Valerion - fragmentos do mundo
8 Guerreiro das profundezas! Surge Fafnir
A floresta era tão antiga que parecia rejeitar qualquer presença humana. As árvores eram grossas, tortas, e abafavam o céu. Ephiron caminhava com Mornath e Eryne em silêncio, todos exaustos pela longa busca. Procuravam Kaelvor havia semanas, mas não encontraram pegadas, vestígios de fogo, nada.
— Se ele passou por aqui, apagou tudo — disse Mornath.
— Kaelvor nunca escondeu nada — respondeu Ephiron. — Só não quer ser encontrado.
Pararam quando o sol caiu e montaram acampamento. Mornath acendeu a fogueira e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, começou a cozinhar.
Eryne riu:
— Nunca imaginei você cozinhando.
— Disciplina também se treina na cozinha — Mornath respondeu, mexendo o caldo.
Eryne olhou para Ephiron, com um sorriso que misturava nostalgia e carinho.
— Você cresceu muito, sabia? Quando era mais novo, fugia dos treinos só para dormir perto do rio. Mas eu sabia… — ela se aproximou — que você teria um papel enorme no mundo.
Ephiron desviou o olhar.
— Não sei se isso é bom.
— Sempre foi — ela disse, simples. — Você nunca teve medo de seguir o próprio coração.
Antes que Ephiron respondesse, o chão tremeu. Uma vibração leve, mas constante, como se algo estivesse subindo das profundezas.
— Tem coisa errada — alertou Eryne, levantando-se.
Runas começaram a acender na terra. Primeiro uma. Depois outra. Depois dezenas.
O solo se abriu.
Corpos emergiram, saindo da terra como se tivessem sido desenterrados à força. Eram humanoides, mas cinzentos, rachados, cobertos de runas pulsando em luz azulada. Não respiravam. Não piscavam. Não hesitavam.
Um deles agarrou Mornath pela garganta e o arremessou contra uma árvore. Outro acertou Eryne no estômago, jogando-a longe.
— MORNATH! ERYNE! — Ephiron gritou, atacando com fogo.
As chamas azuladas envolveram seus braços e atingiram o inimigo… que simplesmente continuou andando, como se fogo fosse vento. O golpe sequer o fez piscar. O morto-vivo o acertou com força brutal, criando cortes profundos no ombro e no peito. Outro o atingiu na costela.
Ephiron cambaleou, mas não caiu.
— Eu enfrentei o maior cavaleiro de Hyperia — disse, cuspindo sangue. — Vocês não vão me derrubar.
As runas brilharam ainda mais.
E então, uma voz cortou a floresta:
— Impressionante… para um filho daquele que se dizia próximo demais de Hyperion.
Os mortos pararam instantaneamente.
Das sombras, surgiu um homem. Sua presença era estranha, quase antinatural. Usava roupas pretas, estampadas com runas iguais às dos mortos. Óculos escuros escondiam os olhos — até ele tirá-los.
Onde deveriam estar as pupilas havia apenas uma escuridão profunda.
— Com essa força — ele disse — você não é nem metade dele.
— Metade de quem? — Ephiron perguntou.
O homem deu um sorriso vazio.
— Do verdadeiro Hyperion. Do primeiro. Aquele que vocês chamavam de deus… Samuel.
Ephiron ficou imóvel.
— E você… quem é? — sussurrou.
O homem abriu os braços.
— Já me chamaram de várias coisas. Mas vocês podem me chamar pelo nome que veio antes de todos: Fafnir.
Os mortos se ajoelharam.
O vento gelou.
— Eu existo nestas terras muito antes dos astronautas chegarem — Fafnir continuou. — Antes da Yggdrasil, antes das suas guerras. Observamos vocês repetirem todos os erros dos antigos habitantes deste mundo.
Ephiron recuou um passo.
— Se veio lutar, lute. Mas não fale do meu pai.
— Samuel ao menos respeitava o que veio antes — disse Fafnir. — Você, não. Seus poderes são instáveis. Suas cidades idolatram mentiras. Seu povo se ajoelha para falsos deuses. E agora, vocês queimaram a Árvore que mantinha este mundo vivo.
Ele ergueu a mão. As runas dos mortos brilharam ainda mais.
— Vocês quebraram o equilíbrio. E nós teremos que interferir novamente.
Ephiron ergueu os punhos, mesmo sangrando, pronto para a batalha.
— O mundo — Fafnir concluiu — vai nascer de novo, quer você queira ou não.
Tudo ao redor escureceu, como se a noite engolisse a floresta inteira.
Ephiron avançou.
A luta, enfim, começou de verdade.
Fale com o autor