrás, a resposta seria sim. Mas, agora, só posso te dizer que espero que esteja! – respondeu cruzando seu olhar com o da namorada e percebendo uma movimentação diferente na mesa – Rê, deixa eu voltar pra lá que ela já tá me encarando aqui – riu baixo, sendo acompanhada pela estudante do outro lado da linha.

Marina despediu-se da amiga e quando voltou para a mesa, quem estava no celular era Shirley, falando alguma coisa sobre aeroporto, horário de voo e decolagem. Juliana já estava de volta ao grupo, e conversava com Clara, extremamente agitada.

_Aí Clara, eu tinha que ter voltado logo viu. Não gosto de deixar a Bia sozinha. Olha aí! – falava num tom de voz aflito, gesticulando bastante.

_Calma tia! Sei como são essas coisas, é só dar uma febre no Ivan que quase morro também, mas vamos respirar fundo que não será nada demais com a Biazinha! – Clara sorria ternamente, tentando acalmar a tia.

_Pronto Ju! Tudo certo com meu piloto. Decolamos em uma hora e meia de congonhas. Meninas, vocês tem certeza que não querem voltar com a gente? – perguntou Shirley para as demais mulheres na mesa – O voo é rápido, mas vai ter bastante champanhe! – inevitavelmente, todos riram.

_Não Shirley, obrigada! – respondeu Victória – Tenho planos para a noite paulistana ainda hoje – olhou fixamente nos olhos da ruiva ao seu lado, fazendo-a se arrepiar e Jairo tossir, mais uma vez desconcertado.

_Nós também ficaremos – quem respondeu pelo outro casal da mesa foi Clara – Mas muito obrigada Shirley.

_Bom, como eu não tenho vocação para vela, vou aceitar o convite! – declarou Flavinha, juntando-se ao grupo que estava de partida para a cidade maravilhosa.

_Vamos indo também meninas?! Preciso de um cochilo e um bom edredom – brincou Clara, pegando na mão da namorada e dirigindo sua pergunta a Vanessa e Victória.

_Opa! Vamos sim... Mas, cochilo? Edredom? Nada disso, Clara. Vocês vão dar uma volta com a gente mais tarde – respondeu Vanessa.

_Uma volta? Tá sabendo disso amor?

_Acabei de descobrir! – respondeu Marina, tentando roubar a conta que o garçom entregara na mão de Shirley.

_Se bem que eu gostei da ideia. Eu topo! Vamos Ma?

_Uhum, vamos... – disse conseguindo roubar o papel amarelo das mãos da outra.

Marina, Shirley e Victória travaram então uma briguinha particilar para decidir quem pagaria a conta. Depois de muita argumentação, Vic desistiu, e como as outras duas não chegavam nunca a um acordo, o impasse foi decidido no par ou ímpar, dando a socialite o direito de gastar um pouco mais do seu cartão de crédito.

Todos despediram-se e foram tomando o rumo de seus respectivos carros.

_Ah, Clara... Marina... Queria fazer um convite para vocês. Porque não passam para jantar em casa amanhã?! Seria um prazer receber vocês, e nos conhecermos melhor – Juliana direcionou o final da frase para a fotógrafa, que a retribuiu com um sorriso.

Clara olhou para a namorada, e permaneceu quieta, deixando que ela respondesse ao convite da tia.

_Claro que vamos Ju. Pode contar com a gente lá. Muito obrigada! – respondeu Marina, provocando um largo sorriso no rosto da namorada, que apesar de sentir o frio na barriga que isso ainda causava, não via a hora de começar a inserir Marina em seu núcleo familiar, e ve-la frequentando livremente aquele prédio no leblon.

