O fragmento pulsava nas mãos de Tiberan como um coração recém-despertado. Assim que o uniu ao broto sagrado, a madeira viva reagiu com um estalo agudo. A raiz que atravessava seu braço brilhou por dentro, como se lembrasse quem havia sido antes da queima da Yggdrasil. A energia percorreu seu peito, o ar ao redor estremeceu e ele sentiu — como se o próprio mundo murmurasse — o caminho do próximo fragmento.

Ele abriu os olhos devagar.

— Achei. Fica ao sul… perto do vulcão adormecido de Arak-Thur.

Nymira inquietou-se ao ouvir o nome. Ephiron, ao contrário, parecia animado demais.

— Um vulcão? Ótimo. Estava precisando de calor.

Tiberan guardou o broto e olhou para o irmão, Lorien, que observava tudo em silêncio. A runa verde em seu pescoço ainda pulsava, discreta e misteriosa.

— Lorien, preciso que você fique. Cuide de Phytonia enquanto eu estiver fora.

Lorien pareceu querer protestar. A sombra de um sorriso quase infantil passou por seu rosto.

— Mas eu posso ajudar. Posso encontrar fragmentos… posso—

— Pode proteger nossa cidade — interrompeu Tiberan com firmeza, mas sem dureza. — Se algo acontecer comigo, ou com a árvore… você será a última raiz viva de Phytonia.

Lorien abaixou a cabeça. Obedeceu. Mas a runa em seu pescoço brilhou uma única vez, como uma respiração contida.

O sul era um deserto de pedras negras que pareciam ter sido mordidas por fogo. O trio avançava em silêncio — Tiberan atento ao broto, Nymira concentrada em manter o corpo estável, Ephiron reclamando do calor mesmo sendo um usuário de fogo.

— Esse vulcão nem está ativo — resmungou ele, enxugando o suor. — Mas parece que o sol bate só aqui.

— Isso não é calor comum — murmurou Nymira. — É energia antiga.

Tiberan já havia percebido. A raiz em sua mão vibrava como se tentasse voltar para dentro da terra.

— O fragmento está lá dentro — disse por fim. — Bem no coração do vulcão.

A boca da cratera se abriu diante deles como a entrada de uma fera gigante, morta há séculos. Rochas avermelhadas desciam em um declive perigoso, e a luz vindo lá de baixo não era de lava, mas de um brilho esverdeado, pulsante — o segundo fragmento.

— Parece fácil demais — Ephiron murmurou.

Desceram com cautela. Nymira guiava a queda com filetes de água, criando superfícies para manter o equilíbrio. O ar era denso, estranho. Ecoava. Sentia-se como estar dentro de um pulmão adormecido.

No centro da cratera, o fragmento flutuava sobre uma pedra. O brilho era intenso demais para ser ignorado. Ephiron deu três passos — e parou.

Havia alguém ali.

Na sombra de uma saliência rochosa, sentado como um sentinela esquecido, estava um homem. Ombros largos, cabelos negros e olhos tão afiados que cortavam o ar. O manto que vestia estava rasgado, mas o corpo parecia mais firme que nunca.

— Não… — sussurrou Ephiron. — Deymos?

O homem levantou-se devagar, como se cada movimento reacordasse algo antigo. A luz verde do fragmento refletiu no pescoço dele. Uma runa. Não uma marca comum — mas uma runa profunda, escura, que parecia sugar a luz ao redor.

A runa da morte.

O sorriso dele não era humano.

— Ephiron — disse, a voz arrastada, distorcida, como se falassem duas pessoas ao mesmo tempo. — Filho de Alenor, novo Hyperion… veio buscar o que não lhe pertence.

Ephiron não respondeu de imediato. Ele ainda tentava conciliar aquela visão com a memória do antigo rival — o guerreiro orgulhoso, temperamental, teimoso, mas com honra.

O homem à frente não tinha honra. Não tinha vida.

— O que… aconteceu com você? — Ephiron finalmente forçou.

Ele inclinou a cabeça, as pupilas desaparecendo por um instante.

— Deymos era fraco. Ineficiente. Recusou sua oferta, recusou seu deus. Agora… ele é SÒMA. Aquele que carrega a runa da morte. O ancestral que dormia nas raízes deste planeta.

Nymira recuou instintivamente.

— Ancestral…? — murmurou.

Tiberan ergueu o broto sagrado. A raiz se contorceu como se tentasse fugir.

SÒMA sorriu.

— O segundo braço desperta. Vocês queimaram a Árvore duas vezes. Agora… nós acordaremos também.

Ele avançou.

Tudo aconteceu rápido demais.

Uma onda de energia negra varreu a caverna. Ephiron foi o primeiro a entrar na frente — e foi jogado para trás como um boneco. A marca da runa queimou sua pele com um toque.

Tiberan criou raízes de proteção — SÒMA as cortou como papel.

Nymira espalhou água curativa pelo ar — ele a fez evaporar apenas com a presença.

Ephiron voltou à luta, criando chamas azuladas, seu fogo fátuo. Desferiu golpes rápidos, precisos, furiosos. Nenhum acertou. SÒMA movia-se como um espectro — sem peso, sem corpo, sem barreiras.

Tiberan juntou-se ao ataque, tentando prender SÒMA com raízes de ferro.

Nymira o atacou com lâminas d'água cristalina.

Nada.

O ancestral da morte caminhava entre golpes como se estivesse passeando por um campo vazio.

Ephiron sentiu o desespero subir.

— Por que… você não cai?! — gritou, avançando com suor e sangue na testa.

SÒMA segurou seu punho no ar.

— Porque vocês não podem matar o que já não vive.

E esmagou Ephiron contra o chão. A rocha partiu. O fogo se apagou. O som do impacto ecoou pela cratera inteira.

Nymira o chamou, aterrorizada.

Tiberan gritou o nome do amigo.

Mas SÒMA apenas se virou para o fragmento — a luz verde refletida em seus olhos vazios.

— O terceiro braço despertará em breve…

E desapareceu em poeira.

Como se nunca tivesse estado ali.

Tiberan correu até Ephiron.

Nymira caiu de joelhos.

O fragmento pulsou sozinho, intacto.

E a sombra da morte pairou sobre o mundo pela primeira vez em milênios.