Valentine's Day
1 Way Back When
Notas iniciais
Nós nunca tivemos muito o que fazer
Então, nós apenas deitávamos na casa de alguém
Algum dia eu vou ter tudo de novo
Assim como costumava ser.
O relógio marcava exatos 6:47 da manhã do dia 14 de fevereiro.
Eu sabia que hoje era dia dos namorados. Eu sabia que devia ter me levantado para ir ao trabalho porque não era feriado. Eu sabia que as pessoas estavam contando comigo naquele dia e que elas queriam que eu estivesse por perto apenas para ter certeza de que não faria nada de "perigoso".
Entretanto, eu não queria levantar da cama.
Olho para o lado e vejo o lado da cama vazio, o travesseiro intocado e aquilo me fazia ter vontade de chorar. Era assim todas as manhãs, desde o último 14 de fevereiro e eu não sabia o que era pior, o fato de fazer um ano ou o fato de eu continuar vivendo.
Andrew havia morrido. Ele havia sofrido um acidente a caminho de casa, e a última coisa que me lembro antes de ser afastada de seu corpo morto e cortado era ter visto um grande buquê de rosas com um cartão endereçado a mim, com as palavras "Eu te amo e sempre te amarei" e aquilo me quebrava aos pouquinho imaginando que iriamos sair para jantar como um casal de namorados, ia fazer três anos que estávamos namorando e era tão bom.
Fecho os olhos e imagino seu rosto, seu toque e seu cheiro.
Apesar de se passar um ano, eu tinha a lembrança de tudo que era seu. Lembrava que toda a manhã ele me acordava com uma fungada no pescoço porque eu sentia cocegas com sua barba; dele dizendo que me amava enquanto beijava meu rosto ou quando estava extremamente feliz começava a cantar e me puxava para dançar, mesmo que não houvesse música. Ou quando íamos visitar sua tia-avó, que era sua única família que não o odiava, e deitávamos na grama olhando para o céu e buscando formas nas nuvens.
Black não era apenas meu namorado. Era meu amante, era meu marido. Ele era a pessoa que eu tinha certeza de que passaria o resto de minha vida, era o cara que eu sabia que só poderia ama-lo e ninguém mais. Era "o" cara certo para mim. E tudo se desfez com aquele maldito acidente que o afastou de mim de uma rapidez que eu ainda tinha dúvidas se havia acontecido mesmo ou se era apenas um grande pesadelo que não tinha fim.
Naquela época dormíamos até a tarde
E levantávamos e já saiamos
Abra a janela, deixe o sopro da brisa entrar,
Esqueça tudo.
Abro os olhos e encaro a minha realidade. Eu estava morrendo aos poucos. Eu havia pego a pior doença possível, a doença do amor. Eu o amava intensamente, todos os dias da minha vida, mesmo ele tendo partido dessa vida. Eu o amava de uma forma que me matava aos poucos por imaginar uma vida longe dele, por pensar em seguir a vida sem ser ao seu lado, sem dar continuidade aos planos que criamos juntos, sem construir uma família ao seu lado. E essa doença estava me levando, de pouco em pouco. E eu não me importava.
Quando Andrew estava aqui, era tudo mais alegre. Ele me fazia feliz como nunca pensei que seria. Ele me fazia sentir coisas que nunca imaginei que sentiria, me fez sentir amada, feliz, em paz comigo mesma e com o mundo. Dormíamos tarde após vermos maratonas de seriados policiais; havíamos experimentado comidas de diversas culturas e até fizemos curso de primeiros socorros juntos. Andrew me fazia ser livre, estar com ele significava estar em uma constante montanha-russa sem saber qual seria a próxima manobra que daríamos.
Entretanto, tudo o que sobrou foram lembranças. Memórias de um passado que nunca iria voltar, memórias de algo que nunca mais seria o mesmo, memórias de um passado que seria esquecido se eu não o amasse tanto.
Obriguei meu corpo erguer-se sobre o colchão e olhei para os lados procurando o telefone na confusão que estava o meu pequeno apartamento. O lugar que morava era pequeno, porém, parecia o suficiente para eu viver ali por um bom tempo e mesmo com Andrew constantemente ficando comigo em casa, ainda parecia o suficiente para nós e Spencer, o meu bulldog inglês.
Localizei o telefone perto da televisão e levantei da cama sentindo o chão gelado nos meus pés, porém, não me incomodei com isso. Eu sentia frio, eu sentia calor, eu sentia fome e tristeza e saudade. Eu estava viva, e isso era o que me movia de um lado para o outro, o que me mantinha indo para o trabalho e fazendo as demais coisas.
