Notas iniciais
Desculpem a demora, mas é porque eu quero fazer o melhor em cada capítulo( e processo é demorado). Espero que gostem!

— 4 –


ROSE finalmente tem seu alvo à sua frente sorrindo, coberto por um espiral de fios prateados. Contudo, seu cabelo estava mudado, tomando uma coloração esverdeada. Ele para perto do corpo inerte de Jareth, e se abaixa perto dele.



– Se dá valor a sua vida, sugiro que nem trisque no corpo dele. – ameaça ela, engatilhando a arma.

Ele levanta o rosto enquanto tocava no peito do rapaz semiconsciente.

– Hum... ele ainda está vivo – constata e se levanta. – Então vocês são os donos daquela loja, não é?

– Eu sou a manda-chuva aqui! E esse em quem você está tocando com suas mãos imundas é o meu precioso funcionário.

Ele riu, tapando a boca.

– Oh! Meus sinceros perdões! Não foi minha intenção violar sua “propriedade”. – diz com certa ironia. – Mas permita-me perguntar seu nome senhorita.

A vampira balançou a pistola e seus cabelos negros com mechas vermelhas esvoaçam com uma rajada de vento.

– Rose... Rose Valentine! Lembre-se desse nome quando estiver cruzando os portões do inferno!

Ele faz um gesto de reverência e todos os seus fios começam a rodeá-lo.

– Prazer em conhecê-la senhorita! Meu nome é Jin! – apresenta-se. – Acho melhor você levar nosso amigo à um pronto socorro rapidamente, ou ele irá falecer.

– Assim que eu despachar você, eu cuido dele. Vai ser rápido!

Rose e Jin se encaram por algum tempo, como se tentassem se ler ou antever os movimentos um do outro. A vampira começa disparando uma rajada de tiros e que são facilmente interceptados por ele. Jin não movia um dedo e era como se uma parede invisível o protegesse.

– Você é cheio de truques, rapazinho! – diz Rose rindo.

– Deveras sou. – responde.

– Só que eu também sei fazer os meus! – A pistola de Rose brilhou em uma luz amarela. Uma aura amarelada revestiu sua arma e o disparo estava modificado com uma espécie de fagulha vermelha misturada com a luz que provinha do armamento. O rapaz se encanta com o show de luzes, mas não move um músculo sequer.

Piercing Light! — O feixe disparado reproduz um som estridente e agudo, quebrando várias vidraças no caminho até seu oponente.

Jin percebe que não conseguiria bloquear o ataque massivo de energia e se esquivar, com o feixe lacerando apenas o seu ombro direito de raspão. A bala explode no fim da rua, em uma caçamba de entulho ao lado da pista. Ele ficou no chão algum tempo, enquanto assistia seu sangue escorrer pelo seu ombro machucado. Rose abre um largo e sádico sorriso, girando a pistola na mão.

– O que foi? Você está em choque – A imagem de Rose se esvai como uma fina camada de fumaça e ela reaparece atrás dele novamente, com sua arma pronta para outro disparo. – Agora seja um bom menino e...

Antes que terminasse de falar, o braço direito da vampira é obliterado, explodindo em vários pedaços de carne e sangue para todos os lados. A pistola também é fatiada em vários pedaços milimétricos, espalhando-se no meio do sangue. Ela recua alguns passos, assombrada com o que acabara de acontecer.

– Não tente fazer joguinhos comigo, senhorita vampira! – diz ele com um tom mais perigosamente baixo.

Rose se prostra no chão com seu braço esguichando sangue sem parar. Uma risada megalômana ecoa no ambiente e ele podia sentir cada pelo de seu corpo se arrepiar ao ouvi-la.

– Isso! Dor! faz muito tempo que eu não tenho essa sensação... – Rose levanta seu rosto deturpado e continuava a rir em delírio. Seus olhos esbugalhados estavam brilhando em amarelo e seu olhar assassino congela os movimentos de Jin por alguns momentos.

“O que é... essa sensação... uma sensação de perigo... como... se ela fosse me matar!”, refletia. Os fios começam a vacilar, tremulando com a pressão feita por ela.

– Eu te parabenizo! Te congratulo! Você é um dos poucos em muito tempo que conseguiram me ferir dessa forma! – brada enquanto ria. Uma massa amarelada e densa começa a sair de seu ferimento aberto e se espalhava de forma aleatória e tomando aos poucos a forma de um braço. – Acho que contra você, eu posso me soltar um pouco mais...

