O silêncio da prisão de Phytonia não era silêncio de verdade.

Era preenchido por tosses, gemidos, passos pesados dos guardas e o choro abafado de alguma criança escondida sob panos rasgados.

Kaelvor estava encostado contra a parede fria da cela, os braços pesados pelas correntes.

Tiberan, sentado ao lado, parecia calmo demais para alguém que compartilhava aquele destino.

— Você se acostuma com o barulho — disse Tiberan, como se respondesse a um pensamento não dito.

Kaelvor bufou.

— Não pretendo ficar tempo suficiente pra me acostumar.

Os olhos do andarilho percorriam os prisioneiros ao redor. Não via assassinos, ladrões ou traidores. Via gente comum: velhos de olhos cansados, doentes sem forças, crianças que mal sabiam andar.

A raiva começou a ferver dentro dele.

Uma voz suave quebrou o peso do ambiente.

— Não adianta gastar sua energia agora, rapaz. Aqui dentro, a força que vale é outra.

Kaelvor ergueu o olhar.

Do outro lado da cela, uma velhinha mexia em uma pequena panela improvisada.

Seus cabelos brancos estavam presos num coque malfeito, e as mãos enrugadas se moviam com delicadeza.

O cheiro que saía dali era fraco, mas real: uma sopa rala feita com restos de legumes.

— Sou Dona Maela. — Ela sorriu, oferecendo uma concha para alguém que mal conseguia se levantar. — A avó de todos aqui. Se não cozinho, esquecem até de lembrar que ainda somos humanos.

Kaelvor piscou, surpreso.

— Uma cozinheira… numa prisão?

— Alguém precisa cuidar — ela respondeu, simples. — A comida é pouca, mas é o que nos mantém vivos.

Antes que Kaelvor pudesse retrucar, um assovio curto ecoou pelo corredor.

Um menino magro, de cabelos escuros e olhar esperto, apareceu correndo pelas celas.

— Guardas descendo a escada! Dois deles! — disse rápido, olhando para todos.

Alguns prisioneiros se ajeitaram, outros esconderam pedaços de pão ou roupas rasgadas.

O menino parou diante de Kaelvor, curioso.

— Você é novo. — Ele inclinou a cabeça. — Sou Korin. Vejo as portas e aviso quando o perigo vem. Se não fosse por mim, já teriam pego metade das coisas que entram aqui.

Kaelvor arqueou a sobrancelha.

— Um vigia mirim?

Korin deu de ombros, sorrindo com malícia.

— Cada um sobrevive como pode.

Tiberan se aproximou, falando baixo.

— Não se engane. As crianças aqui crescem rápido. Este lugar não deixa ninguém inocente por muito tempo.

Foi nesse momento que algo inesperado aconteceu.

Enquanto os guardas passavam pelo corredor, deixando restos de pão velho para dentro de algumas celas, um deles deixou cair discretamente um saco pequeno, quase imperceptível, por entre as grades.

Dentro havia frutas secas e um frasco de água limpa.

Kaelvor notou. O homem usava o mesmo uniforme dos outros, mas seus olhos não carregavam arrogância, e sim cansaço.

Quando os outros guardas seguiram adiante, ele parou diante da cela de Kaelvor e Tiberan, mantendo a voz baixa.

— Comam devagar. — murmurou. — E não falem meu nome alto.

Kaelvor franziu o cenho.

— Quem diabos é você?

Ele hesitou, depois respondeu:

Lyros. Um dos guardas desta prisão. Mas não confunda: não estou com eles.

Kaelvor arregalou os olhos.

— Um guarda ajudando prisioneiros?

Lyros olhou para os lados, como se qualquer sombra pudesse denunciá-lo.

— Já vi demais. Vi idosos jogados aqui só porque suas rugas não agradavam à corte. Vi crianças como ele — apontou discretamente para Korin — tiradas de suas casas só por estarem sujas. Não posso mais fingir que isso é justiça.

Kaelvor se aproximou das grades, seus olhos ardendo.

— Então por que ainda veste essa armadura?

Lyros o encarou com firmeza.

— Porque é a única forma de continuar trazendo algo para vocês.

Fez uma pausa, e sua voz se tornou quase um sussurro:

— Se Phýton é mesmo o deus dos deuses… não acredito que ele aprove essa crueldade.

Kaelvor ficou em silêncio. Pela primeira vez, a chama em seus olhos não era apenas raiva.

Era reconhecimento.

Tiberan, do outro lado, observava tudo. Seus dedos roçaram sobre as folhas que sempre carregava, como se sentisse que algo importante havia acabado de nascer ali: uma faísca dentro da escuridão.

Notas finais
Tiberan se pronuncia "Taiberã".