Velhos Tempos
1 Capítulo 1 - A Primavera Chegou
Notas iniciais
Um novo dia nascia na Vila de Santa Fé, mas esse não era um dia comum. Era o início da primavera. Gina Falcão acordou feliz, mas nem um pouco disposta a ir à escola que tanto sua mãe, Dona Teresa ou como era mais conhecida, Dona Tê, insistia que frequentasse, na cidade das Antas. Tudo o que mais queria era ajudar seu pai, Pedro Falcão, na lida. Desceu as escadas e achou um maravilhoso café da manhã preparado por sua mãe.
_Bom dia fia. Ocê dormiu bem?
_Dormi sim, mãe. Mai eu num to com vontade de ir pra essa tar escola. Lá só tem gente exibida, que nem o fio do Coronel Epa.
_Mai fia, vai ser bom procê aprender a ler e escrever, pelo menos o básico.
_Mas pra que eu vou quere aprende essas coisa se o que eu quero fazer na minha vida é ajudá o pai aqui no sítio?
_Escuta o que eu to lhe dizendo Gina, vai lhe fazê bem. Olha ai seu pai chegando, depois do café ele vai te levá pra escola quer ocê queira ou não.
Os três tomaram o café sem tocar mais no assunto, mas Gina ficou quieta, só planejando o que fazer. Não tinha sido convencida pela mãe, continuava a ter certeza de que não queria ir pra aula. Depois, a menina saiu com o pai, com o objetivo de pegar o trêm pra cidade.
_Pai, e se o senhor fingisse me levá pra escola e ao invés d'eu ir eu ficasse aqui, escondida, lhe ajudando na lida?
_Mai e se a sua mãe descobrir? Ela me mata.– Pedro Falcão também não queria levar a filha na escola, gostava muito de passar o dia inteiro com a menina e sabia que Gina ficava muito feliz com isso.
–Mas pai, ela não vai descobrir, ieu me escondo muito bem. Ela num sai daquela cozinha, num tem como sabê.
_Eu queria muito que ocê ficasse me ajudando aqui na lida, mas ocê sabe como é sua mãe. E eu também acho que vai lhe fazê bem aprende alguma coisa, conhecer outras crianças...
_Pois ieu acho que aprendo muito mais aqui com o senhor! E é só hoje, amanhã eu juro que vou pra essa bendita escola.
_Tá bom Gina, ieu deixo ocê ficá.– Disse seu Pedro, mas ao ver o grande sorriso da menina completou - Mai ocê tem que ir mesmo amanhã.
_Ieu vou! Agora vamo pra lida!– Disse Gina, correndo para a direção das plantações.
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Ferdinando voltou da escola das Antas com Amância. Geralmente, sua mãe lhe buscava, por isso estranhou sua falta.
_Por que minha mãe não veio me buscar hoje, Amância?– Perguntou.
_Sua mãe passou um pouco mal, mas não é nada de grave, fique tranquilo. Ela já está melhor, mas achamos melhor ela descansar um pouco por hoje. – Respondeu. — Ferdinando ficou preocupado de início, mas já estava calmo agora. Lembrou-se de que era o primeiro dia da primavera e se animou. Chegou a casa, correndo para os braços da mãe.
_Mãe! A senhora tá melhor?– Perguntou, abraçando-a.
_Ferdinando, meu filho querido. Sim, foi só um mal estar, já passou. E você, como foi sua escola hoje?
_Foi ótima mamãe, ieu já to até aprendendo a ler de carreirinha.
_Ah que bom filho, eu tinha certeza de que você era um menino muito inteligente. Logo poderei lhe dar alguns livros pra você ler, tenho certeza de que irá adorar.
_Eu num vejo a hora.– Disse. — Hoje é o começo da primavera, tá fazendo um dia tão bonito e eu queria brincar nas plantações de trigo da fazenda. Posso?
_Claro que pode filho. Mas antes eu preciso avisar seu pai.
_Ah não, não, meu pai não! A senhora sabe que ele nunca me deixa, com certeza vai dizer que não!– Lamentou Ferdinando.
_Quem vai dizer que não?– Perguntou o Coronel, chegando à sala.
_Ferdinando quer brincar pela fazenda e eu disse que precisava pedir a sua permissão antes.– Disse a senhora Napoleão.
_Ele sabe muito bem que não pode. Tem que ficar aqui, estudando, para que um dia possa se tornar um bom advogado ou um futuro prefeito das Antas.– Respondeu.
_Se o nosso filho quer se divertir um pouco eu não entendo por que ele não possa! Isso não vai prejudicar seus estudos e...
_Eu não o quero se misturando com os meus agregados ou seus filhos. Ficará muito mais seguro aqui dentro.
