Valerion - fragmentos do mundo
1 Depois das Cinzas
O mundo passou a marcar o tempo pelo silêncio deixado após o incêndio da Yggdrasil. Meses haviam se acumulado desde que a árvore virou brasas no horizonte, mas muita gente ainda olhava para o céu esperando algum sinal dos deuses. O que veio foi mais terreno: decretos, reorganizações, títulos novos e um medo que todos fingiam não sentir.
Em Hyperia, o Templo da Chama fora reformado como se quisessem limpar qualquer sombra do passado. As escadarias brilhavam, os vitrais refletiam luzes vermelhas, e o antigo brasão do exército fora substituído por um sol rachado. Ephiron caminhava pelo corredor principal com a capa batendo nos calcanhares. O elmo agora era dispensável; o título que carregava pesava mais que qualquer metal: Hyperion.
— Meu senhor — disse um capitão, ajoelhado. — As cidades fronteiriças reconhecem sua ascensão. Estão esperando seu pronunciamento.
Ephiron não respondeu de imediato. Olhou para os vitrais onde lendas de um deus inexistente estavam pintadas. No reflexo do vidro, seu próprio rosto parecia uma linha de rachadura. No salão do trono, o braseiro respirava em ciclos, como um animal vivo. As pessoas esperavam algo divino dele. Ele entregaria o necessário — mas não o que eles imaginavam.
Foi ao púlpito diante do pátio lotado. Gritos de “Hyperion!” cortavam o ar.
— Hyperia vive — disse, firme. O eco parecia calculado. — E seguirá vivendo sob justiça. Nomearei valetes para garantir que nossa chama não se apague.
Mornath, o Gélido, e Eryne, a Serpente, ajoelharam-se. Os dois entendiam perfeitamente o risco daquele cargo — e, mesmo assim, não hesitaram.
— Sirvam Hyperia — completou Ephiron. — E lembrem-se: a chama que defendemos não é a do passado. É a que escolhemos acender agora.
Com as aclamações retomadas, Ephiron deixou o púlpito sem se virar. No corredor, o capitão perguntou se havia outra ordem. Ephiron respirou fundo. No metal polido ao lado, por um instante, viu o reflexo de cabelos vermelhos. O nome que não saía de sua cabeça ecoava como fogo preso na garganta.
— Preparem as montarias. Os valetes virão comigo. — O capitão arregalou os olhos. — Partiremos ao amanhecer.
Ephiron seguiu até as docas dos grifos. O vento frio cortava o rosto. Ele encarou o horizonte acinzentado e murmurou:
— Kaelvor… por que você ainda não voltou?
Velaskia despertava antes do sol, como as forjas. Martelos batiam como um pulso coletivo, e o cheiro do minério quente dominava as ruas. Soraja abriu a porta da oficina, prendeu o cabelo e acendeu o forno. A luz laranja iluminou suas feições. A grande chave estava reduzida a um pingente preso ao couro de sua jaqueta, discreta, mas sempre presente.
A cidade insistia em chamá-la de Velaska, e ela insistia em responder com frases curtas, meio ríspidas, meio irônicas. Depois, voltava ao trabalho, moldando lâminas que carregavam histórias que ela preferia não ouvir.
— Filha — disse o pai, aparecendo com as mãos cobertas de fuligem. — Os emissários querem que assine os decretos. Suas “ordens de deusa”.
Soraja franziu a sobrancelha.
— Diz a eles que Velaska abriu uma porta e foi passear. Quem ficou aqui fui eu.
O pai soltou um riso breve, mas parou quando sombras se projetaram no batente da porta. Uma mulher belíssima entrou, acompanhada por seis guerreiras silenciosas.
— Não vim tomar seu título — disse ela, antes que Soraja pudesse falar. Sua voz era serena, mas carregava intenção. — Vim avisar que vocês descobriram apenas metade da história. A outra metade ainda está escondida.
— Quem é você? — Soraja pousou o martelo, o braço tenso.
— Veruska — respondeu. — Irmã de Velaska.
