Valerion - fragmentos do mundo
9 Os Primeiros Habitantes
A floresta parecia prender a respiração. O chão afundou num tremor lento quando Ephiron girou o punho envolto em chamas, avançando contra o homem de cabelos roxos. Fafnir sequer ergueu as mãos. Bastou inclinar o queixo para que a primeira rajada de fogo fosse engolida por uma sombra espessa.
— Fogo fátuo? — disse Fafnir, sem emoção. — A herança de Samuel. Incompleta. Impura.
Ephiron cerrrou os dentes, o fogo subindo pelas costas, contornando o rosto.
— Pode falar o quanto quiser. Eu derrotei o Ás mais forte de Hyperia. Não vou cair para um velho fantasiado.
O canto da boca de Fafnir moveu-se… não para sorrir. Para julgar.
— Vocês, Valerion… híbridos frágeis. Metade carne humana, metade seiva roubada. Acham mesmo que podem enfrentar um ser puro?
Ele ergueu a mão pela primeira vez. Apenas isso bastou para o ar ficar pesado como água profunda. Os mortos-vivos ao redor suspiraram, como se o movimento desse vida às runas que cintilavam em seus corpos.
Ephiron chutou o solo, o impacto abrindo um arco de fogo azul.
Mornath, ainda desacordado, mexeu um dedo. Eryne tossiu sangue. O jovem Hyperion estava sozinho.
Fafnir avançou. O chão rachou sob seus pés — não em resposta à força, mas à presença.
— Nós existíamos antes de seu mundo nascer. Antes de sua árvore brotar. Antes dos seus “deuses” chegarem do espaço pedindo para ser salvos.
Um estalo ecoou quando Ephiron tentou bloquear o golpe. O braço inteiro dele latejou.
— Humanos caminham neste planeta há milênios menos do que vocês imaginam — continuou Fafnir. — E ainda assim ousam chamá-lo de “mundo novo”.
Ephiron recuou, mas Fafnir estava na frente dele de novo.
O ataque seguinte foi tão rápido que o jovem deus só viu um borrão roxo, e a dor veio depois. Fafnir segurou-o pela gola, levantando-o como se fosse um boneco de madeira.
— Um ser incompleto não derrota um habitante primordial.
Ephiron cuspiu sangue… e fogo. A explosão o soltou das mãos do inimigo e o jogou para trás, derrubando árvores.
Fafnir não se moveu um centímetro.
— Continue. Quero ver até onde um híbrido consegue chegar antes de quebrar.
Muito longe dali, a luz era suave, filtrada pelo musgo azul.
Nymira caminhava ao lado de Lorien, que observava tudo com o fascínio de uma criança e a calma de alguém que ainda aprendia o ritmo do mundo.
— Aqui era mais verde antes — disse Nymira, ajoelhando-se para tocar o solo escuro. — Dá pra sentir. Como se a terra estivesse com febre.
Lorien parou, tocando uma árvore partida.
— Quando eu estava… — ele hesitou, procurando a palavra correta — preso… eu ouvia as vibrações. Como se o mundo me chamasse o tempo todo, mas eu nunca pudesse responder.
Nymira sorriu, nostálgica.
— Eu lembro de quando o vi pela primeira vez. O Tiberan estava desesperado. Tentando manter as raízes vivas e o fluxo da água da caverna constante. Ele passava noites inteiras lá.
— Ele falava comigo — disse Lorien, quase num sussurro. — Antes mesmo de eu entender o que era voz.
— Ele nunca desistiu — completou Nymira. — Por isso… é tão bom ver você assim agora. Vivo de verdade.
Lorien respirou fundo, sentindo o cheiro molhado da floresta, o vento frio e o som distante de animais.
— Tudo é novo. Cheiro, cor, dor, vento… Até o silêncio. — Ele sorriu. — Quero conhecer tudo antes que desapareça.
Nymira estremeceu com a frase. Antes que desaparecesse.
O mundo inteiro parecia instável… como se a falta da árvore o estivesse desfazendo por dentro.
— Por isso você quer ajudar Tiberan? — ela perguntou.
— Porque ele me salvou. E porque… eu acho que não temos muito tempo.
Eles seguiram mais alguns metros até a floresta abrir em um pequeno vale.
Era ali.
No centro, repousava uma raiz colossal — espessa como uma torre, ainda chamuscada, mas pulsando por dentro com luz verde-esmeralda, como um coração teimoso que não queria morrer.
Nymira levou a mão à boca, os olhos brilhando.
— Essa… é uma parte viva da Yggdrasil.
Lorien se aproximou, sentindo a pulsação se conectar à dele, como uma memória antiga.
— Não estamos sozinhos.
A frase saiu baixa, quase inaudível.
Da sombra da raiz, algo se moveu.
Não um animal.
Não um Valerion.
Uma figura curva, retorcida… como se tivesse sido moldada de madeira morta… e carne viva.
Nymira recuou.
Lorien reconheceu.
O mesmo brilho
A mesma língua
A mesma presença que havia tomado seu corpo dias antes.
— Ele está… guardando o fragmento. — sussurrou Lorien.
A criatura ergueu o rosto.
E os olhos — vazios, brancos, sem alma — se abriram.
O capítulo termina com a respiração dos dois travando ao mesmo tempo.
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