Vampire Blues
1 Prólogo
Dezembro de 1941
Eu não havia contado, mas sabia que aquela devia ser a milésima vez que eu secava minhas têmporas pálidas com as costas das mãos. Os cortes provocados pelas condições em que eu estava vivendo, latejavam constantemente, após manter contato com a salinidade que era expelida pelos meus poros. Aquela era a dor mais fraca que eu estava sentindo no momento. Eu não tinha mais força para manter-me erguida física e psicologicamente, ao meu redor só era possível distinguir uma coisa: caos. Pilhas e pilhas de pessoas estavam espalhadas pelas ruelas, desfazendo-se em poças de sangue como animais abatidos, aviões pequenos e anatômicos aproximavam-se o suficiente da superfície para lançar bombas que faziam os pedaços de concreto voar pelos ares, como milhares confetes. Alguns soldados passavam por mim, em posições alarmantes e com vozes estridentes, que me diziam constantemente que meu lugar não era ali. E onde mais seria? Eu não tinha mais nada. Meus pais haviam sido queimados ainda com vida, eu era a única sobrevivente. O guisado de bode que o exército da salvação havia me doado horas mais cedo fazia uma dança lenta e torturante dentro do meu ventre, pedindo loucamente para ser expelido. Encostei minhas costas em uma das pilastras que costumava a ser a prefeitura, deixando que meu corpo frágil e inútil deslizasse como se banhado em sabão, parando somente quando ouvi o baque surdo das minhas pernas arranhadas batendo contra o concreto. Por que eu não havia morrido? Era a pergunta que latejava em minha mente juntamente com a dor. Eu não era mais abençoada, ou possuía mais merecimento que ninguém ali. Um folheto amarelado e completamente destruído passou voando rente aos meus pés, fazendo-me me rir pela primeira em dias com a lembrança dos sacos vazios de pipoca que costumavam fazer cosquinha em meus tornozelos nos dias de feira, eram boas lembranças. Passei os minutos seguintes encarando o dedo erguido e a cartola enfeitada de Tio Sam, que adornavam as palavras “Eu quero você”. — Eu não iria querer se fosse você – Um riso completamente rouco e nada natural surgiu de algum lugar no fundo da minha garganta, que também pinicava por causa dos gritos.
- Tem alguém ai? – Uma voz masculina chamou minha atenção. Ergui os olhos, mas não movi um músculo, aproveitando o fato de meus ouvidos serem apurados o bastante para distinguir a direção proveniente do som. Não gritei ou fiz qualquer tipo de sinal, poderia ser um soldado das linhas inimigas. Eu estaria morta em questão de instantes e de certa forma estava feliz com isso, iria reencontrar minha família, iria parar de sentir essa dor lancinante que tomava conta do meu peito e a tristeza que hospedava meus pensamentos. Últimas palavras? Que Deus abençoe essa gente. Fechei os olhos com força e aguardei pelo ressoar oco da bala quando disparada, mas em vez disso ouvi apenas sons de botas de combate, cada vez mais próximo de mim. Ergui meus olhos, protegendo-os inutilmente com a palma da mão arqueada. Um grito ficou paralisado em minhas cordas vocais. Os músculos se enrijeceram – talvez pelo medo, ou pelo alívio -, a forma diante de mim surgiu dos escombros, tomando forma a cada passo. Era quase como se a própria morte que jazia ali tomasse forma, vida – forma humana.
- Desculpa ter assustado você – Um leve sotaque desconhecido colocou todos os meus sentidos em alerta. Um esboço agradável surgiu nos lábios bem delineados do rapaz, e o alívio quase chegou a doer em meu peito. Ele era extraordinariamente incomum e belo. Feições másculas e bem definidas, maçãs do rosto perfeitamente esculpidas – quase como se tivessem sido feitas à mão – e olhos brilhantes como duas pedras de esmeralda polida, ambos escondidos sob o emaranhado de fios negros e ondulantes. Ele estendeu a mão, como se não temesse ou planejasse o inevitável, e como eu sabia que não tinha nada a perder, infelizmente no sentindo literal, segurei-a com força e determinação. Mal sabia eu que estava caminhando diretamente para a minha experiência de quase morte, uma experiência que me custou o encontro com o paraíso e meus pais que aguardavam por mim de braços abertos, uma experiência que me levava de encontro com a imortalidade.
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