Velvet Touch

27 A Separação


Notas iniciais
Hey, boa noite pra você, leitor que achou que iria demorar mais um mês para atualização de Velvet, rsrsrs. Não que você estivesse realmente enganado, mas é que um evento especial, que envolve uma data especial, de uma pessoa que me é bastante especial, fez com que eu acelerasse um pouquinho a postagem deste capítulo. Dona Poliana da Silva Sauro, integrante ilustre de minha amada Gang, e pianista de primeira, fez Níver na última sexta-feira, dia 12/09. Apesar de eu estar alguns dias atrasada, dedico o cap especialmente para essa bocó, que me faz rir de algumas bobagens e me irrita muito com outras, mas que sem dúvida, é uma das maiores #VelvetFans desse universo! kkkkkkk... Poli, te loves mulher! E parabéns mais uma vez pelo aníver!!! Além da dona Poli, não posse deixar nenhum cap passar sem dedica-lo a minha querida Gang, as lindas e fofas #VelvetFans do twitter, facebook, whats, e por aí vai... E ao meu mozão lindo e maravilhoso, que sempre me ajuda com os capítulos e com os momentos em que a inspiração me escapa. Te amo, Karen. Avisos sobre o cap: 1) Deixe uma caixa de lenços próxima a você; 2) Leia sozinho, ou em algum local apropriado para reações como: choro e euforia; 3) Lembrem-se de respirar parágrafo por parágrafo, assim, ninguém corre o risco de ficar sem ar nos momentos mais emocionantes. Bem, avisos dados, 22h no relógio, então, bora lá né minha gente?! Boa leitura a todas!

Mais uma vez, Clara não fazia a mínima ideia do que dizer a namorada. Aliás, desta vez, não fazia a mínima ideia de nada do que estava acontecendo naquele momento. Que foto era aquela? Que envelope era aquele? Como é que aquilo tinha ido parar na mão de Marina? Porque ela estava tão calma? O que estava acontecendo ali?

_Vamos Clara, tô curiosíssima pra ouvir a sua explicação para essa putaria aqui! – com a maior frieza e suposta tranquilidade do mundo, a fotógrafa sentou-se na cama, e erguendo o envelope com a mão esquerda, virou o seu conteúdo sobre os lençóis. Espalhando dezenas de fotos de Clara e Melissa por ali.

_Marina, eu... Eu... – sua mente não conseguia processar nada. E por mais que pudesse, antes de ter tempo para isso, a fotógrafa lhe interrompeu.

_“Eu posso explicar!”. “Não é isso que você está pensando!” – ironizou, desenhando aspas no ar, com a ponta dos dedos indicador e médio – Sério mesmo, Clara?! Teremos um diálogo tão pouco criativo assim pra tudo isso aqui? É isso?

_Eu não sei o que é isso. Eu... – pegou uma das fotos de cima da cama, e involuntariamente, levou a mão direita à boca. Não entendia como aquilo era possível, afinal, era algo que nunca tinha acontecido! Ela e Melissa. Elas... Não! Nunca! Por um momento, deixou seus olhos vasculharem a cena do papel em suas mãos. Reconhecia o quarto, mas não se lembrava de onde.

_Ah, você não sabe, Clarinha? Eu te conto! – disse, pegando uma foto em que Melissa aparecia beijando a cintura de Clara, perigosamente perto de sua virilha – Essa aqui é a Melissa – apontou para a Italiana – Essa outra aqui é você – apontou para o corpo da namorada – E essas, são vocês duas, fazendo algo que você me jurou que nunca faria com mais ninguém. Só comigo. Lembra?

_Marina... – Clara olhava as fotos a sua frente, absolutamente incrédula de tudo aquilo que estava acontecendo. Ainda sem conseguir fazer a mínima ideia do que dizer, assistiu a namorada erguer uma folha de sulfite.

_"Para que guarde com você, a lembrança de uma noite, que por si só, já foi inesquecível! Sempre com saudades, beijos, Mel." – leu em voz alta o bilhete que a Italiana mandara junto com as fotos – Romântica ela, né?! Nunca pensei que fizesse o feitio da Melissa mandar bilhetes ou flores no dia seguinte, mas pelo jeito, mais uma vez, me enganei. Não é, Clara?!

_Isso nunca aconteceu, Marina! Eu nunca... Nós nunca... – parecia falar mais para si mesma do que para a mulher a sua frente, completamente perdida ali no meio.

_Tá vendo esse papel aqui? – com o indicador e o polegar, esfregou uma das fotos, deixando claro que falava do material em que as fotos estavam impressas – Essas são fotos polaroid. O que quer dizer, que não podem ter sido manipuladas! Então, por favor, nem tente ir por essa linha! – disse levantando-se de onde estava – Não tente me fazer de idiota, Clara! De novo, não!

_Eu não estou te fazendo de idiota, amor. Eu, não sei o que é isso. Não faço a mínima ideia do que esteja acontecendo aqui! – disse desesperando-se por não conseguir encontrar explicações plausíveis em sua mente – Eu nunca ficaria com essa mulher. Nunca!

_Amor? – indignou-se Marina – Amor? Quem você pensa que é pra me chamar assim de novo? Aliás, o que você considera amor, Clara? – apesar de manter-se fria, a calma esvaia-se da fotógrafa, sem que ela pudesse impedir, ou realmente controlar essa reação – A íntima convivência com a Melissa te deixou doente igual a ela? É isso?

_Não faz assim, Marina! Por favor! – disse levantando-se também, sem saber exatamente o que pedia para que a namorada não fizesse – Nós não temos nenhuma íntima convivência. E eu continuo sendo a mesma pessoa de cinco minutos atrás! Continuo sendo a pessoa que mais te ama na face da Terra – antes que pudesse continuar, a fotógrafa a interrompeu.

_Pena eu não achar lindo essas putarias que você faz nas minhas costas, não é?! – deu dois passos para trás, mantendo-se seguramente longe de Clara – Pena eu ter acreditado em cada uma das vãs palavras que você me disse quando me deu isso – disse apontando para a aliança que carregava em sua mão direita – Pena esse seu pseudo amor ser tão mentiroso!

_Calma aí, Marina. O meu amor não tem uma grama de mentira! Não coloque isso a prova desse jeito, menos ainda fale por mim, em questões que só eu mesma posso responder – deu alguns passos a frente, tentando aproximar-se da outra –Eu nunca abri a minha boca pra dizer que te amava sem te amar muito mais do que eu pudesse dizer! – deu mais alguns passos – Eu nunca consegui te dizer o tamanho desse sentimento que eu carrego aqui – apontou com o indicador para o próprio peito – Eu nunca consegui expressar o quanto você é essencial na minha vida, mas a verdade não deixa de ser essa, Marina! Nunca deixará de ser essa!

Marina permaneceu calada. Apenas olhando na direção de Clara, sem encara-la de fato.

_ Eu nunca, NUNCA – enfatizou a palavra, pela segunda vez – Faria algo assim com o nosso amor!

_Sabe, eu já senti muitas coisas quando te ouvia falar assim. “Nosso amor” – encarou-a, no fundo dos olhos – Hoje, agora, a única coisa que consigo sentir, é meu estômago se embrulhar aqui dentro – apontou com o indicador para sua própria barriga.

Clara fez menção de interrompê-la, Marina ergueu uma das mãos, pedindo para que ficasse quieta. Contudo, não teve seu pedido atendido pela assistente.

_Não Marina, eu não vou fica quieta dessa vez! – disse, esforçando-se pela milésima vez a fim de encontrar alguma coerência em tudo o que estava acontecendo – Você é a pessoa que mais me conhece nessa vida. Sinceramente, como acha que eu conseguiria fazer uma coisa assim, e estar aqui, olhando nos seus olhos agora?! – tentou tocar seu rosto, contudo, Marina deu mais um passo para trás, esquivando-se de seu contato – Você precisa confiar em mim!

_Eu não preciso confiar em nada! Você mentiu pra mim quando foi encontrar essa mulher, você inventou uma estórinha, na minha cara, pra ir até a casa dela! – acusou, lembrando-se dos últimos acontecimentos – A Clara que eu conheço, aliás, a que eu achava que conhecia, não tem atitudes como essa!

_Marina, você sabe que eu não teria coragem! VOCÊ, MELHOR DO QUE NINGUÉM, SABE DISSO! – gritou, sem conseguir manter-se calma frente a frieza da namorada – Por quanto tempo você me esperou? Por quantas vezes eu te disse que não podia trair o Cadu? Por que eu faria isso com você agora? POR QUE MARINA?

_Clara, chega! – sem que pudesse medir ou controlar, a voz da fotógrafa subira uma oitava – Você pode ter me feito uma, mas eu definitivamente não sou idiota e cansei de brincar disso aqui – pegou a bolsa que havia deixado em cima da escrivaninha, atrás de si, já preparando-se para sair do quarto.