Jin recolhe seus fios, formando uma espécie de bolha invisível. Seu coração estava acelerado e seus fios tremulavam cada vez mais, cortando seus próprios dedos.

“Não perca o foco! Não perca o controle! Concentre-se! Ela já está sem um dos membros e semimorta! Não tenho nada a temer!”, a mente de Jin estava a mil, e suas armas reagiam a isso. Alguns, inclusive, o cortavam sem querer.

Eu posso vencer! Eu vou vencer!”

– Prepare-se rapaz porque eu vou com tudo! – diz Rose se agachando.

– Estou pronto – Os fios se espalham em um show de luzes prateadas. – Pode vir!

Logo um pedregulho enorme vem voando na direção de Jin, surgindo detrás dele.

Uma... rocha?”, refletiu Rose.

— Eu já disse que essas coisas não funcionam! – Jin reduz o pedregulho a meras pedrinhas de beira de estrada, em um piscar de olhos. No meio da névoa da noite enluarada, uma figura vem cambaleando na direção dos dois, subindo dos mortos. Rose começa a gargalhar novamente.

– Bem-vindo de volta... Jareth!

O rapaz estava recurvado e se assemelhava a um lobo preparando para atacar sua presa; seus olhos estavam transformados em um aspecto bestial, mas não eram vermelhos como esperava – apenas seu olho esquerdo era vermelho, sendo o direito colorido em um prateado peculiar, mas familiar para a vampira. Os caninos de Jareth estavam afiados e crescidos; os cabelos jaziam atiçados para cima e pareciam maiores. Em suas mãos brotavam pelos marrons. Ele não estava em si e a única coisa que via eram inimigos à sua frente.

– Esse rapaz... ele não estava...?!

Rose olha para o céu. A lua cheia estava livre de qualquer nuvem e resplandecia com todo seu fulgor.

– A lua! Então ele reagiu a ela!

Jareth solta um bramido animalesco e avança em uma velocidade quase que supersônica, desaparecendo aos olhos dos dois. Consequentemente, Jin e Rose foram golpeados brutalmente pelo jovem lobisomem e arremessados um para cada lado da rua. Ele rolou no calçamento até encontrar um carro que o aparou. A vampira voou até o prédio vizinho mais próximo.

– Maldição! – Jin tenta se levantar, arquejando. – Esse rapaz... está descontrolado!

Jareth continua com seu frenesi desgovernado e avança contra Jin novamente. Dessa vez, ele tenta segurar o lobisomem enlouquecido com sua parede de fios, mas não aguentavam o peso da força de Jareth. Em um movimento desesperado, ele tenta cortá-lo, mas os fios apenas rasgam sua roupa e arranham a pele do rapaz que fica ainda mais colérico.

“Como é possível?! Meus fios... não estão conseguindo cortá-lo?!”

Jareth se desvencilha da parede de fios de Jin e o acerta um soco avassalador que sai arrastando tudo que havia pela frente em uma onda de pressão destrutiva. Postes, latas de lixo, outros carros... tudo foi levado junto com a potência do golpe, parando em um muro de uma casa no fim da rua, destruindo completamente toda a extensão da via. Após sua investida brutal contra Jin, o rapaz desbanda no chão. A luz da lua voltava a ser ofuscada por várias nuvens negras e Jareth aos poucos recobrava sua razão.

– Droga... que dor de cabeça desgraçada! Onde estou?! – Jareth, ao acordar, se encontra no lugar completamente devastado, com vários postes derrubados, carros tombados e incandescentes, comércios destruídos e o calçamento da via já não existia mais. Ele olha para os lados com seus olhos de medo, e começa a se desesperar quando uma voz feminina ressoa atrás dele.

– Nossa! Isso foi demais! – Rose vem caminhando até ele sorridente e eufórica, com um buraco ensanguentado em sua barriga. – Você tinha tudo isso guardado aí?

Jareth não entendia nada do que ela falava e sua dor de cabeça não permitia que ele reorganizasse as ideias.

– Do que você está falando sua maluca? – Jareth mirou o abdômen da menina e se desespera ao ver aquela chaga escorrendo sangue. – Meu Deus! O que foi isso?!

“Ele não se lembra de nada?”

– Olha... temos que arranjar um médico para você! Rápido! Temos que fechar esse ferimento...

