O vento seco do deserto cortava o rosto de Tiberan.

Ele corria com o corpo curvado, carregando Kaelvor nos braços como se fosse um fardo sagrado.

O peso do rapaz parecia aumentar a cada passo, não pelo corpo em si, mas pela consciência: ele não estava apenas levando um homem ferido. Estava levando uma chama viva que, se se apagasse, talvez jamais se reacendesse.

O veneno de Selindra se espalhava rápido.

A pele de Kaelvor começava a escurecer em manchas, como se estivesse sendo tomada por raízes mortas que corriam por suas veias.

Sua respiração era fraca, cortada por espasmos.

— Aguente… — murmurou Tiberan, ofegante. — Falta pouco, só um pouco mais…

Ele não sabia se falava com Kaelvor ou consigo mesmo.

Enquanto isso, a muitas léguas dali, nas profundezas do Salão Real de Phytonia, o eco dos passos de Selindra preenchia o grande corredor.

Sua armadura estava em frangalhos, chamuscada, ainda enroscada em restos de vinhas secas. O rosto, outrora altivo, estava marcado por queimaduras.

Nunca tinha voltado de uma missão derrotada.

Ela se ajoelhou diante do trono dourado no centro da sala.

No alto, sob uma luz verde que emanava de vitrais sagrados, uma figura permanecia imóvel: um homem imenso, envolto em manto negro com adornos dourados. Seu elmo lembrava a cabeça de um inseto, com duas longas antenas curvas.

Seus olhos brilhavam num tom amarelado, frio.

Selindra baixou a cabeça até o chão.

— Meu senhor… houve um imprevisto. Um botânico, e um plebeu de Hyperia… eles…

Não terminou a frase.

Um clarão negro brilhou.

O som de lâmina cortando o ar ecoou pela sala.

Selindra congelou, os olhos arregalados, antes que sua cabeça fosse separada do corpo.

Seu corpo tombou para um lado, e a cabeça rolou pelo mármore.

O sangue escorreu, formando um traço escuro em direção ao trono.

A figura levantou-se lentamente, imponente. Sua voz ecoou como trovão abafado:

Fracassados não são dignos de Phýton.

Um dos acólitos do salão recolheu a lança envenenada de Selindra.

— Preparem os Cavaleiros. Há uma chama que precisa ser esmagada.

De volta ao deserto, Tiberan tropeçava pelas dunas.

A lua iluminava a areia clara, transformando-a em um mar prateado.

Cada passo era uma tortura.

Ele caiu de joelhos. O corpo de Kaelvor escorregou de seus braços, caindo na areia.

O jovem se contorcia em silêncio, a pele manchada de negro até o pescoço.

— Não… não agora… — Tiberan segurou os ombros dele, desesperado.

Foi então que ouviu um som suave.

Um pequeno latido.

Ele se virou e viu uma raposinha laranja, com olhos âmbar que brilhavam sob a lua.

O animal estava parado sobre a areia, a cauda fofa erguida, observando-o em silêncio.

Tiberan suspirou, exausto.

— Não tenho tempo para você, criatura…

Ele ergueu Kaelvor de novo e recomeçou a andar, mas percebeu que a raposa o seguia a cada passo.

Quando tentou correr, ela trotou atrás.

Quando parou, ela se deitou na areia, esperando.

O botânico franziu o cenho.

— Você é só um animal perdido…

Mas, quando olhou para o horizonte, viu algo que gelou seu sangue.

No topo da duna mais próxima, olhos brilhantes se multiplicavam.

Eram lobos do deserto. Uma matilha inteira, cercando o caminho.

Tiberan ajeitou Kaelvor no chão e ergueu as mãos, fazendo vinhas brotarem da areia seca.

Mas sabia que não podia lutar e proteger o rapaz ao mesmo tempo.

— Maldição… — murmurou. — Se eu tivesse apenas um pouco mais de força…

Os lobos começaram a avançar, rosnando, dentes à mostra.

A raposinha branca se colocou diante dele, baixando as orelhas.

Por um instante, Tiberan pensou que ela seria dilacerada em segundos.

Mas então…

O corpo do pequeno animal começou a brilhar.

Chamas douradas se acenderam em sua pelagem, expandindo-se até consumir todo o seu corpo.

A forma se distorceu, cresceu, mudou.

Quando o clarão se dissipou, uma raposa colossal de fogo se erguia no deserto.

Olhos como brasas. Caudas longas que ardiam como tochas.

Os lobos, aterrorizados, recuaram. Mas era tarde.

A raposa rugiu, e uma onda de fogo varreu a duna, incinerando a matilha em questão de segundos.

O silêncio voltou.

A raposa olhou para Tiberan, abaixando a cabeça.

Ele, ainda ofegante, finalmente entendeu.

— Você… não é comum.

A criatura rosnou baixo, mas não em ameaça. Em convite.

Tiberan olhou para Kaelvor, depois para a raposa.

Ele sorriu pela primeira vez em dias.

— Então me ajude a salvá-lo.

Colocou Kaelvor sobre suas costas, e a raposa disparou pelo deserto como uma flecha flamejante.

Na noite escura, a esperança tinha tomado a forma de fogo.

Notas finais
Valerah é uma cidade/vila que pertence à região de Phytonia. Por ser um vilarejo pobre com muitos idosos e doentes, as pessoas de lá deveriam ser levadas à prisão pelas leis de Phytonia. Porém, por algum motivo, o vilarejo é ignorado e segue sobrevivendo, independente.