_Não Marina, você não vai sair daqui assim. Me escuta! – pediu, agarrando o braço da fotógrafa com força, segurando-a dentro de seu quarto – Eu não sei como a Melissa fez isso. Juro, por Deus, que eu não sei. Mas, é mentira! Eu nunca ficaria com aquela mulher! Nunca! Acredita em mim, por favor! – implorava, já sem saber o que mais poderia fazer aquela altura do campeonato, contra todas aquelas supostas provas ainda espalhadas sobre a cama.

_Cala a boca, Clara! Chega! – irritou-se por completo – Você não me deixa ir de uma vez, então quem vai escutar agora aqui é você! – disse puxando bruscamente o braço que a outra segurava, sentindo seu último pingo de paciência se esvair – Você tá vendo isso aqui? – Marina pegou um punhado das fotos de cima da cama e segurou-as na mão – Isso daqui são fotos, Clara! FOTOS! – jogou-as em cima da assistente – O seu lenga lenga não adianta mais. Não funciona mais, entendeu?

_Não é lenga lenga, Marina! Eu...

_Você nada! Chega de dizer que não sabe do que se trata! CHEGA! – gritou, perdendo as estribeiras – Você foi pra cama com ela, sim. Eu tô vendo, Clara! Chega de mentir pra mim. Teve a indecência de fazer tudo isso nas minhas costas, agora tenha um PINGO de compaixão, e assuma! – exigiu, extremamente cansada de ouvir as afirmações sem nexo ou sentido que vinham da boca da outra.

_Eu não vou assumir nada! Não vou confessar pecados que eu não cometi! – irritou-se também, cansada de tentar achar respostas em sua mente, que parecia mais confusa e perturbada a cada momento que se mantinha ali, naquela discussão. Olhando para aquelas fotos. Sentindo o desprezo da mulher a sua frente – Foi tudo muito estranho aquela noite. Eu... Não te disse antes, mas, minha cabeça anda uma bagunça desde aquele jantar – disse, confessando a confusão em que sua mente se encontrava – Eu não me lembro de praticamente nada daquela noite. Não faço a mínima ideia de como cheguei em casa, menos ainda do porque a porta estava aberta quando você entrou – mesmo sem conseguir vislumbrar qualquer lampejo de credulidade, continuou contanto sobre as lacunas de sua memória, torcendo para que isso, ao menos a fizesse pensar – Você me conhece. Sabe que eu tranco a porta no mínimo três vezes, todas as noites.

_Então quer dizer que nós voltamos à adolescência? Onde dá pra fazer todas as bobagens do mundo com a desculpa de estar de porre? É isso mesmo? – ironizou, batendo palmas – Sensacional hein Clara, SENSACIONAL!!!

_EU NÃO BEBI. NÃO TOMEI UM PORRE!!! PELO AMOR DE DEUS, ME ESCUTA!!! – o desespero tomava conta do discurso de Clara.

_Ah, não bebeu?! Quando eu vim aqui, no dia seguinte da sua festinha italiana, você estava de ressaca. Ah, e além disso, assumiu que bebeu – disse, lembrando-se de toda a estranheza daquela manhã que decidira ir até a casa de Clara – Ah, mas não precisa nem falar. Já sei! Não se lembra de ter bebido também, não é?! – a fotógrafa riu.

_Uma taça de vinho, Marina! Uma! Como é que uma taça de vinho afetaria tanto minha memória?!

_Sinceramente Clara, essa sua estória fica cada vez melhor! Me sentaria para ouvir um pouco mais, mas, realmente, acho que meu estômago não aguentaria nem mais um minuto!

_MARINA, POR FAVOR! – chamou a mulher que dava-lhe as costas naquele momento – ME ESCUTA, PORRA!!! EU NUNCA IRIA PRA CAMA COM AQUELA MULHER!!! NUNCA!!!

_Ah, você não iria?! Nunca?! ENTÃO QUE PORRA É ESSA AQUI, CLARA FERNANDES? – respondeu no mesmo tom que a outra usara, pegando novamente algumas fotos de cima da cama – POR QUE É QUE A BOCA DA MELISSA ESTÁ ONDE ESTÁ? – apontou para a imagem em sua mão, onde Melissa aparecia lambendo a virilha de Clara – POR QUE CLARA?!

_EU NÃO SEI!!! EU JÁ DISSE QUE NÃO SEI COMO ELA FEZ ISSO!!! – jogou os braços para o ar, explodindo de vez.

_COMO ELA FEZ?! ELA??? NÃO TEM UMA ÚNICA PESSOA NESSAS FOTOS! OU ESSA AQUI TAMBÉM NÃO É VOCÊ, CLARA?! – apontou para o rosto da namorada na foto.

_MEU DEUS, MARINA! ACREDITA EM MIM, POR FAVOR! – pediu, tentando acalmar o turbilhão de emoções que habitava seu peito – Por favor. Por mim, por nós.

Marina pensou em continuar com a gritaria, mas no fundo, aquilo não lhe fazia mais o menor sentido. As fotos estavam ali, na mão dela, na cara dela. Clara tinha ido para cama com outra. Pior, com qualquer outra não, com Melissa. As provas estavam todas ali. Ponto. Isso era um fato, e a velha expressão de que contra fatos, não há argumentos, cabia perfeitamente naquele momento. Sem pôr nem tirar nada. Como uma luva!

Olhou para a mulher a sua frente, e literalmente, a única coisa que conseguia enxergar eram as cenas que estavam nas fotos. Sem que pudesse impedir, sua mente projetou a imagem de Clara e Melissa juntas, em uma cama. Ouviu o estalar dos beijos de Melissa. Ouviu as obcenidades que ela dizia no ouvido de sua mulher. Ouviu os gemidos de Clara ecoarem em resposta aos toques da outra. Ouviu-a suspirar o nome da Italiana, do mesmo jeito que sempre suspirara o seu.

Colocou a mão sobre a boca, sentindo-se completamente nauseada com tudo aquilo, e naquele momento tomou sua última decisão. Não aguentava mais.

_Você não tem um pingo de decência mesmo, não é?! Não tem um pingo do caráter que um dia eu achei que você tivesse! – Marina cuspia as palavras, sem se importar com o peso ou o impacto que teriam na outra – Sabe o que eu sinto olhando pra essas fotos de vocês duas? Nojo, Clara! É só isso que me dá. Nojo! – Ela estava ferida. Ridícula e profundamente ferida, e em sua cabeça, isso lhe dava o direito total e completo de ferir a mulher responsável por toda a dor que habitava seu peito naquele momento – Olhar pra essa aliança no meu dedo, e saber que só eu honrei o compromisso proposto por ela. É dolorido demais, pra que eu consiga te dar o gostinho de ouvir o quanto dói de verdade!

Clara baixou a cabeça. As palavras de Marina doíam demais. Não sabia mais como tentar lidar com aquela situação! Não sabia mais como olhar para os olhos castanhos de Marina. Não conseguia mais insistir. Não acreditava em nada daquilo. Fechou os olhos e piscou forte, torcendo para que quando os abrisse novamente, ainda estivesse no avião, dormindo, e tudo aquilo tivesse sido apenas um pesadelo de extremo mau gosto. Fez isso uma, duas, três vezes. Contudo, todas as vezes que abriu os olhos estava sempre ali. Em seu quarto, com a namorada a sua frente.

Marina, por sua vez, não queria mais estar ali. Não queria mais olhar para Clara, sentir o perfume dela no ar, ouvir sua voz lhe dizendo todas aquelas mentiras. Não suportava mais. Não podia mais. Olhou de novo para sua mão direita, e lembrou-se de cada palavra dita pela namorada no dia em que ela lhe dera aquele presente. A raiva da lembrança dessa cena e das promessas contidas no discurso da outra, começou a brotar com força em seu peito.

_“Quero muito que possamos confiar uma na outra, sem reservas ou questionamentos, portanto, o que eu estou te propondo, meu amor, é um pacto de lealdade entre nós duas. Fidelidade, amizade, companheirismo, confiança, mas principalmente lealdade” – repetiu exatamente as palavras ditas por Clara, tempos atrás, naquele quarto de hotel em São Paulo. Ao final delas, riu. Sarcasticamente – Pensar que foi você mesma quem propôs isso hein Clara?! – riu novamente – Fico aqui pensando qual o seu conceito de lealdade. Aliás, melhor nem querer saber né?! – ironizou – Quer saber, parei. Pra mim, deu. Acabou!

_O que acabou? – o tom de voz de Clara era suplicantemente desesperado – Como assim, acabou? – Clara perguntava, porém, tinha entendido perfeitamente o que a namorada queria dizer com aquela palavra, e inadvertidamente as lágrimas começaram a rolar por seu rosto – Nunca deixei de honrar cada palavra desse compromisso! Eu menti pra você, sim. Mas, eu não fiz nada disso aqui – apontou as fotos na cama – Eu não fiz, Marina! Pelo amor de Deus! Eu não fiz! – Clara tentava tocar a outra, mas como fizera até ali, Marina esquivava-se de ter qualquer tipo de contato com ela.

