A forja acordava antes de Velaskia. O som dos martelos parecia o coração da cidade — firme, repetitivo, quente. Soraja surgiu na porta carregando carvão e amarrando o cabelo num rabo de cavalo improvisado. O pai, Garion, já estava curvado sobre a bigorna, polindo dobradiças que seriam instaladas nos portões principais do castelo real.

— Você madrugou hoje — disse ele, sem levantar a cabeça.

— Quanto menos gente me chamando de Velaska, melhor — respondeu Soraja, acendendo o forno.

Garion bufou, preocupado e divertido ao mesmo tempo.

— A cidade tem o direito de honrar quem a salvou.

— A cidade exagera — rebateu ela. — E eu só quero trabalhar.

Ela bateu o martelo com força maior do que precisava. Garion notou.

— Está pensando na mulher de ontem. Na… Veruska.

O martelo parou no ar.

Soraja respirou fundo.

— Ela apareceu como se conhecesse cada tijolo desta forja. Disse que sabe sobre Velaska. Que é irmã dela. E que “descobrimos só metade da verdade”. — Cerrou os dentes. — E eu não pedi por isso.

Garion enxugou as mãos.

— Filha… quando um segredo velho resolve bater na porta, normalmente não é à toa. Talvez…

A porta da forja se abriu com um estrondo.

— S-Senhora Soraja! — Irin quase caiu para frente ao entrar. A armadura negra recém-polida pesava nele como um balde cheio. — Os relatórios! Os decretos! As solicitações do conselho! E-e tem um pedido urgente da guarda norte… e eu acho que esse aqui é sobre uma infestação de pombos!?

Soraja apenas encarou os papéis. Depois encarou Irin.

Depois encarou o chão.

— Irin, você é o valete de Velaskia. Eu sou a ferreira. Se vira.

— M-mas… mas… Soraja! — Ele se atrapalhou nos próprios passos. — Eu… eu não sei se estou pronto!

— Nem eu estou pronta pra ser deusa. Estamos quites.

Ela tirou o avental, jogou uma capa sobre os ombros e saiu antes que qualquer um pudesse protestar.

Garion cruzou os braços.

— Vai aonde?

— Onde sempre dá respostas tortas — disse ela, sem olhar para trás. — Na casa da velha que quase me matou.

A rua onde Anastásia morava parecia mais silenciosa do que o normal. Soraja bateu três vezes. A porta abriu-se com um rangido reconhecível.

A velha amazona negra estava lá, segurando uma xícara de chá do mesmo jeito que segurara no dia em que envenenara Soraja e Ephiron.

Soraja ergueu uma sobrancelha.

— Nem pensa em me oferecer isso novamente.

Anastásia sorriu sem culpa alguma.

— Calma, menina. Se eu quisesse te matar de novo, já tinha colocado veneno no ar. — Deu um passo para o lado. — Entra logo. Você está com cara de quem tem perguntas demais.

Soraja entrou. O lugar continuava igual: cheiro de ervas secas, madeira antiga e segredos. Mas agora, com a guerra acabada e o lago de Nymira tendo curado Anastásia, o ambiente parecia menos hostil.

— Pensei que você tivesse morrido — disse Soraja, sentando no banquinho baixo.

— Quase... Eu mergulhei naquele lago milagroso da sua amiga água. Quando acordei, estava… viva demais — disse a velha, mexendo o chá. — Aquele lago é uma benção e uma afronta ao mesmo tempo.

Soraja olhou para a xícara.

— Então ele funciona mesmo assim? Até para quem… fez coisas questionáveis no passado?

— Se a alma ainda tem trabalho a fazer, o lago devolve. Se não… deixa dormir. — Anastásia deu um gole. — Agora me diga: por que veio?

Soraja respirou fundo.

— Veruska apareceu na minha forja. Disse que é irmã de Velaska. Disse que a história está incompleta.

A velha amazona parou de mexer o chá.

— Então… finalmente.

— Finalmente o quê? — Soraja franziu o cenho.

Anastásia apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Quando eu era jovem, tentei por anos me tornar Valete de Velaska. Eu queria subir na hierarquia, mas Velaska era inalcançável. Nunca aparecia. Nunca escolhia ninguém. Por anos, fui a amazona que treinava, batalhava e esperava ser vista… e nunca fui.

Soraja ouviu em silêncio.

— Foi então que começaram rumores. Pequenos, quase proibidos. O rumor de que Velaska tinha uma irmã. E que essa irmã caminhava por lugares onde Velaska não podia ir. Eu procurei. Passei anos procurando. — Ela deu um sorriso melancólico. — Nunca encontrei nada. E, com o tempo, aceitei meu papel. Mas agora… agora ela está aqui.

Soraja apertou a capa nos ombros.

— E ela disse que eu preciso “ver a outra metade da verdade”. Mas não sei por onde começar. Não sei em quem confiar. Ephiron está atrás de Kaelvor, Tiberan partiu, Nymira tem o lago… e eu estou aqui. Sem saber o que fazer com esse título que ninguém me perguntou se eu queria.

Anastásia levantou-se lentamente e colocou a mão no ombro da jovem.

— Porta errada só existe quando você escolhe não abrir nenhuma.

Fez uma pausa.

— E você, garota, nasceu para abrir portas.

Soraja olhou para aquela mulher — antes inimiga, agora talvez a única pessoa mais velha e experiente que ela podia recorrer.

Finalmente, estendeu a mão.

— Anastásia… eu preciso de alguém forte. De alguém que saiba mais do que eu sobre o passado. Alguém que esteja comigo nas batalhas que estão por vir.

Respirou fundo.

— Quer se tornar Valete de Velaskia?

Os olhos da velha marejaram.

— Esperei esse chamado por décadas, menina. Décadas.

Ela apertou a mão de Soraja com força.

— Sim. Eu aceito.

E naquele instante, no silêncio modesto de uma casa antiga, a primeira amazona negra finalmente conquistou o título que buscou a vida inteira — e pelas mãos da própria deusa Velaska.

E não havia veneno algum no chá daquela noite.

Notas finais
Irin era um cavaleiro negro de Velaskia que sobreviveu à guerra e continuou treinando sozinho entre as ruínas. Soraja reconheceu sua lealdade e esforço e, mesmo sem desejar o título de deusa, nomeou-o seu Valete. Ele é dedicado, um pouco atrapalhado, mas totalmente fiel à nova Velaska.