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O caminho até o hotel foi um pouco mais silencioso do que o normal, e Clara sabia exatamente o porque. Tinha certeza de que as palavras de Melissa estavam martelando na cabeça da namorada, mas não queria ter aquela conversa ali no carro, então decidiu esperar até que chegassem ao quarto. A ligação que trouxe a notícia das dores de garganta e da febre de Bia, fez brotar a já conhecida preocupação de mãe na assistente, e Clara desistiu de confirmar que seu bichinho estava bem apenas por sms. Discou o número do filho no celular e deixou a ligação no viva voz.

_Oiiiii Mãe! Tudo bem? – atendeu no segundo toque, animado com a ligação de Clara.

_Oi filhote! Tudo e você?

_Te falei que tô super na boa! Ah, você nem sabe... A tia Helena falou para não te contar, mas a Rosa está fazendo todos os doces que eu gosto. Tô me acabando aqui! – o menino gargalhou, e do outro lado da linha Clara rasgou o rosto em um sorriso enorme, sendo acompanhada pela namorada, que já amava Ivan de um jeito diferente, que nem ela sabia definir direito – E cadê a Marina? Ela tinha que estar aqui. É a única pessoa no mundo que gosta mais de chocolate do que eu cara! – Ivan continuava rindo.

_Ah, mas isso eu sou mesmo! Você é amador demais no chocolate moleque – brincou a fotógrafa.

_Oiiiii melhor amiga! Tudo bem? – a empolgação infantil de Ivan era realmente contagiante – Ainda bem que você tá aí. Preciso te contar uma coisa – tomou fôlego, como se estivesse preparando uma revelação importante – Cara, lembra aquele dia lá que ficamos falando dos meus quadrinhos favoritos e tal?

_Lembro... Não me diga que teve outro pesadelo daqueles lá e não me ligou! – forçou um tom indignado na voz.

_Nãããão! Fui ver direito e não é que você tava certa sobre a armadura do homem de ferro?! Aff... Decepcionei comigo! – disse sério, como se realmente estivesse decepcionado consigo próprio e Marina caiu na risada junto com Clara.

_Tá vendo! Achou que sabia mais do que eu só porque sou menina, se ferroooou!

_Há, há. Engraçada você, né?! – disse o garoto mostrando a língua para o aparelho – Oh mãe, agora falando sério, você já pediu?! – Clara ficou vermelha na hora e Marina não entendeu nada.

_Ivan! Assim você mata sua mãe de vergonha menino! – involuntariamente cobriu o rosto com as mãos.

_Não pediu? Nossa mãe você tá devagar! – disse sério.

_Já pedi sim, intrometido! – Marina continuava sem entender nada.

_E aí? – a curiosidade era evidente na voz do menino.

_Ivan!

_O que mãe? Quero saber, ué!

_Vou desligar agora, detetive. Mas, amanhã cedo nós estamos aí viu?!

_Não vai falar mesmo?! Caraca mãe! Não custa nada... – a voz do menino saíra suplicante.

_Amanhã você pergunta pra ela. Menino abusado!

Ambas despediram-se de Ivan e Marina ficou encarando Clara, como se esperasse que ela esclarecesse as últimas perguntas do menino, mas teve como resposta apenas um meio sorriso, ainda tímido da namorada. Chegaram ao hotel, e Clara subiu no elevador pensando em como começaria a tocar no assunto “Melissa” com a fotógrafa. No entanto, aquilo perturbava tanto Marina, que assim que passaram pela porta e adentraram o quarto, ela disparou a pergunta que rondava sua cabeça nas últimas horas.

_Clara, o que você tem que responder para a Melissa? – perguntou direta, quase exausta de tanto tentar achar uma resposta sozinha nas últimas horas.

_Ela me fez um convite amor... – a assistente pressentia que só a menção do convite da outra lhe causaria problemas e usava um tom cauteloso na voz.

_Que convite? – involuntariamente, Marina sentia seu sangue começar a ferver. Clara aproximou-se da namorada devagar.

_Ela me convidou para posar para ela – a informação saiu como em um sussurro – Para essa exposição dela com a Vic.

_O QUÊ? – sua voz saíra muito mais alta do que pretendia – Como assim posar pra ela? Clara, como assim?

