Valentine Hunters
3 Chilvary
Notas iniciais
— 3 –
STARRY SKY... A cidade onde os monstros habitam, a capital infernal, a necrópole, o purgatório, o limbo... esses eram alguns dos vários nomes que essa icônica cidade recebeu ao longo dos séculos, sendo o palco de vários confrontos entre vampiros e lobisomens – e não apenas isso, mas o lar de vários monstros e “deuses da morte”. Tendo tamanha má fama, muitos assassinos, terroristas procurados pelas autoridades internacionais, cartéis de tráfico, monstros e maníacos de todas as espécies vem se refugiar na “cidade dos mortos”, governada há séculos atrás pela poderosa e temida família de vampiros Valentine. Porém, um nome tão belo e atrativo chamava a atenção de curiosos do mundo inteiro, refugiados de países em guerra e que procuravam uma vida melhor, cidadãos de bem querendo ganhar sua vida honestamente através do comércio e da agricultura, e turistas de todos os lugares do mundo. Starry Sky era uma cidade peculiar, onde humanos e monstros coabitavam juntos, mediados através do tratado de paz entre os eles e o Vaticano.
No entanto, como nada é perfeito, sempre existia aqueles que causavam tumultos na cidade, assassinavam pessoas inocentes apenas pelo seu bel-prazer, estupravam crianças e mulheres, e causam terror nos comerciantes e moradores da cidade – era uma vida que todos levavam na corda bamba e todos assim aceitavam.
– Socorro! Socorro! Não! Por favor! Pare com isso! – uma mulher grita desesperadamente por ajuda.
– Cala a boca, senão eu te mato! – ameaça o assaltante, brandindo seu punhal. – Fique quietinha aí!
Uma moça que andava desavisada na rua, tarde da noite, fora surpreendida por um criminoso bastante perigoso e procurado pelas autoridades inglesas. Respondia à cinco inquéritos e tinha o dobro disso em mandatos de prisão por tortura, estupro, cárcere privado e crimes hediondos de todos os tipos contra mulheres. Todos os tipos de pessoas desse tipo se entocavam em Starry Sky, uma cidade feita e governada por vilões.
– Fique paradinha aí! – Ele tenta imobilizá-la e assediá-la.
– Não! Por favor! Socorro! – ela grita ainda mais alto.
Debaixo da luz do luar que iluminava as ruas desertas da cidade, vários fios prateados reluzem em uma dança enigmática.
– Ora, ora... o que temos aqui? Um arruaceiro atacando uma donzela indefesa? Que indelicadeza! – uma voz serena, porém perigosa, surge das sombras e um ser misterioso manipulava os fios prateados dançantes.
– Mas que merda é essa?!
A moça rendida apenas observa, impotente, a figura de um homem de mais ou menos 1,70 de altura, roupas sociais e bem arrumadas, cabelos verdes e bagunçados, a face sorridente e com vários fios cintilantes circundando-o enquanto ia de encontro a eles.
– É feio atacar senhoritas desse modo, meu caro Sr. Troglodita! – ele fez uma pausa, reproduzindo uma saudação com a mão espalmada. – Não concorda? Receio que terei que lhe ensinar boas maneiras...
Os fios reagiram ao seu movimento de mão, como se estivessem vivos. O rapaz continua sorrindo, mas sua expressão era fria e assassina, como se pudesse retalhar a alma de alguém só de olhá-la.
– Apesar que, aparentemente, um troglodita como você não esteja apto a lidar com cidadãos civilizados!
O assaltante começa a rir, ignorando a moça assustada.
– Você fala muito, “nobrezinho”. Tomara que não tenha só língua, príncipe de merda!
– Ora... vejo que seu caso é pior do que eu pensava. Também é uma falta grave de educação ofender um cavalheiro assim...
Antes de terminar sua frase, o bandido o interrompe jogando seu facão contra ele, mas o rapaz misterioso não esboça reação. O facão surpreendentemente se despedaça em vários pedaços, desde o cabo até a ponta da lâmina.
– Parece que vou ter que corrigir isso também... Que lástima! – As lascas caíram nos pés dele, fumegando.
O ladrão recua enquanto seu corpo tremia, assustado com o que acabara de ver. O rapaz recolhe seus fios prateados, sorrindo desconcertado.
– Ah! Sinto muito por estragar seu utensílio de corte! – se desculpa enquanto ri com a mão atrás da cabeça.
O bandido apavorado, tenta correr o mais rápido que suas pernas conseguiam.
– Não... não! Seu monstro! Fique longe de mim! – berra ele, correndo na direção oposta.
