O ar da prisão estava denso. O veneno que escorria da lança de Selindra deixava uma névoa esverdeada no ambiente, sufocando os prisioneiros que observavam, presos às grades.

Kaelvor permanecia inconsciente, o corpo pálido e úmido de suor, tremendo com a luta contra o veneno dentro de si.

Diante dele, Tiberan estava de pé.

Não tremia. Não hesitava.

Era a primeira vez que olhava nos olhos de alguém como Selindra sem abaixar a cabeça.

— Você não tem chance — disse a Amazona, girando a lança com graça letal. — É um botânico, um jardineiro. E eu sou a víbora que corrói tudo o que floresce.

As vinhas de Tiberan explodiram do chão, espinhosas e afiadas, chicoteando o ar em direção à inimiga.

Selindra desviava com movimentos rápidos, cortando algumas com a lança envenenada. Cada golpe liberava mais fumaça tóxica, fazendo os prisioneiros tossirem nas celas.

Tiberan rangeu os dentes.

Vinhas e espinhos não seriam suficientes.

Ele respirou fundo e concentrou sua energia.

Do chão úmido da prisão começaram a brotar flores — pequenas, azuis, com pétalas brilhantes.

O ar mudou levemente, e a tosse dos prisioneiros cessou.

— Flor de Mirthis… — murmurou ele. — Filtra o veneno do ar.

Selindra estreitou os olhos.

— Truques de criança.

Ela avançou, a lança estalando contra o chão, liberando líquido verde que corroía as pedras.

Tiberan reagiu rápido, fazendo crescer uma muralha de raízes grossas. O veneno bateu nelas, apodrecendo a madeira viva em segundos, mas deu tempo para ele criar outra defesa atrás.

O choque entre eles era desigual: ela atacava com precisão letal, e ele precisava improvisar a cada golpe.

De repente, a lança acertou seu braço. Não foi profundo, mas suficiente para queimar a pele com veneno.

Tiberan gritou de dor, mas não recuou.

Ele fechou os olhos, concentrando-se.

Do chão, surgiram novas plantas: flores vermelhas, que explodiam em pequenas fagulhas ao contato.

Quando Selindra tentou avançar, uma delas estourou contra sua armadura, deixando manchas negras e fumaça.

— Flores explosivas? — a Amazona riu com sarcasmo. — Um truque digno de um moleque desesperado.

Mas pela primeira vez, ela hesitou em avançar de frente.

Tiberan percebeu a abertura e criou lótus de pétalas brancas, que liberavam um pó calmante. Os prisioneiros tossiam menos, seus corpos pareciam ganhar forças.

Era como se cada planta que surgia não fosse apenas arma — mas um grito de resistência.

Selindra rosnou, enfurecida.

— Você acha que pode me vencer com flores? Eu sou o veneno. Não existe cura para mim!

Ela lançou um dardo de veneno direto em sua direção.

Tiberan ergueu uma trepadeira com frutos espessos. O dardo perfurou a fruta, que explodiu liberando um líquido viscoso que neutralizou parte do veneno no ar.

O corpo de Tiberan tremia de esforço. Seu braço ardia pelo ferimento. Mas seus olhos não desviavam.

— Se existe veneno… existe cura. Sempre.

Ele fez as vinhas se enrolarem na lança de Selindra, travando seus movimentos. Espinhos grossos surgiram, rasgando a pele dela.

Com um rugido, puxou a planta para baixo, forçando-a de joelhos.

O povo atrás das grades começou a gritar.

— É agora! Vamos! —

Tiberan olhou para eles.

— Vocês têm alguns minutos antes que ela se liberte. É a chance que têm. Andem! Façam sua vingança!

Os prisioneiros, movidos por anos de ódio, começaram a se soltar, quebrando correntes, avançando contra a Amazona caída.

Selindra urrava, tentando romper as vinhas, mas por enquanto estava presa.

Dona Maela se aproximou de Tiberan, lágrimas nos olhos.

— O garoto… o herege… ele não tem tempo. Esse veneno vai matá-lo rápido.

Ela segurou o braço dele com força.

— Vá até Valerah, nas fronteiras. Lá vive uma menina que dizem ser capaz de curar todas as doenças. É a única chance dele.

Tiberan olhou para Kaelvor, inconsciente, o rosto marcado pela dor.

Por um momento, pensou em deixá-lo. Seria mais fácil. Ele nunca pediu para estar preso. Nunca pediu para se envolver com aquele herético.

Mas então se lembrou dos olhos de Kaelvor.

Olhos em chamas. Olhos que não recuavam, mesmo diante de Tyr, mesmo diante da morte.

E entendeu.

Era essa chama que o levaria até Yggdrasil.

Não era o estudo. Não era a fé cega em Phytonia. Era a loucura de Kaelvor.

Ele respirou fundo e tomou sua decisão.

Abaixou-se, ergueu Kaelvor em seus braços, e falou para Dona Maela:

— Eu o levarei a Valerah. Mesmo que isso custe meu lugar aqui.

Os prisioneiros continuavam sua rebelião. Gritos ecoavam. Selindra urrava, presa nas vinhas.

E Tiberan, com Kaelvor nos ombros, deu o primeiro passo para fora daquela prisão, para um caminho sem volta.