Valerion - fragmentos do mundo
5 Lorien, o irmão de Tiberan
Soraja deixou o palácio de Valerah ainda com o cheiro do Lago da Ressurreição preso às roupas. A conversa com Nymira continuava martelando na cabeça:
o corpo de Anorith não estava lá.
Muitos inimigos jamais foram encontrados.
E a mancha negra havia voltado no braço da amiga.
— Precisamos agir antes que tudo desmorone — murmurou Soraja enquanto caminhava ao lado de Anastásia pelas ruas movimentadas.
Valerah mudara tanto que parecia outra cidade. Crianças brincavam com pequenos homúnculos de água, jardins floresciam onde antes só havia pó, e cidadãos sussurravam “Gaia” quando Nymira passava — algo que incomodava Soraja mais do que admitia.
A velha amazona negra resmungou ao ajeitar sua capa.
— A cidade nunca esteve tão viva… e nem tão assombrada — disse. — Mortos voltando, poderes falhando, e agora essa história de irmã da Velaska…
Soraja suspirou, apertando o colar dourado da chave.
— Justamente por isso precisamos de respostas. Se alguém pode me ajudar a encontrar o corpo de Anorith, é Tiberan.
— E você acha mesmo que ele vai largar o reino dele por sua causa? — Anastásia provocou.
— Acho que ele vai largar tudo por causa da árvore — respondeu Soraja.
As duas pararam no limite norte da cidade, onde as muralhas vivas se curvavam como galhos gigantes. Soraja ergueu a mão, traçou o símbolo da porta no ar e bateu com a ponta dos dedos na madeira invisível. A tranca brilhou.
— Segure firme — disse.
A porta se abriu.
Do outro lado, o ar mudou. Cheiro de musgo, terra molhada, raízes antigas. Soraja e Anastásia atravessaram para Phytonia, e a porta se fechou atrás delas com um som abafado.
Antes que Soraja chamasse por alguém, uma voz familiar ecoou:
— Soraja? Anastásia?
Era Lorien, parado na entrada do corredor de vinhas. Seus olhos verdes brilharam à luz filtrada. Parecia mais saudável que antes, mas ainda carregava aquele ar… frágil.
— Não esperava visitas. — Ele sorriu, sincero. — Sejam bem-vindas a Phytonia.
Soraja o cumprimentou com carinho.
— Soube que você é Ás agora. Fico feliz por você.
Lorien ruborizou, tocando o braço onde a antiga raiz o perfurava no passado.
— Eu só estou vivo por causa do meu irmão… e da água da caverna. Nymira e Tiberan descobriram como reproduzi-la. Agora a cidade inteira tem esperança.
Anastásia bufou.
— Isso explicaria porque tudo aqui parece tão… úmido. Talvez a gente realmente ache a tal da Veruska por aqui.
Lorien riu, mas a expressão dele desabou de repente. O sorriso sumiu. Os ombros endureceram.
Os olhos… perderam as pupilas.
Soraja sentiu o corpo gelar.
Lorien murmurou algo — não eram palavras. Era um sussurro gutural, como pedra arranhando metal.
— Vòr… esh… Veruska… Kòr-hel…
Soraja recuou um passo.
— Lorien? Você está—
Ele avançou. Rápido.
Antes que Soraja reagisse, Anastásia interceptou o golpe, movendo-se como uma sombra ágil. Seu punho atingiu o plexo de Lorien com precisão cirúrgica. O corpo dele caiu de joelhos, sufocado.
Num piscar, as pupilas voltaram.
— O que eu… fiz? — murmurou ele, pálido.
— Você tentou nos matar — respondeu Anastásia, sem rodeios.
Soraja ajoelhou-se ao lado dele.
— Quando mencionei Veruska, você entrou em transe.
Lorien tocou a própria testa, apavorado.
— Isso não é a primeira vez…
Uma raiz ao fundo tremeu, afastando folhas como cortinas.
E Tiberan surgiu.
O rosto dele carregava exaustão — mas também uma determinação que Soraja não via desde a guerra.
— Aconteceu de novo? — ele perguntou, olhando o irmão sem surpresa.
Soraja se levantou.
— Você sabia. E não me disse.
— Estou tentando entender, não esconder — respondeu Tiberan.
Anastásia cruzou os braços.
— Parece magia antiga. Mais antiga que Velaska.
Tiberan desviou o olhar.
— Temos problemas maiores — ele disse, finalmente. — O mundo inteiro está falhando.
Soraja franziu a testa.
— Nymira também percebeu. Os poderes dela estão oscilando. A doença voltou.
O rosto de Tiberan endureceu.
— Então é pior do que eu pensava. Quando a Yggdrasil caiu, o tecido que liga nossos poderes começou a se desfazer.
Ele tocou a parede viva de vinhas.
— As raízes não respondem mais ao chamado. A seiva está fraca. Se não fizermos algo… tudo vai deixar de funcionar aos poucos.
Soraja cruzou os braços, séria.
— E o que você pretende fazer?
— Reunir os fragmentos da árvore. — Ele respirou fundo. — Nas extremidades mais profundas das raízes, alguns brotos sobreviveram. Se eu juntar todos… talvez consiga fazer a Yggdrasil florescer de novo.
Anastásia assobiou baixo.
— Você quer reconstruir um deus.
— Quero reconstruir o que mantém o mundo vivo — corrigiu Tiberan.
Soraja respirou fundo.
— Mas mesmo se você conseguir… Kaelvor pode queimar tudo outra vez.
Silêncio.
O nome pairou pesado, doloroso, inevitável.
— Ele sumiu porque alcançou o objetivo dele — disse Tiberan. — E agora ninguém sabe o que ele quer.
Soraja apertou o punho sobre a chave.
— Por isso vim até você. Preciso encontrar o corpo de Anorith. Ele pode me ajudar… e preciso de alguém forte ao meu lado para o que vem aí. Se existe um fragmento que possa levar até ele, você pode encontrar.
Tiberan devolveu o olhar, sério, mas gentil.
— Eu ajudo. Mas antes… — Ele olhou para Lorien, ainda ofegante. — Precisamos descobrir o que está despertando nele.
Soraja assentiu, sombria.
— Seja o que for, começou quando mencionei Veruska.
Tiberan respirou fundo.
— Então talvez a história seja maior do que imaginávamos.
Os três se encararam, separados por raízes antigas, segredos novos, e um passado que havia voltado a se mexer.
E no fundo das vinhas, escondido de todos, Lorien sussurrou novamente — baixinho, quase inaudível:
— Ga’vren… da’khel…
Como se algo muito antigo estivesse chamando por ele.
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