Notas iniciais
Olá pessoal! To postando esse capítulo muiitoooo tarde e mais uma vez desculpem pela demora. Espero que gostem.

— 5 –


DUAS crianças brincam nas ruas próximas ao bosque amaldiçoado do distrito de Blitzkrieg, também conhecido popularmente como Bosque Herktiah, e encontram a enorme escada que levava para o coração da floresta escura. Na inocência e curiosidade, eles seguem o caminho rochoso e escondido na penumbra até chegarem ao famoso templo abandonado do bosque. Uma menina jazia sentada na escada, chorando amargas lágrimas e os dois meninos foram ao seu encontro.



– O que faz aqui sozinha, garota? – pergunta um deles.

Ela ergue o rosto molhado e parece assustada com a presença deles.

– O que estão fazendo aqui?! Vocês têm que ir embora agora! – diz a menina apavorada.

– Por quê? Por que temos que ir embora? – pergunta o outro também ficando com medo.

Ela se levanta rapidamente e os empurra para a escada.

– Rápido! Vocês têm que ir embora daqui, senão ele vai pegar vocês! – adverte ela com a voz alarmada.

Os meninos seguem para a passagem e a puxam para que fosse com eles.

– Venha com a gente também! – eles a convidam.

– Eu não posso! Eu tenho que ficar aqui! Vão embora logo antes que... – Antes de terminar sua frase, um som estranho ressoa pela floresta e a passagem para a escada se fecha em uma parede de escuridão.

– O que foi?! – grita o mais franzino.

– Eu quero a minha mãe! – choramingou o outro.

– Essa não! Ele já está aqui!

A menina solta um grito terrível e que assusta os garotos, que não sabiam para onde correr, caindo logo em seguida no chão. Eles ficam paralisados no pé de uma árvore, olhando fixamente para ela e sem saberem o que fazer ou o que pensar – estavam completamente assombrados. Após algum tempo, a garota se levanta como um zumbi do chão.

– Você está bem? – O mais magrelo se aproxima lentamente dela e que aparentava estar totalmente fora de si, como um sonâmbulo.

– Daniel! Volta para cá! – grita o companheiro.

– Garota! Responde! – Abruptamente o menino é partido ao meio, em uma cena vil. Seus órgãos internos esparramam na terra, boiando em uma poça de sangue. Horrorizado, o outro menino se desespera e corre para escada bloqueada de novo.

– Socorro! Socorro! – grita e chora, mas ninguém o escutaria naquele lugar.

A menina suja de sangue ressurge atrás do outro jovem, colocando a mão em seu ombro. O garoto vira o rosto lentamente com seus olhos esbugalhados de medo, e eis que ele encontra um olhar vermelho sinistramente macabro e insano, banhado em sangue. O semblante dela estava irreconhecível.

– Boa noite, amiguinho! – sussurra ela com uma voz demoníaca.

– Aaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhh!

Logo após seu último grito, o silêncio impera no bosque novamente.

– Que bolo delicioso! – exclamou Rose depois de uma garfada cheia.

Jareth e Jin permanecem estáticos na frente do birô, olhando sua chefe devorar aquelas guloseimas sem dó nem piedade.

– Ela sequer agradeceu – cochicha Jareth para o faxineiro.

Ele soltou um risinho.

– Esperado da senhorita Rose.

– Isso estava uma delícia! A Daneris realmente sabe como me agradar! – Ela faz uma pausa com uma dose de vinho.

– Por que será? – murmura Jareth com certa ironia.

Após terminar o bolo, ela volta sua atenção para os rapazes novamente.

– Muito bem! Nosso cliente virá aqui para me passar o pagamento e nos mostrar um novo trabalho, então comportem-se!

– Seria aquele senhor que anda com frequência aqui na loja? – indagou Jin.

– Ele mesmo! Ele é um cliente meu há muito tempo! – informa a vampira se acomodando em sua poltrona. – Ele sempre vai atrás dos mais danadinhos para eu puxar a orelha!

Ao citarem o senhor de idade, veio na mente seu último encontro com o velho misterioso.

“Depois iremos conversar, garoto.”

– Qual será o próximo trabalho que ele nos delegará? – pergunta o faxineiro.

– Quem se importa? – Rose se acomoda em seu assento, colocando os pés no birô. – O importante é que ele pague muito bem pelo serviço!

