Valerion - fragmentos do mundo
10 Zan-Tae
A criatura deu um passo à frente, e o ar inteiro pareceu recuar. Seu corpo era uma mistura de madeira morta, carne viva e musgo pulsante, como se tivesse crescido do próprio solo. Os olhos — vazios, brancos, profundos — encararam Nymira e Lorien com uma serenidade que não tinha nada de humana.
— Zan-tae.
O nome saiu como um eco dentro da cabeça deles, mais pensado do que falado.
Nymira firmou os pés.
— Você… entende nossa língua?
Zan-tae inclinou a cabeça, curioso. As runas verdes em seu peito palpitaram como um coração profundo.
— Entendo todas. Já existia antes de vocês aprenderem a nomear o vento.
A voz não vibrava no ar — vibrava dentro dos ossos.
Ele então olhou para a raiz colossal atrás de si.
— Veio atrás disto? O último resquício do que vocês queimaram… duas vezes.
Lorien abriu a boca, surpreso.
Nymira apertou os punhos.
— Nós não queimamos nada. Estamos tentando reconstruir a árvore, salvar o que restou!
Zan-tae riu. Ou pareceu rir — o som era quebrado, quase como galhos se partindo.
— Salvar?
Ele se aproximou, e o chão rachou sob seus passos.
— Vocês querem é impedir o fim inevitável deste planeta. Primeiro, destruíram todas as árvores. Depois, tentaram exigir mais poder da última. E agora… querem colecionar seus restos.
Os olhos brancos brilharam.
— O planeta finalmente decidiu revidar. Eu sou sua voz.
Lorien avançou um passo à frente, o corpo tenso.
— Não vamos deixar você levar o fragmento.
— Vocês dois? Criança renascida e um híbrido trêmulo?
Zan-tae ergueu a mão e o vento formou um espiral que jogou os dois no chão.
— Eu já vi eras nascendo e morrendo. Vocês são cinzas novas, nada mais.
A luz verde do fragmento começou a flutuar, puxada pela energia de Zan-tae.
Nymira se levantou com dificuldade, formando lanças d’água.
Lorien, ofegante, invocou espinhos e raízes sob os pés.
— Lorien… — Nymira sussurrou — juntos!
Eles se lançaram para frente, mas Zan-tae apenas estalou os dedos, e uma parede de energia verde os repeliu como se fossem poeira.
— Fracos. Todos fracos. O mundo cansou de vocês.
O fragmento já estava em sua mão. Ele começou a se virar — até Lorien erguer a voz.
Mas a voz… não era dele.
Uma língua antiga, profunda, quase como o próprio planeta falando por dentro dele. As palavras vibraram pelo vale. O vento parou. O som parou. O fragmento flutuou no ar, hesitante.
Zan-tae congelou, virando-se lentamente.
— Como…
Pela primeira vez, sua expressão mudou.
— Como você conhece essa língua? Ela… era dos primeiros. Dos que viviam antes das Árvores-Mães.
Lorien estava em transe, os olhos completamente brancos.
As runas surgiram no pescoço dele como brasas verdes, queimando a pele sem ferir.
Zan-tae recuou um passo.
— Não pode ser. Um… de vocês… carregando a Voz Antiga?
Sua respiração soou densa e assustada.
— O planeta não permitirá. E eu… também não.
Ele se virou abruptamente e desapareceu em uma espiral de raízes e poeira.
O fragmento caiu no chão com um baque suave.
Lorien desabou.
Nymira correu até ele, segurando-o pelos ombros.
— Lorien! Ei! Respira!
Ele tossiu, piscou… e a runa no pescoço brilhou mais uma vez antes de desaparecer sob a pele.
— Eu… não sei o que foi aquilo — disse ele, ofegante.
Nymira o ajudou a se levantar.
— Vamos descobrir juntos. Mas antes… o fragmento.
Ela ergueu as mãos. Uma bolha perfeita de água se formou, envolvendo a raiz brilhante. A luz verde pulsou de dentro, iluminando o vale.
— Temos que levar isso ao Tiberan — disse ela.
Lorien assentiu, ainda trêmulo.
A câmera do mundo mudou.
Muito longe dali, Tiberan e Anastásia caminhavam por uma paisagem esquecida.
O broto sagrado pulsava fraco no braço do deus de Phytonia.
— Aqui é… — Anastásia murmurou, espantada — parece antigo.
A névoa se abriu.
O que surgiu diante deles eram ruínas imensas, construções de pedra cobertas de inscrições impossíveis… e estátuas partidas de seres que não eram humanos, nem Valerion.
Tiberan prendeu a respiração.
— Isso… não é obra dos nossos ancestrais.
Ele tocou uma coluna quebrada.
— É muito mais antigo.
As sombras pareciam observar.
O passado, finalmente, estava despertando.
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