Tiberan avançava pela parte mais profunda das ruínas. O vento soprava pelas fendas das paredes partidas, produzindo um lamento áspero, como se algo adormecido ali ainda respirasse. Anastásia caminhava com cuidado, usando a lança para afastar poeira e entulhos.

— Esse lugar… — murmurou ela. — Parece mais antigo do que tudo o que conhecemos.

Tiberan concordou com um aceno silencioso. A vegetação havia se enroscado nas colunas de pedra, mas não o suficiente para esconder totalmente os desenhos talhados nelas. Com um toque, ele limpou parte da superfície — e a imagem surgiu com clareza.

— Veja — chamou Anastásia — símbolos.

No muro, cinco runas estavam dispostas como vértebras de um mesmo corpo. Não eram como runas de Valerion, nem como aquelas que marcavam as armas dos Áses. Eram mais antigas, mais densas, com traços que lembravam raízes e astros ao mesmo tempo.

— Cinco braços… cinco forças… — Tiberan murmurou, seguindo as runas com os dedos. — Isso existia muito antes do primeiro humano colocar o pé nesse mundo.

— É a primeira pista concreta que temos — disse Anastásia. — Pode ser o que Veruska queria insinuar. Ou pode ser algo pior.

Tiberan não respondeu. Seu broto sagrado pulsou sob a pele, inquieto — como se reconhecesse aquelas runas.

Do outro lado do mundo, Soraja sentou-se com as costas apoiadas numa rocha áspera enquanto Arkanis mantinha vigilância à distância. A esfera de cristal com o livro repousava sobre seu colo. Ela tocou a superfície até o gelo se abrir em rachaduras finas, permitindo que o volume antigo escorregasse para suas mãos.

— Finalmente — murmurou. — A outra metade da história deve começar aqui.

Arkanis cruzou os braços, atento.

— Esse livro descreve séculos de conhecimento acumulado. Sinta-se livre para perguntar qualquer coisa…

— Eu vou — respondeu ela, já folheando as primeiras páginas.

Ela passou por mapas antigos, diagramas da Yggdrasil, relatos de cidades desaparecidas, listas de linhagens que Soraja nunca ouvira falar. Cada linha parecia ampliar um buraco dentro das certezas dela.

— Cada deus tem um capítulo... a maioria, só boatos e superstições populares. Essa parte aqui eu li da última vez, falando sobre Demáscules.

Arkanis aproximou-se para ver melhor.

— Esse Demáscules… sempre me intrigou. Os textos dizem que ele protegia algo que não devia existir.

Antes que Soraja pudesse perguntar o que isso significava, o chão tremeu.

Primeiro leve.

Depois forte o suficiente para fazer o livro escorregar de suas mãos.

Arkanis ergueu a cabeça.

— Algo está vindo.

O solo rachou na frente deles, e uma massa colossal emergiu. Um verme gigantesco, coberto de placas brutas, abriu a bocarra cravejada de presas. Enormes runas antigas pulsavam em vermelho e verde em sua carapaça.

— As mesmas marcas… — disse Soraja. — Ele é como os mortos-vivos que vimos antes…

Arkanis assumiu postura defensiva, cristais surgindo nas mãos.

— Atrás de mim.

O verme avançou, rugindo numa frequência que vibrava dentro dos ossos. Soraja rolou para o lado, abriu uma porta instintivamente e atravessou, reaparecendo a poucos metros, golpeando o monstro com uma lâmina recém-forjada.

O golpe ricocheteou.

A criatura nem percebeu.

— ELE É INVENCÍVEL?! — gritou Soraja.

— Nenhum ser é — respondeu Arkanis, criando uma lança translúcida. — Mas este… foi feito para não morrer.

O verme atacou novamente, forçando ambos a recuar. Arkanis saltou sobre uma pedra, lançou cristais densos que se cravaram no monstro — mas o ser apenas engoliu as pedras como se fossem nada.

Soraja abriu outra porta, teletransportando-se para cima da criatura para golpeá-la por trás.

— Ache um ponto fraco!

— Ele não tem — Arkanis rangeu os dentes. — Mas podemos prendê-lo.

Os dois se prepararam para o próximo avanço quando um grito distante ecoou pelo vento — Tiberan chamando por eles.

Enquanto isso, a quilômetros dali, Nymira caminhava apressada por um vale estreito. A bolha d’água com o fragmento flutuava acima de sua mão.

— Tiberan precisa disso antes que algo aconteça — ela repetia para si, tentando ignorar o latejar da mancha escura em seu braço.

Seu coração acelerava sem motivo aparente — ou talvez o motivo fosse o mesmo que estava abalando o mundo inteiro.

Alguma coisa tinha despertado.

Ephiron sentia isso melhor que todos.

A luta contra Fafnir era uma dança cruel. O ser antigo se movia sem esforço, desviando de todas as investidas. Suas mãos marcadas de runas negras desenhavam símbolos no ar, fazendo mais e mais mortos-vivos saírem da terra como se fossem sementes brotando.

Mornath caiu primeiro, atingido por um golpe que o lançou contra três árvores. Eryne tentou contra-atacar, mas Fafnir a derrubou com um único movimento.

— Valerion são criaturas incompletas. — A voz dele soou calma, cruel. — Metade humanos, metade parasitas da árvore que vocês mesmos destruíram.

Ephiron arfava, o peito queimando.

— Nós salvamos o mundo!

— Vocês o condenaram duas vezes — corrigiu Fafnir. — Não merecem o que herdaram.

Ele ergueu a mão. A runa em seu pescoço brilhou como um sol morto.

— Adeus, falso Hyperion.

O golpe veio como uma lâmina de escuridão.

Ephiron fechou os olhos — prontо para morrer.

Mas o ataque nunca o atingiu.

Uma onda de fogo azul varreu a floresta inteira, transformando árvores em carvões fumegantes.

Uma presença esmagadora caminhou entre as chamas.

— Quem ousa… — Fafnir recuou.

O homem que surgiu tinha cabelos rubros em brasa, roupas rasgadas, luvas negras queimadas, e olhos que pareciam dois vulcões vivos.

— Kaelvor — sussurrou Ephiron.

Mas antes que pudesse sorrir, ele viu.

No pescoço do irmão…

uma runa vermelha brilhava como sangue em prata.

Algo nele não era mais o Kaelvor que conheciam.

Algo tinha marcado o fogo.