_Nós, Clara. Acabou – disse, ignorando completamente a fala da assistente, e indo direto ao ponto. Por mais que estivesse firme, mesmo sem derrubar uma lágrima, sentiu seu coração espatifar-se dentro do peito – Esse seu teatrinho barato, não é mais necessário – apontou para o rosto da outra, referindo-se as lágrimas que via deslizar initerruptamente por suas bochechas.

_Não faz isso, Marina! Pelo amor de deus! – apesar de saber que era inútil, Clara não podia deixa-la ir sem ao menos tentar – Não faz isso com a gente, por favor! ME PERDOA! – Clara implorava, chorando copiosamente.

_Fazer o que com a gente? Eu não fiz nada! Quem fez foi você! – apontou o indicador para outra, acusando-a – Quem fez isso aqui – desceu o dedo até as fotos – Foi você! Não eu – tirou a aliança de seu dedo e colocando-a na palma de sua mão, entregou-a a Clara – Toma, fique com suas promessas vazias para você!

_Não! Eu não quero ela de volta – recusou-se a pegar a aliança na mão da fotógrafa.

Marina encarou-a nos olhos, abriu os dedos e deixou a aliança cair por sobre as fotos, em cima da cama.

_Dê ela para a sua Melissa. Venda. Jogue fora! Faça o que você quiser com isso. Eu não a quero comigo. Não mais! – sua voz agora era pura mágoa, as lágrimas congestionavam e embaçavam sua vista, e ela já não podia mais ficar ali.

_Não vai embora, Marina! ME PERDOA, PELO AMOR DE DEUS! – aproveitando um segundo em que a fotógrafa fechara os olhos, Clara aproximou-se o suficiente para conseguir segurar em seus braços, e passando por cima de toda a resistência que o corpo da outra impunha, prendeu-a em um abraço apertado – Não vai embora. Por favor! Fica comigo. Eu vou provar pra você! Eu juro que vou! Mas, fica. Fica, Marina! Não consigo sem você – as lágrimas de Clara banhavam a blusa da fotógrafa, ao mesmo tempo em que seus soluços preenchiam os ouvidos de Marina violentamente.

O corpo, o peito, e a alma da fotógrafa pediam para que ela correspondesse aquele abraço. Cada pedacinho de Marina pedia por aquele contato, e como se fosse uma despedida, uma última vez, Marina deixou seus braços apertarem as costas de Clara com força, prendendo-a junto ao seu corpo.

Alguns minutos depois, Marina afastou-se um pouco. Encarou Clara nos olhos mais uma vez, e selou os lábios dela com os seus, apertando boca contra boca, com ímpeto, com força.

_Eu te amei, com toda a minha alma, Clara! Eu te amei, no mais alto grau que alguém pode amar outra pessoa. Eu me dei pra você, o mais profundo que alguém pode se doar. Mas, infelizmente – seu lábio inferior tremia, seu coração parecia congelar no peito, seus joelhos prometiam ceder a qualquer momento – Você jogou tudo isso fora, meu amor. E eu, eu não posso mais ficar aqui. Eu não consigo mais.

Sem dizer mais nada, Marina soltou-se de Clara, virou-se e saiu do quarto. Em uma última tentativa, Clara ainda tentou segura-la pela sala, mas rapidamente, a fotógrafa desvencilhou-se do toque da outra, e sem olhar nenhuma vez para trás, saiu.

A porta do apartamento bateu, provocando um ensurdecedor estrondo, que para Clara, anunciava nada mais, nada menos, do que a saída da mulher que ela amava. Selava o adeus, que os lábios de Marina haviam deixado nos seus, segundos atrás.

A frieza da fotógrafa a assustava. As lágrimas não deixavam seu rosto. Seu peito subia e descia rapidamente, enquanto soluçava a procura de um pouco de ar para preencher seus pulmões. Involuntariamente, olhou para sua mão direita, lugar que sempre procurava com os olhos quando precisava de conforto, e o fato de saber que agora apenas ela carregava aquela aliança no dedo, não lhe dilacerava apenas o peito, mas sim toda a sua alma.

Em seu coração, sabia que Marina não voltaria a pisar ali, e essa certeza lhe tirava toda a vontade de sair de onde estava. Tirava-lhe toda a vontade de continuar esforçando-se para inspirar e expirar o ar de seus pulmões. Portanto, permaneceu ali, estática, bem no meio de sua sala.

Minutos depois, tentou mover-se, arrastando os pés para frente, e percebendo-se absolutamente sem forças para qualquer coisa, sentiu seus joelhos cederem, batendo com eles fortemente no chão. A dor física advinda da pancada inesperada lhe invadiu, lembrando-a de que apesar do imenso vazio que pulsava em seu peito, ainda estava viva. Ainda estava ali. Desejou estar desmaiando, mas a falta de consciência não lhe veio. Encontrou apenas seu próprio vazio, apenas o silêncio da solidão de seu apartamento.

Respirou fundo e permitiu-se ficar ali. Esticando seu corpo sobre o chão gelado, buscando sentir alguma coisa que não fosse dor.

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_Ah amor, eu amei. Amei mesmo! Mas, o que você achou? Você nunca fala nada! – Vanessa riu, animada com a possibilidade de Vic fechar a compra da casa que viam pela segunda vez, ali mesmo em Santa Teresa.

_Van, eu preciso te falar uma coisa sobre tudo isso – disse séria, acabando imediatamente com a empolgação da ruiva, e conseguindo chamar toda a atenção dela para si.

_Aconteceu alguma coisa, amor? Você não gostou de lá? – perguntou, escondendo a verdadeira questão que lhe interessava.

_Então, não é bem isso. É que eu... – calou-se, deixando a resposta no ar.

_Você o que Vi? O que foi? – mesmo estando mais segura de si e de sua relação com a loira, Vanessa carregava sempre uma pulguinha atrás da orelha. Um certo receio de que Victória pudesse voltar atrás a qualquer momento. Pudesse simplesmente desistir de toda essa mudança, toda essa novidade. Desistir dela. Será que era isso? Será que Vic tinha mudado de ideia? – Você, hã... Desistiu?

_Desisti, amor – disse simplesmente, baixando a cabeça.

_Desistiu? Desistiu, como assim? – mesmo tentando disfarçar, a voz de Vanessa mudara imediatamente, assumindo um tom decepcionado.

_Desisti de procurar imóveis melhores do que esse, e assinei os papéis hoje. Te levei lá só pra que você desse uma última olhada – sorriu, encarando a ruiva nos olhos, e esperando pelo leve tapa, que não demorou a acontecer.

_Victória! — disse, dando mais um tapinha em seu ombro – Não faz isso com meu coração, poxa! – riu, não resistindo ao som da risada da outra.

Sem dizer nada, Victória abraçou-a. Carinhosamente, arrumou uma mecha ruiva de seu cabelo para trás de sua orelha, e em seguida, beijo-lhe os lábios, devagar.

_Não deixaria minha ruivinha, mesmo que eu ainda pudesse fazê-lo.

_Não pode mais não? Por quê? – perguntou sorrindo, enquanto jogava seus braços em volta do pescoço da outra, e sentia os braços da francesa abraçarem sua cintura.

_E por acaso, dá pra viver sem esse sorriso por perto? – respondeu olhando fixamente para os lábios levemente vermelhos de Vanessa.

_Vic... Eu... – Vanessa ainda tinha medo do peso de assumir aquilo – Eu te... – calou-se ao sentir o dedo indicador da outra tocar seus lábios, pedindo para que ficasse em silêncio.

_Não fala nada, amor. Espero que você diga, espero te dizer isso também. Mas, não precisa correr. Eu estarei aqui para ouvir, quando você estiver pronta para falar – mais uma vez, Vic selou os lábios da ruiva com os seus – Inclusive... – a loira colocou a mão no bolso, e rapidamente, tirou duas chaves lá de dentro – Essa aqui é a sua chave. Pode me visitar, e... Está convidada a mudar de casa em Santa Teresa. Assim que quiser fazer isso.

_Eu entendi direito? Está me chamando para morar com você, Srta. Bouvier? É isso mesmo? – Brincou, estreitando um pouco mais o espaço existente entre as duas.

_Sabe que, a sua inteligência, é uma das coisas mais sexys em você?! – disse maliciosamente, voltando a beijar os lábios da namorada.

_É mesmo? Então, porque a gente não sobe, e você me conta um pouquinho mais sobre isso? – sugeriu Vanessa, soltando o abraço da outra e puxando-a pela mão, escada acima.

_Sobre o que você quer que eu te conte? – perguntou, puxando Vanessa para si, assim que terminaram de subir as escadas em direção aos quartos.

