Valerion - fragmentos do mundo

11 Plomyades: a flor de cinco pétalas


Tiberan avançava devagar entre colunas quebradas, cada passo levantando poeira de um tempo que ninguém mais lembrava. Anastásia vinha logo atrás, apoiando-se na lança curta. O silêncio do lugar era pesado, como se tudo ali estivesse esperando para despertar.

— Soraja me contou sobre você — disse Tiberan, quebrando o silêncio pela primeira vez. — Sobre a velha que quase matou ela e Ephiron no porão de uma casa abandonada.

Anastásia soltou uma risada rouca.

— Velhos hábitos. Eu era teimosa, amarga… e bem menos inteligente. — Passou a mão nas próprias costas. — E mais jovem, o que ajudava. Mas esses tempos acabaram. Agora sirvo minha deusa Velaska. Ou melhor, Soraja.

Tiberan a observou com cuidado.

— Você está forte… mas seu corpo já não acompanha seu espírito.

— Esse corpo é teimoso, como eu. Mas não vai durar para sempre — respondeu ela, sincera. — Preciso encontrar uma forma de ajudar Soraja enquanto ainda posso.

Tiberan parou. Tocou a terra e, do solo quebrado, brotou uma flor azulada de cinco pétalas retorcidas. Ele a colheu e entregou à velha.

Plomyades.

Os olhos de Anastásia se arregalaram.

— Uma flor amarga, proibida antigamente. Cada pétala pode te dar força por um dia inteiro… mas aproxima seu corpo da morte. Só coma se for realmente necessário.

Anastásia segurou a flor como quem segura o próprio destino.

— Obrigada… Phýton.

Muito longe dali, o som seco de portas se abrindo cortava o ar como golpes de espada.

Soraja surgia, desaparecia, surgia de novo. Cada porta levava a outro lugar: montanhas, cavernas, campos mortos, vales cheios de névoa. Ela não tinha um destino certo. Qualquer resposta serviria — o rastro de Veruska, um cheiro de fragmento, um sussurro antigo.

Arkanis a seguia sempre dois passos atrás, silencioso como um fantasma que carregava arrependimentos demais.

A certa altura, Soraja parou e virou-se, irritada.

— Você não precisa ficar me seguindo tão de perto.

Arkanis não se defendeu. Em vez disso, ergueu uma esfera de cristal entre as mãos. Dentro dela… um livro.

Soraja arregalou os olhos.

— Esse… é o livro que li em Valerah. O que encontrei nos escombros quando a cidade estava cristalizada…

Arkanis baixou a cabeça.

— Era meu. Naquele tempo, eu colecionava conhecimento. E… o protegia do jeito errado.

O cristal brilhou, e a memória tomou forma entre eles:

Flashback

Um Arkanis muito mais jovem estudava sozinho numa sala iluminada por reflexos azuis. Havia dezenas — talvez centenas — de orbes de cristal ao seu redor, cada um contendo um livro, ou um mapa, ou um artefato preso no tempo.

Ele sorria ao ler.

A paixão era real.

O brilho nos olhos… sincero.

Mas, conforme os cristais aumentavam, a ambição crescia junto.

Primeiro congelou bibliotecas inteiras para “preservá-las”.

Depois, pessoas — “para que não morram antes de me ensinarem”.

Por fim… cidades.

Foi assim que se tornou valete de Phytonia.

Não pela virtude.

Pela utilidade.

O jovem Arkanis, cada vez mais consumido por gelo e solidão, apagava lentamente qualquer parte dele que fosse humana.

O flash terminou.

Soraja segurou o cristal com firmeza, sem medo.

— Obrigada… por confiar isso a mim. Sei que neste livro vou encontrar pistas do que estamos enfrentando. Da outra metade da história que Veruska mencionou.

Arkanis ergueu o olhar.

Havia humildade ali. E culpa. E… algo como esperança.

— Eu quero reparar o que fiz — disse ele, enfim. — Se você me permitir, Velaska… digo… Soraja… eu serei sua lâmina. Sua muralha. O que for preciso.

Soraja suspirou.

— Não sei onde isso vai nos levar, Arkanis. Mas confio no que Nymira viu em você. E eu confio nela mais do que confio no mundo.

Por um momento, o ás dos Cristais sorriu — como se aquele fosse o primeiro sorriso sincero em toda a sua vida.

— Então vamos atrás das respostas, minha senhora.

Soraja respirou fundo, abriu uma nova porta com um golpe firme…

E os dois atravessaram juntos, como aliados pela primeira vez.