Passei por todas as confusões de roupas, sapatos e utensílios domésticos que estavam jogados no meio do apartamento. Peguei o telefone e disquei o número do trabalho e afirmei que não ia trabalhar hoje. Megan apenas falou "o.k". Ninguém iria questionar minha folga hoje, porque todos sabiam. Todos conviveram com Andrew. Desliguei o telefone murmurado um "tchau" e depois andei até a janela e abri sentindo uma brisa leve bater em meus cabelos e bagunça-los e nesse momento desejei esquecer tudo... mas não conseguia.
Sim, esses serão os dias que eu vou sentir saudades
Quando estiver mais velho, quando estiver grisalho e parar de trabalhar
Espero que eu possa dizer
Quando todos os meus dias terminarem
Nós estávamos apenas nos divertindo.
Black sempre me dizia que íamos ficar juntos até o final. E ele estava certo. Ficamos juntos até o fim de sua vida, e isso me deprimia. Sempre pensei que ele me enterraria quando estivesses velhos demais, com cabelos grisalhos e parado de trabalhar na galeria. Quando estivéssemos no asilo jogando bingo com nossos novos amigos, brincando de dominó ao por do sol ou apenas andando pelo litoral como se não tivéssemos horas para voltar.
Ando até a cozinha e ligo a cafeteira. Pego a comida de Spencer e coloco na tigela e o vejo levantar preguiçosamente de sua caminha e andar até a tigela. Abaixo-me e o afago. O bulldog foi presente de Andrew como um pedido de desculpas, alegando que se me desse um cachorro, ele sempre teria uma desculpa para vir me ver mesmo que estivéssemos brigados, porque o cachorro também era dele. Spencer foi o que havia me sobrado de fato de Andrew, e eu o amava mais do que já o amava. Spencer havia se tornado meu companheiro para todas as horas, me acordando com seu focinho gelado, ou dormindo em meu colo quando as lágrimas teimavam em aparecer no meio da noite após um pesadelo. Eu sentia que Andrew estava ali comigo quando o cachorro estava comigo.
Quando o café fica pronto coloco na xícara lascada na alça por minha culpa que havia derrubado no chão quando recebi um buquê gigante de rosas no dia dos namorados dois anos atrás, porque não esperava que ele lembrasse dessa data ou que me mandaria flores. Pego minha xícara fumegante e ando até o sofá sentando e colocado uma manta sobre minhas pernas e fico olhando para fora.
Era aconchegante ver as pessoas andando de um lado para o outro na rua. Era estranho, mas eu gostava da sensação de fazer parte da vida delas mesmo que elas não soubessem de minha existência. Andrew gostava de fazer isso também. Eu e ele brincávamos de tentar adivinhar a vida de cada pessoa que passava na rua e às vezes passávamos nossos domingos preguiçosamente no sofá inventando histórias sobre as pessoas que nem sequer sabíamos os nomes.
E quando não estávamos em casa, estávamos no Central Park fazendo piqueniques, tirando fotos ou brincando como se fossemos dois casais de adolescentes. Porém, nossa atividade favorita era tirar fotos ou pintar. E não era a toa que eu trabalhava em uma das galerias famosas de Manhattan, e Andrew também havia trabalho, entretanto, ele era meu chefe inicialmente, já que seu pai era o dono da galeria. Nós dois sempre estávamos com uma câmera, uma caneta ou um pedaço de papel e podíamos desenhar a qualquer momento.
Bem, nós iríamos beber durante a tarde,
Deitar na grama, então cair no sono
Oh eu nunca irei ver aquela menina de novo?
A menina de um tempo atrás.
Fico a tarde toda olhando para a janela e esqueço que devia comer. Eu não sentia fome em dias como esses do qual a tristeza e a saudade tomavam conta de mim. Eu apenas queria ficar no meu canto olhando para as pessoas e deixar o dia acabar para recomeçar um outro dia e torcer para que ele fosse melhor. Spencer aconchegou-se em cima da minha barriga e eu comecei acaricia-lo.
O anoitecer estava começando e eu me lembrei quando eu e Andrew saímos de uma festa bêbados. Naquela época eu o odiava. Havia sido arrastada a festa por que Andrew afirmava que eu precisava fechar negócio com um cara que nem sequer iria aparecer. Eu acabei me embebedando com poucos copos de tequila e Black foi mais resistente que eu, mas no fim da noite, nós dois estávamos deitados na grama dizendo coisas sem sentido e eu disse pela primeira vez que eu gostava dele, apesar dele me irritar e ser um completo babaca. Black afirmou que eu não era tão chata assim e beijou minha testa, e depois minha boca. O susto foi grande com esse simples gesto que eu e ele ficamos nos encarando por alguns segundos antes da náusea me atingir e eu vomitar no gramado. E depois dormi, ali mesmo, com Black me observando.
