Velhos Tempos

2 Capítulo 2 - Encontros e Pensamentos


Notas iniciais
Oláá!! Tudo bem com vocês? Mais um capítulo da fic o/ Espero que gostem!

Sem saber que seus filhos acabaram se encontrando as duas senhoras conversavam na cozinha da casa dos Falcão. Fazia algum tempo que mãe de Ferdinando queria desabafar com alguém de sua confiança e agora sentia que estava no momento de fazer isso, ou não aguentaria guardar todas as suas preocupações.

_Há tempos não tenho notícias suas, como vão as coisas na sua casa? Está tudo bem contigo Teresa?– Perguntou.

_Tá tudo bem sim, mas e com ocê? Notei que está um pouco pálida, não quer tomar um copo d'água?

_Eu agradeço, mas não precisa. A verdade é que não estou me sentindo muito bem esses dias... Eu temo que seja algo mais grave. Eu não sei o que seria do meu filho se eu não estivesse aqui com ele.

_Mai num diga uma coisa dessa! Ocê é forte, há de melhorá.– Disse Dona Tê, sentando-se, preocupada.

_Assim espero minha amiga, assim espero.

_E eles já sabem sobre o seu estado de saúde?

_Não, eu não quero preocupá-los, de jeito nenhum. Para todos os efeitos, o que sinto é apenas um mal estar passageiro. Eu me preocupo muito com o meu filho e é por isso que eu preciso de sua ajuda e de vossa família. Às vezes, eu sinto que Epaminondas é um pouco severo com ele e eu já o vi sofrer por isso. Preciso ter alguém de confiança que garanta sua felicidade se eu não estiver aqui para protegê-lo. Que o acolham quando precisar de ajuda...– Pediu, aflita.

_Pois fique sossegada que eu vou conversar com Pedro hoje mesmo sobre isso. E eu garanto que ninguém aqui irá negar ajuda ao seu filho, passe o tempo que for. E falando nele, óia quem chegou.– Disse Dona Tê, vendo que Pedro Falcão havia entrado na casa. - Pai, cadê nossa fia Gina?

_Tá la fora.– Respondeu, antes de reparar na visita e cumprimentá-la.

_Vim com o meu filho Ferdinando que foi brincar e deve até ter se encontrado com a Gina.– Disse a senhora Napoleão.

_Diacho!– Disse Pedro Falcão, preocupado com uma possível discussão entre as crianças. — Ieu vou buscar os dois, já vorto.

_Ah, e outra coisa.– Disse a mãe de Ferdinando após Pedro ter saído da sala. — Ocê não poderia conversar um pouco com a sua menina, pedir pra que ela tente fazer amizade com o meu filho? Ele reclamou que está se sentindo um pouco sozinho e eu acharia ótimo que os dois fossem colegas.

_Claro, ieu falo sim. A Gina também, fica o dia inteiro com o pai, eu nunca ouvi ela falar de nenhum coleguinha. Também acho que seria muito bom se eles fossem amigos.– Respondeu Dona Tê.

Mas a realidade era diferente do desejo das duas mães. Gina tinha visto Ferdinando apenas algumas vezes e nunca havia conversado com o garoto, mas já não o suportava. Não apoiava a amizade entre as suas famílias e detestava todos os jantares e encontros que era obrigada a frequentar, ainda mais quando sua mãe insistia que colocasse algum vestido. Agora não sabia o motivo dele estar ali acabando com a sua paz.

_O que ocê tá fazendo aqui?–Disse, ríspida. Ferdinando até chegara a pensar que talvez pudessem manter alguma amizade, mas depois de vê-la novamente já achava aquilo impossível.

_Minha mãe e eu viemos almoçar aqui.– Respondeu calmo, ao contrário da menina.

_Então num era procê tá lá junto com ela?– Disse Gina, ainda mais brava.

_E num era procê ter ido na escola? Ieu ouvi sua mãe falar que havia te matriculado na classe da Cidade das Antas i eu nunca lhe vi por lá.– Revidou Ferdinando, que já estava se irritando com ela.

_Ara! Pois isso num é da sua conta!– Se levantou a menina. — Ieu é que num vou pra essa tar de escola me misturá com gente de nariz em pé assim como ocê!

_Pois ieu garanto que ocê vai!

_Num vou de jeito maneira! Ieu num sou como ocê que tem que ficá obedecendo as ordens do seu papai! Eu faço o que eu bem entendê!– Disse Gina, o encarando.

_Ieu duvido muito que sua mãe deixa ocê cabulá aula.– Respondeu Ferdinando, com um sorriso de lado. - Se ela souber disso...