O rapaz balança suas mãos e os fios prateados serpenteavam por entre seus dedos e seu braço, se espalhando no ambiente de forma quase invisível aos olhos humanos, se não fosse seu brilho refletido da lua. Eles se dispersam, formando um muro na frente do assediador assombrado.
– Agora vou lhe mostrar como eu corrijo trogloditas! – ele faz alguns movimentos com os dedos e todo o corpo do bandido se despedaça instantaneamente em uma explosão de sangue e tripas. – Adeus, Senhor Troglodita!
A moça se esgueirou ao pé do muro, quase sem voz, assistindo àquela cena vil. Os pedaços de carne se espalham no chão, boiando em uma poça vermelha de sangue que tingiu toda a rua em vermelho. Ela chora e seu corpo paralisa de medo, fazendo suas pernas fraquejarem. Quase petrificada pelo medo, a moça se esforçava para falar.
– Q-q-quem é você?! – pergunta com a voz trêmula.
Ele se vira e acena para ela, sorridente.
– Não fique alarmada, senhorita! – Aos poucos, suas feições iam desaparecendo entre as sombras dos edifícios. – Apenas fiz o que todo cavalheiro teria feito. Estou cuidando da integridade de uma dama. Tenha mais cuidado quando sair sozinha por estas ruas à noite... cuide-se, milady! — Ele desaparece.
A moça ficou algum tempo encarando o escuro, assustada. Demorou para se recompor, mas ao se levantar, havia um papel caído ao lado da pilha de carne que restara do bandido. Estava meio manchada, mas ainda era possível ler seu conteúdo. Ela pega o papel com sua mão trêmula e lê:
“Se precisar, estarei sempre por perto!
Ass: Um amigo.”
No dia seguinte...
Na travessia conhecida como a “escada para o inferno”, o lugar onde Jareth visitou dias atrás para sua tão esperada entrevista de emprego, jazia o prédio onde ficava o comércio conhecido bucolicamente nos arredores como “Comércio V”. A loja abandonada que visitou antes de se encontrar com Rose e Billy na rua. Ao entrar no estabelecimento, a garota gótica estava sentada atrás de seu birô decrépito, mirando-o com um olhar malicioso e com os dedos cruzados. Pelo seu primeiro encontro com ela, Jareth já a considerava uma “maníaca”, ainda pior que o monstro que encontraram dias atrás.
Jareth caminha com dificuldade até ela, como seu rosto batendo em uma teia de aranha gigante e quase tropeçando em alguns ratos que passavam em seus pés. Rose estava se divertindo com a reação do rapaz, apesar de contar como um “aspecto negativo” para os negócios.
– Mas que droga de mausoléu é esse? Nem dá para acreditar que se trata de uma loja! – questiona Jareth, abatido.
– Bem-vindo ao meu comércio, baby! Loja de Variedades e Serviços Valentine!
Jareth entorta a boca.
“Valentine? Então é isso que aquele “V” significa? Que careta!”, desdenha mentalmente.
– Aqui oferecemos qualquer tipo de serviço ou produto que o cliente possa precisar... tudo com o preço baixo! – anuncia ela com um pulo animado da cadeira.
“Ela sequer sabe fazer propaganda direito!”, raciocina. Já estava para pedir demissão em seu primeiro dia de trabalho.
– Olha para essa merda! Isso está caindo aos pedaços! – critica o rapaz.
Rose fecha a cara, fuzilando-o com os olhos.
– Olha como fala da minha loja, hein? – diz enquanto se esparrama em cima da cadeira novamente.
– Isso está mais para uma sucata!
– Maldito! Vou demití-lo se continuar falando merda!
– Estará me fazendo um favor! – retruca, irônico.
Ela soltou uma risadinha, depois evoluindo para um gargalhada enlouquecida.
– Você é engraçado, Jaime! – diz, gargalhando.
– É Jareth! E quando é que eu começo a trabalhar? – ele fez uma pausa, limpando a poeira e as teias de aranha dos ombros. – Se é que vai ter algo para eu fazer aqui...
– Que seja – ela se recompõe, mudando o tom da voz. – Vamos para as primeiras instruções, moleque! Você já consegue se transformar?
Jareth franziu a sobrancelha.
– Me... transformar?
– Exatamente... – Rose aponta para Jareth, enquanto soltava uma piscadela. – Você foi agraciado com o sangue nobre dos Wolfgang, então no mínimo era para se transformar em um lobisomem enorme e assustador!
