Valerion - fragmentos do mundo
4 O Lago Que Respira
Soraja e Anastásia deixaram Velaskia ao amanhecer, quando a luz amarela do sol ainda parecia indecisa. A estrada até Valerah cortava colinas verdes e campos recém-cultivados — um contraste quase ofensivo para quem lembrava do vilarejo apagado que um dia existira ali.
— Impressionante — murmurou Anastásia, apoiando-se no cajado de viagem. — A água dessa garota realmente mudou tudo.
— Nymira sempre mudou tudo — respondeu Soraja, ajeitando a capa. — Só precisava de espaço para existir.
Quando chegaram ao antigo portão, Soraja esboçou um sorriso esperançoso: Valerah não tinha mais a sombra triste de antes. As casas eram amplas, todas com detalhes em vidro líquido que refletiam a luz em formatos ondulantes. Os jardins eram vivos, com flores que pareciam cantar ao vento. Crianças brincavam perto de canais de água que corriam pelas ruas, guiados por pequenas esculturas cristalinas.
Era… bonita demais. Viva demais.
Quase sagrada.
Dois guerreiros surgiram diante delas com passos sincronizados. Eram tão parecidos que pareciam reflexos tortos um do outro. Um tinha cabelos azuis curtos; o outro, o mesmo tom, mas preso num rabo de cavalo elegante.
— Soraja da Porta — disse o de cabelos longos, com voz calma. — Bem-vinda novamente a Valerah.
— Sou Fushiba, Valete da Senhora Gaia.
— E eu sou Soijiro — completou o outro, sorriso leve. — Valete também.
Eles fizeram uma reverência que Soraja não soube lidar, então apenas acenou de volta.
— Vocês eram irmãos da Nymira — disse ela. — Lembro de vê-los protegendo-a quando… ela ainda adoecia com tudo.
Fushiba assentiu.
— E continuamos protegendo. Treinamos desde cedo para isso. A guerra nos mudou, mas o propósito permaneceu.
— Nymira nos deu forças que não sabíamos que poderíamos alcançar — completou Soijiro, orgulhoso. — E nós damos essas forças de volta à cidade.
Soraja sorriu por dentro. Não podia imaginar uma dupla mais adequada.
No caminho, ela desviava o olhar para cada canto.
— Eu já estive aqui quando tudo isso estava… congelado. — Passou a mão pelos cabelos. — Arkanis aprisionou toda a cidade. Foi aqui que encontrei o livro sobre Gaia. A cidade sempre me pareceu… cheia de respostas, mesmo quando estava silenciosa.
— Valerah tem história — disse Anastásia. — Muito mais do que o mundo acredita. Muitos dos maiores guerreiros valerion nasceram nesses campos.
— E muitos morreram aqui também — acrescentou Soijiro, abrindo caminho para o castelo.
Os gêmeos pararam diante das portas enfeitadas com cristais vivos.
— A senhora Gaia não pode receber visitas no momento — disse Fushiba.
Soraja sentiu o estômago cair.
— Ela voltou a adoecer?
Os gêmeos se entreolharam.
— Ela está… ocupada — disse Soijiro, escolhendo as palavras com cautela. — Talvez seja melhor que fale com a Ás.
Anastásia trocou um olhar sério com Soraja.
— Se a Ás está recebendo no lugar dela, não é um bom sinal.
No salão principal, entre colunas de água que subiam e desciam em loops quase hipnóticos, estava Inês. Antes inimiga. Antes uma estátua. Agora, vestia uma armadura fluida como mar em movimento.
Soraja cruzou os braços.
— Pensei que você tivesse virado ornamento permanente.
Inês sorriu devagar.
— Virei. Até a senhora Gaia me devolver o sopro da vida. — Tocou o peito. — Hoje sirvo novamente como Ás. Mas ao lado dela.
— Ela está bem? — perguntou Soraja direto, sem rodeios.
Antes que Inês respondesse, uma voz alegre ecoou atrás do trono.
— Soraja!
Nymira surgiu correndo, o sorriso largo, os cabelos brilhando como água à luz. Abraçou Soraja com força inesperada.
— Você veio! Eu estava esperando!
Soraja a segurou pelos ombros.
— Está tudo bem com você?
Nymira desviou o olhar.
— Sim, claro. Só… tenho muito trabalho.
Inês pigarreou discretamente.
— A senhora Gaia deseja mostrar algo a vocês.
O Lago da Ressurreição ocupava quase metade de Valerah agora. Era vasto, límpido, e emitia um brilho profundo, como se dentro dele houvesse um céu próprio. Corpos flutuavam entre as camadas de água: alguns envoltos em luz suave; outros, imóveis e silenciosos; outros ainda, sendo guiados por pequenos homúnculos translúcidos.
— Feridos voltam em dias. — Nymira explicou, caminhando pela margem. — Moribundos em semanas. …Mortos… em meses, anos ou séculos. A água decide. Não eu.
Soraja engoliu em seco.
Dentro do lago, reconheceu rostos:
cavaleiros negros revividos, cidadãos de Phytonia, guerreiros de Hyperia.
E então o coração dela disparou.
— Ignara… — sussurrou, vendo a amiga flutuar, envolta numa luz laranja suave.
Soraja se aproximou… até ver algo do outro lado do lago.
Um corpo, rígido, frio… mas fora da água.
Arkanis dos Cristais.
O valete que congelara Valerah.
Soraja olhou para Nymira com expressão cortante.
— Você… não o colocou no lago.
A amiga fechou as mãos, incerta.
— Eu… não sei se ele merece voltar. — respirou fundo. — Ele destruiu nossa cidade. Me destruiu. Eu… não sei qual é a coisa certa a fazer.
Soraja assentiu.
— Nem sempre existe resposta certa.
Ela se virou para Nymira.
— E o corpo de Anorith? Ele está aqui?
Nymira balançou a cabeça.
— Não. Nem ele, nem vários outros. Alguns foram consumidos pelo fogo de Benu. Outros se desfizeram. Outros… desaparecem antes de chegarem aqui.
Soraja estava prestes a agradecer quando viu — um detalhe. Pequeno, escuro, assustador.
A mancha negra, antiga doença de Nymira, correndo sutilmente pelo braço dela.
— O quê…? — Soraja afastou a manga da amiga. — Nymira… isso deveria ter acabado! Você morreu! Você renasceu! Ela não podia voltar!
Nymira abriu um sorriso frágil.
Forçado.
Triste.
— Eu sei.
E pela primeira vez desde que chegara, Soraja sentiu medo. Não do lago, não dos mortos, não das memórias —
mas do futuro que acabara de se abrir diante delas.
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