Não era a melhor lembrança, porém, era uma das que eu mais gostava. Foi quando eu admiti que não odiava Black por completo e que ele podia ser diferente do que eu pensava que era. E foi o nosso primeiro beijo, apesar de ambos estarem bêbados e sem saber o que fazíamos. Só lembrei desse episódio, por completo, alguns meses depois quando Andrew disse que ficou pensando quando me veria de novo, a menina que ele havia beijado no meio da bebedeira e que havia vomitado após seu beijo, porque não tinha certeza de que era eu mesma. Fazia um mês que estávamos namorando, quando lembramos do episódio.
E esse dia parecia que havia acontecido dez anos atrás.
Sim, costumávamos dividir um cigarro
E jogar juntos tudo o que tínhamos
E então você está dirigindo o carro dos meus pais
E amando direto até você cair.
Mas nem tudo havia sido apenas flores. Tínhamos nossas discussões diárias. Brigávamos por quase tudo e mais um pouco. E uma das nossas maiores brigas sempre envolviam o seu vício por cigarro. Andrew era constantemente visto com um cigarro em sua boca, alegando que não conseguia parar por ser um vício desde sua adolescência. Havia tentado de tudo, desde os adesivos até bolinhas para apertar quando estivesse com vontade de fumar, porém, nada havia sido sucedido que eu, irritada, peguei um de seus cigarros e acendi dando uma tragada. Claro que quase morri e Andrew prometeu que não fumaria mais perto de mim, porque não queria me ver se afundar em um vício como ele.
Outro motivo de brigarmos era o fato de que eu sempre ganhava nos jogos. Andrew era um péssimo jogador e um péssimo perdedor. Não aceitava o fato de perder para mim nos jogos, seja elas quais forem, desde dominó até forca. E isso o deixava extremamente irritado e acabávamos brigando um com o outro. Mas, no fim da noite, íamos para a cama como se nada tivesse acontecido.
Esses serão os dias que ganharam a minha alma.
Apesar de brigarmos constantemente, apesar de nossa história não ter começado com um "era uma vez", ou com algo amigável — já que nos odiávamos — eu tive certeza que até o fim de seus dias, tivemos nossos felizes para sempre. Até o nosso último momento naquela manhã no qual eu disse que o amava e que o esperava mais tarde para irmos jantar, eu fui feliz. Em todos os momentos que estive com ele, seja nos bons ou ruins, eu fui feliz. E isso me quebrava por dentro. Porque eu não sabia mais o que era ser feliz há um ano. Tinha momentos que eu ria, tinha momentos engraçados, eu não havia me enterrado em uma profunda depressão a ponto de nunca mais sorrir. Mas isso tudo era apenas uma felicidade momentânea, da mesma forma que vinha rápido, ia mais rápido ainda e eu voltava ao meu estado saudoso.
Sim, no tempo nos movemos tão rápido
Algumas coisas são feitas para durar
Estou aqui para te ver, meu velho e querido amigo
De um tempo atrás.
Olhei ao meu relógio da parede e eram 20:39. Minha barriga havia começado a reclamar de fome, e eu precisava me alimentar. E foi o que fiz. Levantei do sofá e andei até a cozinha preparando uma comida de micro-ondas rápida e depois comi assistindo um filme idiota na televisão, daqueles que você nem sabe o assunto, mas sabe que é o pior filme que você já viu.
Quando terminei meu jantar, escutei a campainha tocar. Deixei meu prato em cima da mesinha de centro e andei, de pijama mesmo, até a porta abrindo. Ao abri-la me deparei com algo que me deixou momentaneamente sem ação. Ali, na minha frente, tinha um enorme buquê de rosas e senti meu coração ficar esperançoso, mesmo sabendo que não possível que Andrew estivesse vivo.
– Senhorita James? – Escuto uma voz desconhecida perguntar.
– Sou eu mesma.
– Mandaram entregar para a senhora. – Afirmou empurrando o buquê para cima de mim e eu o peguei um pouco desajeitadamente. – Preciso que assine aqui. – Pediu e eu fiz o que foi pedido.
– Quem as enviou? – Questionei curiosa.