Era sobre aquele mesmo assunto que sua tia havia abordado em seu primeiro dia na mansão. Jareth se questionava se era possível que ele pudesse se transformar em um monstro incontrolável e assassino, como era retratado nos contos clássicos. Sempre viveu como um ser humano normal e aceitar que poderia ser capaz de virar um lobisomem era um intragável demais.
– É... mas... – Jareth faz uma pausa olhando para as mãos, desanimado. – Eu... sempre vivi como um humano comum... – revela.
Rose pareceu intrigada com as palavras dele.
– É mesmo? Você nunca caçou ou lutou na sua vida?
– Não...
Ela desce a cabeça no birô.
– Meu Santo Cristo! Como sou azarada! – vozeou a garota, socando a mesa.
Jareth suspira e dá meia volta, cabisbaixo.
– Entendo como se sente... acho que você contratou a pessoa errada para esses serviços. Não sou um monstro como a maioria de vocês...
– É isso no que dá eu ser tão descuidada! – Ela cruza as pernas em cima do birô, suspirando. – Mas não entenda errado! Eu não errei quando escolhi contratar você...
Jareth vira o rosto, surpreso.
– Como?! Mas...
– Você é um inútil e só me deu trabalho – alfineta –, mas se foi capaz de enfrentar um psicopata como Billy para me proteger, mesmo sabendo que seria morte certa... – Ela se levanta da cadeira, com o rosto corado. – Então... para mim foi uma ótima contratação!
Jareth sentia seu coração pulsar cada vez mais forte com suas palavras juntas daquele olhar hipnotizante.
– Rose...
– Mas chega de enrolação! – grita animada e o assusta. Seu tom mudara subitamente de novo. – Vou te explicar os fundamentos do meu trabalho e quem sabe poderá ser meu braço direito no futuro!
Jareth faz uma careta de desgosto com a megalomania da sua chefe.
“Sinto que eu vou sofrer nas mãos dessa doida!”
— Vamos lá! Para começar, tem que pôr na cabeça que além de humanos comuns, essa cidade abriga monstros da pior espécie que existe! – ela faz uma pausa, sentando-se na quina da mesa de madeira de modo provocante. – E euzinha sou um monstro que caça monstros!
– Monstro? – Jareth pensa em várias possibilidades e começa a sentir “sensações” estranhas. – Que tipo de monstro... Ei!
– Estava tendo pensamentos sujos comigo, seu safadinho? – provoca Rose, encardo os sujos comigo, seu safadinho?.esp chefe.ger, mesmo sabendo que seria morte certa...ra um tanto intragando Jareth.
– Não seja ridícula! Podia ser um pouco mais séria, pelo menos no trabalho, pode ser?! – repreende o rapaz, corado.
– Desculpe... vou tentar ser discreta da próxima vez que me sentir violada com suas fantasias...
– Dá para parar?! – berrou, cruzando os braços e bufando.
– Continuando... Eu sou uma vampira, querido Jareth! – desponta. – E como você, eu já pertenci à uma família nobre.
– Uma... vampira?
– Sim – A cor de seus olhos muda, adotando um pigmento amarelado bem vivo, quase como se eles brilhassem com uma luz própria. Jareth fica encantado e começa a encarar Rose, que vira o rosto, corada. – Para! Assim eu fico sem graça!
– Desculpe... eu não quis...
– Brincadeirinha! – zomba ela novamente enquanto ria, para a ira de Jareth. – Muito bem! Mesmo que eu seja uma vampira, não somos inimigos nem nada, está bem?
Ele concorda com um aceno de cabeça, mas dava para notar que ele ainda boiava com as explicações de Rose.
– Lembra dos monstros que eu disse que viviam nessa cidade? Pois então... eles só podem vaguear a noite. Esse é o acordo que foi feito entre eles! Porém, sempre têm aqueles danadinhos que querem dar uma de rebeldes gostosos e causam confusões durante o dia, como foi o caso do nosso amiguinho Billy!
Naquele momento, as coisas estavam mais estranhas do que nunca para Jareth, mas ele sentia que tudo começava a tomar um rumo e lembrava do desprazer de ter que encarar um maníaco de quase 4 metros de altura no meio da cidade e quase morrer – era algo que Jareth preferia ter esquecido.
– Espera... que tipo de acordo? – indagou.
– Há muito tempo, todos nessa cidade e em todo o país viviam em guerras constantes. Para evitar que mais guerras e mortes desnecessárias ocorressem, um “acordo de paz” foi feito entre os líderes das famílias nobres de “monstros”.