– Não se preocupe comigo – cortou ela com a voz arisca. – Então... você não lembra de nada?

Jareth se senta no chão, segurando sua cabeça com as duas mãos e sentindo muita dor.

– Lembrar? Eu... não sei. Só me lembro de ter levado um golpe bem... – ele faz uma pausa, balançando o crânio levemente. – Depois... eu já estava aqui em pé.

Contudo, Rose ainda nota que as feridas causadas em Jareth saram completamente em questão de segundos. Não havia dúvidas que ele era descendente dos Wolfgang e ela estava cada vez mais empolgada com a ideia. Porém, o olho prateado de Jareth ainda a incomodava.

– Jareth, baby... quem fez isso comigo e com a rua foi você. – revelou.

Jareth demora algum tempo para captar a mensagem.

– O quê?! Mas que história furada é essa?!

– Não acredita em mim, querido?

– Nem um pouco – responde, seco.

– Isso me magoa – Rose enche as bochechas.

– Quer parar de manha em uma hora dessas? Não tem como...

Rose muda para uma expressão mais séria subitamente.

– Mas eu não menti. Quem fez isso foi você!

Jareth não acreditava ainda – era algo intragável demais. Sequer tinha um porte físico ou algo que justificasse ou confirmasse aquele fato.

– Não pode ser... não... não foi eu! – nega novamente.

Rose trinca os dentes, irritada.

– Ora, pare com essa manha! Quanto mais rápido você aceitar o que você é e encarar a realidade, mais rápido irá aprender a usar essa força! – Ela o segura pela gola da camisa, enfurecida.

Jareth a encara com o mesmo ímpeto, apesar de seu breve momento de fragilidade.

– Eu não aceito isso! Não aceito que eu seja um monstro! Isso não está certo! – retrucou.

A vampira suspira e o larga no chão de novo.

– Você é um cabeça dura mesmo! Se continuar me dando trabalho por causa disso, eu mesma te mato! – advertiu ela.

Uma risada mortiça vem do fundo da rua, caminhando em meio às chamas dos carros tombados e dos postes caídos.

– Vocês são engraçados! – era Jin que vinha cambaleando. – Gostei de vocês!

Seu estado era penoso, com suas roupas rasgadas e queimadas, tomadas por fuligem e poeira; seu rosto e corpo estavam bem machucados e seus fios prateados já não eram mais visíveis. Suas palavras saíam foscas e ofegantes.

– E então, senhor cavalheiro? Ainda aguenta um segundo round? – pergunta a vampira.

– Infelizmente sequer tenho forças para me manter em pé – Uma torrente de fios desce e envolve lentamente seu corpo em um espiral prateado reluzente. –, mas algum dia vamos acertar as contas, vampira! – Após ser emaranhado completamente, ele some em meio ao ar.

Jareth sente um calafrio na espinha e se afasta, assustado.

– Nossa! O cara sumiu no meio de um bocado de fios!

– Eu estarei esperando ansiosa por esse dia! – diz ela sorrindo perversamente.

Dias depois...

Após aquela noite, as autoridades locais se ocuparam de restaurar toda a área danificada pelo combate. Como tudo ocorreu durante a madrugada, não se soube quem fora o responsável pelos danos causados à via pública e, consequentemente, ninguém foi responsabilizado.

– Droga, Richard! Por que vai reduzir meu pagamento, seu desgraçado?! Você está me avacalhando, é isso?! – reclamou a vampira socando o birô.

– Era para ser um serviço limpo, já que era somente um “assassino de assediadores”, não é? – O senhor se acomoda na cadeira enquanto acendia seu charuto. – Suponho que não precisaria destruir uma rua inteira para isso.

“Jareth, seu desgraçado! Você me paga!”

– Por outro lado... – Ele coloca mais um plaquê de cédulas em cima da mesa. Os olhos da vampira brilharam. – Vocês cuidaram de outro sujeito que estava causando muitos problemas aos comerciantes ultimamente, então conta como um “bônus”. Bom trabalho, Valentine!

– Ora, até parece que não conhece o modo como eu trabalho! – gabou-se, mas sabia que não tinha nada a ver com aquilo.

– De qualquer forma, eu já vou indo! Devo retornar em alguns dias para um novo trabalho, então fique em alerta. – diz Richard, indo embora.

– Sempre – Rose sorri com a expressão maquiavélica.

