Valerion - fragmentos do mundo
15 O bom filho à casa retorna
O silêncio depois da revelação de Kaelvor ainda pairava no ar como fuligem. Ninguém ousou tocá-lo; ninguém ousou negar o que ele havia dito. A runa vermelha brilhava em seu pescoço como um ferimento aberto, pulsando junto do fogo interno que ele dizia sentir. Tiberan respirou fundo, limpou a poeira do manto e foi o primeiro a recuperar o foco.
— Temos fragmentos para encontrar — disse, firme. — A árvore não vai renascer sozinha.
Soraja cruzou os braços.
— Eu vou voltar para Velaskia. Passei tempo demais fugindo do título de Velaska. Agora… preciso usá-lo para o bem. Estruturar a cidade. Preparar um exército que realmente sirva para proteger esse mundo.
Anastásia sorriu com o canto da boca, orgulhosa.
Tiberan assentiu.
— É o que precisa ser feito. E nós seguiremos em frente. Ainda há fragmentos por aí… e seres antigos os guardando.
Nymira deu um passo à frente.
— Eu vou com você — disse ao amigo. — Meus poderes estão falhando… mas enquanto eu tiver força, vou ajudar a trazer a árvore de volta.
Tiberan encarou o braço dela, onde a mancha escondida sob o tecido parecia pulsar. Ele não comentou, mas a preocupação era nítida.
Ephiron ajeitou a capa.
— Eu vou também. Fafnir não foi um inimigo qualquer. Se há seres como ele por aí, não vou deixar isso nas mãos de vocês sozinhos.
A voz dele parecia segura, mas o olhar estava fixo em Kaelvor, ainda sentado, respirando de forma pesada.
— Mornath e Eryne vão levar Kaelvor para Hyperia — concluiu. — Talvez… seja bom para ele voltar para casa.
Kaelvor ergueu os olhos, quase zombando.
— Não preciso de babás — rosnou.
Nymira ajoelhou ao lado dele, ajeitando a água curativa que envolvia seu torso.
— Talvez não precise — disse com gentileza — mas pode ser bom ver sua cidade outra vez. Ver o que ela virou. Quem está lá. Quem te espera.
Kaelvor desviou o olhar, desconfortável. Bufou. Mas não argumentou.
— Tudo bem. Vou até lá. Só para ver o estrago.
Soraja segurou a pequena chave-pingente em seu colar. A fenda dourada abriu-se no ar como uma pétala girando.
— Anastásia, vamos.
As duas atravessaram a porta e desapareceram.
Velaskia as recebeu com a melodia familiar de martelos e metais. Mas havia algo novo: bandeiras erguidas, símbolos de Velaska bordados por mãos apressadas, crianças correndo com pequenas portas de madeira pintadas com tinta fresca. Era estranho — e bonito — ver como a cidade florescia por acreditar nela.
Irin quase caiu das escadas do palácio ao vê-las.
— Deusa! Quer dizer… Soraja! Quero dizer… Velaska! — Ele tropeçou nas palavras e nos próprios pés. — Temos um prisioneiro!
Soraja ergueu uma sobrancelha.
— E por que exatamente um prisioneiro?
Irin coçou a nuca.
— Ele dizia ser… o Ás de Velaska.
Soraja arregalou os olhos.
— Arkanis?!
Ele foi conduzido até a masmorra — que não era nada mais que uma sala trancada com pinturas de portas por toda a parede. Lá dentro, sentado contra a pedra, estava Arkanis dos Cristais. O homem ergueu o rosto imediatamente ao vê-la.
— Soraja. — Ele sorriu, mesmo ferido. — Finalmente encontrei você.
Ela correu até ele, ajudando-o a ficar de pé.
— Como sobreviveu ao verme?! Achei que tinha… sumido para sempre!
Arkanis fez uma careta de dor.
— Congelar o próprio sangue por dentro ajuda em algumas situações extremas. Mas… não recomendo.
Os dois riram. Pela primeira vez desde a guerra, ela viu humanidade nos olhos dele — não obsessão.
— Vem — disse Soraja. — Você tem um posto para assumir.
Ao sair do palácio com Arkanis ao lado e Anastásia e Irin logo atrás, a população começou a aplaudir espontaneamente. Portas de madeira eram erguidas como bandeiras; flores eram deixadas aos pés da escadaria. O pai de Soraja, com as mãos sujas de fuligem, orgulhoso, sorriu como se a filha fosse o próprio alvorecer.
Soraja ergueu a mão timidamente — e aquilo foi o suficiente para a cidade inteira vibrar.
Em Hyperia, a recepção não foi menos marcante.
Os grifos pousaram no pátio interno e Tyr, agora com sua armadura prateada e um manto dourado — o emblema da Lâmina Insistente — esperava, firme e sério.
Mornath e Eryne desceram primeiro, carregando Kaelvor apoiado nos ombros.
Tyr deu alguns passos, a expressão rígida como pedra.
— Você… finalmente voltou.
Kaelvor ergueu um canto da boca.
— Agora talvez você consiga me derrotar nas ruas de Hyperia, enquanto a população me chama de herege.
Tyr estreitou os olhos, postura tensa, mão na empunhadura da espada.
Mornath e Eryne prenderam a respiração.
E então, Tyr explodiu em risadas, jogando a cabeça para trás como um garoto.
— Finalmente! Seu idiota! — Ele correu e abraçou Kaelvor com força suficiente para quebrar um mortal.
Kaelvor engasgou de surpresa.
— Eu realmente… não estava esperando isso.
— Você nunca espera nada — disse Tyr, ainda rindo. — Agora venha. Temos muito a discutir. E uma cidade inteira esperando você… de novo.
Kaelvor olhou para o horizonte.
O fogo na runa de seu pescoço brilhou suavemente.
Mas, por um instante, um vestígio do antigo Kaelvor — o que sorria, o que lutava, o que pertencia — pareceu voltar.
Ainda que por apenas um segundo.
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