Jareth se sentia, cada vez mais, como se estivesse vivendo um filme de terror e não sabia como reagir, nem o que pensar. Só escutava, atento, a todas as orientações da sua nova chefe, mesmo que em sua cabeça se formasse um turbilhão, ela e seus tios pareciam ser as únicas pessoas em que poderia confiar naquele momento.
– Criaturas sem salvação... monstros incorrigíveis e que só fazem o que der na telha. – A expressão dela estava mais sombria enquanto explicava. – E o nosso trabalho aqui é justamente despachá-los de volta para o inferno!
– Quer dizer que... ainda tem mais daqueles monstros lá fora, e... e... – Jareth parecia abalado enquanto tentava falar.
– Por ora, não se preocupe com isso – Rose pega uma vassoura velha no canto da loja, entre duas prateleiras e a arremessa para ele. – Agora tome, Jareth baby!
– O que?! Para que isso? – pergunta, curioso.
– Não é óbvio, seu idiota? Enquanto você estiver aqui, vai limpar esse lugar todinho para mim! – diz a vampira com voz adocicada.
– Nem a pau! Está me achando com cara de faxineiro, por acaso?! – protesta. – Não tem como eu limpar tudo sozinho!
– Aí! Você reclama demais para um empregado! – rezinga ela de forma descontraída.
– Sua desgraçada!
Ela gargalha.
Depois de alguns minutos discutindo com Jareth, Rose muda sua expressão e vira sua atenção para a porta de entrada, sentindo algo de repente.
“Que presença é essa? Será outro menino mau?”
A porta da loja se abre lentamente, revelando uma silhueta com quase sua altura, mas era uma silhueta masculina; tinha um corpo esguio, lembrando o corpo de Jareth. Os cabelos um pouco bagunçados e pretos, mas vestia roupa social bem engomada e arrumada com uma gravata longa e preta, lembrando um típico assalariado de escritório. Tinha a expressão vazia, como se não pensasse em nada e possuía um largo sorriso que parecia colado no seu rosto.
– Bom dia, senhores! Será que vocês teriam papel laminado disponível? – pergunta ele, acenando.
O ambiente se cala repentinamente e os três se entreolham por alguns segundos.
“O que está acontecendo? Está rolando alguma coisa e eu não sei?, inquiri Jareth enquanto mirava os dois.
– O papel está na última prateleira à esquerda! – Rose indica a estante.
– Obrigado, senhorita! Fico agradecido pela informação!
Ele pega o rolo de papel laminado na estante e se dirige ao birô para deixar o dinheiro. No momento em que seus olhares se encontram novamente, era quase como se soltassem faíscas por eles; os dois não deixavam de se encarar, ambos com vistas frias e curiosas.
– Aqui está o dinheiro – ele repousa as cédulas em cima do balcão. – Até logo, senhorita!
– Obrigado e volte sempre! – respondeu ela.
“Que sujeitinho estranho! Ele se parecia mais com um viciado do que com um assalariado comum... será que a Rose viu alguma coisa naquele cara?”
Jareth vira seu rosto para trás e ela estava em seu birô, rindo satisfeita com um semblante assustador. Ele também não questiona nada.
Primeiro trabalho
O primeiro dia de trabalho, para Jareth, não foi nada interessante – com exceção daquele cliente suspeito que foi na loja mais cedo, nenhum outro ser vivo sequer passou perto da rua onde a loja ficava e a única coisa que fez em seu primeiro dia no novo emprego foi jogar conversa fora. Rose discorria de seus gostos bizarros por bichinhos de pelúcia velhos e doces e as horas eram como uma eternidade. Já começava a questionar se realmente havia sido uma ideia tão boa assim trabalhar naquela loja.
Ele volta às 6h da noite para casa, exaurido; não de trabalhar, mas de ficar no ócio o dia inteiro com sua chefe. Chega na mansão Wolfgang onde James está no salão o aguardando.
– Seja bem-vindo de volta, jovem mestre! – recepciona com reverência.
– Olá, James... onde está a tia? – pergunta com a voz cansada.
– O senhor e a senhora estão no mercado nesse momento e disseram que não iriam demorar – informa. – Seu jantar e seus aposentos já estão prontos, jovem mestre.
– Ah... obrigado, James – ele agradece e sobe as escadas, quase se arrastando.
– Se me permite a pergunta, como foi seu primeiro dia de trabalho, jovem mestre?
Jareth demora algum tempo pensando em algo plausível.
– Então... foi meio puxado!
– Entendo. Perdoe minha intromissão – diz o mordomo se curvando.
– Não, não... está tudo bem. Só estou cansado.
