Eu não fazia ideia de quanto tempo passamos dentro do galpão, debatendo. Todos já tinham ido embora, colocar seus planos para a madrugada em prática. Os ponteiros corriam velozmente para longe da meia noite, quando finalmente Viktor apagou as luzes e me convidou para dar uma volta. Diferente do cenário que eu havia presenciado na ida, a cidade agora parecia morta, quase que fantasma. Parecia o papel de fundo de um pesadelo, com calçadas enlameadas pela chuva, postes que piscavam com incerteza e o vento frio, varrendo qualquer alma capaz de se aguentar em pé até tão tarde. Estávamos indo em direção as docas, Viktor gostava de ir pra lá, era como seu esconderijo secreto favorito.

Pensei que a conversa já estava dada por encerrada – Falei, tentando assoprar o vento e formar um rastro de fumaça branca, eu adorava fazer isso. Infelizmente nada surgiu. Minha temperatura corporal devia ser tão baixa quanto a do ambiente, talvez até menor.

E está – Ele sorriu, esfregando a orelha direita.

Caminhamos um bom tempo em silêncio, o que não foi tão desagradável. Eu nunca sabia ao certo o que fazer com as minhas madrugadas. Já havia tentado fechar os olhos e pegar no sono, mas nada. Tinha comprado até um colchão. Viktor sabia exatamente aonde ir, o que fazer, ouvir e até fingir estar interessado em degustar. Não precisávamos de alimento humano, sangue era o essencial, mas nem por isso deixávamos de sair vez ou outra para comer pizza ou sentir os dedos escorrendo de gordura num drive – tru qualquer.

O que ouve? – Viktor parou bruscamente, segurando em meu antebraço.

Coloquei um punhado de cabelo atrás da orelha, voltando minha concentração para qualquer ruído que entrasse na minha frequência sonora. No beco ao lado de onde estávamos alguém respirava profundamente, provavelmente os últimos suspiros de vida. Um fósforo foi riscado, apagando segundos depois ao ir de encontro com alguma superfície. Olhei pra Viktor, que já estava completamente transformado. Sua postura estava mais animalesca, mesmo com os lábios fechados era possível distinguir seus caninos saltados, as olheiras se tornando intensas e o rosto abatido. O desejo fluía como uma corrente ininterrupta no verde de suas órbitas.

Não está com sede? – Ele deu um sorriso diabólico, atravessando a rua num piscar de olhos.

Era óbvio que eu estava. Levei as mãos até o pescoço, implorando para que ele se acalmasse.

A mulher estava a alguns metros de nós, segurando um cachimbo entre os dedos frágeis e trêmulos, a saia rosada que usava não tinha forma sobre seu corpo, seu cabelo era um emaranhado. Nós não precisaríamos ter o trabalho de matá-la. Ela já estava morta.

– Por que salvou Drina? – As palavras escaparam da minha boca, fazendo com que a mulher erguesse seus olhos em nossa direção. Era como se duas uvas passas ocupassem seus globos oculares.

– Se não a conhecesse tão bem diria que tem ciúmes de mim – Um sorriso orgulhoso ergueu seus lábios, deixando seus caninos à mostra. Se eu não fosse tão parecida com ele, provavelmente aquela visão teria feito com que eu saísse correndo, implorando por misericórdia. – Mas respondendo a sua pergunta, eu salvei Drina porque ela tinha algo diferente das outras em seus olhos.

– Aceitação? – Ela que tinha escolhido aquela vida, se ela estava doente era apenas uma consequência de suas escolhas.

– Esperança – Ele deu de ombros – Com o tempo você esquece um pouco a noção das coisas, o que antes você costumava a conhecer e até temer. Durante anos eu havia me esquecido o que era esperança, até encontrar com Drina.

Mordi meu lábio, sentindo os dentes perfurarem minha pele e um líquido estranho jorrar. Não era como sangue ou qualquer outro fluído, era denso. Viktor havia conseguido me calar, eu odiava quando ele fazia aquilo.

Mas se eu soubesse naquela época o que ela viria se tornar hoje, eu iria preferir continuar sem saber o que é esperança – Ele riu, sem humor algum – Acredite, eu sinto tanta vontade de estraçalhá-la quanto você.

A mulher que estava sentada diante de nós deu mais uma tragada no objeto em suas mãos, depois encostou-se no meio fio, procurando por equilíbrio. Suas pernas eram curtas e nada hábeis, assim que ela ergueu o corpo, elas vacilaram quase derrubando-a novamente. Com apenas um movimento eu senti o cheiro, ela havia se cortado. Viktor olhou pra mim, como se ordenasse algo, mas como não me mexi ele foi o primeiro a tomar uma atitude. Caminhou lentamente até a mulher que mal tinha forças para gritar. O cachimbo caiu de suas mãos, provocando um baque surdo, seguido de um som como um tecido molhado sendo rasgado. O corpo de Viktor estava cobrindo-a, mas de onde eu estava podia ver sua boca abrindo e fechando, gorgolejando em busca de uma resga de ar.

