O fogo de Kaelvor iluminou a rua impecável de Phytonia. As pessoas, horrorizadas, recuaram para as portas e janelas. O guarda que o havia prendido se protegeu atrás da lança, mas o calor era intenso demais.

O choque durou pouco: em questão de segundos, outros guardas surgiram de todos os lados. Vinhas negras e grossas brotaram do chão, enroscando-se nos tornozelos e pulsos de Kaelvor. Ele tentou resistir, gritando, mas o peso da alquimia de tantos o esmagou contra o chão.

Um dos guardas cuspiu as palavras com desdém:

— Insolente. Sujou as ruas do nosso reino com essa chama selvagem.

Kaelvor ainda tentou reagir, mas o corpo já estava exausto do ferimento mal cicatrizado. Antes de perder a consciência, viu Tiberan parado entre os guardas. O botânico não lutava, não suplicava. Apenas observava.

Depois, tudo ficou escuro.

Quando abriu os olhos, Kaelvor estava sentado em um chão frio de pedra, os braços presos por algemas simples de ferro. O lugar era úmido e malcheiroso, uma cela estreita com grades que davam para um corredor longo.

Ao seu lado, sentado com a mesma calma de sempre, estava Tiberan.

— Eu tentei resolver com palavras. — disse o botânico, sem emoção. — Mas você prefere sempre o caminho mais difícil. Agora estamos os dois presos.

Kaelvor puxou as correntes com força, mas o ferro não cedia. Bufou, irritado.

— Isso é culpa sua. Se não tivesse me chamado de escravo…

Tiberan suspirou, como quem conversa com uma criança.

— Era a única forma de salvá-lo. Você não entende Phytonia. Aqui não é como Hyperia.

Kaelvor se calou por alguns segundos. Então olhou ao redor e arregalou os olhos.

A prisão estava cheia. Mas não eram criminosos, bandidos ou assassinos.

Havia idosos de rostos cansados, pessoas doentes tossindo em cantos úmidos, crianças encolhidas em panos rasgados.

— O que é isso? — murmurou, confuso. — Que tipo de prisão é essa?

Tiberan respondeu em tom baixo, quase solene:

— É assim que Phytonia mantém sua perfeição.

Kaelvor virou-se para ele, sem entender.

— O que você está vendo aqui não são criminosos. São os “imperfeitos”.

Tiberan gesticulou discretamente para as celas ao lado:

— Os idosos, porque já não servem à imagem da vitalidade.

— Os doentes, porque mancham a beleza das ruas.

— As crianças sem família, porque não contribuem com nada à ordem do reino.

Kaelvor sentiu o estômago revirar.

— Então… eles aprisionam quem não se encaixa?

Tiberan confirmou com um aceno sério.

— Aqui, não é só o ouro que se oferece como tributo. Os Cavaleiros Celestiais também recolhem beleza, saúde, perfeição. Quem não tem… acaba aqui.

Kaelvor apertou as correntes até os pulsos sangrarem.

— Malditos. Se Hyperia é cega pela fé, Phytonia é podre pela vaidade.

Um silêncio pesado tomou conta da cela. As vozes baixas dos prisioneiros ecoavam ao redor: lamentos, tosses, choros abafados.

Tiberan observava Kaelvor em silêncio. Então falou:

— Agora você entende. Os deuses que tanto exaltam não dão a mínima para a vida comum. Só para símbolos.

Kaelvor ergueu o rosto, o olhar em chamas apesar da escuridão.

— Eu já sabia. É por isso que Yggdrasil vai arder. Só assim vamos descobrir o que sobra quando toda essa farsa cair.

Tiberan não respondeu. Apenas observou. E pela primeira vez, uma sombra de interesse genuíno brilhou em seus olhos.

Notas finais
A prisão de Phytonia ocupa basicamente todo o centro da região, e fica na parte debaixo da terra.