Vampire Blues
2 Darkness
Os jornais pareciam gritar, como se as máquinas fossem embebidas em tinta neon, antes de expelir folha após folha, que horas depois seriam jogadas na caçamba de algum caminhão e finalmente virariam manchete. Gotas quentes e largas caiam como pequenos confetes, os lampiões banhavam as calçadas com uma luz de cor amanteigada. Apesar da hora não ser tão propícia e dos boatos que corriam, muitas pessoas ainda não tinham se trancado em suas casas. Muitas até se permitiam dar escandalosas gargalhadas e até alguns furtivos olhares masculinos que queimavam em minhas costas. Um senhor, de pele escura e barba cinzenta, dava o máximo de seus pulmões ao soprar longas melodias em seu lustroso saxofone. Meus saltos ecoavam nas lajotas, como um rápido e rítmico batimento cardíaco. Minha garganta estava seca, pinicando, como se mil formigas a usassem como trajeto. Meu maxilar estava doendo, como se alguém o atiçasse com um bastão pontudo em brasa: meus dentes. Procurar o significado de imortalidade no dicionário era pedir para deixar meus nervos à flor da pele. O resultado era basicamente o mesmo em todas as buscas, algo relacionado à vida perpétua, pessoas de grande mérito, que mesmo depois da morte tiveram suas reputações intactas. Imortalidade no meu dicionário podia ser destacada e reescrita em letras garrafais como um punhado de anos tediosos, os primeiros são os piores, como o casamento. A Adaptação é cruel. Guerras, potencias mundiais quebradas, escândalos entre ícones da televisão e políticos, atentados terroristas, músicas irritantes e cortes de cabelos desajustados, eu havia passado por tudo isso. Estava presa num corpo alto e esguio de uma menina de dezesseis anos. O que servia para contrastar com a carga horária que eu vinha carregando, eu tinha quase cem anos.
– Boa noite, Srta. Eleanor — A voz rouca e curiosa de George, o porteiro que trabalhava ao lado do galpão, fez-me imergir de meus pensamentos. Ele tinha uma bigodeira negra e que mais parecia uma cauda de pombo do que algo que merecesse permanecer no rosto por mais de quarenta anos. Ele se orgulhava daquela lagarta asquerosa, contava para todos que nunca teve a coragem de raspá-la.
Meneei a cabeça, tentando não ser mais insensível do que o necessário. O galpão havia sido criado na metade do século vinte por Viktor Persson, sueco, quarenta e cinco anos físicos e incontáveis biológicos. Tinha severos olhos verdes, polidos como duas joias, vincos entre as sobrancelhas e maçãs do rosto. As escadarias de mármore eram escorregadias, por isso estavam sempre refletidas por um jogo de luzes, o que eu julgava ser completamente desnecessário. Como todos os outros predadores, nossos sentidos eram aguçados e projetados para caçadas. Eu podia correr, ter a precisão em saltos ou enxergar tão bem quanto um felino, por exemplo.
Desci dois lances de escada, até desembocar no corredor principal. Não precisava abrir de porta em porta para consultar e saber onde deveria me sentar. Eu estava atrasada, o que não me incomodava, sabia perfeitamente que encontraria nove pares de olhos como imãs em minha direção. A vidraça tornava visível a cena que já estava se desenrolando antes mesmo que eu pudesse dar meus palpites.
– Demorou — Viktor girou sua cadeira de couro, transpondo sua atenção para mim. Ele estava nervoso, sabia pelo modo como ele unia as mãos, formando uma espécie de tenda com os dedos. Ele era comedido e bem equilibrado, mas eu sabia que a qualquer momento poderia explodir. Com Viktor tudo estava ligado ao controle.
– Antes tarde do que nunca — Sentei ao lado de Marcus, cruzando as pernas. Marcus era um dos membros do galpão que eu mais gostava, era bastante atraente. Sua beleza era exótica, talvez por ter vindo do Brasil. Tinha pele morena e olhos de tonalidades diferentes. Eu adorava conversar com ele, aprender sobre a sua cultura. Era um dos meus fascínios. — O que temos pra hoje?
Viktor ergueu um controle diante de si, apontando para o televisor que estava pregado do outro lado da parede, acima de um aparador. Com um " zip" uma imagem tomou forma.
– Os índices de mortalidade disparam em toda região costeira — Uma jornalista de cabelos desalinhados e uma blusa num tom irritante de púrpura, tentava focar seus olhos enquanto falava de maneira robótica. — Corpos intactos, nada de testemunhas ou suspeitos. Será um novo serial killer? Continue conosco, América.
Com outro "zip" a televisão ficou negra. Viktor voltou a pousar o controle sobre o tampo de vidro da mesa diante de nós, todos estavam tensos. Suas mãos ainda estavam entrelaçadas, seus olhos sem expressão.
– Quantas vezes vou precisar repetir que se querem continuar vivos precisam agir com cautela? — Sua voz era um mero sussurro, não havia barulho de nada além de sua raiva esperando para ser exaurida. Todos desviavam o olhar, mas Viktor não tinha pressa, buscava um por um, buscando a verdade, buscando o culpado por estarmos tão expostos. Tão vulneráveis e visíveis ao mundo dos humanos. — Eleanor? Tem algo a acrescentar?
– Na verdade não — Dei de ombros, sentindo a pressão dos dedos de Marcus contra meu braço. Eu não tinha medo de Viktor, ele gostava de mim, tinha afeição e diversos anseios em comum. Ele era como um tutor, talvez até um pai pra mim. — Eu só acho que não é da nossa natureza esbanjar.
– O que quer dizer com isso? — Drina, mais uma vez, estava caçoando da minha capacidade. Ela era mais velha que eu, em anos físicos. Estava prestes a completar vinte anos quando fora transformada. Nunca fez questão de contar sua origem, mas todos sabiam que era uma prostituta russa e que estava à beira da morte quando Viktor a encontrou. Ela foi o único caso em que Viktor era o criador.
– O que eu quero dizer com isso — Repeti, tentando imitar sua voz um tanto anasalada. Algumas risadinhas eclodiram, mas sumiram tão rápido quanto surgiram. A atenção de Viktor estava virada pra mim. — Que talvez nem todos esses casos sejam da autoria de alguém daqui. Não somos os únicos, somos?
– Tem razão — Ele relaxou um pouco. — Existem outros, desgovernados e impulsivos, talvez seja isso. Mas não é porque podemos cogitar que eles estejam entre nós, que deixaremos de ser cuidadosos. Eu quero reforços e quero a atenção de vocês. Uma gota de sangue caída fora do lugar e vocês dançam. Não estou aqui pra ser bom com vocês, lembrem-se disso. Vocês querem sobreviver, querem lutar e querem justiça. Uma mão lava a outra.
Com isso todos estavam dispensados, exceto eu, como sempre.
Fale com o autor