Valerion - a Busca por Yggdrasil

4 Phytonia, o reino da beleza


Kaelvor abriu os olhos mais uma vez. A dor no peito ainda latejava, mas o ferimento estava fechado, coberto por folhas grandes e frescas, que exalavam um aroma suave.

O teto acima de si era de madeira clara, limpo e polido, nada parecido com as casas de Hyperia.

Virando o rosto, viu o mesmo homem da taverna. Estava sentado em uma cadeira, calmo, tomando chá como se nada tivesse acontecido.

Sua postura era elegante, quase nobre. O contraste com o andarilho ferido era gritante.

— Está vivo — disse o homem, sem tirar os olhos da xícara. — Mas só porque eu estava lá.

Kaelvor tentou se erguer, mas o corpo fraquejou.

Com esforço, conseguiu sentar-se, apoiado na parede. A cicatriz em seu peito ardia, grossa e profunda.

Ele riu, cuspindo um pouco de sangue.

— Quase morri pelas mãos de um Cavaleiro Sagrado. — Passou a mão pelo peito, sentindo a marca. — Acho que vou carregar isso até o fim.

O homem pousou a xícara com calma.

— Não é “quase”. Você teria morrido. É tolice enfrentar um dos Cavaleiros de Hyperion. Eles não são apenas soldados… são escolhidos.

Kaelvor olhou fixamente para ele.

— E quem é você, afinal?

O homem se levantou, ajeitando a roupa impecável, e fez uma leve reverência.

Tiberan, botânico do reino de Phytonia.

Kaelvor franziu o cenho.

— Phytonia? Não, isso é impossível. Eu estava em Hyperia ontem.

— Estava. — Tiberan respondeu sem emoção. — Mas foi eu quem o trouxe para cá. Se tivesse permanecido em Hyperia, Tyr teria terminado o serviço.

Kaelvor fechou o punho, irritado.

— Então estou preso em terra estrangeira. Não quero Phytonia. Não quero sua ajuda. Meu destino não é aqui.

Tiberan se aproximou devagar, como quem examina uma planta delicada.

— Se você voltar para Hyperia, será morto. Tyr não deixará um herético como você respirar de novo.

Kaelvor sorriu, o mesmo sorriso desafiador de sempre, mesmo ferido.

— Eu não quero voltar para Hyperia. — Seus olhos arderam com convicção. — Quero achar Yggdrasil. Quero incendiá-la.

O silêncio preencheu o quarto.

Tiberan o encarou por alguns instantes, como se aquelas palavras fossem uma equação complicada.

Depois, respirou fundo, pensativo.

Kaelvor levantou-se, mesmo com dor, e caminhou até a porta.

— Obrigado por me salvar, Tiberan. Mas o caminho é meu.

Abriu a porta e saiu para a rua.

As ruas de Phytonia eram diferentes de tudo que Kaelvor conhecia.

Casas brancas, adornadas com flores e esculturas. Pessoas andando em trajes limpos, cabelos penteados e jóias discretas, mas finas.

Era como se todo o reino fosse um grande jardim organizado.

O contraste era cruel: o andarilho de roupas rasgadas, ainda sujo de sangue, caminhava no meio daquela ordem impecável.

Olhares se voltaram imediatamente.

Murmúrios surgiram de todas as direções.

— Quem é aquele?

— Um escravo fugido?

— Que horror… está imundo.

Kaelvor ignorou os olhares, mas logo sentiu um puxão nos braços.

Vinhas de espinhos surgiram do chão e se enrolaram em seus pulsos, prendendo-o com força.

Um guarda de armadura leve se aproximou, com o semblante altivo.

— Então aqui está você. Um prisioneiro que ousou escapar. Vamos levá-lo de volta à sua cela.

Kaelvor se debateu, tentando soltar as vinhas.

— Cela? Não sou prisioneiro de ninguém!

Foi nesse momento que Tiberan apareceu.

Ele se curvou respeitosamente diante do guarda, com a calma de quem já sabia o que fazer.

— Perdoe-me, senhor. — Sua voz foi firme, mas cortês. — Ele não é um prisioneiro. É meu escravo. Um descuido meu o deixou sair sem permissão. Levarei-o de volta.

O guarda ergueu a sobrancelha, olhou Kaelvor de cima a baixo e bufou.

— Cuide melhor de sua propriedade, botânico. — Disse com desprezo.

Tiberan agradeceu com outra reverência. Mas antes que pudesse levar Kaelvor embora, o herético se enfureceu.

Escravo? — rugiu, suas mãos explodindo em chamas. — Eu não sou escravo de ninguém!

As vinhas queimaram em segundos, libertando-o.

A multidão gritou e se afastou. O guarda puxou sua lança.

— Insolente! Vai pagar por essa afronta!

Kaelvor avançou contra ele, o fogo iluminando as ruas limpas de Phytonia.

Notas finais
Tiberan é mais alto que Kaelvor, mas nem tanto. Ele parece ter poucos anos a mais que Kaelvor, uns dois ou três. Ele tem cabelo e vestes em tom verde-escuro.