Valentino
6 Bramare
Eu troquei vários olhares desconfiados para Lucrezia; ou ela estava realmente querendo formar uma amizade comigo ou era uma excelente atriz, felizmente, ela não percebeu nenhum olhar meu dirigido á ela. Entramos na Catedral de São Pedro, eu realmente estava encantada com o que estava vendo: Os cômodos eram separados por enormes colunas decoradas com uma tinta dourada, e eu deduzi que fosse ouro — o papa era mais importante que o rei nessa época. O ambiente estava cercado por ouro, obras de arte caríssimas e santos.
As colunas me deixaram maravilhada no mesmo momento em que as admirava: elas eram altas, passavam-se dos dois metros de altura, e quando parei para encarar o que havia no teto, aquilo me deixou impressionada. Ele era revestido com pequenos ladrilhos de ouro, fundindo-se umas com as outras, causando uma bela combinação. Lucrezia, agora iluminada pelo sol que iluminava a parte central da igreja, me encarava. Percebi o seu sinal e rapidamente a fitei, ela exibiu um sorriso mesquinho, o mesmo com que Cesare me observava.
– Nunca fora numa igreja antes, Giorgia?
– Já fui em muitas, mas devo admitir... Esta é magnífica! Cada canto dessa igreja foi milimetradamente planejada para que tudo se encaixasse perfeitamente. Não é a toa que o papa vive aqui. Imagino que não teria melhor presente á voz de Deus na Terra de que essa Catedral; cada canto dessa igreja possuí uma obra de arte oculta, misteriosa, mas mesmo assim, bela. — Eu sabia que meus olhos estavam brilhando naquele momento, e então, dei um sorriso para Lucrezia.
– É, pode ser. Não sou chegada a artes, prefiro poesias. — Ela retribuiu meu sorriso. — Venha comigo, vou te apresentar seu novo quarto, sua nova casa... E também, sua nova família!
– Mas e minhas coisas? Tenho que voltar para pegá-las. — Ia voltando pelo mesmo caminho que entrei, até que ouvi Lucrezia me chamar.
– Giorgia! Volte! Depois eu peço para que um de meus empregados vá buscar... Pode ser? Agora não se preocupe com isso, vamos conhecer mamãe, ela está ansiosa para conhecê-la! — Ela me deu a mão, e eu a segurei.
Caminhamos juntas até a famosa casa dos Borgia, uma moça de quarenta e poucos anos, morena, com joias e roupas caras estava a nossa espera. Deduzi que fosse uma das empregadas de Lucrezia, mas depois que ela me disse seu nome, vi que teria feito uma dedução totalmente errada.
– Lucrezia! — A moça gritou, então Lucrezia soltou minha mão e foi correndo em direção á ela. Elas se abraçaram, e eu apertei meu passo para que eu pudesse chegar o mais rápido possível perto de Lucrezia.
– Então, filha, essa é a tal Machiavelli? — Lucrezia fez que sim com a cabeça. — É impressionante o quanto vocês são parecidas, vocês passariam por irmãs tranquilamente. Prazer em conhecê-la, serei sua mãe postiça agora. — Ela riu.
Eu fiz uma referência, e ela me acompanhou.
– Prazer em conhecê-la, meu nome é Giorgia di Maria Machiavelli, sou filha do chanceler Nicolau Mach — A mãe de Lucrezia me interrompeu.
– Sem apresentações formais, por favor. Somos uma família agora. Sou Vannozza dei Cattanei. — Ela sorriu de forma majestosa para mim, e reparei agora que ela e Cesare tinham os mesmos olhos.
De repente, eu e Vannozza nos viramos para ver com quem Lucrezia estava conversando alegremente, ela rapidamente bufou e se retirou do ambiente. A moça era ruiva e tinha incríveis olhos azuis, ela parecia ter mais ou menos minha idade, e a julgar pela felicidade que Lucrezia falava com ela, eram amigas.
– Giorgia, venha aqui! — Lucrezia me chamou, e andando calmamente fui até as moças. — Tem uma pessoa que quer te conhecer.
– Ai meu Deus! Não imaginava que a filha do temido Nicolau Machiavelli pudesse ser tão linda assim, achei que fosse igual ao pai, interessada nos assuntos políticos e o bem-estar de sua cidade, mas vi que errei quando te matriculei em Artes. — Os olhos bondosos da senhora fizeram com que minhas bochechas ficassem vermelhas instantaneamente. — Não precisa ficar assim, uma moça como você, linda e esperta tem muito pela frente.