No momento que Richard ia saindo, Jareth chegava na loja para seu expediente. O velho passou por ele, mandando uma piscadela para o rapaz, que fica confuso. Ele para na porta, olhando para o senhor se retirando.

– O quê?

Chegando até a metade da rua, ele se vira para o rapaz novamente.

– Depois iremos conversar, garoto – conclui e depois retoma seu rumo.

– Espera! Quem é você?! – Ele não escuta a voz de Jareth e vai embora. – Que estranho...

– Jareth, baby! – Rose vai de encontro a ele, saltitando e com a voz melosa. – Finalmente chegou! Tenho algo para você!

Ele fica receoso em perguntar.

– E o que seria?

Rose desfecha um soco no rosto do rapaz, o derrubando na porta.

– Ah! O que foi isso, sua maluca?! – pergunta ele enfurecido.

– Isso é por você ter destruído a rua, seu imbecil! – responde ela com um sorriso assustadoramente espontâneo.

Em seguida, ela joga um dos plaquês de dinheiro em cima do peito do rapaz.

– E isso é pelo serviço também – Ela balançava as cédulas na mão, animada. – É seu. Faça o que quiser com isso.

Jareth fica em silêncio com um nó em sua cabeça, somente aceitando o dinheiro sem questionar. Ao se levantar, percebeu algo de atípico na loja; estava assombrosamente limpa e arrumada. Parecia que havia entrado em outra loja por acidente ou ela havia contratado alguém para a faxina.

– Então... você arranjou contratou algum serviço de limpeza? – indaga ele.

Rose soltou uma risadinha.

– Você acha que eu ia gastar meu precioso dinheiro com limpeza? Não seja tão ingênuo, rapaz. – responde, contando tudo que recebera de Richard, sentada em seu birô. – Com essa grana, vou poder comprar novas armas para mim! E muitos, muitos doces!

– Então... você limpou tudo? – continua o questionário, mas ela o ignora de começo.

– Não. quem limpou não fui eu...

– Então quem... – Uma figura surgiu do quarto de Rose, vestindo roupas de empregado, luvas de látex e várias ataduras pelo seu corpo. Jareth o reconheceu de imediato e se assusta, recuando.

– Bom dia, meu companheiro! – saudou o rapaz de cabelo verde do outro dia.

– Mas o quê?! Você é aquele cara dos fios! O que diabos você está fazendo aqui?! – pergunta Jareth, alarmado.

– Vou apresentar nosso novo funcionário. Jareth, esse é Jin. Jin, esse é o Jareth! – Rose os apresenta um para o outro. – Ele vai trabalhar conosco a partir de hoje. Por isso, sejam amigos e se ajudem, está bem, crianças?

O rapaz permanece em choque ao ouvir a explicação de Rose.

– Sem falar que agora nossa loja possui um novo serviço disponível...

– Aulas de etiqueta?! – repete ele incrédulo enquanto olhava para uma mini barraquinha montada na frente da loja.

– Sim! Isso é uma compensação à senhorita Rose por minha rudez de outrora. – justifica Jin.

– E pela minha arma que você destruiu durante a luta, seu desgraçado! Me deve a sua alma agora! – completa ela, emburrada.

– Está de sacanagem comigo! Você estava caçando ele antes e agora ele vira um empregado seu?

Rose riu de forma debochada.

– Isso mesmo! – conclui com mais uma de suas risadas sarcásticas.

– Mas se alguém não seguir as normas de etiqueta, serão severamente punidos, entenderam? – adverte Jin com uma expressão diabólica enquanto mostrava seus fios prateados.

– Esse cara me dá medo e raiva ao mesmo tempo!

– Tenho certeza de nós vamos nos dar muito bem! – diz a vampira rindo.

– Deixe de besteira! Veja como ele olha para mim!

– Se você for rude com a senhorita... já sabe, não é?

– Deixe de ser dramático, Jareth, baby! – gargalha a garota.

– Dramático é uma...

Jin estica seus fios e seu olhar torto e frio mirava em Jareth.

– Ah, que medo! Me desculpa!

Prelúdio sombrio

Mansão Silverfang, nos arredores de Starry Sky...

A mansão Silverfang era extremamente conhecida e respeitada por todos os habitantes da cidade de Starry Sky. Ninguém ousava sequer adentrar os domínios daquele casarão luxuoso onde habitava um ser de extrema força e poder que reinou com mão de ferro em cima da Transilvânia por um bom tempo até os dias atuais.

