Valerion - fragmentos do mundo
14 O Despertar da Runa Vermelha
Kaelvor abriu os olhos com um estalo seco, como alguém puxado de um pesadelo profundo. O ar entrou por seus pulmões com dificuldade, e por um instante ele não reconheceu o céu acima das ruínas. Depois, reconheceu rostos — alguns ansiosos, outros tensos, outros apenas incrédulos.
— KAELVOR! — Soraja praticamente mergulhou sobre ele, falando rápido demais. — Você não vai acreditar no que está acontecendo! Runas antigas, Veruska, irmã de Velaska, seres primordiais, guerreiros morto-vivos, Lorien falando línguas proibidas, Arkanis vivo, e tem um verme gigante, e Zan-tae, e também—
— Soraja… — Nymira tocou no ombro dela com firmeza. — Ele acabou de acordar. E se mexer muito, vai arrancar a água-curativo.
Kaelvor só ergueu uma sobrancelha. A água que envolvia parte do seu peito fumegava como névoa fria. Nymira permaneceu inclinada sobre ele, com a expressão preocupada.
— Você perdeu muito sangue. Não se levante ainda.
— Perdi sangue, perdi sono, perdi paciência... — Kaelvor esfregou a testa. — Ganhei alguma coisa nova pelo menos? Porque estou sentindo que perdi dias da minha vida.
— Você sumiu há meses... Disse Nymira.
Ele piscou, confuso.
Tiberan observava de longe, braços cruzados, postura rígida. O reencontro parecia pesar nele como uma pedra — alívio contido, ressentimento evidente. Seus olhos, porém, não desgrudavam da runa vermelha brilhando no pescoço de Kaelvor.
Ephiron se aproximou carregando Mornath e Eryne, ainda inconscientes. Deitou ambos no chão e começou a fazer ataduras com tiras de tecido improvisadas.
— Que bom te ver vivo — disse Tiberan, enfim. O tom era frio demais para ser de fato um “bom”.
Kaelvor riu, sem perceber a tensão.
— Ah, o mundo inteiro acreditando que vocês são deuses! Vocês fingem bem, hein? Eu nunca consegui sustentar essa farsa… por isso resolvi só… não estar lá quando perceberam.
Ephiron virou a cabeça devagar.
— “Fingir”? — rosnou. — Chamam você de salvador em alguns vilarejos, e você simplesmente vira as costas?
Kaelvor deu de ombros.
— Hyperia tem você. E você adora essa função. Parece até mais confortável com a coroa que com sua própria pele.
— Você… — Ephiron se ergueu, a chama nos olhos acendendo.
O ar ficou tenso.
Nymira, preocupada, tentou intervir:
— Kaelvor, por favor, não se mexa. A cura ainda não—
— Relaxa, Gaia — Kaelvor sorriu. — Não morri da outra vez, não vou morrer agora.
Da sombra das ruínas, Anastásia e Lorien observavam. A velha amazona coçou o queixo.
— Esse menino sempre foi insolente. —
Lorien apenas arregalou os olhos, mas a runa verde em seu pescoço brilhou de leve, como se reagisse à vermelha de Kaelvor.
Soraja finalmente conseguiu interromper sua própria enxurrada de informações:
— Tá. Agora é sua vez. O que aconteceu com você? Onde diabos esteve? E o que É ISSO no seu pescoço?
Kaelvor sentou-se devagar, encarando a runa com indiferença inquietante.
— Depois que queimei a Yggdrasil… algo estava errado. Algo faltando. Eu achava que, destruindo a árvore, tudo que ardia dentro de mim ia apagar. Mas só piorou.
Ephiron bufou.
— Porque você não tinha um plano. Só destruição. Só—
— Você fala como se tivesse sido diferente de mim por muito tempo — retrucou Kaelvor, firme. — Mas deixa eu continuar.
Ele passou a mão pelos cabelos emaranhados.
— Andei. Por terras que vocês ainda não viram. Vilarejos que nunca ouviram falar de deuses ou guerreiros. Visitei túmulos de amigos que… ficaram pelo caminho.
— Baarto… — murmurou Ephiron, engolindo seco.
— E Ignara — completou Kaelvor, num tom mais baixo.
Silêncio pesado.
— Então… esse homem apareceu. — Kaelvor ergueu o rosto. — Não era humano. Tinha uma runa igual a essa aqui. — Apontou para o pescoço. — Vermelha. Ela queimava no ar ao redor dele. E quando eu vi, senti… senti a mesma coisa que me fez destruir a árvore. A mesma força, a mesma fome.
Nymira franziu a sobrancelha.
— Fome… de quê?
— De queimar. De acabar com algo gigante. — Ele sorriu de lado. — Mas sem árvore sobrando, sobrou o mundo inteiro.
Todos gelaram.
Tiberan apertou os dedos na palma.
— Kaelvor… isso não é um poder. É uma corrupção.
Kaelvor continuou:
— Lutei com esse homem por dois meses. Dois meses! — Ele gargalhou, como se lembrasse com orgulho. — E quando finalmente venci, ele virou cinza. E essa runa apareceu aqui.
Tocou o próprio pescoço.
Soraja levou a mão à boca.
— Kaelvor… você não parece entender o que isso significa.
— Eu entendo sim — ele retrucou. A voz, por um instante, parecia mais profunda, mais seca. — Significa que fui escolhido. Significa que há algo novo em mim. Algo que não depende de árvore nenhuma.
Ephiron explodiu:
— ESCOLHIDO POR QUÊ? POR QUEM? PARA QUEMIMAR TODO O PLANETA?
Kaelvor sorriu, sombrio.
— Talvez.
Ephiron sacou a espada, o golpe vindo com uma fúria desesperada. Soraja gritou. Mornath e Eryne, mesmo inconscientes, mexeram as mãos como se sentissem o clima quebrar.
Kaelvor ergueu o braço para bloquear, mas antes que as lâminas se chocassem, uma mão interceptou o ataque.
Tiberan.
Seus olhos queimavam — não com fogo, mas com uma tristeza funda.
— Não — disse ele, segurando a lâmina de Ephiron. — Não assim.
Kaelvor encarou o amigo, o sorriso vacilando.
E, pela primeira vez, a runa em seu pescoço pulsou como um coração independente.
Todos recuaram.
Algo estava prestes a ruir.
Ou a despertar.
Fale com o autor