Marina tentava respirar fundo, mas, seu peito parecia ter vida própria e não lhe obedecia por nada nesse mundo. Um milhão de coisas passaram em sua cabeça, e a fotógrafa sentia como se o seu próprio passado voltasse para atormentá-la novamente. Como assim posar para Melissa? Como assim a Clara ainda não tinha dado uma resposta a isso? O que elas falaram tanto durante a exposição? O que estava acontecendo naquele quarto afinal?

Marina sentiu-se tonta.

_Eu não vou aceitar, Marina – adiantou-se em dizer, assim que a viu sentar-se atordoada na beirada da cama.

_Por quê? – a pergunta saiu sarcástica – Ela é uma ótima artista! – o complemento saíra mais sarcástico ainda – E vocês tinham papo de sobra ontem pelo que eu vi!

_Amor... – sentou ao lado de Marina na cama – Não faz assim!

_Não faz assim, Clara? Eu tô aqui tentando achar um bom motivo para que você esteja devendo essa resposta para ela ainda – Marina levantara num pulo – Tá em dúvida? – encarava a namorada nos olhos.

_Não Marina! – afirmou convicta.

_Então porque não respondeu? Qual a dificuldade em falar não para aquela lá?

_Porque não deu tempo, meu Deus do céu! Não tem dificuldade nenhuma!

_Não deu tempo? Como não deu tempo? Vocês se falaram aquela exposição toda Clara Fernandes! – o sarcasmo dava lugar a irritação, e Marina começara a ficar vermelha de raiva.

_Ela me fez esse convite e disse que não era para que eu respondesse naquela hora. Falou e saiu Marina, por isso não respondi na hora.

_Ah Clara! Para! O “não” é uma palavrinha de três letras apenas. E o que falaram o resto da exposição toda?

_Amor, eu já disse ontem pra você, não tava falando com ela! Ela ia atrás de mim no salão, e gastava todas as cantadas que ela decorou na vida. Não tivemos nenhum assunto! Para com isso, Marina!

_Você tá em dúvida, Clara? – a pergunta era ampla, e a voz de Marina agora era quase um sussurro.

_Não tô em dúvida de nada!

_De nada Clara? Tem certeza? – toda vez que pensava nas respostas que poderia obter, Marina se encolhia internamente.

_De nada, meu amor... – abraçou a cintura da namorada – Para com isso! Por favor! – passou a ponta do nariz por seu rosto, como se lhe fizesse um carinho – Estamos tão bem, deixa a Melissa pra lá, vai... – pegou a mão da outra e beijou a aliança que lhe dera – Nada do que te propus é brincadeira. Eu te amo! Só poso pra você... – riu baixo e selou os lábios da namorada.

_Jura? – sentiu suas defesas caindo frente aos toques e palavras de Clara – Eu me sinto uma idiota com isso tudo!

_Você não é idiota. Mas mesmo que fosse seria a mais linda desse mundo! – depositou um beijo rápido nos lábios da outra – Vem, vou ligar para as meninas e cancelar essa saidinha de hoje. Quero ficar de bobeira com meu amor.

Marina sorriu involuntariamente e seguiu Clara até a cama. A namorada deitou-a lá e ligou para Vanessa, avisando que não iriam mais participar da noitada com ela e Victória. A ruiva protestou, claro, mas não havia muita coisa que pudesse fazer, então conformou-se. Clara voltou para o lado de Marina, zapeou os canais na televisão a procura de um filme para assistirem, e deixaram em uma comédia romântica que Marina adorava: “O amor não tira férias”.

Ambas se ajeitaram na cama, e os olhos da assistente focaram-se na outra, e a fotógrafa sustentava uma carinha de cachorro sem dono, que partiria o coração de qualquer um. Definitivamente, momentos de fragilidade não combinavam muito bem com Marina Meirelles. Os olhos castanhos perdiam o brilho de sempre, seu semblante assumia um cansaço não natural, e vê-la daquele jeito, ainda mais sabendo dos motivos que a levavam a sentir-se assim, machucava Clara profundamente.