_Pois ocê num vai dá uma de dedo-duro e contá isso pra ela. Senão ieu lhe meto a piaba!– Depois do jeito grosseiro com que fora tratado pela menina, Ferdinando estava até com vontade de contar tudo. Mas achava que era bem capaz dela cumprir sua promessa e lhe bater. Então achou melhor não dizer nada por enquanto.

_Eu num vou contar nada... Mas o seu pai tá vindo ai e vai lhe ver. — Disse, já achando que ela ia acabar sendo descoberta. Mas acabou se surpreendendo com a tranquilidade que demonstrou.

_Pois é o meu pai que me deixa matá aula. Ele inté gosta que eu fique aqui lhe ajudando e tá me ensinando tudo sobre o sítio pra quando ieu cresce pode ajudar mais ainda.– Disse, antes de correr em direção de Pedro Falcão.

_Boa tarde Seu Pedro!– Disse o menino, educado.

_Tarde Ferdinando, Gina. Tá tudo bem cocês?

_Tá tudo sim pai, num podia tá melhor...– Respondeu Gina, com uma certa ironia.

_Intão tudo certo, vamo lá dentro que ocês devem tá com fome e o armoço já deve de tá pronto.– Disse Pedro, aliviado pois não teve que separar nenhuma briga.

Chegando à cozinha, Ferdinando correu para abraçar sua mãe, enquanto Gina apenas se sentou longe de onde estavam os dois.

_Gina ocê num vai cumprimentá a Senhora Napoleão, que veio nos visitar hoje?– Perguntou Dona Tê. Gina apenas retribuiu o abraço da mulher contra sua vontade e nem olhou para a cara de Ferdinando. – Num liga pra ela, deve tá com fome, assim como todos aqui. Sentem-se, já vou servir a comida.

O almoço apenas seguiu tranquilo até então porque Gina e Ferdinando permaneceram sem dizer uma palavra sequer. Em alguns momentos se olhavam com raiva devido à discussão que tiveram. Suas mães acabaram percebendo e lamentando. Como iriam conseguir fazer com que aqueles dois acabassem se tornando amigos?

Após todos terminarem seus pratos, a Senhora Napoleão disse que já iria embora. A tentativa de aproximação de seu filho com Gina Falcão acabou não dando certo e ela já tinha dito tudo que queria dizer, então não tinha mais motivos para continuar lá.

_Inté amanhã Gina.– Provocou Ferdinando ao se despedir.

_Ara, mai por que inté amanhã?– Respondeu brava.

_Por que a pergunta Gina, ocê num tem escola? Ieu nem sei o porquê d'ocê não ter me dito que Ferdinando Napoleão estava na sua classe. — Disse Dona Tê.

_Ieu me esqueci. Inté Ferdinando.– Disse, de má vontade, o olhando com raiva e desejando poder nunca mais olhar para a cara daquele menino, que apenas dera um leve sorriso e se virou para sair.

–--

Depois deles irem embora, Gina subiu as escadas e acabou ficando em seu quarto. Queria esquecer daquele dia mas não conseguia deixar de pensar na briga que tivera no começo daquela tarde. Na verdade, um certo menino de olhos azuis não saia de sua mente.

"Mai por que ieu num paro de pensar naquele um? Se eu for naquela escola ieu vo ter que encontrá-lo outra vez. Eu num quero. Eu num vou! Isso, ieu num vô nunca mais olhá pra cara daquele filho do Coronel Epa e muito menos falar com ele". Pensava Gina. Fechou os olhos e a imagem de Ferdinando abraçando sua mãe acabou aparecendo, a deixando novamente pensativa. A mãe dele parecia tão carinhosa que até lhe deu vontade de que a sua fosse mais assim e compreendesse seu gosto por aprender a lidar com a terra. Mas ao mesmo, a Senhora Napoleão parecia tão abatida que até lhe dava um aperto no coração. Chegava até a se simpatizar com a mãe mas com o filho? Isso nunca!

Gina queria mais do que tudo se distrair, esquecer que a família Napoleão existia, mas mal sabia que um certo menino também queria a mesma coisa. Assim como ela, Ferdinando correra para seu quarto e não conseguia tirar a ruiva da cabeça.

"Aquela uma é mais brava do que eu pensei... A mãe tava errada, ieu nunca que vou conseguir ser amigo dela. Ara! E nem quero também! Prefiro ficá aqui o dia inteiro à ser amigo dessa tar de Gina." Pensava Ferdinando. Pegou um livro da estante para estudar sua leitura, mas não conseguia se concentrar. Não podia deixar de pensar que Gina provavelmente estaria nesse exato momento no trigal de sua família enquanto ele estava preso dentro daquela casa. Ao contrário dele, ela tinha um pai que, além de tudo, a ensinava a lidar com a terra. Já o seu pai apenas o mandava estudar muito para que, quando crescesse, seguisse alguma profissão que não tinha nenhuma vocação, sem ligar para o que achava disso. Não que não gostasse de estudar, ao contrário. Mas as vezes desejava ser uma criança como todas as outras, sem precisar ter preocupações com seu possível futuro.