_Exatamente sobre isso! – respondeu sentindo a boca da outra beijar seu pescoço, e o toque delicado de seus dedos finos e longos subirem lentamente por suas costas.

Victória fez menção de responder, mas assim como Vanessa, ouviu um barulho estranho vindo do quarto da fotógrafa. Ambas entreolharam-se sem entender muito bem, pois, Marina havia avisado que não estaria em casa até o dia seguinte, e mesmo sem dizer nada uma para outra, decidiram ir até lá, ver o que estava acontecendo. Já perto da porta, ouviram um novo som, desta vez, como se fosse de algo se espatifando, como vidro ou coisa parecida, e involuntariamente, apertaram o passo.

Victória abriu a porta de uma vez, sem pedir licença ou bater, e a cena que encontrou por ali, a deixou com o coração na mão.

_Marina! O que aconteceu com você? – perguntou enquanto corria em direção ao corpo da fotógrafa, deitado no chão.

Fazia um clima mais ameno naquela noite, e Marina usava uma camiseta de manga comprida branca, contudo, parecia possuir alguns pingos vermelhos ao longo do tecido, próximos à mão da fotógrafa. Sem muito esforço, Victória conseguiu ler a cena a sua frente, e mesmo sem entender o porquê de tudo aquilo, pediu a Vanessa para que pegasse o estojo de primeiros socorros. Apesar dos protestos habituais, Vanessa obedeceu, saindo em disparada do quarto.

_Pequena, o que foi que aconteceu aqui? – os olhos azuis de Vic percorriam o quarto, e assim que olhou para penteadeira, a explicação para o sangue na mão de Marina ficou simples – Você que quebrou o espelho?

Marina chorava copiosamente, soluçando de forma tão violenta que não conseguia sequer respirar direito, muito menos responder as perguntas que a francesa lhe fazia.

_Fala comigo, pequena! O que aconteceu aqui? Quer que eu ligue para a Clara? – como se apertasse algum botão de pânico, ou coisa parecida, viu a expressão facial e corporal de Marina assumir posição de alerta.

_Não! Pra Clara, não! – respondeu de imediato, tirando fôlego sabe-se lá de onde.

_Por que, Marina? Você e a Clara brigaram? – a preocupação na voz da outra era genuína, contudo, Marina não queria ouvir, tampouco falar no nome de Clara tão cedo.

_Vic... Eu não quero mais ouvir esse nome. Por favor! – pediu, confundindo ainda mais a cabeça de Victória.

_Vem cá – a loira estendeu a mão para Marina, e assim que a fotógrafa colocou-se em pé, a francesa lhe abriu os braços, oferecendo-a seu abraço. Sem nem ao menos pensar em resistir, Marina jogou-se ali, pousando sua cabeça no peito macio e acolhedor da antiga professora – Fica calma meu anjo. Respira! – os dedos finos de Vic deslizavam pelos cabelos encaracolados e castanhos da ex-aluna, tentando lhe transmitir um pouco de tranquilidade.

Pouco tempo depois, Vanessa voltou ao quarto, e por mais que a cena de Vic e Marina abraçadas daquele jeito lhe incomodasse, a preocupação com o que teria acontecido com a fotógrafa era maior, e sem dar espaço para o ciúme que já lhe batia a porta, foi direto ao ponto.

_Vic, o kit que você pediu, amor – disse, entregando a pequena maleta branca de primeiros socorros na mão da namorada – Mari... O que... – parou por um minuto, assustando-se com a visão da manga da camiseta da fotógrafa tingida de vermelho. Por um instante, lembrou-se do dia em que Marina fora baleada por Cadu, ali mesmo no estúdio, e não pode deixar de sentir cada pequena parte de seu corpo gelar – Quem fez isso com você? – seu tom de voz era levemente urgente, e a ruiva viu a mão de sua namorada erguer-se a sua frente, pedindo gentilmente para que se acalmasse.

_Nós vamos cuidar de você! – afirmou a loira, olhando fixamente para Vanessa, que prontamente balançou a cabeça para cima e para baixo, em sinal de concordância – Vem Marina, senta – Vic puxou-a para a beirada da cama, ajoelhando-se no chão a sua frente – Me dá essa mão aqui, pequena – pediu a loira, e mesmo relutante, Marina lhe estendeu o braço, depositando sua mão sobre a palma fina e delicada da mão da outra.

Trabalhando rapidamente, Victória limpou os cortes da mão da fotógrafa, e sem lhe fazer nenhum questionamento, assim que conseguiu estancar o sangramento do talho mais profundo, providenciou um pequeno curativo em cima de cada um de seus machucados. Ainda sem lhe pressionar para que dissesse qualquer coisa, pegou dois dos comprimidos que a própria fotógrafa tomava de vez em quando para dormir, e os entregou a ex-aluna, alegando que ela precisava descansar um pouco naquele momento.

Mesmo tendo certeza de que eles, pela primeira vez na vida, não lhe fariam efeito algum, Marina aceitou tomar os comprimidos. Muito mais pelo jeito carinhoso da loira que lhe estendia a mão com aquelas duas bolinhas brancas, do que por qualquer outra coisa. Permitiu-se engolir os remédios e encostar a cabeça em seus travesseiros.

No entanto, assim como previra antes, sua mente não lhe deixava quieta por mais de meio segundo, e algum tempo depois de já ter a certeza de que os comprimidos haviam fracassado em seu propósito, Marina repassou seu dia até ali. Em um momento, sentia-se a pessoa mais feliz e sortuda do mundo, e no outro, a mais infeliz e enganada das criaturas!

Saíra completamente transtornada da casa de Clara mais cedo, e mesmo estando de táxi, o universo parecia conspirar tanto contra ela aquele dia, que quase se envolvera em um acidente de trânsito, que apesar de não dar pinta de ser fatal, tinha tudo para ter dado um bom trabalho. Chegara a sua casa ainda fora de si, e como se o seu próprio reflexo no espelho zombasse de sua infeliz situação, fechou a mão e socou a própria face, espatifando o espelho de sua penteadeira por entre os dedos, assim como Clara fizessera com seu coração horas atrás.

Tudo lhe doia agora. Sua mão, sua cabeça, seu peito, sua dignidade. Era tudo muito pulsante, tudo muito a flor da pele, e pela primeira vez na vida, Marina sentia o gosto de uma traição. Uma deslealdade. Engoliu em seco, tentando não voltar a chorar, e vendo que todos os outros meios já haviam falhado, resolveu tentar aliviar sua dor pelo bom e velho método catártico mesmo.

_Ela me traiu – declarou, rompendo o silêncio que cortava o quarto – Ela me traiu! – repetiu, sem conseguir impedir que sua voz voltasse a embargar.

_O quê? Te traiu? Como assim? – perguntou Vanessa, impulsiva como sempre.

_Ela me traiu Van. A Clara me traiu! – Marina repetia, como se a simples repetição daquelas palavras, tivesse o poder de tirar o peso dos fatos em si.

_Mas, Marina... Como assim ela te traiu? Com quem? Não me diga que foi com a... – antes que pudesse terminar a frase, seus olhos captaram os azuis de Victória, que claramente lhe pediam para não continuar.

Sem que nenhuma das duas pudesse impedir, Marina desabou em lágrimas, e novamente, quase que por instinto, procurou o peito de Victória para se esconder.

_Com a Melissa, Vic! Com a Melissa! – o tom de sua voz, apesar de sofrido, ainda soava incrédulo.

_Calma pequena. Calma! – a loira apertou o abraço que trocava com Marina, e Vanessa, com o coração mais apertado do que qualquer outra coisa, não conseguia falar, tampouco fazer algo que não fosse deslizar deus dedos brancos pelos cabelos e ombros da outra – Me conta como foi isso.

_Ela mentiu pra mim antes de irmos viajar – a mágoa que morava em seu peito, ficava evidente a cada palavra que pronunciava – Disse que ia jantar na casa da irmã, mas foi jantar com a Melissa – só de pronunciar o nome da italiana, Marina sentia seu estômago revirar – Li uma mensagem dessa... Mulher... No celular dela e pressionei pra saber a verdade, ela me contou, me pediu desculpas, e jurou que tinha ido lá para resolver o que tinha que resolver com ela. Eu, idiota que sou, acreditei nesse lenga lenga.

_Mas, isso não quer dizer que ela te traiu. Porque você chegou a essa conclusão Marina? – insistiu a loira.

_Porque eu vi! – respondeu no automático, desvencilhando-se do abraço da francesa.

_Viu? Como assim viu? – perguntou Vanessa, sentindo seu sangue começar a ferver nas veias – Você flagrou as duas juntas?

_Não. Ela... Ela tirou fotos, Van. FOTOS! – a irritação batia a porta de Marina, e ela soltava as informações sem muita coerência, deixando ambas as mulheres cada vez mais confusas.