Jareth sobe até seu quarto e se tranca, deitando-se na cama frustrado. Era como um pesadelo que parecia não terminar. Ainda estava tentando se convencer de que seus tios eram lobisomens e sua chefe era uma vampira. Algo tão irreal e tão distante, mas que ao mesmo tempo estava tão próximo e visível que parecia ser mentira, fazendo-o questionar sua própria sanidade. “Será mesmo que sou um monstro também?” “Não pode ser!”. Ele não queria aceitar. Para ele, tudo era uma ilusão ainda. Mas nenhuma das dores que ainda sentia em seu corpo, de vez em quando, ou seu medo e estresse, ou suas dúvidas eram.
Estava mais do que na hora de voltar para a realidade.
Enquanto isso, no comércio VH, Rose acabava de sair de seu banho quando ouve a porta de entrada da loja bater. Um senhor misterioso de aproximadamente 1,70 de altura, vestindo um jaleco marrom, cobrindo um terno bem antigo e decotado e com um chapéu de mesma cor, vinha andando na direção do birô de Rose, enquanto segurava seu chapéu de modo a esconder o rosto.
– Não esperava que fosse fechar mais cedo hoje, Rose... – O velho se senta na cadeira de frente ao birô enquanto acendia um charuto.
– Eu resolvi tirar uma folga hoje – retruca a vampira. – O negócio anda meio lento desde que o Billy estava botando terror nas redondezas. Deve demorar uns dois dias para os peixes pequenos pararem de se esconder.
– Você tem razão. A propósito, você demorou um pouco para dar um jeito no nosso amigo Billy, não é?
Rose sai do quartinho, apenas com uma calça jeans, uma regata lilás quase transparente, e toalha envolta do pescoço.
– Não enche o saco! Já foi difícil seguir o rastro desse merda pela cidade! Imaginei que os próximos ataques dele seriam pelo bairro mais próximo daqui, mas não imaginei que seria tão próximo!
O senhor solta um leve risinho, cruzando os dedos.
– Entendo bem. No entanto, o próximo trabalho deve ser mais fácil de se completar do que o anterior.
Rose abriu um largo sorriso, jogando a toalha pela porta do quarto.
– Você sempre aparece para me tirar do tédio, Richard! – diz ela animada. – O que tem para mim dessa vez?
De dentro do jaleco, ele tira um pedaço do jornal da Starry Sky Gazeta, o jornal local mais popular e aceito entre os moradores da cidade, e o coloca em cima do birô virado na página principal. Rose o apanha prontamente.
“Quatro pessoas são achadas mutiladas nos últimos dois dias. Ataques sempre são à meia-noite e sempre envolvem mulheres. As testemunhas declaram que ele se apresenta como um “amigo” e as protegeram de assediadores e estupradores...”
— Uma bela notícia, não acha? – pergunta Richard com uma baforada.
– Então... esse cara é um assassino de estupradores? Não tinha algo melhor para mim não, Richard? – perguntou Rose com desanimo na voz.
– Veja bem – ele faz uma pausa, pegando o jornal de volta. – Segundo as autoridades, esse sujeito não matou esses assediadores de uma forma muito “normal”. O jornal apenas diz que foram quatro vítimas, mas esse número, na verdade, pode ser o dobro, ou talvez até o triplo, e todas foram mutiladas!
– Mutiladas...
– Seus corpos foram completamente despedaçados! – revela. – Concluo que estejamos falando de um potencial vampiro ou lobisomem. Como os corpos estavam completamente fatiados, presumo que se trate de um lobisomem!
Rose parecia, subitamente, cada vez mais interessada no serviço de Richard.
– Um lobisomem, é?! Interessante! E o que quer que eu faça mesmo?
– Quero que encontre esse sujeito, capture-o ou elimine-o! – Ele se levanta para ir embora. – Seu dinheiro estará aqui quando voltar, senhorita Valentine!
– Muito bem! Tomara que realmente valha a pena o meu esforço!
Antes de sair, Richard para na porta de entrada.
– Ah! Soube que contratou o sobrinho da condessa Wolfgang – diz ele parecendo receoso. – Realmente está pretendendo começar seu plano agora?
Rose sorriu de forma depravada.
– Ainda não – responde, sucinta. –, mas aquele garoto ainda vai ser muito útil no futuro...
Richard baixou seu chapéu novamente.
– Espero que sim. Mas a condessa já ligou seu sinal de alerta e logo eles devem fazer o mesmo! Não vai demorar para que eles saibam que você voltou!
