Valentino‏

7 Dannata


Eu e Giulia corremos até o meu novo quarto; como toda a Itália gostava de comentar, os Borgias amavam o luxo, esse quarto era três vezes maior do que aquele que tinha em Florença, com mais peças de ouro de que poderia imaginar. Ele era de um tom de azul marinho, enquanto o chão era revestido de uma pedra um pouco mais escura; o quarto tinha um guarda-roupa enorme, e uma cama maior ainda que estava revestida com pequenos — e caros! — fios de ouro.

Giulia me ajudou a tirar aquele vestido, e rapidamente colocou outro mais leve para que eu pudesse dormir. Quando me deitei, ela se sentou ao meu lado, e com apenas uma vela iluminando o seu rosto, ela me disse:

– Sabe, antes de eu tomar o lugar de Vannozza, eu era casada. Meu marido era um bom homem, admito, mas fui seduzida por Alexandre, e te peço, não seja tão tola quanto eu fui. Eu larguei o certo pelo duvidoso, e olha onde estamos... Ele não se contenta comigo mais, parece que falta-me algo — Eu a interrompi.

– Olha, sei que não te conheço nem um dia, mas sei que em você não falta nada, o que falta em Alexandre é vergonha na cara. Mas Deus um dia vai se vingar por tudo que ele fez todos italianos sofrerem. — Giulia passou as mãos em meus cabelos, fazendo-me uma massagem da qual eu lembrei de Cecília.

– Por mais que eu queira negar, isso tudo que você disse é verdade. Mas não é só ele, o filho dele, Cesare, irá pelo mesmo caminho que o pai. Quando Alexandre morrer — o que não falta muito pra isso — ele ficará sem influência, sem poder nenhum. Tenho pena dele.

Ela ia se levantando para ir embora, quando juntei toda a coragem que consegui reunir naquele momento e lhe perguntei:

– E você sabe quando ele volta? — Ela arqueou uma sobrancelha e sorriu.

– Em poucos dias, talvez um ou dois. Logo, logo Cesare estará aqui para deixar Roma de pernas pro ar novamente. Boa noite, Giorgia. Qualquer coisa que precisar, me chame, estarei no quarto ao lado. — Giulia apagou a vela e me deixou ser engolida pela escuridão.

Não sei quanto tempo durou a festa do papa, mas sei que demorou muito para que o sono finalmente chegasse e me dominasse por completo.

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Acordei com a luz do Sol batendo em meu rosto, pelo que pude ver, estava amanhecendo, e como de costume, estava com sede. Eu me levantei, ainda meio tonta pelo sono, mas segui adiante até a cozinha. Sempre que via um guarda, me escondia: me abaixava, me espremia, fazia de tudo pra não me verem e me arrastarem para os aposentos papais.

Cheguei na cozinha e vi a destruição que a festa tinha proporcionado; Vasos de flores quebrados, comidas espalhadas pelo chão e um monte de cortesãs desmaiadas de sono ali mesmo, no meio da sujeira.

– Algum problema, madame? — Eu reconheci aquela voz de primeira. Afinal, como poderia esquecer-me?

Micheletto estava do mesmo modo que o vi quando entrou pela janela de meu quarto, não mostrava nenhuma emoção e a cor preto possuía-o da cabeça aos pés. Sua barba e cabelo ruivo estavam precisando de um corte, mas por sua aparência e indiferença, logo percebi que ele não dava a mínima pra isso.

– Só me assustei com a festa de ontem, e desci para pegar um pouco de água. — Lembrei que ainda estava com os trajes que dormi, então cruzei os braços. — E você, o que faz aqui?

– Estou esperando meu senhor, madame. Ele chega hoje a noite, o papa vai dar-lhe um banquete idêntico do qual você viu ontem, muitas cortesãs e muita comida. — Ele chegou mais perto de mim e falou mais baixo. — Não se assuste tão facilmente, o que verá nesta casa pelos próximos meses será mil vezes mais horrível. Cesare me perguntou como você estava, tinha que te ver pessoalmente para isso. Vejo que está bem, Giorgia.

