Valerion - fragmentos do mundo
7 Os que Despertam da Terra
O vento em Phytonia carregava um cheiro novo — algo entre raiz queimada e chuva prestes a cair. Não era exatamente agradável; era um aviso. O grupo reunido diante da muralha observava o broto sagrado pulsar nas mãos de Tiberan como um coração ansioso. A luz verde percorreu os galhos vivos… e vacilou. Um estalo seco, como madeira partindo, cortou o silêncio.
A chama no broto apagou.
Tiberan franziu a testa.
— De novo não… Ele nunca falhou desse jeito.
Soraja cruzou os braços, inquieta.
— Tem certeza que está usando certo? — zombou, mas nem ela acreditou na piada.
Lorien, parado a poucos passos, levantou o rosto devagar. O vento bateu em seus cabelos, e por um instante seus olhos perderam o foco, como se olhassem para algum lugar onde os outros não podiam seguir. Então ele falou — num sussurro que não parecia humano.
Uma frase inteira em uma língua antiga, seca, rascante, como folhas mortas esfregando umas nas outras.
Tiberan deu um passo atrás.
Soraja engoliu seco.
Nymira, sempre sensível a vibrações, franziu o cenho.
— Irmão… o que foi isso? — Tiberan perguntou.
Lorien piscou, confuso, como se tivesse acordado.
— Eu… eu posso sentir algo — murmurou. — É como se a seiva ainda me guiasse. Todos esses anos vivendo dela… acho que posso seguir o rastro dos fragmentos.
Ele tentou andar para frente. Tiberan segurou seu braço.
— Então eu vou com você.
Nymira o interrompeu, firme.
— Não. — Ela o soltou com cuidado. — Você é quem mais precisa dos fragmentos. Se algo acontecer com Lorien, você não estará lá para proteger ele… e nem a Phytonia. Eu vou com ele. A água pode antecipar perigos que vocês não veem.
A decisão caiu como pedra. Tiberan hesitou, mas sabia que Nymira estava certa.
Soraja assentiu.
Arkanis ficou imóvel, como uma estátua vigilante.
Nymira, antes de partir, organizou suas roupas e apertou o braço de Tiberan.
— Se minha doença piorar, eu aviso. — Mas seu sorriso vacilou por um segundo, traindo sua preocupação.
Anastásia tocou o cabo de sua lança.
— Vamos lidar com o que vier. Não é o primeiro caos que enfrentamos.
O grupo se separou.
Nymira e Lorien seguiram para o leste.
Tiberan, Soraja, Arkanis e Anastásia para o norte.
Caminharam por horas por uma região onde as raízes da antiga Yggdrasil haviam virado colunas de carvão. O mundo ali parecia segurando o fôlego. O broto não respondia. Até o silêncio parecia pesado demais.
Então, o chão tremeu.
Soraja ergueu a mão, pronta para abrir uma porta de defesa.
Anastásia girou a lança.
Arkanis estendeu os dedos, e cristais brotaram instantaneamente nos braços.
Tiberan olhou ao redor, confuso.
— Tem algo… vindo por baixo.
A terra se rompeu.
Algo saiu.
Uma figura humanoide emergiu como se tivesse sido cuspida pelo próprio solo. A pele era cinza e rija como pedra velha. Pelo corpo inteiro, runas brilhavam, como cicatrizes queimadas a fogo. Os olhos eram vazios, mas não mortos. Uma fenda na pele deixava escapar um brilho fraco, como se uma luz estivesse presa dentro.
O ser abriu a boca e emitiu um som…
Uma frase.
A mesma língua que Lorien havia pronunciado.
Só que mais antiga, pesada, quase ritual.
— Tiberan… — Soraja murmurou. — Você ouviu isso? É igual ao Lorien.
O ser avançou.
Ele não caminhava: ele caía para frente, como um tronco sendo derrubado, mas cada queda acertava o chão com força monstruosa. O impacto lançou estilhaços de pedra contra o grupo.
Tiberan ergueu raízes para se defender.
O golpe das runas quebrou as raízes como gravetos.
Anastásia rodopiou com sua lança, cravando-a no peito da criatura.
As runas explodiram em um clarão e a jogaram metros para trás.
Arkanis tentou cristalizá-lo.
Os cristais cresceram… e foram triturados pela criatura como vidro frágil.
Soraja abriu um portal na frente do monstro — tentando fazê-lo cair em outro ponto — mas o ser travou os pés na terra e resistiu ao deslocamento.
— Isso é absurdo! Ele ignora tudo! — Soraja gritou.
Tiberan então viu:
Sempre que o ser atacava, uma runazinha específica brilhava no braço.
Aquilo parecia uma permissão, um comando.
— Anastásia! Mire nessa runa! — ele apontou.
Ela saltou, girou a lança e desferiu o golpe no símbolo luminoso.
Um estrondo ecoou.
O ser recuou pela primeira vez.
Soraja percebeu a abertura.
— Arkanis! Comigo!
Ela abriu uma porta ao lado do ser — uma porta curta, instável — e Arkanis agarrou o pulso da criatura, puxando-o para dentro.
A porta se fechou com um estalo, mas Soraja conseguiu atravessá-la antes.
Anastásia, percebendo a separação do grupo, disse: Precisamos seguir rápido. Lorien e Nymira podem estar indo direto para onde esse troço veio. — Ela olhou para Tiberan. — O grupo agora estava totalmente dividido.
Tiberan não respondeu. O broto em sua mão tremeu — não de energia, mas de medo.
Longe dali, em algum canto esquecido de Hyperia, o mesmo tremor surgia.
Um ser idêntico — runas queimando, olhos vazios — avançava por entre ruínas de uma torre derrubada. A cada passo, o solo rachava.
Diante dele, com as mãos em chamas azuis, estava Ephiron.
O novo Hyperion limpou o sangue do canto da boca, encarou o monstro e cuspiu:
— Que diabos é você?
O ser respondeu na mesma língua proibida.
E Ephiron, pela primeira vez em meses, sentiu algo que não confessaria a ninguém:
Ele ficou com medo.
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