– O que está esperando? – Seus olhos verdes buscaram os meus. Seus lábios sujos de sangue, as mãos firmes em volta dos ombros magros e infantis da prostituta.

Em menos de dois passos matei minha vontade, fincando meus dentes em sua jugular ainda pulsante. Saboreando o gosto agridoce do sangue que agora preenchia minha boca.

Faltava menos de uma hora para amanhecer, as copas antes enegrecidas dos pinheiros agora retornariam ao seu costumeiro e alegre tom de verde. Os jornaleiros trariam novas notícias sobre as mortes sem solução. Viktor estava ao meu lado, cantando melodias engraçadas e animadas, parecendo um pirata bêbado.

O que estamos fazendo aqui? – Perguntei, encostando a cabeça num tonel vazio e bambo.

Esperando um amigo – Foi a única coisa que ele falou, antes de voltar a cantar sobre uma garota que dançava Jazz como ninguém. Às vezes eu me esquecia que Viktor não tinha só a idade que aparentava.

Uma escavadeira tinha sido acionada em algum lugar. De olhos fechados eu podia ouvir as engrenagens, os gritos dos trabalhadores mal humorados e até a terra sendo remexida. O cheiro de maresia era forte aqui, o vento tornava tudo mais úmido. Ao ponto de que mesmo que estivesse sol, ainda era preciso você levantar a mão para secar o suor emplastado em seu rosto. Ao longe ouvi alguém batendo a porta de um carro, depois botas, devia ser o amigo de Viktor.

Por favor, não deixa que seu lado menininha interfira – Ele riu, batendo as mãos de ferrugem antes de pular do alto de um tonel. Caiu perfeitamente de pé diante de mim. Balancei a cabeça, rindo. Lado menininha? Estava prestes a perguntá-lo do que estava falando, quando me dei conta do corpo que se materializava diante de nós. Bonito não seria o termo correto ao ser usado, ele era estonteante. Não precisava checar duas vezes para saber que era um vampiro, o modo elegante que realizava seus movimentos e a graça de suas feições já falavam por si. Ele era alto, tão alto que fazia Viktor parecer uma pessoa de média estatura ao seu lado. Seus cabelos eram loiros e consideravelmente compridos, talvez roçando na altura do maxilar, e que maxilar! O nariz reto e elegante, os olhos de um perturbador tom cinzento e a boca como dois gomos rosados, perfeitamente encaixados.

Eleanor, este é Aurek Jankowski, o mais novo membro do galpão – Viktor abriu os braços, dando um abraço constrangedor no rapaz, com aqueles habituais tapinhas nas costas que eu nunca fui capaz de compreender. – Aurek, Eleanor.

Você é polaco? – Perguntei, ignorando o modo que ele me encarava. Recebi como reposta uma palavra curta numa língua desconhecida, o que julguei ser um sim. Exibido.

E o que você tem pra mim? – Aurek coçou o queixo, que era levemente dividido. Desci um pouco os olhos para examiná-lo. Diferente de mim e dos outros membros do galpão, ele não usava preto. Não usávamos a cor por ser algo triste ou porque estávamos de luto, era mais pela higiene. Um momento de descuido e podemos nos sujar todos com sangue. Aurek usava calças jeans de lavagem escura, que caiam perigosamente abaixo da linha do quadril, e uma blusa branca, com as mangas dobradas até os cotovelos.

Não acredito que aqui seja o lugar ideal – Viktor parecia feliz em vê-lo.

Fui praticamente obrigada a sentar no banco de trás do carro, só faltava a cadeirinha. Aurek dirigia como louco, sem se preocupar com os cruzamentos ou placas de sinalização. Seu pé era pesado com chumbo e até isso Viktor parecia gostar. Os dois conversavam sobre pessoas que eu não fazia ideia de quem quer que fossem, além de escutar vez ou outra meu nome sendo mencionado.

Pelo que me contaram ela não é nada calada – Era a voz de Aurek. Levantei os olhos e acabei encontrando com os seus naquela droga de retrovisor. Viktor era só sorrisos, como se fossemos duas crianças.

O que falaram de mim? – Resmunguei, brincando com uma mecha do meu cabelo, que já começava a ficar cor de bronze ao entrar em contato com os primeiros raios de sol.

Nada relevante – Ele acrescentou, parando num beco há algumas quadras do Helvete. Assim que desci, quase me desequilibrei, o que era muito estranho, considerando que eu era a definição de equilíbrio e que eu não estava com fome. Como se fosse por extinto as mãos de Aurek se fixaram em minha cintura como travas. Seus dedos eram tão longos que eu julgava possível eles se encontrarem caso ele fechasse as mãos ao meu redor. — Acho que alguém passou um pouco da conta.

Cala a boca – Resmunguei, recompondo a postura e marchando pesadamente até a escada de mármore.