– De fato... – Uma voz grave surge na entrada da loja. Era Richard que havia chegado.

– Olá, Richard! Estávamos falando justamente de você! – diz ela, convidativa.

Ele vinha trazendo uma mala consigo e a coloca em cima da mesa. Jareth e Jin abrem espaço para ele se sentar.

– Aqui está a encomenda que você pediu, Rose. – Ele abre a maleta e eis que ela carregava dois revólveres negros de cano longo reluzente.

– Santo Deus, Richard! Era disso que eu estava falando! – exclamou a vampira com um semblante de prazer ao olhar para as armas.

– Modelo Balarraia, 35 cm de comprimento, pesando 14 kg, capacidade de até 8 disparos, ação dupla. Conta com cápsulas explosivas de 13mm, revestidas com prata. Foram feitas especialmente por monges da Ordem de Santiago – informa.

Os rapazes se maravilham com a explicação do velho sobre as armas, mas Rose apenas bocejava.

– Que se dane! O importante é que eu possa mandar gente para o inferno com isso! – retruca ela.

O senhor riu, ajeitando seu chapéu.

– Você nunca muda, não é, Rose? – Parecia que ele relembrava alguma coisa e Jareth fica confuso, ao mesmo tempo que não parava de pensar no que Richard havia lhe dito dias atrás.

– Ninguém se lembra da ferramenta. Apenas de quem a usou. – responde Rose, reflexiva.

– Boa colocação – Richard retira um papel de um dos bolsos. – Agora, vamos ao que interessa. Como sabem, corre um boato bem perturbador pelas redondezas de Blitzkrieg sobre uma tal bruxa.

“A bruxa! Como ele...?”, Jareth pensa sobre aquilo e sente um calafrio perpassar seu corpo.

— Estivemos por lá ultimamente – Jin se pronuncia. –, mas o que ouvimos é que várias pessoas desapareceram no Bosque Herktiah por razões misteriosas e associaram os desaparecimentos a uma suposta bruxa. Nada além de especulações.

– Exatamente, meu jovem. Especulações... – Richard fez uma pausa, pegando mais um dos seus charutos. – Desconfio que essas especulações sobre bruxas estejam apenas camuflando um suposto vampiro que caça naquela área.

– Então você quer que eu o mande de volta para o titio Lúcifer, é isso? – pergunta Rose com um sorriso malicioso.

– Primeiro investiguem o local e procurem pelos desaparecidos. Se for o caso de minhas suspeitas estarem corretas, você já sabe o que fazer, Valentine.

A vampira suspirou, desanimada.

– Ah! Que chato! Se não acharmos nada eu não vou poder atirar em ninguém também! Logo agora que eu queria inaugurar essas belezinhas!

– É isso! Quando retornar, me mande o relatório do trabalho e, dependendo dele, o dinheiro estará esperando aqui. – Ele se levanta para ir embora.

Jareth chama por Richard antes que ele saísse da loja.

– Ei! O que o senhor queria conversar comigo? – pergunta ansioso.

O velho solta um risinho e se vira para saída.

– Ainda não – respondeu. – Você ainda precisa amadurecer um pouco garoto. Quando for a hora, iremos conversar.

Jareth bufou e Richard se retira da loja. De longe, Rose sorriu parecendo contente com algo.

– Muito bem, meus queridinhos! Vamos essa madrugada visitar o Bosque sei-lá-o-que e dar um jeito nesse vampiro! – urrou ela, brandindo sua arma.

Os dois acatam e se preparam para a empreitada.

Então a madrugada chega e os três estavam em frente à entrada do Bosque Herktiah: a grande e temida escadaria de pedra que levava ao coração da floresta e que era o templo abandonado. Jareth sentia seu coração acelerar e engolia em seco a cada passo que subia no caminho escuro. Sons estranhos ecoavam por todos os lugares em meio a escuridão das arvores e sentia-se observado de todos os cantos. Jin mantinha sua cara sorridente e serena de sempre, o que era espantoso para ele, e Rose se sentia praticamente em casa – sentia que era o único “normal” dali, apesar de todos dizerem o contrário.

– Vai demorar muito ainda? – pergunta Rose, impaciente.

– Devemos estar próximos do templo abandonado – informa Jin.

– Ainda bem! Estou começando a ficar entediada!