Porém, um ser misterioso e encapuzado se aproxima da construção, caminhando pelas planícies áridas e quentes que rodeavam a mansão. Troncos secos e com marcas de garras decoravam aquelas terras esquecidas por Deus. Ao chegar no portão, ele se depara com dois homenzarrões mal-encarados guardando a entrada, cujos músculos pulavam para fora de seus corpos.

– Aonde pensa que vai? – diz um deles, barrando a passagem.

– Tenho que falar com o chefe de vocês – ele mostra um cartão para os guardas. – Assuntos da Irmandade.

Eles se entreolharam.

– O chefe não está de bom humor hoje. Acho melhor você cair fora daqui esquisitão, ou... – Eles começam a sentir suas pálpebras pesarem e a visão ficar turva. Então ele passa caminhando entre os grandalhões que, após um tempo, caem desmaiados no chão.

Após rodar o casarão, a figura chega ao salão central onde uma festa acontecia. A música cessa, as pessoas param de dançar e todos começam a mirar o encapuzado. No fundo do recinto, uma figura temível jazia sentada no que parecia ser um trono feito de ferro com alguns detalhes de ossos nas laterais e estava rodeado de mulheres formosas.

– Hum? O que um mensageiro da irmandade faz em minha ilustre festança? – pergunta da penumbra de seu trono.

– A Corte da Irmandade foi convocada! – ele revela o cartão que havia mostrado aos guardas da entrada. – É chegado a hora de apresentar-se, Rei sem vida Caius Silverfang!

O homem assentado começa a rir, mostrando seus dentes afiados.

– Finalmente vamos ter alguma ação por aqui!

Ele se levanta, intimidando todos os presentes com os seus quase três metros e meio de altura, corpo extremamente musculoso e robusto decorado com várias cicatrizes em seu peito e seus braços; cabelos castanhos, espetados e feições duras e ameaçadoras, fazendo qualquer um correr de pavor apenas com uma vista direta em seus olhos vermelhos.

– Todos os Reis Sem Vida foram convocados! É uma reunião urgente. – conclui o mensageiro dando o cartão para Caius. Logo após, ele se retira.

Enquanto isso na mansão Wolfgang, um dos mesmos mensageiros se dirigia à Abigail e Edgar, reunidos em seu jardim pessoal no horário do chá. Eles percebem que se tratava de um mensageiro da Irmandade e ficam apreensivos.

– Reis Sem Vida, Abigail e Edgar Wolfgang! Vocês foram convocados para participar da reunião da Corte da Irmandade. – Ele entrega o cartão para os dois.

“Então eles já descobriram a existência de Rose!”, pensou a condessa. Com certeza, por causa de seu encontro com a vampira naquele dia eles já descobriram que a ultima dos Valentine havia retornado. Isso poderia ser problemático, tanto para eles quanto para seu sobrinho Jareth, mas não poderia se negar a participar da reunião.

— Muito bem – Ela se levanta junto de seu marido. – Avise-os que a reunião será no fim de semana.

— Relatarei – acatou o mensageiro antes de se retirar.

— Você solicitou essa reunião aos velhos, querida? – pergunta Edgar.

Ela suspira enquanto mirava o cartão com o símbolo da Irmandade.

— Quem dera – ela fez uma pausa, raciocinando. – Isso pode ser um problema para Jareth.

— O que nós vamos fazer agora?

— Temos que assegurar que ele não se encontre com os outros Reis Sem Vida.

— Nesse caso, não haverá caça para nós por enquanto – diz Edgar meio cabisbaixo. –, mas a segurança de Jareth vem em primeiro lugar!

— Sim! – concorda Abigail. – Temos mais três dias antes da reunião. Vamos conversar com Jareth e depois vemos o que fazer.

Após conversarem, eles voltam para a mansão onde James os aguardava.

Distrito Roxy, naquele mesmo horário...

— Ei... mana...

— O que foi, mano?

— Acho que não devíamos ter brincado com ele. Ele acabou morrendo...

— Verdade. Ele morreu.

— Ele vinha dizer algo para nós, mana?

— Não sei. Acho que ele queria dizer algo, mas só gritava.

— Que chato, mana. Por que eles sempre morrem tão rápido?

— Olha, mano! Ele trouxe um cartão!

— Verdade, mana! Sabe o que isso quer dizer?

