Valerion - fragmentos do mundo

6 Rumo ao primeiro fragmento


As brasas da conversa anterior ainda queimavam na cabeça de Tiberan. A noite estava baixa sobre Phytonia quando ele finalmente declarou:

— Partimos ao amanhecer. Não posso esperar mais. Se os fragmentos realmente existem, cada dia perdido enfraquece o mundo.

Soraja cruzou os braços, apoiando o peso do corpo sobre uma perna, enquanto Anastásia ajeitava seu cajado, sem esconder empolgação alguma pela ideia de ação.

— Estamos indo com você — disse a porteira. — E não tente impedir. Você sabe que eu sou teimosa.

Tiberan suspirou, resignado.

— Eu já esperava isso. Mas Lorien também virá.

Lorien, parado atrás dele, sorriu levemente — um sorriso frágil, quase infantil. O ar ao redor dele parecia ondular, como se pequenos ecos de outras vozes sussurrassem ao mesmo tempo.

— Não quero te deixar sozinho, irmão — disse ele. — Além disso… eu quero ajudar.

Soraja e Anastásia trocaram um olhar preocupado, lembrando-se do ataque repentino minutos antes. Tiberan percebeu, mas não comentou. Apenas colocou a mão no ombro do irmão.

— Então precisamos preparar Phytonia. Não posso deixar a cidade sem proteção.

Foi então que duas figuras se aproximaram do grupo, inclinando a cabeça em reverência profunda.

A primeira era uma mulher magra e de olhar intenso, com um lenço vermelho cobrindo metade do rosto. Seus olhos eram fundos, brilhando em tons lilás. Uma runa circular permanecia desenhada em sua testa como um olho fechado.

— Centuria, o Olho Mágico — apresentou-se ela. — Eu enxerguei sua decisão antes mesmo de pronunciá-la. Minha mestra era Gallia da Tempestade… até que ela foi destruída. Agora sirvo a você, Phýton.

A segunda figura era um homem alto, de pele muito clara, quase translúcida, com veias prateadas percorrendo os braços e ombros, como se seu corpo tivesse sido temperado em luz. A postura era rígida, mas humilde.

— Revenav, o Aluminiado — disse ele com voz grave. — Lutei ao lado de Koedmiya e o vi cair. Não quero mais caminhar nas sombras. Depois da árvore queimar… o caminho ficou claro. Preciso de alguém para seguir. E escolhi você.

Tiberan observou os dois por longos segundos, analisando, pesando, lembrando-se das histórias terríveis que ambos carregavam.

Centuria era calculista, rápida, organizada. Vivia com uma sensação permanente de déjà vu — um efeito colateral de sua magia de premonições falhas.

Revenav era quieto, sério, mas movido por uma determinação quase obsessiva de provar que não era só uma arma descartável dos antigos cavaleiros negros.

Tiberan assentiu.

— Centuria. Revenav. Enquanto eu estiver fora, vocês dois governarão Phytonia. — Ele estendeu as mãos para ambos tocarem. — Cuidem dos cidadãos. Protejam as raízes que ainda vivem. Não deixem ninguém perceber que o mundo… está ficando mais fraco.

Ambos se ajoelharam.

— Pela seiva. — disseram em uníssono.

Com isso acertado, o grupo parte rumo ao sul. A vegetação mudava a cada passo, como se algo chamasse por Tiberan. O broto sagrado pulsava sob sua manga, e Soraja percebia que parecia guiá-lo como uma bússola viva.

— Está reagindo? — perguntou ela.

— Sim — respondeu Tiberan. — O primeiro fragmento está próximo.

Então, como se a noite abrisse um rasgo no ar, uma figura encapuzada surgiu.

Soraja e Anastásia imediatamente assumiram posição de combate — mas o encapuzado ergueu as mãos devagar, em gesto de paz.

E atrás dele, surgiu Nymira.

— Calma, Soraja — disse Nymira, com um sorriso cansado, mas verdadeiro. — Vi você entrando na cidade e imaginei que seguiria Tiberan. Então decidi vir junto.

Soraja correu até ela.

— Nymira! Você está bem? Sua doença…

A curandeira desviou o olhar.

— Não agora. Depois conversamos sobre isso. — Ela indicou o homem ao lado. — Antes, quero que conheça alguém.

O encapuzado puxou o tecido que cobria o rosto.

Soraja deu um passo para trás.

Era ele.

O homem que transformara Valerah em uma prisão de cristal.

O valete que congelara crianças, casas, memórias.

A sombra que ela acreditava nunca mais ver.

Arkanis dos Cristais.

— Não vim como inimigo — disse ele, ajoelhando-se imediatamente diante dela. — Não depois do que Gaia fez por mim. Morri quebrado, preso no próprio gelo. Ela me deu a chance… de recomeçar.

Nymira tocou o ombro dele.

— Soraja, sei o que você sente. Ele quase destruiu minha cidade. Eu devia odiá-lo. E ainda odeio. Mas… ele estava vivo. E isso significa responsabilidade. Eu tinha que tentar. Era o corpo que eu tinha… e eu trouxe. — Ela engoliu seco. — Você queria Anorith. Mas acho que não vamos encontrá-lo tão cedo. Eu precisava te dar algo. Então aqui está: o Ás que posso oferecer.

Soraja respirou fundo, quase engasgando com a mistura de surpresa e indignação.

Arkanis manteve-se de cabeça baixa.

— Se for minha vontade… eu te sirvo. Se quiser minha vida… também entrego.

A porteira ficou em silêncio por longos segundos, estudando aquele homem que, há pouco tempo, era uma lembrança amarga.

Então, estendeu a mão.

— Arkanis dos Cristais… levante-se. — Seus olhos brilharam com firmeza. — A partir de agora, você é meu Ás.

Ele ergueu a cabeça devagar, tão surpreso quanto agradecido.

— Sim, minha senhora.

Atrás deles, Anastásia sussurrou para Tiberan:

— Isso vai dar confusão.

Tiberan, cruzando os braços, respondeu:

— O mundo já está em confusão. Um Ás a mais… ou a menos… não muda nada.

O broto sagrado pulsou com força, e todos sentiram o chão vibrar.

O primeiro fragmento da Yggdrasil estava muito perto.

E agora, o grupo estava completo.

E mortal.

E imprevisível.

A jornada começava.