– Obrigada. E você, como se chama? — Eu sorria. Aquela moça irradiava paz e alegria.
– Sou Giulia Farnese, conhecida pelos cidadãos como la bella Farnese, sou a segunda mulher do papa, por assim dizer. — A amante do papa era tão linda quanto falavam, eu estava gostando dela. — Mas então, Cesare me informou que terá um noivo francês, está ansiosa com isso?
– Você está me perguntando se eu estou ansiosa com o fim da minha vida? Ahn, não exatamente. — Giulia me encarou com um olhar de reprovação. — Desculpe por isso. — E então, ela e Lucrezia se entregaram as gargalhadas.
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No jantar o papa fez questão de convidar uma banda, seus cardeais e várias cortesãs. Eu não entendia o por quê daquilo, então ao invés de espalhar tudo o que penso, decidi só observar. A janta estava deliciosa, assaram um coelho e vários frutos do mar, apesar de não ser o que eu comeria, experimentei tudo que estava ao meu dispor.
Depois da janta, todos já com os estômagos cheios e embriagados pelas altas doses de vinho servidos, o papa decidiu que todos nós deveríamos dançar — junto ás cortesãs. Eu decidi ficar sentada num canto, fingindo minha dor de cabeça enquanto assistia ao terrível espetáculo.
Vários cardeais passavam as mãos nas mulheres, e começaram uma orgia ali mesmo. Ignorando os beijos, o valor sentimental, e todas essas coisas que eu pensaria como seria, eles já arrancavam a calça de forma assustadora e penetravam furiosamente nas moças. Eu não deveria ter disfarçado meu terror, pois Giulia veio ao meu encontro.
– Tudo bem querida? Quer sair daqui? — Eu assenti com a cabeça.
Eu me levantei com sua ajuda e então o papa se colocou como obstáculo em nosso caminho, o que me deixou profundamente irritada. Ele estava segurando uma taça de vinho e exibindo um sorriso de canto.
– O que foi Rodrigo? — Giulia perguntou, obviamente incomodada.
– Tenho que falar com Giorgia. — Percebendo que Giulia não iria me soltar de jeito nenhum, ele completou. — A sós.
– Giorgia, eu vou ali e daqui a exatamente cinco minutos estarei de volta para te levar para cama. Pode ser? — Ela falou-me gentilmente. Eu dei um breve sorriso e a observei se afastar.
– Venha pra cá, criança. — O Papa Alexandre me conduziu até as mais escuras partes do cômodo, onde se encontrava apenas almofadas no chão. Ele se sentou, e depois bebeu um lento gole de vinho. — Temos que conversar.
– Claro, Sua Santidade. — Ele fez sinal para que eu me sentasse ao seu lado.
– Não estou aqui como O Papa, eu estou aqui como apenas eu. Por favor, não seja rude e sente. O que eu tenho que conversar com você é realmente sério. — Eu sentei ao seu lado, me afastando cada vez mais dele e de seus olhos de predador sanguinário. Ele estava me assustando, e ele estava saboreando isso.
– Então minha Giorgia, você sabe que a vontade de te possui-lá já não é tão secreta assim — Ele passou as mãos entre minhas coxas, e como instinto, não guardei forças para lhe dar um tapa. — oh! Não seja assim, você só tornará as coisas mais difíceis assim. Por que acha que eu convenci á Lucrezia que você seria uma ótima amiga e companhia para ela? Não é pelo meu interesse pela felicidade alheia, é claro, é pela minha própria felicidade.
– Eu quero que você queime no inferno! Você está contradizendo todas as regras que a igreja impõe, acha que Deus quer isso? Que talvez, ele esteja feliz com isso? — Ele passou seus dedos enrugados em meu rosto, eu senti um breve arrepio, e senti uma grande ânsia de vômito.
– Se Deus não quisesse isso, por que ele me colocaria aqui?
– Você não fez isso honestamente, você é corrupto!
– E quem você pensa que é pra falar assim de mim? Você é uma bastarda! — O Papa estava furioso.
– Não, ela é Giorgia Machiavelli, e seu tempo está acabado. — Eu me atirei nos braços de Giulia. — Vamos, não deixarei que ele se aproxime de você. Eu prometo.
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