– E quando souberem... – Rose cerra o punho com uma expressão assassina e dantesca. – Eu estarei prontinha para a festa!
O velho, então, se retira do estabelecimento e Rose se senta em sua cadeira, parecendo animada com as palavras de seu cliente.
“Finalmente... o momento com qual eu sonhei minha existência inteira, está chegando! Está chegando!”, reflete consigo mesma enquanto ria.
Quatro dias depois, Jareth chega na loja para trabalhar e não havia ninguém. O rapaz estranha, procurando sua chefe dentro do estabelecimento.
“Será que ela foi para algum lugar?”
Um som ínfimo de água podia ser escutado por trás da porta que jazia atrás de seu birô. Andou até lá para averiguar que se tratava de Rose e encontra um quarto revirado, cheio de vestidos, fitas e adereços ao chão, coisas jogadas para todos os lados e caixas de chocolate e doces vazias – digno de um quarto de sociopata.
– Quem está ai?! – pergunta a vampira, assustada.
Jareth se espanta também, procurando algo para responder.
– Ah... é... sou eu! – diz gaguejando.
– É você, Jareth baby? – A voz de Rose fica melosa do nada. – Não imaginei que fosse chegar tão cedo.
Jareth suspira, recostando-se na parede ao lado da porta do banheiro.
– Algumas pessoas são responsáveis, sabia? – alfineta.
– Ah! Não fala assim comigo, Jareth baby! – retruca ela com a voz provocante.
– Por que não coloca uma placa de aberto ou algo assim? Sabe... só para os outros não acharem que esse lugar está abandonado ou é algum tipo de esconderijo de bandidos.
– Quem sabe no futuro...
– É apenas uma sugestão... – Jareth se senta na cama. – Deveria pensar mais em atrair clientes e não espantá-los.
Rose solta um risinho irresoluto.
– Tem razão... falando em clientes, o que você acha do esquisitão que veio na loja ontem? Ele era meio estranho, não concorda?
– E como eu vou saber? Não fico encarando os outros que nem uma maluca como você!
A porta do banheiro se abre subitamente e Rose sai molhada e com sua parte de cima nua, enquanto sorria. Jareth quase que faz uma pirueta para trás, caindo da cama.
– Pode me passar a toalha, Jareth baby? – pede com a voz aveludada.
– Droga! Não apareça assim! Toma!
– O que foi?! Ficou excitado com isso?
– Cale a boca! – resmungou Jareth.
Já enrolada em sua toalha, ela se dirige à pequena cômoda que estava ao lado de um espelhinho na parede. Ele nota que sua imagem refletida no espelho não existia, o que confirmava o fator aterrador de ela ser uma vampira, fazendo engolir em seco. Então um jornal voa na sua cara, enquanto ela se senta no leito desarrumado ao seu lado.
– Dê uma olhada nisso. – Ela indica a primeira página. Mostra uma manchete sobre assassinatos em massa, todas vítimas de mutilação. – Recebemos um novo trabalho ontem.
– Trabalho? – Jareth fica nervoso de repente.
– Exatamente! Temos que pegar esse nosso amiguinho que está brincando de fazer carne moída das pessoas e posando de justiceiro – explica Rose de forma confusa.
– Espera... quem é esse cara? Você sabe quem é e onde achá-lo?
–Não e não! – responde ela com um sorriso bobo.
– Você está de sacanagem!
– Mas, segundo as informações que me foram passadas, todos os ataques ocorreram contra assediadores e sempre em torno da meia-noite! Baseando nisso, resolvi bolar um plano para atrair e pegar o nosso “herói”!
– Mas se eram assediadores, esse cara não está fazendo algo bom? – questiona ele. – Não é como se estivesse causando problemas durante o dia!
– Isso é verdade, mas lembra do acordo que conversamos ontem, mi amore? Pois é... ele não permite que vampiros ou lobisomens cacem humanos dentro da cidade. Sem falar que caçar os “meninos maus” é tarefa minha!
Jareth preferiu não questionar muito. Ainda havia certas coisas que não sabia e tinha até medo de saber.
Cavalheirismo
– E então? O que sua mente doentia está pensando? – pergunta Jareth, receoso com a resposta.
– Não se preocupe... será algo que talvez você goste – Rose encara o rapaz, enrubescida e tímida.
Jareth esbugalhou os olhos, ficando assustado com a reação da vampira.
– Ei! O que você está pensando, sua maluca?! – Ele se afasta rapidamente, quase tombando da cama novamente.
Seus caninos afiados estavam à mostra, e ela lambia os dedos com uma expressão depravada.
