O corpo de Ephiron pesava como se tivesse perdido metade da vida no caminho — e talvez tivesse mesmo. Nymira mal conseguia respirar de preocupação enquanto moldava uma esfera d’água ao redor dele para manter os sinais vitais. Tiberan avançava ao seu lado, carregando o fragmento recém-recuperado.

— Aguente… — Nymira repetia entre suspiros curtos.

Tiberan olhou para o amigo inconsciente. A marca sombria deixada por SÒMA ainda queimava o ombro de Ephiron, como se a morte tivesse cravado garras ali.

— Precisamos chegar a Valerah rápido. O lago vai salvá-lo.

Nymira assentiu, mas parecia aflita por outro motivo — algo mais profundo. Os dois seguiram pelos atalhos aquosos que apenas ela conseguia abrir. A água do mundo se distorcia a seu comando, criando túneis e passagens até que, finalmente, emergiram diante dos portões vivos de Valerah.

O caos tomou forma antes mesmo de entrarem.

As muralhas orgânicas estavam rachadas. Árvores que Nymira havia encantado estavam tombadas, algumas partidas ao meio. As luzes do lago não alcançavam mais o centro da cidade — sinal de que algo grave havia acontecido.

— Isso não é normal… — murmurou Tiberan.

De repente, duas figuras cambaleantes surgiram pelo corredor central.

Fushiba e Soijiro.

Os irmãos valetes, sempre impecáveis, agora estavam cobertos de cortes profundos e barro ressecado. Fushiba mancava, enquanto Soijiro sangrava pelo ombro.

— Gaia! — Soijiro implorou, caindo de joelhos. — A cidade… o lago… precisamos de você!

Nymira correu até os dois, mas não conseguiu esconder a expressão horrorizada.

— O que aconteceu aqui?!

— Um exército… — Fushiba arfou. — Mortos-vivos. Saíram da terra. Rápidos… fortes… impossíveis de derrubar.

Soijiro completou:

— Inês… nos defendeu. Mas…

Ele tossiu sangue. Era mais grave do que pareciam querer admitir.

O coração de Nymira apertou.

— Inês… onde ela está?

Fushiba apontou para dentro da cidade com um tremor nos dedos.

— Na beira do lago. Não deixou nenhum de nós morrer. Mas usou… tudo. Tudo mesmo.

Nymira e Tiberan se entreolharam e correram.

O centro de Valerah parecia um campo de batalha esquecido pelos deuses. Corpos de mortos-vivos estavam espalhados por todos os lados, muitos despedaçados, outros desintegrados. A energia que saía de cada cadáver não parecia magia comum — era algo antigo, ressoando com a mesma língua que Lorien havia pronunciado antes.

Mas nada disso chocou Nymira mais do que aquilo que viu diante do lago.

Inês estava de joelhos, apoiada na ponta de sua lança partida. A armadura azulada estava totalmente destruída. A pele, quase cinza. As veias pulsavam com um brilho opaco.

E atrás dela…

O lago da ressurreição estava quase seco.

Onde antes havia um mar verde-azulado brilhante, agora restava apenas um pântano raso. A água emitia uma luz fraca, sem vida. A própria essência do lago parecia apagada.

— N-Nymira… — Inês tentou falar, mas tossiu um jato de água escura.

A deusa-da-cura correu e a segurou antes que caísse.

— O que você fez, Inês? Por que usou tanto?

A Ás da Criação sorriu, mesmo morrendo.

— Para proteger… sua cidade. Era isso… que eu devia fazer… agora.

Nymira sentiu as lágrimas subindo, mas conteve. Respirou fundo, levantou as mãos, e o lago respondeu. O que restava dele, pelo menos.

Ela fechou os olhos, canalizando cada gota de sua energia.

O chão tremeu.

As árvores ao redor se curvaram.

A água saiu da terra, lenta, dolorosamente…

E começou a preencher de novo o grande lago.

Mas algo estava errado.

Muito errado.

A água não fluía clara. Estava pesada. Densa. A magia não obedecia. A mancha em seu braço começou a pulsar, primeiro devagar, depois agressiva, como um veneno lembrando que nunca havia desaparecido.

Tiberan avançou.

— Nymira, pare! Não force isso!

— Eu… preciso… recuperar a cidade… — ela sussurrou, empurrando mais energia.

O lago subiu um pouco mais.

Mas Nymira desabou no chão logo depois.

A mancha negra corria agora por metade do peito, avançando pelo ombro e pelo pescoço. Seus olhos lacrimejaram de dor.

— Não… — ela sussurrou, a voz de criança ferida de anos atrás retornando. — Não posso… voltar a ser fraca… agora…

Tiberan a segurou, firme e delicado ao mesmo tempo.

— Você nunca foi fraca. Mas vai morrer se tentar completar isso. Deixe o resto comigo.

Ela respirou com dificuldade, as costas arqueando. O corpo tremia.

A doença havia voltado — e mais forte do que antes.

Mesmo assim, quando olhou para o lago, seu olhar brilhou em orgulho ao ver que pelo menos uma parte havia sido restaurada.

Tiberan terminou o trabalho manualmente, puxando pequenas raízes de vida para sustentar a água. Mas sabia que aquilo não duraria muito.

Com esforço, Nymira se ergueu de joelhos.

— Coloque-os… — murmurou. — No lago…

Tiberan obedeceu.

Primeiro, Ephiron, inconsciente e quase morto.

Depois, Inês, mal respirando.

Fushiba e Soijiro vieram em seguida, carregados com cuidado.

A água brilhou fraco ao redor de cada um, tentando cumprir sua função ancestral.

Nymira observou, com o coração apertado e o corpo dolorido, enquanto o lago finalmente ganhava cor suficiente para começar a trabalhar.

— Agora… — disse ela, sem fôlego — eu vou atrás deles. Dos seres antigos. Os que estão despertando.

Tiberan arregalou os olhos.

— Nymira, você mal consegue respirar.

— Não importa. Eles estão atacando minhas cidades. Minhas pessoas.

Ela se levantou, cambaleando, mas decidida.

— Não vou mais deixar ninguém morrer.

E, com o corpo ferido e a doença retornando, a deusa Gaia caminhou rumo ao desconhecido.

Sozinha.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.