Eles continuam a subir até alcançarem uma região plana onde se deparam com o enorme templo abandonado. Na subida que levava ao santuário, havia uma garotinha de pele clara e suja, cabelos roxos e vestido escuro, bem surrado. Ela estava encolhida e aparenta estar chorando.

– Nossa! Isso até que foi bem fácil... – Rose saca a arma para atirar na garota, mas Jareth a detém.

– Espera! Não pode sair atirando assim feito uma maluca! É só uma garotinha!

– Jareth baby, como você é ingênuo! Até acho isso fofo em você – Ela o empurra com o braço –, mas estamos aqui para caçar uma bruxa, e eu não vejo outra por perto além da nossa amiguinha!

– Pode ser que ela tenha se perdido ou seja uma sobrevivente! – interpela o rapaz.

– Não temos como ter certeza – Rose já preparava um disparo e ele se coloca na mira da vampira. Ela trinca os dentes.

– Deixe-me conversar com ela, por favor! – suplica ele.

Rose bufou, irritada.

– Faça como quiser! Só não venha implorar para eu salvar seu rabo depois! – responde emburrada, guardando a arma.

Jareth sorriu e caminha em direção à menina.

Ela continuava a murmurar e prantear, não notando a presença deles ali. Ele se aproxima lentamente para não assustá-la.

– Garotinha... – Ela ergue o rosto rapidamente e o espanta. Seus olhos eram fundos e sem vida, traçado por grandes olheiras. – Você... está perdida?

– O que vocês estão fazendo aqui?! – pergunta ela, ficando nervosa de repente.

– Estamos aqui porque ouvimos que havia um vampiro atacando pessoas dentro desse bosque – explica. – Por acaso você sabe algo sobre isso?

– Jareth baby! Isso é uma total perca de tempo! É obvio que ela é o vampiro! – grita Rose, de longe.

– Vocês têm que sair daqui logo! – A garota tenta desesperadamente empurrar ele para longe do templo.

– Mas... você não quer sair daqui? Não está perdida?

– Eu não posso sair daqui! Agora vão embora antes que ele pegue vocês!

– Ele quem?!

Em um rompante de raiva, Rose afasta Jareth e derruba a menina no chão com um pontapé, sacando sua arma logo em seguida. Ainda no chão, ela tenta se levantar, mas a vampira a pisoteia no pescoço, segurando-a ali com o seu pé.

– Eu me cansei dessa palhaçada! – Ela engatilha a arma e prepara para atirar.

– Rose! O que está fazendo, droga?! – berra Jareth, com raiva.

– Já que essa condenada não quer nos dizer nada, eu mesma me encarrego de fazê-la falar!

A menina agarra o pé dela, tentando reunir fôlego para repetir a advertência.

– Por favor... vocês têm que... ir embora!

– Ah? E por quê? Não quer que ninguém interfira na sua caça, é isso?!

– Rose! Para com isso! – Jareth tenta impedi-la, mas a vampira o tange com brutalidade.

– Fique aí mesmo, ou eu começo atirando em você! – ameaça.

– Rose...

De repente, a menina joga os braços para o lado e fecha os olhos como se tivesse morrido, e Jareth se desespera. Jin não sabia como reagir, então preferiu continuar em silêncio. Rose se indigna, atirando para cima.

– Ora, já morreu? Mas eu nem fiz nada... – Rose afrouxa um pouco da pressão que fazia no pescoço da garota, mas no mesmo instante, ainda de olhos cerrados, ela esboça um largo e sinistro sorriso.

– Você... parece tão suculenta! – murmura a menina.

– Então decidiu revelar suas intenções já que sabe que vai morrer?

– Eu quero te devorar! – Logo todo o solo em volta delas é cercado por uma sombra negra nefasta e o ambiente fica pesado.

Jareth rastejou para fora da área de efeito e Jin fez o mesmo, utilizando de seus fios para se locomover. Antes que pudessem pensar, várias sombras em forma de lâminas e espinhos brotam do chão e despedaçam o corpo da vampira que sai voando pelos ares.

– Rose! – grita Jareth, apavorado.

– Senhorita! – exclamou Jin, também incrédulo com a cena.

Uma chuviscada de sangue se forma nas redondezas; membros e órgãos caiam para todos os lados e a cabeça da vampira rolou até chegar perto de Jareth. Ele só encarava a cabeça dela, boquiaberto, totalmente em choque. A menina se levanta, banhada pelo sangue de Rose e começa a lamber, deliciando-se com cada gota.