O pai assoviou baixinho, incrédulo. Soraja manteve o queixo erguido, embora seu coração tivesse acelerado.
— Se veio dar um recado, diga. Se é uma ameaça, escolheu o lugar errado.
Veruska sorriu, como quem reconhece alguém que ainda não sabe o tamanho da própria força.
— Não quero o trono, porteira. Quero que enxergue a porta certa.
E saiu, deixando um perfume de chuva quente no ar.
Em Phytonia, crianças corriam pelos jardins do palácio como se a guerra fosse lembrança de outra geração. Tiberan caminhava pelos corredores com pilhas de relatórios, enquanto o broto sagrado pulsava sob sua manga. Os pedidos eram constantes: raízes que não respondiam, colinas que perderam vigor, fontes que enfraqueciam. O mundo parecia… diminuído.
No terraço, Lorien, agora Ás, observava o horizonte. Havia algo inquietante nele — murmúrios involuntários, tremores quase imperceptíveis. Algo antigo e desconhecido.
— A taxa de apagamento aumenta — relatou Tiberan. — Nada grande ainda, mas se intensifica. O mundo parece… enferrujando.
— É só o começo — disse Lorien, sem dramaticidade.
— Não deveria estar acontecendo. — O broto latejou forte. — Precisamos dos fragmentos da árvore. Todos eles.
Lorien apoiou as mãos no parapeito. Sussurrou algo em uma língua perdida. Tiberan ouviu — e não entendeu. Pensou em perguntar, mas engoliu a dúvida.
— Partimos ao amanhecer — decretou Tiberan.
— Sempre estive ao seu lado — respondeu Lorien, e por um instante pareceu o irmão de antes.
Valerah agora era uma grande cidade. Portões vivos moldados por Nymira brilhavam como água petrificada. No centro, o Lago da Ressurreição pulsava, devolvendo reflexos luminosos. Famílias depositavam nomes bordados nas margens, e pequenas preces enchiam o ar.
Nymira se ajoelhou e tocou a água — que respondeu, mas não como antes. O espelho tremeu, abriu um vórtice fraco e se dispersou.
— Não agora… — murmurou, sentindo a dor familiar no braço. A mancha negra avançava novamente sob a pele, silenciosa e teimosa.
— Gaia — chamou um ancião. — A caravana voltou. Trouxeram feridos e… corpos.
Ela assentiu. Pequenos homúnculos translúcidos emergiram do lago para receber os feridos. A visão oscilou, mas ela manteve o sorriso. As crianças riam ao ver a água se mover. A cidade acreditava nela — talvez mais do que deveriam.
— Continuem trazendo todos — ordenou aos irmãos. — O lago ainda está aprendendo. E eu também.
Quando ficou sozinha, ergueu a manga e encarou a mancha negra se espalhando outra vez.
— Não vou cair agora — disse à água, que pareceu ouvir.
Naquela noite, algo se moveu nas quatro cidades. Em Hyperia, grifos foram preparados. Em Velaskia, Veruska atravessou ruas silenciosas com as seis guerreiras atrás dela. Em Phytonia, Tiberan marcou pontos no mapa enquanto Lorien sussurrava em sonhos. Em Valerah, o lago brilhou como se guardasse estrelas dentro dele.
Muito longe dali, Kaelvor caminhava sozinho sobre pedras negras. O vento puxava seu cabelo, e as chamas em seus dedos pareciam mais íntimas do que qualquer companhia. Parou diante de um pedaço petrificado de raiz.
Tocou a madeira morta.
— Não devo nada a ninguém — disse. — Mas ainda não terminei comigo mesmo.
Acendeu fogo no galho, apagou com um sopro e seguiu andando.
Ao amanhecer, três grifos saíram de Hyperia. Dois cavaleiros partiram de Phytonia. Em Velaskia, o forno acendeu cedo. Em Valerah, três novos nomes tocaram a água.
O mundo voltou a se mover.
E, pela primeira vez desde as cinzas, o destino pareceu acordar.
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