_Como assim meu anjo? Que fotos? – com a voz mais carinhosa do universo, Vic tentava fazer com que a fotógrafa ficasse minimamente calma, contudo, pelo menos até o momento, não vinha conseguindo muito sucesso.

_Fotos das duas juntas, Victória! Que fotos seriam? – explodiu Marina, saltando da cama num pulo. Sentindo a dor em seu peito sufoca-la demais para que conseguisse continuar ali parada, começou a andar de um lado para o outro do quarto.

_Tudo bem Mari, mas, vieram de onde essas fotos? Você viu isso? Alguém te falou? A Clara te disse? Como foi que isso aconteceu? – insistiu a francesa, começando a achar aquela conversa estranha demais. Clara não parecia ser alguém que trairia Marina, menos ainda que se deixaria fotografar intimamente com alguém.

_A vaca da Melissa enviou um envelope, cheio de fotos da "noite de amor” das duas – desenhou aspas no ar – para a casa da Clara. Ela me pediu para abrir as correspondências e acabei tendo essa linda surpresa – ironizou, tentando usar da acidez para poupar seu próprio coração de vivenciar aquilo novamente. Falhou com louvor.

_Eu vou matar essa cretina! – sem que percebesse efetivamente, Vanessa deixou que a raiva falasse por ela – Eu juro que vou matar a Clara!

_Ei, ei, calma vocês duas. Marina, você tem certeza que a Clara realmente te traiu? – perguntou Vic, sem conseguir conceber a ideia de que Clara seria realmente capaz de fazer algo assim.

_Ah Vic, acho que as imagens da filha da puta da Melissa chupando aquela... Aquela... Vadia da Clara me dão essa certeza! Ou precisa se estar de corpo presente hoje em dia pra ser considerada uma traição real?

_O QUÊ? É SÉRIO ISSO MARINA? – indignou-se a ruiva – Eu sempre disse que a Clara ia acabar te machucando! Disso eu já tinha plena certeza! Só não sabia que ela poderia ir tão baixo.

_Vanessa! – chamou Vic, tentando controlar os ânimos da namorada – Não piore as coisas amor. Por favor!

_Piorar? Victória! Não dá pra ser pacificadora agora. Por favor digo eu né?! Sinceramente! Isso é muito baixo, até mesmo para a Melissa. Baixo!

_Pequena, nós somos fotógrafas, montagens existem! – Vic tentava achar uma alternativa viável para tudo aquilo ser real – Você pode ter plena certeza de que não é esse o caso?

_ERAM POLAROIDS VICTÓRIA! POLAROIDS! – berrou a fotógrafa, perdendo o pouco controle emocional que ainda lhe restava – COMO NÃO POSSO TER CERTEZA? ME DIZ! E OUTRA, POR QUE VOCÊ TÁ DEFENDENDO TANTO AQUELA VADIA?

_Ei, calma – pediu Vic, levantando-se de onde estava, e caminhando em direção a Marina – Eu não estou defendendo e nem acusando ninguém aqui. Calma! – aproximou-se da ex-aluna – Só estou dizendo que, bom, havemos de convir que a Melissa é sem limites, e uma armação, vindo dela, nunca pode ser totalmente descartada.

_Pensar que eu imaginei que casaria com aquela mulher, Vic! Eu imaginei ter filhos com ela! – riu – Logo eu. A mais errada das criaturas! – riu novamente – Isso só pode ser o destino rindo da minha cara! Só pode! – o abalo emocional de Marina era tamanho, que mesmo parada ali, rindo, seu corpo inteiro tremia.

_A Clara não presta, Marina! Nunca prestou! Só você que não via isso – mesmo que não propositalmente, Vanessa colocava mais lenha na fogueira. Verbalizando toda a sua frustração por outrora ter perdido Marina para a dona de casa.

_Vanessa, chega! Não é hora pra isso! – ralhou com a namorada, realmente irritada. Tanto pela atitude da ruiva em si, quanto por perceber o quanto à história de Clara e Marina ainda a incomodava – Pequena, vem aqui. Você não está bem!

_Tá tudo bem, Vic!

_Não tá não senhora. Você está tremendo, Marina! Vem... Deita aqui um pouco.

_Não adianta Vic, eu não vou conseguir dormir – disse, levando a mão que não estava machucada até a testa.

_O que foi? O que você está sentindo?

_Só um pouco de tontura, mas tá tudo bem – respondeu rapidamente.

_Não pequena. Não está tudo bem! Vai ficar, isso eu garanto pra você, mas não está tudo bem. Vem! – chamou pela terceira vez, passando o braço pela cintura fina da fotógrafa, guiando-a até a cama para que se deitasse – Deita aqui. Eu vou ficar com você e a Van vai fazer aquele seu sanduíche favorito, sabe? – disse, olhando para a namorada – Você precisa comer.

Sem ter como contestar ou contrariar o pedido advindo daquele azul intenso dos olhos de Victória, tanto Marina quanto Vanessa a obedeceram, indo cada uma para o seu canto designado.

_Vic, eu sei que liberei o estúdio pra você terminar seus assuntos com ela. Mas, eu não quero mais aquela mulher pisando na minha casa! – decretou Marina, já com as duas sozinhas no quarto – Não quero mais ser obrigada a olhar para a cara daquela puta!

_Ela nunca mais vai pisar aqui, pequena. Você tem a minha palavra! – respondeu de pronto, tranquilizando a outra quanto a isso – Sei que é difícil, mas esquece isso um pouco meu anjo. Deita aqui – abriu os braços para receber Marina em seu colo pela terceira vez aquela noite, e desta vez, apesar da relutância de seu próprio corpo em acalmar-se, a fotógrafa aceitou o abraço da outra – Tudo vai ficar bem!

Deitada no colo da antiga professora, Marina permitiu-se chorar mais um pouco. Deixou que as lágrimas inadvertidamente caíssem por seu rosto, e como se aquele momento fosse a grande despedida de toda a dor que sentia, permitiu-se ir ao patamar mais baixo e fundo do poço emocional em que se encontrava. Internamente, para cada lágrima que sentia bater no tecido fino do vestido de Victória, Marina prometia-se não mais chorar por Clara. Para cada soluço involuntário que a falta de ar lhe obrigava a repetir, a fotógrafa prometia-se nunca mais deixar que seu peito se dilacera-se com a simples menção do nome daquela mulher. Para cada imagem de Clara e Melissa juntas que lhe vinha a memória, prometia-se deixar de amar a dona daquela dor.

Vanessa voltou com o lanche que Vic pedira, contudo, Marina não o comeu, adormecendo antes que a ruiva retornasse. Em silêncio, Vanessa ajeitou-se ao lado de suas fotógrafas na cama, e mesmo sem conseguir tirar a raiva que estava de Clara da sua cabeça, conseguiu sentir ciúme pelo carinho e atenção que Victória dispensava a sua antiga aluna e namorada.

Alheia aos pensamentos de Vanessa, e ainda acarinhando os cabelos de Marina, Vic deixou que sua mente vagasse para o dia em que encontraram com Melissa no shopping. Ainda achava tudo aquilo muito estranho. Definitivamente, Clara não parecia ser alguém tão sem escrúpulos assim, e sem dúvida, Victória conhecia muito bem a italiana e suas peripécias. Portanto, assim como dissera antes, não era difícil acreditar que houvesse alguma coisa que não estava sendo contada ali.

Apesar de suas desconfianças, a francesa sabia perfeitamente que além de imprudente, aquela não seria nem de longe, uma boa hora para levantar essa hipótese. Contudo, decidiu que iria atrás por si só de descobrir a verdade por trás dessas fotos.

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Como se refletisse o estado de espírito de duas moradoras específicas do Rio de Janeiro, o domingo amanheceu mais amarelo do que o habitual na cidade maravilhosa. Marina escolhera não levantar da cama, e recebia mimos de Vanessa de cinco em cinco minutos. Já Clara, ainda inconformada com tudo o que acontecera no dia anterior, depois de ter passado a noite inteira em claro olhando para cada uma das fotos enviadas por Melissa para sua casa, não conseguia sentir outra coisa a não ser raiva.

Usou das imagens para tentar forçar sua mente uma última vez, e pela manhã, ao mesmo tempo em que sentia-se completamente exausta, parecia também ter vislumbres de algumas cenas daquela noite. Lembrou-se de Melissa a impedindo de ir embora, de ter bebido um pouco mais do vinho que a italiana lhe servira, de ter se sentido mal, e agora uma nova imagem invadia sua cabeça. Porque cargas d’água Melissa a tinha carregado escada acima?

No fim das contas, Clara podia ficar ali por dias, e até lembrar-se de mais coisas, contudo, isso não adiantaria de nada para Marina. Se ela quisesse realmente provar a fotógrafa que não tinha nada a ver com aquilo tudo, precisaria tomar medidas mais práticas e palpáveis do que apenas ficar ali sentada, forçando sua memória a encontrar explicações para aquelas fotos existirem.