Olhou para a janela. Não, tinha que parar de pensar nisso. Afinal, não tinha inveja da vida que Gina levava. Apesar de tudo, amava muito a sua família. Mas então, por que aquela visita não saía de sua cabeça? Talvez quisesse, no fundo, não ter voltado tão cedo para casa. O que mais desejava era aprender, nem que fosse só um pouco, sobre a terra. Até aturaria aquela menina se fosse preciso, mesmo se ela o provocasse, poderia revidar. Acabou sorrindo com o pensamento, mas logo parou. Seu pai nunca o deixaria passar a tarde fora, mesmo que fosse na casa dos Falcão.

Ferdinando até sabia o motivo do Coronel não o deixar sair de casa, mas não entendia o porquê dele não o deixar chegar perto das plantações de sua família, afinal isso não o influenciaria em nada e ele nunca o deixaria seguir outra profissão que não fosse aquelas que almejava para o filho. Fechou os olhos e continuava pensando no trigal até que um plano veio em sua mente. Sim, poderia funcionar, se ao menos conseguisse se encontrar com Gina novamente e ela colaborasse... Essa era a parte mais difícil.

_Filho, posso entrar? – Perguntou a Senhora Napoleão entrando em seu quarto e vendo que estava deitado em sua cama.

_Pode. — Respondeu o menino.

_Sinto muito que sua amizade com Gina não deu certo. — Disse, sentando-se perto dele. — Mas é que eu tenho uma sensação de que vocês ainda serão muito próximos, não consigo explicar como. Talvez seja por que eu quero tanto que você tenha alguma companhia que acabo imaginando coisas. - Sorriu a mãe.

_Mas ieu já desisti de ser amigo dessa Gina Falcão. Acredita que ela começou a brigar comigo sem eu ter dito uma palavra sequer? Prefiro continuar sozinho a conversar com ela. — Reclamou Ferdinando. Era orgulhoso e não admitiria que ainda queria ter outra conversa com Gina, mesmo se fosse outra discussão como provavelmente iria ser.

_Bom, é você quem sabe meu filho. Agora tenho que ir mas volto logo pra te chamar para o jantar. Até mais. - Disse a mãe, um pouco triste, enquanto Ferdinando pensava no que diria para a menina no dia seguinte.

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_Mai nunca, de jeito maneira! Eu, ser amiga daquele exibido do Ferdinando Napoleão? — Disse Gina depois de ouvir a proposta da mãe, logo após tomarem o café da manhã. - A senhora deve de tá ficando maluca!

_Deus dos exército, eu sabia que essa conversa ia ser difícil... Acontece que esse foi um pedido da própria Senhora Napoleão, que acho que ocê seria uma boa companhia pro filho dela. — Disse Dona Tê.

_Então ela é outra que tá ficando maluca! E garanto que ninguém deve querer chegá perto daquele exibido, já que a mãe dele tem que ficar implorando desse jeito. - Riu a menina.

_E a senhora tem muitos amigos, não? - Ironizou Dona Tê, que já estava irritada com Gina bem antes daquela conversa.

_Mai ieu não preciso disso.– Respondeu, pouco ligando para a conversa e saindo pela porta.

_Posso saber pra onde ocê tá indo? — Perguntou a mãe.

_Eu... eu to indo procurar o pai pra ele me levá pra escola. — Mentiu.

_Seu pai já foi pra lida faz tempo, mas ocê nem precisa procurar ele. Hoje sou eu quem vai te levar. - Disse Dona Tê, para a surpresa de Gina. Pela cara que fazia e o estranho sumiço de seu pai naquele dia, com certeza havia descoberto sobre suas faltas. Mas como? Gina apenas desconfiava de uma pessoa. Naquele momento, só pensava que seria obrigada a reencontrá-la.

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Ferdinando se despediu de sua mãe e se encontrava sozinho, na porta da escola da Cidade das Antas. Acordara com um pressentimento de que iria reencontrar Gina, mas até aquele instante ainda não a vira. Estava quase se conformando quando viu uma cabeleira ruiva se destacar em meio à todos os alunos. Assim que a professora os chamou, ela correu para a classe, com passos pesados, sem ao menos reparar em quem estava ao seu lado.

_Eu não lhe disse que ocê viria Gina?

Notas finais
Foi isso, espero que estejam gostando. Se você leu até aqui, muito obrigada mesmo!! Agradeço de coração aos que já favoritaram e estão acompanhando a fic, mesmo ela estando apenas no comecinho. Dúvidas, sugestões, deixem seu comentário! Um beijo e até o próximo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.