_Correr pelos campos de trigo é o que eu mais gosto de fazer! Eu nunca mais pude fazer isso, agora só posso sair de casa para ir à escola. Eu não posso brincar com ninguém e não tenho nenhum amigo! Nem um irmãozinho ou uma irmãzinha que eu tanto queria ocês me dão! — Disse Ferdinando, chorando. – Ieu nem quero ser advogado ou futuro prefeito das Antas...
_Não diga isso Ferdinando!– Disse o Coronel.
_Deixa o menino Epaminondas! Ai...– Exclamou a senhora Napoleão, colocando a mão no coração e se sentando de repente.
_O que foi mamãe?– Perguntou o menino.
_Nada não meu filho, é só aquele mal estar que voltou por alguns instantes. Amância traga-me um copo d'água com açúcar, por favor. Nando, é melhor você subir e esperar as coisas se acalmarem. – Disse a mãe, evitando deixar o menino preocupado demais.
Ferdinando foi para seu quarto e acabou ficando por lá por algumas horas, imaginando tudo o que faria se pudesse sair e o quanto estaria feliz. Foi quando sua mãe bateu em sua porta.
_Eu vou dar uma passadinha na casa da Mãe Benta e acho que tem alguém aqui que gostaria muito de ir comigo. – Disse, sorrindo. – Eu avisei ao seu pai, mas acho melhor irmos logo antes que ele mude de ideia.
A senhora Napoleão e seu filho chegaram à humilde casa de Mãe Benta e foram recebidos amigavelmente por ela. Mas a mãe de Ferdinando queria conversar em particular com a benzedeira, então pediu para que seu filho fosse brincar pelos arredores, o que animou o menino de inicio. Encontrou Zelão conversando com outra criança, Rodapé. Ele queria fazer amizade com os garotos, mas não sabia o que dizer. O que mais temia que os tratasse como filho do Coronel, patrão de seus pais e, provavelmente, futuro patrão dos próprios.
_Ara mai num é o fio do Coronel Epa? O que ele tá fazendo ali sozinho? – Perguntou Rodapé.
_Ô num sei Rodapé, mai como ocê mesmo disse, ele é fio do patrão, num vai quere conversar com a gente. – Respondeu Zelão, indo para outra direção. Ferdinando queria puxar assunto com os dois meninos, mas não teve coragem, então acabou se sentando nos degraus da escada que dava entrada à casa de Mãe Benta para esperar sua mãe.
_Ferdinando, o que ocê tá fazendo aqui filho? Não foi brincar? –Perguntou a mulher, com o rosto parecendo que tinha acabado de chorar.
_Ieu num tive vontade mãe... –Respondeu.
_Mas ocê não ouviu nada que conversamos, ou ouviu? – Perguntou a senhora Napoleão, preocupada.
_Não, a senhora fique tranquila minha mãe, que ieu num ouvi uma palavra sequer.
_Então tudo bem, vamos para casa que logo vai escurecer. – Concluiu.
Após o jantar, Ferdinando subiu para seu quarto e deitou em sua cama, triste. Sua mãe percebera que o menino estava triste desde que fora embora da casa de Mãe Benta, então foi atrás do filho para saber o que estava acontecendo.
_Nando, meu filho, eu posso entrar? – Disse, batendo na porta.
_Claro que a senhora pode mãe. – Respondeu, enxugando as lágrimas.
_Eu percebi que ocê tava meio chateado na mesa. – Disse a mãe. Ferdinando não conseguia esconder nada da mãe, então acabou confessando a verdade:
_Ara mãe, ieu queria tanto ter amigos... Mas fiquei com vergonha de conversar com o filho da Mãe Benta... Meu pai é o Coronel Epa, ele vão me achar exibido ou alguma coisa assim, tive medo de que eles me tratassem diferente por ser filho de quem eu sou.
_Pois eu tenho certeza de que eles não iriam achar isso de você.
_Eu sinto que todos conversam comigo como se tivessem medo ou desprezo, a senhora é a única pessoa que gosta de verdade de mim nesse mundo. – Disse Ferdinando.
_Não diga isso meu filho, seu pai também te ama muito, eu tenho certeza. – Respondeu a Senhora Napoleão.
_Ele não me ama como a senhora. Quase não conversa comigo, só vive dizendo que quer que eu seja um futuro advogado ou sei lá o que. Nem se importa com o que eu quero.
_Mas esse é o jeito dele de mostrar que te ama. Ele só quer o seu bem, um bom futuro pra você... Vem cá e me dá um abraço.
_Eu lhe amo mamãe. – Disse Ferdinando, abraçando a mãe.