– Rose... – O rapaz mal conseguia se mexer e sequer sabia o que pensar ou fazer. A cabeça à sua frente era a única coisa que podia ver naquele momento e o resto do mundo pareceu escurecer de repente.

– Que delicioso! – diz a menina com um olhar sádico. – Agora é sua vez!

As sombras que haviam despedaçado a vampira agora convergem na direção dele, mas Jin se interpõe. As lâminas se desvanecem com o balançar dos fios prateados do faxineiro.

– Jin!

– Não fique parado aí, ou vai acabar morrendo, senhor Jareth! – diz com certa ternura.

“Não tem como vencermos! Olha o que ela fez com a Rose!”, pensava Jareth consigo enquanto se tremia de medo. Jin segurava toda a força da sombra da menina enquanto esperava alguma reação por parte dele. Seus olhos desolados mostravam um espirito quebrantado, com medo e sem força para lutar.

— Não tem como vencermos! – diz Jareth com a cabeça baixa.

Jin trinca os dentes e despedaça o golpe da sombra; pega o rapaz pelo pescoço e leva-o para o outro lado, perto de algumas arvores.

– Ora, senhor Jareth, não desista! Mostre-me a força que usou contra mim! Não se renda ainda! – Jin o encoraja, segurando seus ombros.

– Não tem como ganharmos dela... – replica com seus olhos congelados.

– Não diga isso, senhor Jareth! – gritou Jin. – A senhorita Rose iria querer que lutássemos até o fim!

– Rose...

– O que foi, Jareth baby? Já molhou as calças de medo? – A voz de Rose ressoou no ambiente. Por um momento, Jareth pensou que estivesse ouvindo coisas por causa do impacto da cena, mas eles olharam para todos os lados e encontram a cabeça falando com eles. – Você me mata de vergonha, sabia?

O rapaz soltou um grito e rasteja para perto da árvore, longe da cabeça falante da vampira, enquanto Jin ficou em seu canto, fascinado.

– Libere sua raiva Jareth baby. Vingue-me! Isso que você quer, não é? Então transforme essa raiva em força! Transforme-se em um lobisomem!

Após ouvir aquelas palavras, ele baixa a cabeça, desolado.

– Eu não sei como fazer isso! Não sei! – diz ele.

Enquanto isso, Jin se protegia dos ataques massivos da menina possuída. A sombra se movia de forma que não havia como prever seus ataques. A cabeça de Rose, então, começa a se transmutar, virando em uma espécie de bolha de lama.

– Jareth... você é uma completa desgraça. – Após isso, a cabeça se liquefaz completamente, se misturando à terra.

– Rose...

– Jareth! Importaria de fazer o favor de ajudar aqui?! – O faxineiro grita, enquanto bloqueava com dificuldade os golpes da menina.

O rapaz se levanta ainda meio cambaleante e grita:

– Menina! Eu sei que você não quer fazer isso! Por favor, você tem que se controlar! Reaja!

– Ela não ouvirá, seu verme! – Ela ri com sua voz dantesca.

– Temos que pará-la na base da força! – diz Jin parando em um galho de árvore, reorganizando os fios.

– Por favor... Você tem que parar! Eu sei que você não é maligna!

– Jareth! Cala a boca! – A voz de Rose se fez presente novamente. – Você já está me irritando!

Renascimento

– Rose?! Onde você está?! – pergunta Jareth, sentindo calafrios.

Um morcego voava baixo perto dele. O morcego era diferente de qualquer outro que já havia visto antes, possuindo seus olhos dourados e uma aura amarelo-rubra.

– Francamente, acha mesmo que monstros são convencidos com palavras melosas ou lições de moral? Não me faça rir! – De repente, vários morcegos invadem a floresta e os circunda, concentrando-se em um único ponto onde formava uma silhueta humanoide no centro da nuvem.

– A senhorita voltou! – disse Jin, surpreso.

– Rose! Eu tenho certeza de que ela... – Ele se recorda de quando a vampira teve seu corpo estraçalhado pela garota.

Em meio a um tufão de morcegos, debaixo da negritude da noite, a vampira Valentine ressurge de seus companheiros da madrugada, como se bailasse em meio deles, com seu sorriso de escárnio habitual. Seus olhos agora estavam dourados e completamente insanos, desejando os prazeres da batalha e o sangue dos seus inimigos. Diferente do seu vestido de antes, agora trajava um manto completamente negro como o da própria morte e uma espécie de símbolo espectral de luz surge em cima de sua cabeça, algo que fez Jareth e Jin tremerem apenas de encarar.