_O que tá passando aí nessa sua cabecinha? – perguntou abrindo os braços em sua direção.

_Eu... Tô com medo de perder você, Clara. Muito medo! – confessou jogando-se no abraço da namorada.

_Você não vai me perder, meu amor! – segurou seu rosto por entre as mãos – Para aonde mais eu iria, se tudo o que eu sempre precisei está bem aqui? – apertou Marina em seus braços, tentando transmitir todo o amor que sentia por aquela mulher, e percebeu o quanto seus sentimentos eram ambíguos naquele momento. Ao mesmo tempo em que tinha todo o amor do mundo transbordando de seu coração para a sua fotógrafa, certo ódio crescia paralelamente a ele em seu interior.

Clara tinha certeza de quem era o seu amor, a quem pertencia seu coração, e definitivamente aquela palhaçada de Melissa já tinha ultrapassado todos os limites do aceitável. Estava afetando Marina, e para a assistente agora bastava. Ela daria um jeito de resolver isso com a italiana, por bem ou por mal.

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A viagem de volta para o Rio de Janeiro seguiu tranquila, a não ser pelo fato de Marina quase ter perdido todos os dedos da mão durante o voo, graças aos apertões medrosos que levara da namorada. Victória e Vanessa voltaram junto com elas, e Marina estava verdadeiramente contente pelas duas estarem juntas e ao que tudo indicava, felizes. Ainda era cedo quanto aterrissaram na cidade maravilhosa, e Vic chamou a namorada para darem uma volta na praia antes de irem para casa. Despediram-se no aeroporto, e Clara seguiu com a namorada direto para o seu prédio, no intuito de buscar Ivan para passar o dia com elas em Santa Teresa.

Marina esperou no táxi, ainda sentia-se um pouco desconfortável em se deparar com a família de Clara, e preferiu assim. Como já tinham ligado para o menino e o deixado de sobreaviso em relação à hora que chegariam, no momento em que a mãe tocou a campainha, Ivan já estava pronto. Colocou sua mochila nas costas e correu para abrir a porta, pulando no colo de Clara.

_Oi mãe! Caraca... Que saudade! Tudo bem? Cadê a Marina? – disse procurando sua melhor amiga por cima do ombro da mãe.

_Ô meu bichinho lindo – Clara cobria o rosto do menino de beijos – Ela tá lá embaixo esperando a gente. Você já tá pronto? Cadê sua tia?

_Tia Helena acabou de ir para o quarto, disse que ia se arrumar para ir trabalhar. Parece que tem leilão hoje à noite lá. Mas, eu já tô pronto! – disse animado.

_Deixa só eu dar um beijo na sua tia e aí já vamos.

Clara entrou no apartamento e foi direto para o quarto da irmã, que estava tomando banho e gritou para que ela entrasse. Trocaram meia dúzia de palavras e assim que saiu do box, a primeira coisa que Helena viu foi o brilho da aliança em seu dedo. Ficou paralisada.

_Irmã, isso no seu dedo é o que eu tô pensando que é?! – perguntou ainda perplexa.

_Depende do que você está pensando – gargalhou – Eu pedi a Marina em namoro, digamos assim.

_Como? Você pediu? – disse pegando a mão da irmã e admirando a bela e delicada aliança que usava.

_Pedi. Porque a surpresa?

_Por quê? Bom, porque agora é oficial né Clara?! Quando pretende contar para todo mundo? – perguntou em um misto de preocupação e felicidade pela irmã estar finalmente vivendo aquele amor.

_Então, hoje temos um jantar na Ju. Ela já conhece a Mari, mas, preciso mesmo oficializar a minha namorada para a família – respirou fundo – Não sei como a mamãe vai reagir a isso. Mas, enfim... Eu vou conversar com ela sobre isso.