– Você vai... ter...
– Nem vem que não tem! – Jareth protesta prontamente e Rose cai na gargalhada.
– Você tem que ver sua cara nessas horas!
– Sua maldita! Até quando vai ficar de piada comigo?!
Rose faz uma pausa, ficando séria subitamente.
– Não quero ter que responder essa pergunta... – responde virando o rosto.
– Ah... o que aconteceu dessa vez? Eu falei algo que não devia...
– Então vamos lá! – ela grita de repente, assustando o rapaz que dá um pulinho do colchão. – O que eu quis dizer antes é que esse cara só ataca assediadores ou estupradores, correto?
– Sim, mas o que isso tem a ver com o plano?
– Você já atuou alguma vez na sua vida? – pergunta Rose.
– Ah... – Ele trava, se lembrando de coisas embaraçosas. – Algumas... vezes...
– Ótimo! Então vamos dar a ele uma oportunidade de bancar “o salvador das donzelas” mais uma vez! – A vampira se levanta, abrindo os braços. – Vamos fingir que eu sou uma pobre donzela indefesa e em perigo, enquanto você vai ser o maníaco que vai tentar me assediar! Não é um ótimo plano?
– O que?! Nem vem que não tem! Quer dizer que eu só vou ser a isca para esse assassino é? Nem a pau! – Jareth nega a petição.
Rose muda sua expressão novamente, ficando com um semblante assustador. Seus olhos brilhavam com o pigmento amarelado de outrora.
– Você não tem de querer, mi amore! Se você não quiser colaborar por bem, então eu terei que insistir! – Naquele momento, o espelhinho do quarto explode inesperadamente enquanto Rose o pressionava contra a parede. Jareth fica paralisado com aquela faceta demoníaca de sua chefe. – E então? Vai me quebrar esse galho, amor?
Jareth estava sem voz para responder. Apenas confirma com um aceno duro de cabeça enquanto a encarava com os olhos esbugalhados de medo.
– Ótimo! Que empregado prestativo eu tenho! Vou arrumar as coisas para hoje a noite! – Ela sai saltitando em direção ao guarda-roupas.
“Alguém me ajude... por favor...!”, pensou Jareth, querendo chorar naquele momento.
O dia inteiro foi apenas para arrumar os preparativos para o trabalho que iria ser feito à meia-noite em um dos bairros mais vazios de Starry Sky, e escolhido a dedo por Rose. Não que houvesse muito o que fazer na loja já que Jareth se recusava a fazer os serviços que eram de responsabilidade dela, que era a manutenção da loja.
A noite chega e eles já estavam no horário e local combinados para a execução do plano mirabolante de Rose. Jareth sentia que iria ter um infarto. Só de pensar que tinha a mínima possibilidade de ser atacado por alguma criatura das trevas do mesmo naipe que o monstrengo Billy, já era o suficiente para querer sair em corrida dali.
Rose vai na frente, encenando como haviam combinado:
– “Já sabe como vamos fazer, não é?” — pergunta Rose mais uma vez no caminho até lá.
Jareth relutou na resposta.
– “Seria bom repassar o plano de novo... não? — A voz do rapaz estava trêmula e Rose se divertia com aquilo, de forma sádica até.
– “Muito bem! Quando for o horário combinado, eu vou sair na rua como se estivesse sozinha e você vai me abordar como se quisesse me assediar!” — explica.
– “Acho que isso... vai ser um tanto complicado” — reclama. – “E como tem certeza de que eu não vou morrer com isso?”
– “Não se preocupe... não vou deixar nada acontecer a você, Jareth baby!”
Jareth se lembrava dessas palavras soltando suspiros como se, no fundo, nutrisse uma pequena centelha de confiança na vampira, e de fato, ele iria depender dela totalmente a partir de agora. Não havia muito o que pensar e suas dúvidas só o invalidavam diante do perigo. Não podia pensar. Não queria pensar. Só queria agir!
Rose manda o sinal para que ele saísse da penumbra em que se escondia e o rapaz, assim, obedece, contrariando todo seu medo e receio, mesmo que por um breve instante.
– Ah! Parada aí, mocinha! – gritou ele de forma bucólica, pulando na frente dela.
Rose permanece em uma posição estática e depois solta uma gargalhada desgovernada.
– Que merda foi essa!? Que gritinho de gazela foi esse... – Ela rola no chão enquanto gargalha.
– Sua miserável! Eu disse que não era um bom ator! – retruca, vexado.