– Bem assustada e com uma vontade louca de fugir para minha Florença de novo. — Eu dei um sorriso nervoso e peguei uma taça, enchi-a de água. — Então, você trabalha para Cesare me vigiando? É assim que ganha o pão de cada dia?

– Olha aqui, moça, eu já matei mais gente que você possa imaginar, misericórdia não funciona comigo nem com o meu senhor, isso eu posso lhe garantir. — Ele olhou para os lados. — Cesare nunca me mandou vigiar ninguém, mas ele quer ter certeza que seu pai não tocará você, eu vi vocês dois ontem, a propósito, belo tapa.

Eu bebi um longo gole da água, tentando absorver junto á ela aquelas informações que ele estava me dando.

– O papa não terá chance comigo. — Eu disse, mostrando firmeza.

– Que seja. Agora terei que comprar umas comidas para o meu senhor, e depois esperá-lo. Pelo jeito que conheço Cesare, ele não vai parar de sorrir. E nem deveria, ele se casou com uma duquesa! — Ele riu, e percebendo meus olhos tristes, continuou. — Desculpe, falei de mais. Foi bom te ver, sua beleza se renova a cada dia.

Micheletto andou normalmente até a porta da cozinha e desapareceu. Fiquei-me perguntando quais eram suas habilidades, e se eram usados para o bem ou mal. Nada que se ligasse a família Borgia era bom, então... Dando mais um longo gole na água, afastei aqueles pensamentos. Eu coloquei a taça em cima da mesa, e então corri pra cima.

Estava prestes a entrar no meu quarto, quando ouvi uma voz.

– O que você pensa que está fazendo uma hora dessas? — O Papa Alexandre VI me perguntou, intrigado.

– Fui ao banheiro. — Menti. — Agora, por favor, me dê paz para que eu possa dormir como um anjo.

– Acho que você terá mais paz se o próprio papa ir deitar com você. Não acha? — Ele sorriu de canto.

– Não, não acho. Bom dia, Sua Santidade. — Entrei no meu quarto e tranquei a porta.

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Passei o dia inteiro em meu quarto, a dor de cabeça não me deixava em paz, parecia que o maldito papa tinha lançado-me uma maldição. Lucrezia passou por meu quarto milhares de vezes ao dia, até que ela deu um grito.

– CESARE! Que saudade que estava de você, meu irmão.

– Eu também estava com saudades, meu amor. Giorgia já está aqui? Onde ela está?

Ouvi passos vindo em direção ao meu quarto, mas não me importei, minha cabeça estava doendo o suficiente para que eu fechasse meus olhos e ficasse ali deitada, fazendo absolutamente nada.

– O que aconteceu com ela? — Cesare perguntou, preocupado. Eu tentei sorrir, mas faltavam-me forças.

– Ela diz que está com dor de cabeça, não comeu nada o dia inteiro e ficou aí, deitada, quieta, parecendo um cadáver. — Senti que Lucrezia estava com os olhos fixados em mim, senti um arrepio percorrer todo o meu corpo.

– Já chamaram um médico?

– Papai disse que ela será curada pela fé.

– Ela vai ser curada quando resolver que estará nos meios das calças de nosso pai, por favor, Lucrezia, chame um médico!

– E enquanto isso você ficará com ela? — Ela questionou.

– Sim, ficarei. Vá logo, irmã, parece que ela piora a cada segundo.

Ouvi uns passos vindo em direção á minha cama, e então Cesare se sentou ao meu lado, passando as mãos em meu cabelo.

– Diga-me, Giorgia, o que tens?

– Desgosto. Foi só eu me apaixonar por você que você lança a bomba de que irá se casar e se, eu quiser, também posso me casar com um francês, faça-me o favor, Cesare! — Falava baixo, pois minha voz estava rouca. — Se eu não tiver você, não quero ninguém.

– Abra os olhos. — Lentamente, eu obedeci. — Mesmo doente, você continua linda. Não parei de pensar em você enquanto estava fora. Você é uma droga pra mim, Giorgia. La dannata. Não estava precisando de um apelido?

Pois aqui vai um, Dannata. A única droga capaz de viciar todos os homens.