– Não sei, pediram para que as entregasse. – Respondeu. – Tenha uma boa noite. – Desejou se afastando da porta.
– Tchau. – Murmurei distraidamente fechando a porta e olhando para as flores.
Eu não fazia ideia de quem havia as mandado. Eu tinha certeza de que não havia despertado o "amor" de nenhuma pessoa ao longo desse ano e tinha quase certeza de que ninguém me mandaria um buquê de rosas no dia dos namorados. Movida pela curiosidade, sentei em minha cama que estava perto e procurei um cartão e no mesmo instante senti meu coração pular de emoção mais uma vez.
"Para minha querida May", era o que estava no envelope com a caligrafia que eu conhecia tão bem quanto a minha. Fiquei olhando para aquela letra por alguns minutos até tomar coragem e abri-la. Eu estava com medo do que poderia vir, mas abri o cartão apenas para acabar com o meu sofrimento.
"Querida May,
Se você estiver recebendo esse buquê com esse cartão, peço desculpas por não estar mais com você nesse dia tão importante. Peço desculpas por abandona-la, peço desculpas por deixa-la sozinha nesse mundo. May, você é a mulher que eu mais amei em toda a minha vida, e é com certeza a que eu passaria o resto de minha vida criando nossa família com todo o amor. Eu sei que quando eu for, você ficará sem rumo, ficará sem saber o que fazer, e terá momentos que se perguntará porque eu a deixei ou como ser feliz de novo e eu te trago a resposta: Viva a sua vida, viva a vida por nós dois. Não a gaste pensando no que poderia ter acontecido ou como seria diferente se eu estivesse ai. Vá para a rua tirar fotos de tudo que você vê, pinte até os seus dedos cansarem e ria. Ria o todo momento. E sorria, sorria muito, porque o seu sorriso é o mais bonito que eu já vi em toda a minha vida. Amber, minha pequena Amber, eu te amo muito mais do que amei alguém, eu te amo do tamanho do infinito e tenha a certeza de que eu estarei o tempo todo cuidando de você, mesmo que eu não esteja mais presente, porque você é o meu pequeno presente dado dos céus, porque você é a minha pequena. Eu te amo tanto Amberley Marie James, que eu faria o impossível para escuta-la rir mais uma vez, para vê-la sorrir pela última vez ou apenas para ter o prazer de olhar nos seus olhos do mar e me apaixonar pela décima primeira vez. Não se esqueça que eu te amei por toda a minha vida, não se esqueça que eu sempre te amarei e não se esqueça que você foi o maior presente que eu poderia ter ganho nessa minha vida. Obrigado por compartilhar sua vida comigo, por me fazer mudar e até por tentar me fazer para de fumar. Obrigado por essa aventura.
Com amor, o seu Andrew Black."
E eu fiquei sem reação ao terminar de ler sua última carta.
Eu só conseguia soluçar e chorar.
Engatinhei em cima da cama e deixei meu rosto cair no travesseiro e chorei.
Chorei tanto quanto soube que ele havia morrido. Chorei por ele não estar mais aqui, chorei pela vida que podíamos ter construído juntos. Chorei por nossas lembranças, chorei por nossas risadas, segredos e sinais secretos. Chorei por nossa música, chorei por nossas lágrimas, chorei por ele me amar e eu o amar tanto. Chorei. Eu apenas chorei mais do que eu pensei que poderia chorar. Chorei a noite toda, a madrugada toda e só parei de chorar quando tinha certeza de que não tinha mais motivos para chorar.
Senti o focinho gelado de Spencer tocar meu pescoço e o olhei dando um leve sorriso. A manhã de 15 de fevereiro havia chegado e eu, pela primeira vez, quis fazer alguma coisa com a minha vida. Eu queria cumprir o que ele me pediu.
Seu último pedido.
Levantei da cama e coloquei o buquê em um vaso com água. Fiz minha higiene matinal e coloquei uma roupa de corrida. Peguei a coleira de cachorro que estava esquecida em um canto do apartamento e coloquei em Spencer que havia ficado animado com a ideia de sair e dei uma última olhada nas flores.
– Vamos correr campeão! — Afirmei animada, pendurando a câmera fotografia no meu pescoço e abrindo a porta. – Hoje o dia está perfeito. – Completei antes de sair de casa e fechar e trancar a porta.
Sim, esses serão os dias que eu vou sentir saudades
Quando estiver mais velho, quando estiver grisalho e parar de trabalhar
Espero que eu possa dizer
Quando todos os meus dias terminarem
Que eu me diverti.
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