— Está na hora de encontrarmos com eles de novo, mano?

— Exatamente! Acho que eles vão dar alguém interessante para a gente brincar, mana!

— Eba! Estou muito feliz, mano!

As duas crianças começam a dançar em ciranda e cantar em volta de um cadáver moribundo que estava suspenso por um gancho preso ao teto. Estavam em uma sala feita apenas para suas “brincadeiras”, e que ficava no fundo da casa. O corpo estava totalmente deformado, sem os olhos, o nariz e com a língua arrancada. Os órgãos também haviam sido subtraídos da carcaça juntamente com o membro reprodutor e agora todo o corpo estava tomado por vários alfinetes, desde a região do tórax até a cabeça.

Os restos mortais eram do mensageiro.

Azalia Hotel, Cidade de Varna, Bulgária...

O telefone da suíte começa a tocar insistentemente.

– Senhorita Bellador? Aqui é da recepção do hotel. Há um homem aqui que quer vê-la! – informa o recepcionista.

A mulher sonolenta demora algum tempo para responder.

– Mande voltar mais tarde. Estou... dormindo agora... – diz ela entre bocejos.

– Ele diz que é urgente! – insiste ele.

– Eu disse que é para mandar ele voltar depois, droga! – repete a mulher, irritada.

– Está certo! – acata o recepcionista com a voz trêmula e ela desliga de uma vez, voltando a dormir.

No entanto, depois de alguns minutos, alguém bate na porta de seu quarto, despertando-a novamente. A mulher se levanta ranzinza e joga o coberto para o lado com raiva, se dirigindo até lá. Ela mira no olho mágico, observando uma sombra no corredor e se afasta rapidamente. A entrada do quarto foi arrombada com um golpe potente e com uma força desumana, visto que a porta voa até parar perto da cama, despedaçada. Um ser encapuzado adentra o recinto, retirando um cartão de dentro de seu roupão negro.

– Droga! Com certeza o hotel vai me cobrar essa porta! – reclama a mulher.

– Rei Sem Vida, Frida Bellador! A Corte da Irmandade lhe convoca a participar de uma reunião. – convida.

Ela torceu os lábios, se sentando na cama.

– O que será que aconteceu dessa vez? Já faz muito tempo desde que nos reunimos.

– Sou apenas um mensageiro – retruca, áspero. – Estou aqui apenas para lhe entregar isso.

Ele entrega o cartão para Frida e se vira para ir embora.

– Deve ser algo muito sério para os velhos quererem uma reunião agora. – raciocina ela, se levantando com um pulo da cama. – Bem... fazer o que né? Acho que vou encher o saco da Abigail de novo!

Um dos funcionários do hotel passa no corredor e percebe o estrago feito na porta da suíte, meio temeroso.

– Foi... foi a senhora que fez isso? – pergunta ele acabrunhado.

Frida torceu o rosto, deixando seus caninos afiados pularem para fora.

– Senhora?! Quem você está chamando de senhora?! – berra, furiosa.

O funcionário sai correndo pelo corredor apavorado. Frida tapa a boca, com vergonha.

– Opa... acho que exagerei de novo – diz ela, rindo de forma boba. – Acho que vou na recepção pagar a porta antes de ir.

Basílica de Santa Maria Maggiore, Roma, Itália...

A multidão na cidade de Roma parecia nunca ter fim e na Basílica papal de Santa Maria Maggiore não era diferente; em meio a vários devotos, turistas e moradores locais, um rapaz com capuz marrom e roupas vitorianas contemplava a magnificência da estrutura ancestral, levantada em meados século IV sob ordens do Papa Libério. Ele caminhava pelo antigo chão de mármore, contemplando os belos mosaicos no interior da Basílica juntamente com um mar de pessoas de todos os cantos do mundo, até que percebeu que estava sendo seguido.

Discretamente ele muda sua rota, passando pelo vasto corredor central onde tenta se misturar sutilmente com alguns freires. O sujeito ainda estava em seu encalço, então ele novamente caminha para o lado o oposto, de modo a não dar na vista e passa pelas galerias e os tetos dourados contemplativos, mas o encapuzado ainda o seguia insistentemente.

Chegou à um lugar mais reservado, um pouco longe da parte central da Basílica, e o esperou – já estava pronto para pegar seu perseguidor de uma vez. Quando ele sai, o rapaz estava recostado em um pilar atrás dele, de braços cruzados.