_“Minha namorada” – imitou o tom apaixonado usado pela irmã – Que coisa mais fofa vocês duas! – riu, sendo abraçada por Clara – É só falar o dia irmã. Eu preparo tudo aqui em casa e fazemos um jantar!

_O mãããããe, a Marina tá esperando! Esqueceu? – a voz do garoto vinha da sala, quase aos berros.

_Olha isso! Gosta mais dela do que de mim. Acredita Helena?! Ai, ai... Sobre o jantar, combinado! Vou conversar com ela e te aviso.

Despediu-se da irmã e desceu com o filho para o carro. Marina estava no celular, do lado de fora do veículo e abriu um sorriso enorme assim que se deparou com a imagem do loirinho correndo em sua direção. Sem se importar com o pai que estava do outro lado da linha, abriu os braços e recebeu o garoto no colo, levantando-o no ar.

_Ei garotão! Tudo bem?

_Tudo! Cara... Você aceitou né?! Já vi a aliança no dedo de vocês! – disse empolgado.

_Como assim? Era isso que você estava perguntando para a sua mãe ontem no telefone?

_Era sim! Eu que escolhi as alianças. Ou você acha que ela ia te pedir em namoro sem que eu tivesse deixado?! – deu um beijo estalado em sua bochecha e agarrou-se a seu pescoço.

Marina apertou o menino e beijou o topo de sua cabeça, ainda atordoada e emocionada com a notícia de que Ivan sabia, e a sua maneira, aprovava o relacionamento das duas.

_Então você é cumplice é? – seus olhos estavam marejados, e a esta altura já havia se esquecido de seu pai ao telefone.

_Com certeza! – ela agora colocava-o no chão novamente, e encarava Clara, que observava a cena dos dois em silêncio, também emocionada – Mas me conta Marina, como é que foi o pedido? – a pergunta do menino veio carregada de uma curiosidade tão genuína que arrancou risadas das duas – Que foi? – olhou confuso de uma para a outra, sem entender o motivo de rirem.

_Vamos lá pra casa que eu te conto tudo o que sua mãe aprontou! – falou Marina, olhando o celular em sua mão e finalmente dando-se conta de que tinha pendurado o pai ali. Tentou voltar para a ligação, mas seu pai já havia desligado. Fez uma careta involuntária para o aparelho e resolveu retornar em outro momento.

Os três entraram no táxi e Ivan não parava de perguntar a elas sobre a viagem, a exposição, e os detalhes do pedido de namoro de sua mãe. A empolgação só aumentou quando conseguiram driblar o trânsito e finalmente chegar à Santa Teresa. O sol estava aberto, e assim que a mãe terminou de passar protetor em suas costas, Ivan não pensou meia vez antes de se jogar na água gelada da piscina de Marina.

De tanto insistir, Ivan conseguiu convencer a mãe e a fotógrafa a entrarem na água, e Clara esforçava-se para esconder a marquinha roxa em seu pescoço com os cabelos, provocando risos maliciosos da namorada. Vez ou outra, Ivan e Marina juntavam-se contra Clara, fazendo uma espécie de guerrinha de água dentro e fora da piscina, e a assistente fingia estar indignada com o complô dos dois.

Além do tempo na piscina, o garoto conseguiu arrastar Marina para jogar futebol com ele na parte gramada do jardim. Assim como Ivan, Marina também era rubro-negra e apesar de Clara não fazer a menor ideia disso, a namorada além de gostar de futebol, até que sabia jogar razoavelmente bem. Assistia a cena dos dois brincando na grama e assim como seus lábios, seu coração também sorria, e ali, naquele exato momento, teve a plena certeza de que estava no lugar certo, com a pessoa certa, e principalmente de que nunca tinha sentido tanta paz em toda a sua vida.

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O relógio marcava 16h, e os três estavam completamente exaustos, jogados nas almofadas que se espalhavam pelo chão do estúdio de Marina.

