Vampire Blues

4 Who is he?


Aparentemente todos já estavam encantados com Aurek. Drina ria escandalosamente a cada piada que ele mal terminava, o som era como cubos de gelo tilintando contra o cristal, era exagerado, sexy, mas exagerado. Eu não era sexy. Viktor parou diante da mesa em que estávamos sentados, e obviamente o falatório cessou.

Eu quero todos na sala de treinamento – A sala de treinamento, como o próprio nome dizia, era como uma academia. Era onde planejávamos táticas e treinávamos movimentos de defesa e ataque. – Eu quero Eleanor e Aurek lutando até um sair inconsciente.

O que? – Minha voz soou infantil. Aurek sorria descaradamente, como se tudo aquilo fosse um show pra ele. Babaca. – Não vou fazer isso.

Eu sei – Viktor também sorriu, orgulhoso. Ele sabia desde o início que eu não iria lutar, era apenas um teste. – Mas Jeremiah e Daniel vão.

Os dois lançaram um sarcástico olhar de agradecimento pra mim. Antes que Viktor desse mais alguma ordem eu já havia empurrado minha cadeira e agora descia mais uma rodada de escadas. Aurek no meu encalço. No segundo degrau percorrido, nós já estávamos apostando corrida. Sua risada era ridícula, do tipo que fazia você rir junto. Numa questão de segundos estávamos os dois esmagados contra a porta de vidro da sala de Viktor.

Primeiro as damas – Aurek abriu a porta, tentando não rir ao ver minha cara de surpresa.

Sentei na cadeira da direita, mas não antes de recolher um dos expressos que estava na bandeja de prata sobre a bancada. O café sempre foi um hábito e não era porque eu estava morta que isso iria mudar.

Para uma vampira que se diz evoluída – Aurek pegou a xícara seguinte, levando-a até a boca. Ele fez uma careta e depois esticou a língua, provavelmente queimada pelo café. Em segundos curaria, mas não pude deixar de rir. – Você é muito presa a essas porcarias que os humanos gostam.

Você fala como se nunca tivesse sido um – Rebati, fazendo- o concordar com a cabeça. Touché.

Ficamos em silêncio, apenas ouvindo os estrondos que vinham do andar de cima. A sala de treinamento era no andar superior e o barulho era nítido até daqui, talvez seria até duas quadras de distância. Eram como duas pedras colidindo, essa sim era uma verdadeira luta de vampiros. Alguns minutos depois, Viktor entrou sacudindo algumas pastas de papel pardo. Ele pegou o último copo de expresso antes de sentar na cadeira giratória, que por acaso eu adorava, diante de nós. Diversas fotos foram retiradas de dentro das pastas e espalhadas sobre a mesa. Algumas tiradas de ângulos engraçados, outras nítidas somente porque nossa visão é perfeita.

Este é Alexander Verri – Ele bateu com o dedo indicador sobre algumas fotografias. Nelas estava um homem, de quarenta e poucos anos. Olhos negros e severos, assim como o cabelo liso e perfeitamente penteado. Sobrancelhas espessas e uma cicatriz no lábio superior, bonito. – Más línguas dizem que ele está continuando os estudos da família, e isso não inclui medicina e sim nós.

Ele obteve sucesso? – Aurek perguntou, examinando uma das fotos em que Verri angulava uma seringa contra a luz, dando petelecos em seu conteúdo.

É isso que queremos saber – Agora Viktor estava sério, com os dedos cruzados daquela forma que só eu sabia imitar. – Vocês serão enviados para investigar isso pessoalmente. Não podemos deixar que isso saia de controle, então eu sugiro que levem somente o tempo necessário.

E onde podemos encontrá-lo? – Perguntei, trazendo a atenção dos dois completamente pra mim. Se eu tivesse sangue correndo pelas minhas veias certamente iria corar.

Houston University – Viktor folheou mais algumas páginas, jogando alguns blocos diante de nós. Fichas escolares, ah não. – Antes que comecem a reclamar, eu quero deixar bem claro que estão sendo mandados não só porque são jovens e se encaixam no perfil, mas também porque são os que mais confio para esse trabalho.

Estou lisonjeado – Aurek completou sarcasticamente. – Mas sinto muito em informar que não vou passar nenhum segundo dentro desse inferno.

Você já está em um – Falei, fazendo Viktor rir. Helvete era inferno em sueco, piadinha interna. – E além disso, não vejo problemas. Por acaso teve algum problema com os estudos, Aurek?

Cala a boca – Ele revirou os olhos, tentando fingir que estava irritado. – Não tenho outra escolha, tenho?

Vocês serão Doug e Violet O’ Donnel – Abri minha ficha para checar. Eu não me lembrava de ter tirado a foto anexada no documento, mas lá estava eu. Com o mesmo rosto em formato de coração, o mesmo nariz arrebitado e as bochechas proeminentes. – Irmãos e amadores da biologia.

Cara, eu odeio biologia – Pela primeira vez no dia eu fui obrigada a concordar com Aurek. – Mais alguma coisa?

Sempre tem – Viktor puxou mais algumas fotos – Este é Rush Finlay, é um dos alunos com os melhores índices de Houston. É visto em várias fotos com Verri, além de ser segunda pessoa a assinar os relatórios e comprovantes de compra. – Viktor checou uma lista antes de continuar. Um sorriso brotou em seus lábios. – Alho, água benta, tubos de ensaio e algumas drogas que ainda não conhecemos.

Alho, água benta e estacas. Nada disso nos afetava, não mais.

Puxei algumas fotos, para observar melhor Rush. Um grito ficou preso em minha garganta. Tinha o mesmo sorriso despreocupado, os mesmos olhos verdes e os cabelos tão negros quanto as asas de um corvo. Ele era uma cópia fiel de Auguste, meu criador.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.