A floresta parecia prender a respiração. O chão afundou num tremor lento quando Ephiron girou o punho envolto em chamas, avançando contra o homem de cabelos roxos. Fafnir sequer ergueu as mãos. Bastou inclinar o queixo para que a primeira rajada de fogo fosse engolida por uma sombra espessa.

Fogo fátuo? — disse Fafnir, sem emoção. — A herança de Samuel. Incompleta. Impura.

Ephiron cerrrou os dentes, o fogo subindo pelas costas, contornando o rosto.

— Pode falar o quanto quiser. Eu derrotei o Ás mais forte de Hyperia. Não vou cair para um velho fantasiado.

O canto da boca de Fafnir moveu-se… não para sorrir. Para julgar.

— Vocês, Valerion… híbridos frágeis. Metade carne humana, metade seiva roubada. Acham mesmo que podem enfrentar um ser puro?

Ele ergueu a mão pela primeira vez. Apenas isso bastou para o ar ficar pesado como água profunda. Os mortos-vivos ao redor suspiraram, como se o movimento desse vida às runas que cintilavam em seus corpos.

Ephiron chutou o solo, o impacto abrindo um arco de fogo azul.

Mornath, ainda desacordado, mexeu um dedo. Eryne tossiu sangue. O jovem Hyperion estava sozinho.

Fafnir avançou. O chão rachou sob seus pés — não em resposta à força, mas à presença.

Nós existíamos antes de seu mundo nascer. Antes de sua árvore brotar. Antes dos seus “deuses” chegarem do espaço pedindo para ser salvos.

Um estalo ecoou quando Ephiron tentou bloquear o golpe. O braço inteiro dele latejou.

— Humanos caminham neste planeta há milênios menos do que vocês imaginam — continuou Fafnir. — E ainda assim ousam chamá-lo de “mundo novo”.

Ephiron recuou, mas Fafnir estava na frente dele de novo.

O ataque seguinte foi tão rápido que o jovem deus só viu um borrão roxo, e a dor veio depois. Fafnir segurou-o pela gola, levantando-o como se fosse um boneco de madeira.

— Um ser incompleto não derrota um habitante primordial.

Ephiron cuspiu sangue… e fogo. A explosão o soltou das mãos do inimigo e o jogou para trás, derrubando árvores.

Fafnir não se moveu um centímetro.

— Continue. Quero ver até onde um híbrido consegue chegar antes de quebrar.

Muito longe dali, a luz era suave, filtrada pelo musgo azul.

Nymira caminhava ao lado de Lorien, que observava tudo com o fascínio de uma criança e a calma de alguém que ainda aprendia o ritmo do mundo.

— Aqui era mais verde antes — disse Nymira, ajoelhando-se para tocar o solo escuro. — Dá pra sentir. Como se a terra estivesse com febre.

Lorien parou, tocando uma árvore partida.

— Quando eu estava… — ele hesitou, procurando a palavra correta — preso… eu ouvia as vibrações. Como se o mundo me chamasse o tempo todo, mas eu nunca pudesse responder.

Nymira sorriu, nostálgica.

— Eu lembro de quando o vi pela primeira vez. O Tiberan estava desesperado. Tentando manter as raízes vivas e o fluxo da água da caverna constante. Ele passava noites inteiras lá.

— Ele falava comigo — disse Lorien, quase num sussurro. — Antes mesmo de eu entender o que era voz.

— Ele nunca desistiu — completou Nymira. — Por isso… é tão bom ver você assim agora. Vivo de verdade.

Lorien respirou fundo, sentindo o cheiro molhado da floresta, o vento frio e o som distante de animais.

— Tudo é novo. Cheiro, cor, dor, vento… Até o silêncio. — Ele sorriu. — Quero conhecer tudo antes que desapareça.

Nymira estremeceu com a frase. Antes que desaparecesse.

O mundo inteiro parecia instável… como se a falta da árvore o estivesse desfazendo por dentro.

— Por isso você quer ajudar Tiberan? — ela perguntou.

— Porque ele me salvou. E porque… eu acho que não temos muito tempo.

Eles seguiram mais alguns metros até a floresta abrir em um pequeno vale.

Era ali.

No centro, repousava uma raiz colossal — espessa como uma torre, ainda chamuscada, mas pulsando por dentro com luz verde-esmeralda, como um coração teimoso que não queria morrer.

Nymira levou a mão à boca, os olhos brilhando.

— Essa… é uma parte viva da Yggdrasil.

Lorien se aproximou, sentindo a pulsação se conectar à dele, como uma memória antiga.

— Não estamos sozinhos.

A frase saiu baixa, quase inaudível.

Da sombra da raiz, algo se moveu.

Não um animal.

Não um Valerion.

Uma figura curva, retorcida… como se tivesse sido moldada de madeira morta… e carne viva.

Nymira recuou.

Lorien reconheceu.

O mesmo brilho

A mesma língua

A mesma presença que havia tomado seu corpo dias antes.

Ele está… guardando o fragmento. — sussurrou Lorien.

A criatura ergueu o rosto.

E os olhos — vazios, brancos, sem alma — se abriram.

O capítulo termina com a respiração dos dois travando ao mesmo tempo.