Valentino
28 Padre
O amanhã finalmente tornara-se hoje, e percebi que em poucas horas, ia tornar-me uma mulher casada, e mais do que isso, uma Medici. Com um sorriso no rosto, peguei uma folha que Cesare tinha deixado no meu quarto e sentei-me na escrivaninha. Parecia que as forças que faltavam-me no dia anterior, hoje, me sobrariam. Peguei uma pena e a mergulhei no tinteiro, gostando de remexer a tinta com a ponta da pena.
Passei um bom tempo pensando para quem escrever a carta, e depois disso, pensei o quê escrever. Depois de horas de trabalho, admirei minha letra, e depois, minha nova assinatura.
Senhor Machiavelli,
O senhor estais a saber que me casei desta vez não pela sua satisfação, mas por meu gosto. Eu sei que gostarias do fundo do coração, que eu virasse uma freira á ser uma Medici; ou até mesmo, quem sabe, ser uma Borgia do que Medici. Dada as circunstâncias em que eu me encontro, papai, não vejo motivo ou razão para discordar de meu noivo, e futuro marido, o grão-duque de Toscana. Se lhe o agrada tanto quanto eu, meu senhor está demonstrando respeito e devoção á minha pessoa, mas o senhor, meu pai, já estais a saber, já que me avisara anos antes.
Junto á ele, talvez eu construa uma família bonita e rica, poderosa, com filhos á mercê da realeza e cobiçados por toda a Europa, assim como Lucrezia Borgia. Ah, Borgia! Corrupção para todos os lados, junto, vieram mortes, muitos de inocentes, outras, de rivais. Eu só espero, do fundo do meu coração, que tudo isso um dia acabe. Estou farta de mentiras, roubos, ilusões. Quero manter-me com os pés cravados no chão, como uma árvore, que assim seja.
Se te alegras tanto, pois lá vai a notícia de que tanto falava, de que tanto ansiava. Seu sonho acabara de tornar-se realidade! Estou carregando um Borgia em meu ventre, papai, e confesso, estou com medo do que acontecerá com nós.
Se for um menino, Cesare ficará feliz e sorrirá horrores... Mas, e se for uma menina? Pelos céus! Não posso imaginar isso! Agora o que eu sei o que uma mãe sofre para ter seu filho, sei o quanto minha mãe me amava. Sei o quanto Cecília amava Bernardo, e sei também, que nosso amor passa fronteiras — sejam elas do Céu ou do Inferno. Sei que não deveria, mas também penso em Charlotte, esposa de Cesare, e me coloco muitas vezes em seu lugar... Bartolomeo Benedetto deixou claro que se Cesare não assumir o filho e suas devidas responsabilidades, ele o assumirá com o maior prazer.
Agora o senhor terá um bom motivo para orgulhar-se de mim — ou não.
Não me lembro qual fora a última vez que tu disseste-me "Se cuida" ou "saiba que eu tenho muito orgulho de vossa senhoria!", talvez eu esteja ficando velha, esquecendo-me de tudo de bom que um dia a vida já me dera, ou talvez eu anseie tanto por essas palavras quanto vosso senhor. Era só isso o que eu precisava ouvir para alegrar meu dia; não precisava ser do senhor, mas de qualquer um.
Não pense que só porque eu estou lhe enviando tal carta eu pensei em vossa senhoria durante toda a tarde. Primeiro, eu pensei em mandar para Cecilia, para saber como estava Bernardo e como o senhor estava lidando com isso... Sinto falta deles. E sei que o senhor também o sente.
Não precisa ficar se escondendo atrás de uma parede, nós partilhamos o mesmo sentimento, nós partilhamos o mesmo sangue. Nós somos os Machiavelli! Não precisamos nos deixar abalar á nada nem ninguém, e se um dia alguém o fizer, eu lhe juro que, estamos próximos do fim.
Não sei quanto á você, mas estou curiosa a respeito de meu casamento com os Medici. Vai ser intrigante viver em meio os inimigos... Não acha, papai?
Saiba que eu o amo imensamente.
Que Deus o cubra de bênçãos e leve com si todas as tristezas e raiva que o afligem tanto, deixando somente a felicidade e o amor prevalecerem.
Escrevo com lágrimas nos olhos,
— Giorgia di Medici
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