Valentino‏

27 Medici


Depois que Vossa Graça deixou-me sozinha, comecei a pensar no que faria da minha vida deste momento em diante; deveria escrever uma carta ao meu pai, informando-lhe que tudo que mais desejara estava acontecendo? Ou talvez, espalhar por toda a Roma que o casamento de Cesare Borgia era uma farsa? Ou que tal, melhor ainda, gritar para os quatro cantos do mundo que o Santo Padre estava á esperar um neto? Mergulhando em meu sub-consciente, vi que tinha mais perguntas do que respostas, fazendo-me desistir, rapidamente, das que a sucederiam-se.

Pisquei meus olhos, que estavam vidrados na porta, senti-os lacrimejar por um breve momento, mas passou assim que eu comecei a prestar atenção nos eventos que aconteciam. O vento urrava, senti que as janelas encostadas poderiam ceder ao ar gelado a qualquer momento, e com um baque, me fazer ter um ataque do coração.

— Dannata? Posso entrar?

Não precisaria de ações surpresas ou brutas; as palavras por si só fizeram meu coração gelar e minhas mãos suarem frio. Não queria que me visse assim, não queria dar a notícia de que eu estava grávida, e sucessivamente, ser chamada de "brinquedinho louro".

— Claro que sim, Bartolomeo. — Respondi com toda a calma do mundo, embora meus pensamentos não concordassem com isso.

Bartolomeo Benedetto entrou com uma rosa em mãos e sua expressão me deixava curiosa; não sabia se estava ansioso ou confuso sobre o nosso casamento. Seus olhos cinzas encontraram os meus, permitindo-se, á reluzir um brilho que jamais tivera visto.

Rapidamente, desviou o olhar e entregou-me a flor que tinha em mãos. Por um momento, fiquei relutante, mas aceitei de bom grado seu presente e lhe dei um sorriso cansado. Analisei a rosa vermelha, e nunca imaginei que um presente tão simples fosse me tirar do estado em que encontrava-me; exausta, sem motivos para viver em prol da sociedade.

— Fico imensamente agradecida com o presente, senhor Benedetto, nunca imaginei ganhar flores de um cavalheiro como vossa senhoria. — O encarei com um sorriso fingido em meu lábio. — No que devo a honra de sua visita?

— Não sou mais um cavalheiro, Dannata, fui feito duque poucos dias atrás, grão-duque, na verdade. De Toscana, devo-lhe informar. Vim de bom grado aqui para informar-te que, no dia 19, depois de amanhã, estaremos em uma cerimônia na Basílica de São Pedro, no qual o papa em pessoa estará para a realizar. Caso não saiba, meu amor, estamos noivos. — Fingi surpresa arregalando meus olhos. — Por favor, não faça-me seu inimigo, fiz isso somente para que vossa senhoria tenha uma vida da qual se orgulhe. Conversei com seu pai á respeito, e... Tu passarás a ser grã-duquesa de Toscana, e também, serás uma Medici.

— Medici? Tu és...? — Ele confirmou com a cabeça. — Como nunca me disse isso? Deixou passar tal informação como se fosse desprovida de atenção, desimportante.

— Nunca houve necessidade, meu amor. Meu nome, se queres saber, é Giovanni Bartolomeo Benedetto di Medici, e o teu passarás a ser Giorgia di Medici, pertencente á casa dos Medici; tão disputada que nem o menos desafortunado recusaria tal convite. Mandei que chamassem apenas Machiavelli, já que os outros... Faleceram. Sinto muito. Tomei a liberdade de convidar a família Borgia também, já que vive com há certo tempo. — Bartolomeo parou, pensativo. — Por que está de cama? Estais a adoecer? Tão perto do casamento... Óh, meu amor!

— Era sobre isso que eu gostaria de falar-te. Se estais a chamar gravidez de doença, então sim, estou a ser uma doente do pior grau de insanidade. Não há como ser sua culpa, Vossa Graça, já que acontecera antes da proposta de casamento, e até mesmo antes do cancelamento do meu noivado anterior, de Pedro Luís Anjou.

— Grávida? De quem? — Seus olhos cinzas não ficaram flamejantes de raiva, ao invés disso, ficaram aguados de tristeza. — Não estou bravo nem nada, só informe-me de quem és essa pequena criatura de Deus que guardas em sua barriga, meu amor.

— Como assim não estais a ficar furioso? Realmente, tu serás um marido de bom grado para mim, disso não resta-me dúvidas! — Exibi um sorriso triste. — Acho que já sabe quem é o pai do meu filho.

— Sim, mas quero que tu digas em voz alta. Em claro e bom som.

— Cesare Borgia, o duque de Valentinois. — Minha voz falhou.

— Certo. — Meu noivo exibia calma, seus olhos cinzas percorreram o quarto, em busca de respostas. — Como eu sou soberano em minha terra, tu poderás deixar com que a criança fique com o sobrenome Borgia, mas se tiver mais filhos — e vai ter, depois destes, serão Medici e entrarão na linha de sucessão, serão eleitos duques e duquesas, diferente desta criança que estais a carregar em seu ventre. Mas, não te esqueças, no que depender de minha pessoa e de minha família, se Cesare não puder dar amor, bens materiais, carinho, atenção e tudo que uma criança precisa, eu o darei. E se acaso, o duque Valentino não assumir tal responsabilidade, eu terei o prazer de assumi-lo, batizando o nosso filho de Medici, como se fosse legítimo. Está de acordo?

— Sim, meu noivo.

— Boa noite, meu amor. — Ele chegou mais perto de mim, exalava cheiro de cravo, e eu sorri. Beijou-me a face de meu rosto, senti um arrepio súbito. — Espero-te linda no nosso casamento. Se for possível vossa pessoa ficar mais linda do que já és.