A raiva a consumia, no entanto, não havia alternativa para tentar solucionar aquilo, a não ser ir atrás da outra pessoa envolvida nessa história. Respirou fundo, jogou uma água no rosto e em pouco tempo estava na entrada de seu prédio, chamando um táxi com destino a mansão de Melissa.

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Mesmo ainda estando alheia aos acontecimentos entre Clara e Marina, Melissa estava radiante. Tinha conseguido pegar as fotos e encaminha-las a casa de Clara bem a tempo, e a única preocupação que tinha agora era quando ela ligaria ou aparecia em sua porta, pedindo maiores explicações sobre aquela noite. Tinha seu discurso montado, preparado e muito bem ensaiado. Sabia tim tim por tim tim, o que diria a dona de casa, e sem dúvida nenhuma, as fotos que mandara para ela lhe dariam o poder da velha e boa chantagem.

Antes do que esperava, sem nenhum aviso prévio, Clara tocou sua campainha. A italiana fez questão de ir atender a porta, e descaradamente, inclinou-se para comprimenta-la com um selinho.

_Para de palhaçada Melissa! – disparou a dona de casa, cansada de ser obrigada a conviver com a simples menção do nome da italiana – Que porra é essa aqui?! – Clara tirou o envelope com as fotos de dentro de seu bolso e jogou-o em direção a Melissa, que esquivou-se do objeto.

_Ué, como assim “que porra é essa aqui”? – fez-se de indignada – Não tô te entendendo, Clara!

_Ah, você está me entendendo sim, e muito bem! – definitivamente, Clara não tinha tempo, tampouco interesse em teatrinhos – Vamos Melissa, fala... Que porra é essa? Como você fez isso? – perguntou, deixando seu tom de voz subir ameaçadoramente.

_A Marina veio com você, por isso você está dando esse escândalo agora, ou o quê? – respondeu, na maior calma do mundo.

_Melissa, eu não tô aqui pra brincadeira não! Eu sei, perfeitamente, que nunca, NUNCA NA MINHA VIDA, iria para a cama com você! – afirmou, dando dois passos à frente, e ficando perigosamente perto da italiana – Pelo menos não em sã consciência. Vai... FALA MELISSA!

_Ei, ei, pode parando por aí. Você por acaso está me acusando de alguma coisa? Clara, você veio até a minha casa, eu não te obriguei. Você subiu as escadas para o meu quarto, porque você quis. Você deitou na minha cama, porque quis! O que você está insinuando agora?

_Não estou insinuando, Melissa. Eu sei que você fez alguma coisa! Foi no vinho, não é?! O que você colocou naquele vinho? – as duas já estavam próximas demais uma da outra, e a raiva de Clara apenas crescia ao ver o sorrisinho cínico estampado no rosto da mulher a sua frente – Tira essa merda de sorriso da cara! Você é doente, sabia?!

_Olha Clara, eu poderia ficar ofendida com tudo isso que você está me dizendo agora, até porque, da última vez que esteve aqui, seu escândalo deu-se por motivos bem diferentes – olhou-a de cima a baixo, maliciosamente – Se é que você me entende.

Como se os movimentos não lhe pertencessem, Clara não conseguiu impedir o que veio a seguir. Durante as horas que ficara pensando em seu apartamento, imaginara mesmo dar uma tapa bem dada em Melissa, contudo, ali, na hora, ouvindo o som completamente irritante da voz da outra, a dona de casa não conseguiu concentrar-se em manter sua mão aberta, socando o rosto da italiana com toda a força que conseguiu reunir em seus músculos.

Melissa não esperava por aquilo. Nem de longe esperava! Porque Clara estava tão enfurecida afinal?! Será que Marina já havia descoberto as fotos? Elas tinham terminado? Deixou seu corpo cambalear para trás, sentindo o impacto da pancada inesperada que recebera, contudo, segurou-se em pé.

_Clara, você ficou maluca?! PARA! – Melissa tentava empurrar Clara para longe de si, contudo, não obteve sucesso – Não tenho culpa se você quis dar pra mim! – riu, sarcasticamente – Fica calma, você não é a única não. Acontece sempre!

_Você é doente, Melissa! Doente! – disse, partindo novamente para cima da mulher a sua frente – Você pode ter tirado a Marina de mim, mas eu juro, vou acabar com você! – ameaçou, desferindo outro soco que acertou parcialmente seu rosto.

Melissa não queria revidar, não mesmo, mas também não podia assistir Clara simplesmente partir para cima dela, e ficar ali, parada. Quase que em um movimento reflexo, a italiana devolveu o soco que acabara de receber, enfurecendo ainda mais a dona de casa.

Clara era maior e mais forte do que a italiana, e não pensou duas vezes antes de usar essa vantagem física para cima da outra, jogando-a no chão. A carioca sempre fora moleca em sua adolescência, mas não lembrava-se de nunca ter perdido as estribeiras daquela maneira. Nunca havia começado uma briga, e mesmo assim, entrara em pouquíssimas na vida. Contudo, Melissa parecia conhecer o jeito certo de tira-la do eixo, e fazê-la perder o juízo. No pior sentido que tudo isso pode ter, é claro!

A italiana tentava segurar os braços da outra, no entanto, Clara parecia estar fora de si, e desferindo socos pouco endereçados contra sua pessoa, acertava ora seus ombros, ora seu peito, e em alguns momentos a lateral de seu rosto.

_Você não vale nada, Melissa! NADA! – gritava a dona de casa.

_Para Clara! PARA! CHEGA! – gritou a italiana de volta, percebendo dois de seus seguranças chegarem afoitos a sala, chamados pela gritaria que se fazia presente.

Ambos os homens seguraram Clara pelos braços, e tiraram-na de cima de sua chefe. Fisicamente, nenhuma das duas estava realmente machucada, contudo, o ego de ambas encontrava-se ferido.

_Você só pode ter enlouquecido, Clara Fernandes! – disse a outra, alinhando sua roupa novamente – Você quer a verdade? Pois bem! A verdade é que você veio até minha casa, e fez tudo o que fez por vontade própria! Use a bebida como desculpa se você quiser, mas eu não tenho culpa se você quis, tanto quanto eu queria. Admita pra você mesma!

_Eu nunca me deitaria com você, Melissa. NUNCA! – decretou – Não sei se você me dá mais nojo ou pena! Você é doente, garota! – tentou soltar-se dos braços másculos e fortes que a seguravam, porém, sem sucesso.

_Doente? Nojo? – repetiu os adjetivos dados pela outra, dando alguns passos à frente, em sua direção – Não foi assim que você me chamou aquela noite – disse sorrindo maliciosamente, dando-lhe uma piscadela rápida – Você pediu por mais, Clara. Você queria mais! – mentiu, provocando náuseas instantâneas no estômago da dona de casa.

_Eu vou descobrir, sua filha da puta! Vou dar um jeito de descobrir que porra que você fez! – apontava o indicador em direção à italiana – EU VOU TE COLOCAR NA CADEIA, MELISSA!!! – berrou, tentando mais uma vez soltar-se dos braços que a prendiam.

_Cadeia? Ah, Clara! Me poupe de tanto mimimi – zombou – Vai me acusar do que, afinal? Hein?

_Isso você descobrirá em breve, sua vaca! Eu vou acabar com você, Melissa – ameaçou novamente – Você não vai ter sempre os fortões aqui pra te defender, sua covarde!

_Ora, Ora... Quem diria que a lady Clara podia ser tão arisca, não é?! Podem solta-la meninos – ordenou aos seguranças que ainda a seguravam, e deu mais um passo em sua direção, voltando a estar perigosamente perto de Clara – Te contar um segredinho – baixou o tom de voz – Não há crime em fazer um bom sexo. E... Cá entre nós, entendo perfeitamente a Marina agora. Você é uma delícia, Clara!

Assim como acontecera minutos antes, Clara não pode controlar seu ímpeto pessoal, e acertou um soco em cheio na boca da italiana, rasgando seu lábio inferior de imediato. Melissa sentiu o gosto de sangue na boca, e automaticamente levou uma das mãos até seus lábios. Os seguranças seguraram Clara novamente, agora não mais imobilizando-a apenas, mas praticamente arrastando-a em direção a porta.

_Você não abra a boca pra falar o nome da Marina, sua puta! – Clara ia gritando, sendo arrastada pelo corredor afora – Eu vou descobrir, Melissa! EU VOU TE COLOCAR NA CADEIA!!!

Melissa assistiu Clara ser retirada de sua casa, sentindo aquele gosto de ferrugem escorrer por sua língua. Em nenhum momento, pensou que ela poderia ter uma reação assim, no entanto, tinha acontecido, e por mais doentio que fosse a italiana estava rindo. Apesar dos pesares e dos pequenos machucados físicos, com apenas uma frase, Clara tinha levado até ela uma das melhores notícias que poderia ter recebido. “Você pode até ter tirado a Marina de mim”.

