O dia seguinte ao incêndio da Yggdrasil foi tão silencioso que parecia que o mundo segurava a respiração. O céu ainda tinha o tom acobreado da fumaça, e Hyperia amanheceu com um som estranho: não o das trombetas da vitória, mas o de milhares de pessoas ajoelhadas, agradecendo aos deuses que — como o próprio Ephiron sabia — não existiam.

Ele ainda sentia o cheiro das chamas do pai na ponta dos dedos quando foi arrastado ao salão principal do Templo da Chama. Não teve escolha. Soldados, civis, sacerdotes, todos o saudavam com devoção. A multidão repetia seu novo nome como se fosse uma prece antiga:

Hyperion! Hyperion! Hyperion!

O eco saltava das colunas e voltava para ele maior que antes.

Ephiron tentou falar, tentou corrigi-los, tentou dizer:

“Não existem deuses.”

“Isso tudo é um equívoco.”

“Eu não sou isso.”

Mas a multidão não queria ouvir.

Eles precisavam de alguém para culpar, alguém para amar, alguém para guardar. Alguém que ocupasse o vazio deixado pelos nomes Velaska, Hyperion e Phýton — mesmo que essas figuras jamais tivessem sido divinas.

Foi quando Ephiron entendeu o que Kaelvor havia sentido.

E pela primeira vez, a ausência do irmão ardeu mais que qualquer fogo.

“Talvez seja por isso que ele partiu”, pensou.

Mornath e Eryne mantiveram distância no começo. À época inimigos declarados de Ephiron, ambos lembravam-se nitidamente do momento em que ele rejeitou Hyperia e se rebelou contra tudo — inclusive contra eles. Mornath, com seus olhos gélidos, manteve por semanas a cabeça baixa, sempre pronto para responder a uma ordem, mas nunca pronto para confiar.

Já Eryne, silenciosa como veneno correndo por veias lentas, observava Ephiron com cautela, como se ele fosse um bicho ferido que poderia arrancar a mão de quem tentasse tocar.

Mas a cidade estava caótica, e Ephiron precisava deles.

Foi durante uma patrulha externa que a mudança começou. Um ataque de saqueadores ameaçou uma das aldeias próximas, e no calor da batalha, Ephiron viu Mornath avançar para protegê-lo sem hesitar — como se a rixa antiga fosse poeira varrida pelo fogo.

Eryne, por sua vez, salvou moradores aprisionados sob destroços com a mesma precisão letal que antes usava para matar.

Naquela noite, ao redor da fogueira, os três se olharam como iguais pela primeira vez.

Ephiron quebrou o silêncio:

— Vocês eram fortes demais para serem meus inimigos. Prefiro que sejam meus aliados.

Mornath ergueu o queixo, ainda austero:

— Desde que você use esse título para proteger seu povo. Não para governá-lo como seu pai fazia.

Eryne cruzou os braços, a ponta do sorriso quase invisível:

— Se falhar, eu mesma arranco seu trono.

Ephiron riu pela primeira vez desde a queda da árvore.

Deymos não aceitou tão facilmente.

Ele surgiu no salão de armas quando Ephiron o convocou. O rosto marcado por cicatrizes, a postura tensa, os olhos queimando de um julgamento silencioso.

— Quero você como meu terceiro valete — disse Ephiron.

Deymos apertou o punho, o ar se tornando pesado ao redor dele.

— Não acredito mais em deuses — rosnou. — E, para ser honesto, não acredito mais em você.

Mornath e Eryne engoliram em seco, mas Deymos continuou:

— Você derrotou seu próprio pai. E agora aceita esse título ridículo para continuar a farsa? Eu servi Hyperia antes da mentira. Não vou servir a vergonha.

Ephiron não respondeu. Não havia defesa.

Deymos caminhou até a porta, parou apenas para lançar uma última sentença:

— Não preciso de trono. Nem de cidade. A única chama em que ainda confio é a minha.

E sumiu no horizonte.

Mornath murmurou:

— Ele nunca mais voltou.

— Talvez nunca volte — disse Eryne.

Ephiron sentiu o peso disso… e a liberdade de deixá-lo ir.

Quando Hyperia começou a se reerguer, Ephiron atravessou a ponte alta do castelo com um propósito claro. Mornath e Eryne o acompanharam até as docas dos grifos.

O vento frio anunciava a noite que se aproximava, e a cidade inteira observava — alguns com fé, outros com esperança, muitos com medo.

Os três grifos estavam prontos.

Ephiron colocou a mão na sela, mas uma sombra se moveu atrás deles.

Um guerreiro surgiu das trevas, vestindo uma capa simples. Seus cabelos escuros batiam no rosto com o vento. Ele se ajoelhou sem hesitar.

— Meu senhor — disse, com a voz firme. — Concluí meu treinamento. Estou pronto para servir ao Hyperion.

Mornath reconheceu o rosto. Eryne, também.

Tyr estava mudado — mais experiente, mais focado, mais perigoso.

Ephiron o analisou por um momento.

E então sorriu.

— Ótimo. — A mão dele pousou no ombro de Tyr. — A partir de hoje, você será meu Ás. Cuidará de Hyperia na minha ausência.

O guerreiro baixou a cabeça com respeito.

Tyr, a Lâmina Insistente. Seu título está selado.

Mornath montou no grifo.

Eryne ajeitou o capuz.

Ephiron subiu por último.

Antes de decolarem, olhou uma última vez para Hyperia.

O trono atrás dele permanecia vazio, e talvez devesse continuar assim.

— Kaelvor — murmurou, quando o vento bateu em seu rosto. — Espere por mim.

Os três grifos cortaram o céu em direção ao norte, deixando atrás de si uma cidade que ainda acreditava em deuses.

E um Hyperion que começava a duvidar de tudo — menos da necessidade de reencontrar o irmão

Notas finais
Um novo exército se reune em Hyperia! Agora com um novo deus, Ephiron convoca Tyr para ser seu Ás, enquanto Mornath e Eryne se tornam seus Valetes.