– Eu sei, mas... – Rose faz outra pausa para soltar mais risadas. – Não achei que fosse tão “exótica”, sua atuação.
– Exótica, o caramba! Desse jeito nós não vamos conseguir atrair o maluco para cá...
Logo uma explosão inesperada acontece em uma loja atrás deles, destroçando o muro e as vidrarias do estabelecimento. A rua inteira foi tomada por uma densa cortina de fumaça, cobrindo momentaneamente a visão dos dois. Um indivíduo sai de dentro do comércio, carregando uma enorme sacola nos ombros, abarrotada com tudo que havia dentro da loja, inclusive o dinheiro do cofre. Jareth se recupera do susto que tomara e tenta se levantar, mas estava colado ao chão ao lado de Rose; suas pernas pararam de responder novamente.
– Nossa! Esse pessoal devia investir mais em segurança hoje em dia! Melhor para mim... – diz o sujeito misterioso colocando a sacola no chão. – Hoje o saldo foi bom! Olha quanta coisa!
De longe, Rose e Jareth ainda observavam cautelosamente o sujeito.
– Você acha que é ele o nosso alvo? – pergunta o rapaz.
– Ele não parece ter muita pinta de herói, não. Acho que está mais para um zé mané! – desdenha a vampira indo de encontro a ele. – Ei! Você ai!
– O quê? Quem está aí? – Ele vira sua atenção para Rose. – Oh, garota! Acho melhor você passar reto antes que sobre para você!
– Ah... é só um ladrãozinho de merda... – diz ela, desanimada. – Achei que fosse algo mais emocionante.
– O que você está dizendo, sua puta? Está pedindo para morrer é isso?
– Pensando bem... disseram que havia um vampiro que estava causando problemas para os comerciantes. – Rose para por um momento, refletindo. – Será que vou ganhar um bônus se eu matar você?
O ladrão solta uma gargalhada, revelando seus caninos afiados para a moça, mas que não se intimida.
– Que tal parar por aqui mesmo? Se você for um bom menino, prometo te poupar, que tal... – O vampiro avança contra ela, desferindo um chute que a arremessa longe, até o final da rua onde ela colide com um caminhão e o destrói. Jareth fica paralisado com a cena e, quando se dá conta, recebe um golpe avassalador do ladrão nas costelas e voando até esbarrar em uma bancada de flores em frente à floricultura. O rapaz estava cego com a dor, tossindo sangue e convulsionando. Era como se tivesse sido transpassado pelo golpe e podia sentir todos os seus órgãos esmagados. A dor era indescritível. Não via mais nada. Não ouvia mais nada e a única coisa que sentia era uma dor infernal e agonizante.
O vampiro se aproximou do corpo imobilizado de Jareth, lambendo os beiços.
– Toda essa ação me deixou com a garganta seca. Nada melhor para me hidratar do que... – Antes que terminasse de falar, uma bala atravessa seu peito e ele recua, com o corpo trêmulo. – O que... que... merda... é essa?!
De longe, Rose estava com uma pistola negra de cano longo em mãos, mirando no coração do vampiro.
– Droga! Errei! Falta de treino é um saco mesmo! – Ela apoia o cano da arma em cima do outro braço, fechando um dos olhos para um tiro certeiro. – Agora você não escapa, bonitão!
– Você com certeza não é uma humana normal! O que é você?! – O vampiro avança enquanto ria em êxtase.
– Requiescat in pace! — Rose atira novamente, dessa com a bala em um trajeto perfeito até o coração do seu alvo, mas antes que o acertasse, tanto a bala como o corpo do próprio vampiro foram completamente despedaçados para a surpresa dela. Os pedaços de seu corpo se espalham ao chão, em meio à uma chuva de sangue. A cabeça dele ainda estava intacta e possuía ainda um resquício de consciência.
– Seus... monstros... – Foram as últimas palavras dele antes que sua cabeça virasse uma pilha de carne moída.
Rose repara que por entre as sombras da esquina, antes de se entrar na rua onde estavam, sai um homem de cabelos verdes e bagunçados, bem arrumado com roupas sociais e um sorriso distorcido no rosto e que ela já lembrava muito bem. Seus olhos apertados exalavam a morte e da ponta de seus dedos saiam fios prateados quase invisíveis. Rose não pôde conter a animação e esboça um sorriso largo, com seus caninos afiados latejando.
– Até que enfim... chegou a atração principal! – brada a vampira, apontando sua arma.
Ele faz um gesto com a mão, espalhando seus fios. Seu sorriso agora estava bem mais sombrio e ameaçador.
– Olá novamente, senhorita!
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