– Se me seguiu até aqui, sabe quem eu sou – começa. – Tem algo a me dizer antes que eu te mate aqui e agora?

O encapuzado retira um cartão de sua roupa e o entrega para ele.

– Rei Sem Vida, Sirius Scarlet. A Corte da Irmandade o convoca a participar de uma reunião urgente...

– Diga àqueles velhos caducos que eu não estou nem um pouco interessado no que eles têm para discutir – nega prontamente.

– Infelizmente você não pode recusar a se juntar aos outros, senhor Scarlet. – persiste o mensageiro.

Sirius o agarra pelo pescoço e o ergue no ar.

– E quem vai me obrigar? Você? Eles? – Os olhos dele brilham em um tom rubro e homicida.

– Há... algo que... vai lhe interessar... – ele tentava falar em meio a tosses e engasgos.

– Então desembuche logo antes que eu quebre seu pescoço aqui mesmo! – ameaça com a voz baixa.

– É sobre... a Valentine que voltou... – Sirius solta-o repentinamente no chão ao ouvir aquelas palavras.

– Você disse... Valentine?! – pergunta novamente.

Ele confirma se contorcendo no chão com a falta de ar.

Sirius, em sua postura séria e reservada, abre um largo sorriso no rosto e estala seus dedos.

– Eu sempre soube que um dia você voltaria... Rose!

A toca da bruxa

No dia seguinte...

Jareth chega na loja para mais um dia cansativo e entediante de trabalho, quando se depara com a loja vazia novamente. Ainda estava se acostumando com a limpeza impecável do estabelecimento – desde que Jin começou a trabalhar com eles, não havia sequer um grão de poeira em um único canto de prateleira que fosse, o que era bem assustador. Ao chegar perto do birô de sua chefe, ele se depara com um bilhete de Rose e que parecia ter sido deixado ali propositalmente.

“Fui fazer um serviço para um cliente. Compre bolo e vinho para mim. Se tiver vinho tinto, traga também.

Te amo, “Jarethzinho”!”

“Mas que droga, hein?”, pensa consigo enquanto amassava o papel. Não tinha muito o que se fazer ali por enquanto, então decidiu ir de bom grado. Ao entrar no quarto de Rose para pegar o dinheiro, Jin jazia lá dentro em uma intensa e compulsiva faxina.

— Olá, meu companheiro! – saudou ele, acenando com um espanador na mão.

— Ah... é você – responde Jareth, suspirando. – Você não se cansa de limpar a bagunça daquela arruaceira, não?

– Que tolices está dizendo? É o meu trabalho, e eu tenho que executá-lo da forma mais perfeita possível. – responde, resignado.

Jareth esboçou uma careta azeda com a resposta.

– De qualquer forma, a Rose deixou essa carta aqui – ele mostra a carta para Jin. – Não me lembro de ter visto nenhuma doceria por perto quando estive entregando currículos.

O faxineiro jogou o espanador em cima da cômoda e o avental de dona de casa na cama da vampira, que, por curiosidade, se parecia mais com um caixão.

– Então eu lhe guiarei até lá, meu caro companheiro. – diz ele de forma polida.

– Você sabe onde fica? – pergunta Jareth.

– Fica no distrito Blitzkrieg, ao sul de Starry Sky – informa Jin, arrumando as mangas da camisa. – Temos que tomar cuidado, pois é uma região de certa forma isolada e perigosa pelos bosques que tem lá.

– Bosques?

– Uma formação vegetativa formada em sua maioria por arvores coníferas como o cedro e que se aglomeraram em sua maior parte no distrito Blitzkrieg. Pode se dizer que é a reserva da cidade. – explica ele e Jareth parecia aéreo com o contexto.

– Acho que só precisamos ficar longe dos bosques, então... – deduz o rapaz.

– Sim – concorda Jin. – Principalmente com o que há lá dentro.

Jareth sente sua curiosidade atiçar.

– O que tem lá dentro mesmo?

– Ao passarmos por lá, eu explicarei melhor...

Assim eles partem para a loja para comprar os doces de sua chefe e que ficava a 30 minutos de viagem se fossem de carro. Ao chegarem no distrito, se deparam com um bairro residencial com várias arvores enormes em quase todas as ruas. Era comum naquela época do ano que adotassem uma coloração esverdeada bem vívida, o motivo pelo qual aquelas arvores tinham a fama de “sempre vivas”. A loja ficava no pé de uma grande arvore anciã, cujo caule invadia as construções da loja. Não era um lugar tão movimentado, para a surpresa de Jareth – era até vazio e sombrio, e quem cuidava do estabelecimento era uma garota tão gótica e mal-encarada quanto Rose.