_Ivan, estava aqui pensando aqui na sua recompensa por eu ter roubado sua mãe nos últimos dias – disse quebrando o silêncio e despertando Ivan, que quase pegara no sono em meio ao silêncio do estúdio.

_Opa! Esse assunto muito me interessa. Conte-me mais sobre isso ai... – a animação voltara a sua voz de imediato.

_Sua mãe disse para você escolher um lugar para irmos, não disse?

_Disse. Mas, eu pensei em um monte e em nenhum ao mesmo tempo. Muito difícil decidir assim, cara! – o tom de sua voz saíra preocupado, como se receasse que sua indecisão fosse fazer com que ele perdesse o passeio.

_Então... Eu estava pensando aqui, e... Vocês já viram a neve? – disse girando o corpo e ficando de frente para os dois.

Se tinha um sonho na vida que era compartilhado entre Clara e Ivan, esse sonho era o de montar bonecos de neve, assim como nos filmes. Podia parecer bobeira, ou sonho de pessoas na idade de Ivan apenas, mas Clara sempre achou a neve linda e carregava esse desejo consigo desde a infância. Contudo, nunca tinha conseguido realiza-lo devido ao seu medo exagerado de voar. Olhou para os olhos castanhos da namorada que aguardavam ansiosos por uma resposta dos dois.

_Neve? Caraca! Sério isso Marina? Tipo, sério mesmo? – Ivan colocou-se em pé de tanta animação.

_Sério! – riu da reação do garoto – Tenho uma casa em Bariloche, e a alta temporada começa em dois dias por lá. Você já entrou de férias ontem, não entrou garotão? – Ivan adorava quando a fotógrafa lhe chamava assim.

_Sim, sim, sim!!! Então quer dizer que nós vamos??? – os olhinhos do menino brilhavam e Marina não pôde deixar de sorrir.

_Então amor, o que você acha? Podíamos passar uma semaninha por lá – era a primeira vez que Marina chamava Clara de amor perto de Ivan, e o menino sorriu ao ouvi-la tratar sua mãe com tanto carinho – Encara mais um aviãozinho? – soltou um riso baixo.

_Vamos mããããããeeee!!! – pediu Ivan, juntando as mãos como em uma prece.

_E a sua agenda Mari? Não vai atrapalhar seus compromissos?

_Não amor. Não tenho nada imediato, e minha próxima exposição é a de Londres com a Vi.

_Opa, escutei meu nome – disse a francesa, que chegava sorridente, abraçada com Vanessa – Boa tarde Clarinha! – olhou para o menino – E você deve ser o Ivan, acertei? – o menino balançou a cabeça para cima e para baixo, confirmando timidamente sua identidade para a loira – Então sua mãe não fez nenhuma propagando mentirosa quando disse que você é o menino mais lindo desse Rio de Janeiro inteiro! – viu um sorriso mais largo nascer nos lábios do menino – Posso te dar um beijo? – perguntou caminhando até ele, e Ivan deu alguns passos para a frente, cumprimentando-a com dois beijos no rosto.

Vanessa, que não levava o menor jeito no trato com crianças, limitou-se a cumprimenta-lo com um sorriso e um breve aceno com a mão.

_Filho, essa é a Victória. Ela foi professora de fotografia da Marina anos atrás – esclareceu Clara.

_Nossa! Professora? Sério? Então você deve mandar benzão né?! Por que modéstia parte, a namorada da minha mãe arrasa nas fotos, cara! – disse em um tom orgulhoso e até um pouco exibicionista, provocando risadas involuntárias em todas as mulheres ali.

_Ah, eu arraso é mocinho? – agarrou a cintura do garoto, puxando-o para seu colo e atacando-o com cócegas na barriga.

_É, eu tenho mesmo duas crianças agora! – Clara riu e as outras duas a acompanharam.

_Mari, sem querer te atrapalhar, mas já atrapalhando. Eu preciso conversar com você sobre uma coisa meio urgente – a seriedade na voz da francesa fez com que Marina levantasse de imediato.