_Eu também lhe amo muito meu filho, nunca se esqueça disso. Eu vou estar sempre com você, prometo. E já que você quer tanto ter amigos, acabei de ter uma ideia. Amanhã mesmo irei conversar com Teresa Falcão, mulher de Pedro Falcão, grande amigo da família. Lembra-se de que eles têm uma filha da sua idade? Quem sabe vocês dois não poderão ser grandes amigos assim como seu pai e o pai dela. –Ferdinando pensou por alguns instantes, tentando se lembrar da menina. Lembrava somente de uma criança ruiva, que corria sair da sala em todos os encontros e que ficava calada na maioria do tempo em todos os jantares que tinham com a Família Falcão. Era o tipo de garota que o olhava com desprezo e causava receio no menino.
_Mas aquela menina nunca me pareceu muito amigável, será que ela vai gostar d’eu?
_Ora, ora. Não gostar de um menino tão bonito e bondoso como meu filho? Ela só pode ser maluca se esse for o caso. – Brincou. –Mas não se preocupe, eu tenho um bom pressentimento a respeito de vocês dois. Agora durma que já está tarde. – Disse, enquanto Ferdinando se deitada. O cobriu e beijou sua testa. – Boa noite meu filho.
_Boa noite mãe. – Respondeu, enquanto fechava os olhos e pensava em como seria o dia seguinte.
_Gina, acorda! Assim ocê vai chegá atrasada na escola. – Disse Dona Tê, acordando a menina que havia dormido demais.
_Ara mãe, ieu já to indo. – Respondeu, descendo as escadas e acompanhando a mãe. Tomou café com seus pais, evitando todas as perguntas à respeito da escola.
_Ocê num me disse nada sobre sua aula. Como foi? – Perguntou a mãe.
_Ieu num disse é porque num tinha nada pra dizer.
_Mas arguma coisa sempre tem. Eu to inté estranhando ocê num reclamá hoje.
_É que ieu já me conformei de ter que ir a essa escola. Como a senhora disse, vai ser bom pra mim.
_Sei... – Disse, desconfiada.
_Agora vamo filha senão ocê vai se atrasar mais ainda. Inté mãe. – Disse Pedro Falcão.
_Inté. – Se despediu.
No caminho, Gina parou e perguntou ao pai:
_Pai, ieu acordei muito tarde hoje, num vai dá tempo de pegá o trem pras Antas.
_Mai é claro que vai fia, se a gente corre ocê chega a tempo.
_Ieu tenho medo de chegá atrasada e a perfessora reclamá... – Disse a menina.
_Ara eu num sei o que fazê... Ontem foi tão bom ocê aqui do meu lado... Acho que num vai fazê mal ocê ficá mais um dia aqui.
_Verdade pai?– Disse Gina, não podendo estar mais animada. Passaria mais um dia sem ter que ir às Antas e ver aquelas crianças metidas.
A manhã passou num instante e logo chegou a hora em que as crianças costumam sair da escola. Dessa vez, foi a própria mãe quem fora buscar Ferdinando, e eles combinaram de passar na casa dos Falcão assim que chegassem em Santa Fé. Já Pedro Falcão começava a se sentir com peso na consciência de sempre deixar Gina fazer tudo o que queria. Preocupava-se, sobre tudo, com a felicidade da menina, mas tinha dúvidas se isso era realmente o melhor para ela.
_Olá Dona Tê. – Disse a Senhora Napoleão ao chegar à porta da casa.
_Minha nossa, que surpresa a senhora por aqui, ainda mais com o seu fio. Como ele cresceu, já tá virando um moço. – Respondeu. — Entre, estou acabando de preparar a comida, se quiserem almoçar conosco, fiquem a vontade! – Vendo que Ferdinando olhava para a parte de fora da casa, sua mãe perguntou:
_Seria um prazer, há muito tempo que não nos falamos. Mas, enquanto esse almoço não fica pronto e o resto da família não chega, meu filho não poderia brincar na parte de fora da casa enquanto conversamos?
_Sim, claro, se deu ao trabalho de vir inté aqui é porque deve de tê algum assunto pra tratá. –Disse Dona Tê. Ferdinando já estava saindo, quando ouviu o nome de Gina. — Pedro Falcão já deve tá chegando, foi buscar nossa fia Gina, que está estudando na escola das Antas.
_A sua filha está estudando na escola das Antas também? Não sei por que o Nando não me contou nada sobre isso... – Disse a Senhora Napoleão.
Ferdinando também estranhou. Não se lembrava de tê-la visto em sua classe, que era composta por poucos alunos e era a única da pequena escola. Estava desconfiado de alguma coisa. Saiu da casa e passou por todos os animais que tinham ali, como vacas e galinhas. Seguiu em frente e foi um pouco mais longe, passando pelo trigal da família e acabou encontrando uma grande árvore, onde estava sentada uma menina de cabelos ruivos. Inicialmente, Gina o olhava com surpresa, mas esse olhar logo passou a expressar raiva. "Que diabos aquele exibido do filho do Coronel Epa tava fazendo ali?"
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