Deixou seu corpo cair em uma das poltronas que decorava sua sala, e respirou fundo, como que saboreando o gosto daquela vitória.

_Marina Meirelles, caiu... – riu sozinha – Esse evento merece uma comemoração!

Ligou para Denis, agendou a festa que já tinham programado, e decidiu enviar um presente para sua rival.

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Clara saiu da casa de Melissa completamente desnorteada. No fim das contas, não havia conseguido descobrir nada efetivamente, porém, os socos que trocara com a italiana já faziam a visita ter valido a pena. Entrou no táxi e quase que inconscientemente deu o endereço de Marina, pedindo para que o motorista guiasse para Santa Teresa. Independente de qualquer coisa, a única voz que Clara queria ouvir naquele momento, era a de Marina.

Demorou alguns instantes para descer do táxi em frente à imensa casa da ex-namorada, e quando já pensava em desistir, Jorge reconheceu-a dentro do carro, abrindo o portão para que entrasse. Respirou fundo, contou até dez, pagou a corrida ao taxista, e finalmente desceu do carro amarelo que a levara até lá.

Cumprimentou Jorge com um leve aceno de cabeça, e caminhou a passos incertos até a porta do estúdio de Marina. Sabia que a fotógrafa não a queria ali. Sabia que provavelmente se arrependeria de ter ido para lá, mas, ela precisa ver Marina. Precisava ouvir a voz daquela mulher. Precisa tentar convence-la, mais uma vez, de que era inocente no meio de tudo isso.

Receosa, abriu a pesada porta vermelha que a separava do espaço do estúdio.

_Mas eu não acredito que você teve coragem de pisar aqui de novo, Clara! – rosnou Vanessa, única presente no estúdio naquele momento – O que foi? Não viu sangrar o suficiente não? Veio pisar um pouco mais?

_Vanessa, eu não vim aqui para discutir com você. Eu preciso falar com a Marina! – disse firme, tentando evitar um novo embate.

_Ah, você precisa?! E pra que, Clara? Pra tripudiar um pouco mais em cima dos sentimentos dela? – Vanessa despejava tudo em cima da dona de casa, sem dar tempo nem ao menos para que respirasse entre uma questão e outra – Hein?! É pra isso que você veio?

_Não fale bobagens, Vanessa! Pelo amor de Deus! Eu nunca, na minha vida, projetei magoar aquela mulher. EU A AMO! – gritou, parecendo ser essa a única maneira de fazer com que as pessoas lhe ouvissem nos últimos dois dias.

_Ama?! Você não sabe o que é o amor, Clara! – acusou a ruiva, apontando o dedo indicador na direção da outra – Foi pra dar esse tipo de amor que você fez o que fez, então?! Foi pra fazer isso, que resolveu que iria tirar a Marina de todas as pessoas que a amavam de verdade? FOI PRA ISSO, CLARA?!

_EU NÃO FIZ NADA, VANESSA! NADA! – berrou, respondendo no mesmo tom que a outra usara – EU NÃO TRAI A MARINA! – respirou fundo, tentando acalmar-se – Eu nunca trairia aquela mulher – sentia as lágrimas voltarem aos seus olhos – Nunca, Vanessa! Nunca! – sentia-se cansada de afirmar a mesma coisa, o tempo todo.

_Ninguém contou pra ela, Clara! Ela viu a porra das fotinhos nojentas de vocês! – lembrava-se da cena de Marina chorando copiosamente na noite anterior, e essa imagem fazia com que a raiva crescesse cada vez mais em seu peito – Você não tem é um pingo de vergonha na cara, isso sim! É muita coragem aparecer aqui!

_Eu não tenho que dar satisfações pra você, Vanessa! Definitivamente, não tenho! A Marina está ou não está em casa, afinal? – perguntou, cansada demais para continuar com aquela discussão, que com certeza, não as levaria a lugar algum.

_Pra você?! Pra você ela não está! E essas não são palavras minhas não, querida. São palavras dela mesma!

_Eu preciso falar com ela, Vanessa. Ou você chama, ou eu vou subir lá! – irritou-se – Eu tô falando sério! – ergueu o indicador, apontando-o em direção a ruiva.

_Essa casa não é sua, e agora, graças a sua própria burrice, você não manda mais em nada aqui dentro! – Vanessa queria machuca-la, queria que vê-la sentir ao menos um terço da dor que tivera que assistir lampejar nos olhos de Marina durante toda a madrugada – Eu sempre sou que você a magoaria. SEMPRE SOUBE!

_Você não sabe de nada, Vanessa! De nada! – explodiu, deixando que as lágrimas caíssem por seu rosto novamente – Você é uma menina rancorosa, que não aceita o fato de ter perdido a Marina pra alguém como eu. A Vic sabe que você ainda a ama?

_Alto lá, garota! Alto lá! Quem você pensa que é para vir falar de mim, ou do meu relacionamento? – explodiu também, jogando os braços para o alto – Você meça muito bem as palavras antes de abrir a boca pra falar de mim! Eu fiquei ANOS em tempo integral na vida da Marina. ANOS, minha querida.

_Anos que não foram suficientes para que ela te amasse o tanto quanto ela me ama! – respondeu, acertando em cheio na ferida de Vanessa – É por isso que você me odeia tanto, não é Vanessa?! Porque eu sou pra ela algo que você nunca conseguiu ser! – Clara sabia que aquilo era cruel da parte dela, mas, o mundo parecia estar sendo cruel demais com ela para que devesse se importar com isso agora.

_Ela me amou, Clara. E eu a amei, também. Eu sei muito bem disso, e não preciso que você ateste a veracidade de nada para que tenha sido real – Vanessa usava as palavras com propriedade – A diferença entre eu e você, queridinha, é que eu nunca a despedacei, como você fez! – deu início às acusações – Eu nunca a traí. Nunca a troquei. Nunca a fiz chorar, tampouco sofrer como você fez! NUNCA CLARA!

Por mais que quisesse e tentasse responder as acusações da ruiva a sua frente, Clara não conseguia mais fazê-lo. “Nunca a fiz chorar, tampouco sofrer como você fez!”. Essa frase de Vanessa ecoava na mente e nos ouvidos da dona de casa sem parar, embaralhando ainda mais seus pensamentos, e aumentando o número de lágrimas que escorriam por seu rosto.

_O que é que está acontecendo aqui, Vanessa? – Clara gelou ao ouvir a voz de Marina ecoar pelo ambiente, no mesmo momento em que o rangido da porta anunciava a entrada de alguém por ali. Deliberadamente, a fotógrafa passara ao lado da assistente, dirigindo a palavra apenas a Vanessa, ignorando por completo a sua presença no estúdio e parando de costas para ela.

_Nada, Marina. Nada que valha a pena a sua presença aqui. Deixa que eu resolvo isso!

_Eu não sou nenhum problema administrativo que você possa despachar e resolver assim, Vanessa! E pelo visto, Marina está em casa, no fim das contas.

_Hum, Clara. Você está aqui – disse no mais alto nível de descaso, indiferença e desprezo que alguém pode dirigir-se a outra pessoa – Não sei exatamente o que veio fazer aqui em pleno domingo, afinal, o expediente agora é só na segunda-feira. Contudo, aproveitando que você já está aqui mesmo. Não precisa voltar mais para o trabalho! Infelizmente, o número de assistentes está grande demais para nossa atual demanda de trabalho.

_Não faz assim, Marina – pediu, num fio de voz. Sentia tudo dentro de si latejar, pulsar, doer – Me escuta, por favor!

_Clara, infelizmente eu estou sem tempo, e você não tem nada de novo pra me dizer, então... – deixou o restante da frase no ar, sem coragem de literalmente expulsa-la de sua casa.

_Eu sei que você está magoada, Marina. Eu sei! Mas, você precisa acreditar em mim! Eu não fiz nada daquilo – insistiu, sentindo o desespero da despedida crescer em seu peito novamente.

_Já disse. Não tem nada de novo para me contar, e esse lenga lenga não cola mais comigo, então... Não temos mais nada para conversar, Clara! Nada – a fotógrafa mantinha seu tom de voz baixo. Calmo. Indiferente.

Sentir o desprezo de Marina era demais para Clara. Doía muito mais do que tudo o que já havia acontecido até ali. Doía muito mais do que a lembrança do barulho da porta de seu apartamento batendo no dia anterior. Doía muito mais do que um dia ela achou que pudesse doer. Queria sair dali, queria ficar, queria ir embora, queria pegar Marina pelos ombros e chacoalhar seu corpo, como se assim pudesse fazer com que a outra acreditasse em sua versão da história.

As lágrimas lhe escapavam copiosa e violentamente, e seu peito lhe desferia pequenos e curtos golpes enquanto seus pulmões trabalhavam, em busca do ar que parecia não conseguir alcança-los mais. Por um momento, perdeu-se no desespero de seu coração, e sem que percebesse efetivamente, Victória havia chego ao estúdio, e como uma boa amiga, agora a levava para fora dali.