_Vocês dois, pensem na minha proposta! Já venho. Ok?! – disse para Clara e Ivan, e seguiu a loira em direção à porta.

Caminham lado a lado a passos lentos, e a curiosidade de Marina já a consumia antes mesmo de saírem para a parte externa da casa.

_Aconteceu alguma coisa Vi? – perguntou preocupada.

_Na verdade eu queria te agradecer pelo empréstimo do seu estúdio por esse período, mas pequena, vou procurar um para alugar na segunda. Sabemos perfeitamente que eu se eu continuar a usa-lo Melissa terá quase que passe livre por aqui. E eu já me sinto ridiculamente culpada de ela ter aparecido na vida de vocês duas! – disse sincera, buscando ao máximo evitar que Marina tivesse maiores aborrecimentos com a artista, ainda mais dentro da própria casa.

_Para com isso Vi. Você não tem culpa da petulância daquela lá – bufou e pensou no quanto era impressionante a capacidade de que apenas a pronuncia do nome daquela mulher tinha de irrita-la.

_Ela te tira do sério, né?!

_Tira! – não tinha porque mentir ou fazer pose para a loira, afinal, ela lhe conhecia como a palma da mão – Ah, e você não sabe da última Vi. Ela teve a pachorra de convidar a Clara para posar para ela! Você acredita nisso? – falava indignada.

_Acredito! Vindo da Melissa, não duvido de nada mais. Mas, a Clara... Topou? – perguntou receosa.

_Não. Graças ao bom Deus não! Porque olha, a minha vida já não tá fácil assim – tentou descontrair, mas o máximo que conseguiu foi trincar os dentes – Quanto ao estúdio Vi, fica aqui sim. Não precisa ir alugar nada não! Eu vou viajar com a Clara e o Ivan, vamos ficar fora uma semana, dez dias, não sei. Ai você já cuida do meu bebê para mim.

_Tem certeza Marina? É fácil conseguir um espaço para alugar, a Van falou que já até tem alguns em mente.

_Tenho certeza sim. Fica! – ambas sorriram.

_Hãn... Tenho outra coisa para te contar. Mas essa é uma novidade boa! Aliás, uma novidade e um segredo – a animação aveludava a voz da professora – Eu e a Van estamos namorando, oficialmente, e vou comprar um apartamento aqui no rio!

_Não acredito! Jura? – a fotógrafa deu um pulinho de empolgação – Mas é segredo por quê? A Van ainda não sabe? – baixou o tom de voz.

_Ainda não! Mas, eu tô tão feliz com ela pequena. Queria te contar isso! – abriu um sorriso largo no rosto e involuntariamente Marina a abraçou. Tinha um carinho realmente imenso pela loira e vê-la feliz, depois de ter sido o motivo do seu choro era impagável.

_Ela vai surtar, você tá sabendo disso né?! E graças a Deus que não inventou de levar minha Vanessinha para Paris! AMÉM – ergueu as mãos para o céu teatralmente.

_Viiiiiiiiiiiiiic, vamos perder a reserva se você não vier começar o seu ritual de três horas e meia para se arrumar agora! – protestou Vanessa, apoiada na porta do estúdio e enciumada com a cena que assistia.

_Exagerada nunca né?! Tô indo.

Antes de voltar para o estúdio, às duas fotógrafas ainda trocaram mais um abraço e mais um sorriso. Ambos cumplices, amigos, carinhosos, e sinceros.

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Victória jurava que era exagero de Vanessa, mas realmente demorava muito para se considerar pronta para sair de casa e, de fato, quase perderam a reserva. Iriam jantar com Melissa e Fernando, o dono de uma galeria de artes ali do Rio mesmo. Fernando tinha se interessado pela proposta do trabalho em conjunto entre a fotógrafa e a artista plástica, e mesmo antes de acontecer a primeira exposição, estava interessado em contar com o trabalho das duas em seu espaço.