Eles se dirigiram ao balcão onde a atendente jazia debruçada, em estado de pleno tédio. Ela vestia roupas rebeldes compostas por um jeans rasgado e surrado, uma jaqueta jeans cobrindo uma regata preta. Tinha um olhar cansado, disfarçado com uma maquiagem pesada e piercings por todo o corpo. Seus cabelos eram um misto de várias cores fortes e escuras, que se dividiam entre as mechas.

– Bem-vindos a doceria Doce Vingança! O que desejam, malditos? – Os dois rapazes se entreolharam, estranhando o nome do lugar e o modo como foram atendidos. O senso de educação do faxineiro estava apitando e sua vontade era de “ensinar” bons modos para a ela.

– Gostaríamos de duas tortas de ameixa para a viagem, por favor, senhorita! – Jin fez o pedido educadamente, ainda se doendo por dentro por causa da grosseria de antes.

– Está bem! Tanto faz mesmo! – ela prepara o pedido, de modo seco.

– Ah... poderia colocar vinho também? – pediu.

A garota os fuzila com o olhar.

– Vinho?! Você tem noção do que acabou de me pedir, maldito? – Jareth gelou com a reação dela. – Só um momento que irei buscar...

A cada minuto que passava dentro daquele lugar, ele sentia que uma parte da sua sanidade mental ia embora ao tentar entender tudo que acontecia.

– Aqui está, seu verme! – Ela coloca a garrafa de vinho em cima do batente. – Isso por acaso seria para a senhorita Rose?

Eles se surpreendem com a pergunta dela.

– Ah... sim – responde Jareth, confuso. –, mas como você a conhece?

A menina enrubesce subitamente.

– Ela é minha paixão secreta e incondicional. – revela, acabrunhada. Jareth não sabia se ria ou se chorava. – Se contar para ela, eu te mato, maldito!

“Ela dá tanto medo quanto o Jin!”, pensou ele concordando com a cabeça. Ao saírem da loja, Jareth podia ouvir ao fundo duas pessoas conversando sobre o bosque mencionado anteriormente pelo faxineiro.

— Você ouviu as histórias? – comenta o homem mais velho.

– Sim – responde o mais novo e barbado. – Parece que eles sumiram dentro do bosque.

– E a polícia não os achou?

– Eles iniciaram várias buscas, mas a maioria das esquipes que entraram no bosque não voltaram.

– Que Deus os proteja! – diz o velho temeroso.

– Ninguém devia chegar perto daquele lugar...

Durante o caminho inteiro, ele ficou com aquilo na cabeça enquanto caminhava com Jin, refletindo. Em um certo trecho do caminho, eles passam por uma calçada coberta por várias copas frondosas onde várias das folhas das árvores cobriam o chão, fazendo o caminho até uma grande escadaria rústica de pedra levando para o bosque acima.

– É aqui – Jin indica a escadaria. – Esse caminho leva para o bosque que fica em uma região mais alta da cidade.

– Mas essa escada leva para algum lugar, não é?

– Um templo antigo e abandonado, onde as crenças populares dizem que habita uma bruxa que usa todas as pessoas que profanam o bosque em seus rituais. – narrou o faxineiro.

– Uma bruxa...

– De qualquer forma, não é recomendado subir essas escadarias. – adverte ele novamente.

– Mesmo assim... o que será que há lá em cima?

Eles ignoram e passam a escadaria, voltando para a loja.

Enquanto isso, um som estranho ecoava do fundo do bosque, vindo do templo. O lugar estava destruído e esquecido. Lá dentro, na penumbra, um ser cuja as feições não eram nada que um ser humano pudesse distinguir, se alimentava dos restos de uma pilha de cadáveres enquanto que uma garotinha jazia no canto, ao lado da janela por onde uma cálida luz entrava.

– Por que... você fez isso? – pergunta a garotinha enquanto chorava.

A criatura a ignorava, continuando seu banquete nefasto.

“Eu... não aguento mais isso. Alguém me ajude!”.

Notas finais
Espero que tenham gostado e obrigado para quem leu. Até o próximo capítulo! ^^