A criatura deu um passo à frente, e o ar inteiro pareceu recuar. Seu corpo era uma mistura de madeira morta, carne viva e musgo pulsante, como se tivesse crescido do próprio solo. Os olhos — vazios, brancos, profundos — encararam Nymira e Lorien com uma serenidade que não tinha nada de humana.

Zan-tae.

O nome saiu como um eco dentro da cabeça deles, mais pensado do que falado.

Nymira firmou os pés.

— Você… entende nossa língua?

Zan-tae inclinou a cabeça, curioso. As runas verdes em seu peito palpitaram como um coração profundo.

Entendo todas. Já existia antes de vocês aprenderem a nomear o vento.

A voz não vibrava no ar — vibrava dentro dos ossos.

Ele então olhou para a raiz colossal atrás de si.

Veio atrás disto? O último resquício do que vocês queimaram… duas vezes.

Lorien abriu a boca, surpreso.

Nymira apertou os punhos.

— Nós não queimamos nada. Estamos tentando reconstruir a árvore, salvar o que restou!

Zan-tae riu. Ou pareceu rir — o som era quebrado, quase como galhos se partindo.

Salvar?

Ele se aproximou, e o chão rachou sob seus passos.

Vocês querem é impedir o fim inevitável deste planeta. Primeiro, destruíram todas as árvores. Depois, tentaram exigir mais poder da última. E agora… querem colecionar seus restos.

Os olhos brancos brilharam.

O planeta finalmente decidiu revidar. Eu sou sua voz.

Lorien avançou um passo à frente, o corpo tenso.

— Não vamos deixar você levar o fragmento.

Vocês dois? Criança renascida e um híbrido trêmulo?

Zan-tae ergueu a mão e o vento formou um espiral que jogou os dois no chão.

Eu já vi eras nascendo e morrendo. Vocês são cinzas novas, nada mais.

A luz verde do fragmento começou a flutuar, puxada pela energia de Zan-tae.

Nymira se levantou com dificuldade, formando lanças d’água.

Lorien, ofegante, invocou espinhos e raízes sob os pés.

— Lorien… — Nymira sussurrou — juntos!

Eles se lançaram para frente, mas Zan-tae apenas estalou os dedos, e uma parede de energia verde os repeliu como se fossem poeira.

Fracos. Todos fracos. O mundo cansou de vocês.

O fragmento já estava em sua mão. Ele começou a se virar — até Lorien erguer a voz.

Mas a voz… não era dele.

Uma língua antiga, profunda, quase como o próprio planeta falando por dentro dele. As palavras vibraram pelo vale. O vento parou. O som parou. O fragmento flutuou no ar, hesitante.

Zan-tae congelou, virando-se lentamente.

Como…

Pela primeira vez, sua expressão mudou.

Como você conhece essa língua? Ela… era dos primeiros. Dos que viviam antes das Árvores-Mães.

Lorien estava em transe, os olhos completamente brancos.

As runas surgiram no pescoço dele como brasas verdes, queimando a pele sem ferir.

Zan-tae recuou um passo.

Não pode ser. Um… de vocês… carregando a Voz Antiga?

Sua respiração soou densa e assustada.

O planeta não permitirá. E eu… também não.

Ele se virou abruptamente e desapareceu em uma espiral de raízes e poeira.

O fragmento caiu no chão com um baque suave.

Lorien desabou.

Nymira correu até ele, segurando-o pelos ombros.

— Lorien! Ei! Respira!

Ele tossiu, piscou… e a runa no pescoço brilhou mais uma vez antes de desaparecer sob a pele.

— Eu… não sei o que foi aquilo — disse ele, ofegante.

Nymira o ajudou a se levantar.

— Vamos descobrir juntos. Mas antes… o fragmento.

Ela ergueu as mãos. Uma bolha perfeita de água se formou, envolvendo a raiz brilhante. A luz verde pulsou de dentro, iluminando o vale.

— Temos que levar isso ao Tiberan — disse ela.

Lorien assentiu, ainda trêmulo.

A câmera do mundo mudou.

Muito longe dali, Tiberan e Anastásia caminhavam por uma paisagem esquecida.

O broto sagrado pulsava fraco no braço do deus de Phytonia.

— Aqui é… — Anastásia murmurou, espantada — parece antigo.

A névoa se abriu.

O que surgiu diante deles eram ruínas imensas, construções de pedra cobertas de inscrições impossíveis… e estátuas partidas de seres que não eram humanos, nem Valerion.

Tiberan prendeu a respiração.

— Isso… não é obra dos nossos ancestrais.

Ele tocou uma coluna quebrada.

— É muito mais antigo.

As sombras pareciam observar.

O passado, finalmente, estava despertando.