A conversa durante o jantar foi amena, e depois de conversarem sobre uma possível exposição, a pauta passou a ser a arte. Como defini-la, como senti-la, como produzi-la, e principalmente como passa-la para o público sem vender-se completamente para a parte comercial da coisa. Tudo corria tranquilamente, porém, Melissa parecia inquieta, e aproveitou a ida de Vic ao toilet para sondar Vanessa a respeito do assunto que realmente lhe interessava: Clara.

_Van... Você sabe da Clara? – perguntou como quem não quisesse nada, mas de boba Vanessa não tinha nada há muitos e muitos anos.

_Porque está perguntando dela? – fez-se de desentendida.

_Vanessinha... Não faz assim né?! Só quero saber se ela está bem. Eu preciso falar com ela sobre uma coisa que ficou em aberto entre nós.

_Ué, porque não liga para ela então? – usou o mesmo tom de antes.

_Jura que não vai me dizer nada? Poxa Vanessinha! – fez cara de pidona, e os olhos verdes pareciam ter um poder hipnótico sobre qualquer um que cruzasse com seu olhar.

_Ai Melissa, elas estão bem! Não sei por que insiste. Aquela história é velha, é complicada, é longa, e elas se amam. Acredite eu demorei e lutei muito contra isso antes de tentar entender, mas é o jeito. É a vida! – falou de uma vez.

_Porque você acha que elas estão bem? – perguntou, mantendo sua confiança sempre ali, viva e inabalável.

_Porque estão! Vão fazer uma viagem “em família” daqui a dois dias. Esquece ela Melissa. É a melhor coisa que você faz!

_Viagem é? – pela primeira vez a voz da morena vacilara. Queria mais informações, mas com a volta de Victória para a mesa, a italiana resolveu calar-se.

Melissa literalmente odiara a informação que recebera da ruiva, e seu humor passou de simpático para ácido em questão de segundos. O fato de não estar conseguindo afetar Marina o suficiente era altamente inquietante, mas o que mais lhe incomodava mesmo era a resistência de Clara a todas as suas investidas até então. Não estava acostumada em ter que investir tanto tempo assim em alguém, e muito menos sabia lidar com a rejeição. Principalmente pelo fato de que em sua cabeça, a dona de casa resistia a ela não por falta de vontade ou desejo, mas por algum tipo de questão moral em relação ao seu compromisso com Marina.

Definitivamente, a imagem daquela aliança que Clara colocara no dedo da fotógrafa havia ficado martelando em sua mente, e a italiana passara os últimos dois dias pensando sobre o que e como faria para conseguir marcar os pontos que queria com Clara, e principalmente, separa-la de Marina. Tinha comprado uma briga gratuita com a fotógrafa, e agora, na verdade, já não sabia mais dizer se queria mesmo a dona de casa para ela ou se queria apenas tira-la de Marina Meirelles.

Lembrou-se de quantas e quantas vezes não fora chamada de mimada, obcecada e até mesmo doente por conta das atitudes inescrupulosas que tinha quando entrava em jogos assim, e involuntariamente deu de ombros. A decisão estava tomada. A indiferença e a rejeição não seriam a última palavra para relação entre ela e Clara. Ficou mais quieta na mesa, e sua mente trabalhava a todo vapor em busca de uma solução para o seu dilema, quando de repente, uma ideia maluca lhe veio à mente. Sim, era meio maluco, e não sabia ainda como conseguiria atingir o cenário perfeito para as suas intenções, contudo, era sem dúvida fatal.

Um sorriso quase maléfico se abriu em seus lábios, e o verde hipnótico de seus olhos lampejou de pura satisfação consigo mesma.

Notas finais
Hehe, e lá vem Melissa com ideias malévolas... Aguardando minhas ameaças de morte em 3, 2, 1 ... Críticas, sugestões, comentários? Beijos, lindonas da minha vida!