_Vem Clara, não adianta tentar conversar com ela agora. Está todo mundo de cabeça quente! Vamos. Eu te levo para casa! – chamou a francesa, guiando Clara em um meio abraço até a porta de seu carro, do lado de fora da casa.

_Obrigada por me tirar de lá, Vic! – foi o máximo que conseguiu dizer, antes de ser atingida por uma nova onda de lágrimas.

_Calma Clara, calma. Eu acredito em você! Tudo bem? Eu acredito em você!

_Acredita?

_Sim. Nós vamos dar um jeito de provar que a Melissa armou tudo isso, tudo bem?! Mas, preciso que você esteja calma. Ok?

_Ok – respondeu como uma criança acuada, que finalmente consegue convencer os pais de que o irmão mais novo que é o verdadeiro culpado por aquele vaso quebrado que apareceu no meio da sala.

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Em meio a ressaca de toda a confusão que acontecera por ali, nem Marina nem Vanessa ouviram quando o interfone do estúdio tocara, dando-se conta de que o aparelho berrava, apenas após a quinta tentativa do porteiro.

_Srta. Meirelles? – a voz grave e parcialmente entediada de Jorge soou pelo aparelho.

_Sim Jorge. Sou eu mesma! Aconteceu alguma coisa? – perguntou a fotógrafa, completamente sem paciência para enrolações.

_Na verdade nada demais. Apenas estou com uma encomenda aqui para a senhorita, e gostaria de saber se posso deixar que entreguem aí no estúdio – respondeu no mesmo tom, mais interessado em desligar e voltar a seu jogo de cartas do que qualquer outra coisa.

_Pode mandar entrar, eu recebo aqui. Obrigada!

Sem mais delongas, Marina encerrou o contato com seu porteiro, e sem a mínima empolgação ou animação, recebeu o embrulho que dois carregadores cuidadosamente retiravam da pequena caminhoneta estacionada em frente ao estúdio. Perguntou sobre o remetente, mas ambos lhe disseram que não tinham essa informação.

Imaginando que fosse algum painel ou obra remanescente de sua exposição em São Paulo, resolveu rasgar o embrulho, e descobrir de uma vez do que aquilo se tratava. Vanessa lhe ofereceu ajuda, contudo, a vontade que Marina tinha de bater ou quebrar alguma coisa, devido à raiva que ainda carregava em seu peito, era tanta, que antes mesmo que a ruiva pudesse se aproximar o suficiente para auxilia-la, a fotógrafa já havia rasgado todo o embrulho.

_Mas, o que é isso?! – perguntou Vanessa retoricamente, arregalando os olhos e tapando a boca com uma das mãos – Marina, não vire essa tela! – disse, correndo em direção a pintura que acabara de ver.

Como se entendesse as palavras da ruiva às avessas, a fotógrafa virou a tela de uma vez. Revoltando-se de imediato com a imagem que avistava ali.

_Filha da puta! – a expressão lhe escapou dos lábios, pesada e pausadamente – Como essa vadia tem coragem?! – seu tom de voz subira, e perguntava-se isso olhando para a imagem de Clara e Melissa pintada na tela. Ambas estavam nuas, a boca da italiana parecia delinear o pescoço de sua ex-namorada, e a assinatura no canto inferior direito da tela exibia um caligrafado Albertini, M., é claro!

Marina torceu o nariz, e como se aquilo lhe causasse náuseas, sentiu seu estomago revirar-se dentro de si. Aquele dia tinha como piorar? Respirou fundo, mas deu-se conta de que só isso já não ajudava mais.

_Van, me dá um pouco desse whisky, por favor! – pediu, apontando a garrafa que estava próxima à ruiva.

_Mari... Calma! Não sei se é uma boa ideia você beber nervosa assim – usava o tom mais pacificador que conseguiu encontrar dentro de si – Vamos lá pra cima! Eu dou um jeito nisso em dois tempos, e faço um chá pra você dormir um pouco.

_Vanessa, o whisky. Por favor! – pediu mais uma vez, ignorando completamente as palavras ditas pela outra, e deixando um tom mais rude e grosso tomar conta de sua fala.

_Marina... – Vanessa chamou uma, duas, três vezes. Contudo, sem conseguir a atenção da fotógrafa, sabia que era voto vencido ali, portanto, decidiu não continuar com seu monólogo e servir logo a dose de bebida pedida pela chefe.

Enquanto Vanessa afastou-se para pegar os copos, Marina deixou que a tela encostasse-se à parede a sua frente, e mesmo lhe doendo até os fios de cabelo, olhou para a imagem novamente. Desta vez, não de relance. Não de raspão. Permitiu-se saborear e vivenciar o turbilhão de sentimentos e emoções que invadiram seu corpo não só naquele momento, mas durante todo aquele dia. Sempre se considerou uma pessoa sem o menor talento para o sofrimento, e sinceramente, já tinha sofrido demais até ali, portanto, se tinha que doer, que doesse tudo de uma vez.

Empurrou a tela com o dedo indicador, alinhando-a para que não caísse, e assim que fez esse movimento ouviu o barulho de algo caindo no chão, atrás da pintura. Puxou novamente a tela, e encontrou um envelope ali. Mesmo imaginando que lá dentro pudesse existir mais uma das incontáveis provocações de Melissa, Marina não tinha como evitar, e sem mais delongas, aproveitou que estava sozinha e abriu o envelope de uma vez.

Dentro do papel pardo, de imediato a fotógrafa encontrou dois objetos. Um convite VIP com direito a acompanhante para a exposição que Melissa faria em parceria com Victória, em alguns dias. E um bilhete escrito à mão, com a caligrafia impecável da italiana.

“Como foi a viagem de lua-de-mel? Boa? Espero que sim. Não emoldurei a tela, pois, não sabia qual combinaria melhor com a sua decoração. Contudo, espero que goste dos presentes, e compareça a minha exposição. Poderá ver muito mais telas como esta por lá. Beijos, Melissa.”

A raiva transbordava em Marina, e por muito pouco ela não decidiu pegar seu carro e guiar até a casa da italiana. Pensou nessa ideia por um instante, mas não viu sentido em fazer isso agora. Melissa não lhe devia nada. Quem lhe devia um pingo de respeito e consideração no meio disso tudo era Clara, e obviamente, a ex-namorada não tinha cumprido com o compromisso que ela mesma lhe propusera. Respirou fundo e agradeceu aos céus por Vanessa chegar com a dose de whisky que havia pedido.

_Van, sei que você só se importa, e quer cuidar de mim, mas... Acho que eu preciso ficar um pouco sozinha! – pediu carinhosamente, torcendo para que a ruiva entendesse seu momento, e lhe desse o espaço que tanto precisava naquela hora.

_Tudo bem. Mas, eu estarei lá em cima, caso você precise de qualquer coisa – respondeu a ruiva, entendendo perfeitamente a suplica contida nos olhos castanhos da outra – Não pense meia vez em me chamar, tudo bem?

_Tudo bem Van – beijou-lhe a testa – Obrigada por sempre estar aqui!

Vanessa sorriu e devolveu o beijo de Marina, acariciando seu rosto com a ponta dos dedos.

_Sei que não quer ouvir isso agora. Mas... Vai passar! – beijou o topo de sua cabeça – Vai passar! – repetiu, retirando-se do estúdio.

Marina ficou ali sentada, repassando as últimas palavras de Vanessa em sua cabeça. “Vai passar!” Abraçou os próprios joelhos e deixou que as lágrimas voltassem a cair por seu rosto, sendo arrebatada por um choro dolorido, intenso, pesado. Sentia raiva de si mesma. Já tinha prometido para si que não choraria mais. Não por ela. Mas, a verdade é que tudo pulsava forte demais em seu peito, como se seu coração fosse uma bomba prestes a explodir a qualquer momento, caso ela decidisse não colocar essa angústia toda para fora.

Minutos depois, decidiu servir-se de uma nova dose de bebida, e assim que levantou para ir em direção ao bar, deixou com que o envelope que pousava em seu colo caísse, fazendo um novo barulho. De imediato, achou estranho o barulho do impacto do envelope com o chão, afinal, o bilhete e o convite estavam em cima da mesa, ao seu lado, e não mais ali dentro. Pegou-o do chão e vasculho-o, procurando por algo que justificasse o barulho anterior. Não demorou muito, e encontrou um pequeno objeto preso ao fundo do envelope. Puxou-o pela ponta dos dedos, e deixou-o pousar na palma de sua mão.

Era um pequeno pen-drive branco, e junto a ele havia um post it colado com apenas duas palavras, escritas em italiano: “Buon divertimento!”.

Notas finais
Sem ameaças de morte gente, ainda estou tentando me defender de todas que foram feitas nos últimos dois capítulos. kkkkkk... Beijos.