– O que é isso?! – Jareth estava apavorado com a cena.

– Essa é a verdadeira força da senhorita? – Jin se lembrava de sua luta contra ela. – Não... essa ainda não é toda a sua força. Ela poderia ter acabado comigo em um instante!

– Vampiro... – diz a menina possuída com o semblante sério e fechado.

– Muita arrogância da sua parte – ela pegou suas pistolas no chão e as engatilhou. – Pensar que é superior a mim!

Sem pensar duas vezes, a menina avança contra Rose, desferindo seu ataque de sombras novamente, mas dessa vez é parado pela aura dourada da vampira e que fazia tudo em volta queimar até se tornar em brasas vivas.

Red Javelin! – Uma mão espectral dourada se forma acima delas e parecia sincronizada com a mão direita de Rose.

Ela cerra o punho e faz um gesto, como se fosse esmagar algo – a mão gigante de energia faz o mesmo, descendo até imprensar o que estivesse abaixo. A menina se esquiva, mas antes que pudesse pensar, Rose acerta um tiro certeiro no peito da jovem no meio do movimento, fazendo-a tombar. A sombra recuou para dentro do corpo da menina e a massa negra tendeu para o buraco feito pelo disparo de Rose, fechando-o por completo.

– Onde eu... onde eu estou? – pergunta a garota tentando se levantar, mas quando o fez, logo sente a dor perfurante no peito e desaba novamente.

“Ela não se lembra de nada?”, questiona Jareth, porém Rose não demonstraria misericórdia, mesmo sabendo desse fato.

— Alguém. me ajuda! – chorava e gritava a garotinha.

Jareth se coloca à frente de novo e Rose distorce seu rosto em fúria.

– Qual é a desculpa dessa vez, Jareth? O que significa isso?!

– Ela estava possuída por alguma coisa! Ela não é maligna!

– Estou pouco me lixando para isso. É só mais um trabalho! – responde, fria.

– Por favor, dê uma chance a ela! – suplica Jareth.

– E o que eu vou ganhar com isso, hein?! Me fala!

Jareth pensou por algum momento, mas não conseguiu achar nada de vantajoso para ela.

– Poderíamos levá-la conosco! – sugeriu.

Rose segurou uma risada, mas mantem o porte carrancudo.

– Que piada é essa? Nosso objetivo é eliminá-la, não adotá-la! – responde com os olhos faiscando.

– Por favor! Eu imploro! – Jareth se curva para o pedido e ela sentiu sua mão afrouxar o gatilho.

Após um denso suspiro, ela baixa sua arma.

– Você está me devendo essa, seu miserável! – O símbolo brilhante acima da sua cabeça desaparece e os olhos da vampira voltam à sua coloração normal. O rapaz suspira aliviado e a menina desmaia com a dor em seu peito. – Jin! Enfaixa logo o ferimento desse inseto antes que morra de infecção! Se bem que seria até engraçado.

O faxineiro prontamente obedece e Rose desce outro soco em Jareth.

– É bom não fazer mais essas coisas, seu idiota! Vai acabar morrendo qualquer hora! – Jareth não sabia se ela estava com raiva dele ou preocupada. Nunca sabia ao certo; Rose era uma peça quase indecifrável em quesito de sentimentos.

– Rose... – Ele desaba no chão, com o rosto repousado sobre os braços enquanto ela se dirigia para a escada.

– Vai ficar aí no chão ou vai carregar a sua donzela indefesa?!

– Ei! Sou eu que vai carregar ela? Como assim?! – pergunta Jareth, irritado.

– Claro que sim! Você deu a ideia de levarmos ela, então assuma a responsabilidade. – rebate Rose.

Jareth faz uma careta azeda e coloca a menina inconsciente nas costas, descendo com ela pelas escadas com muita dificuldade. O resto do caminho é tranquilo para levá-la, já que a menina possuía claros traços de desnutrição. Era bem leve e fácil de ser carregada.

Ao chegarem na loja, Richard já os esperava, para a surpresa deles. Ela ainda estava nocauteada.

– O que está fazendo aqui, Richard? – pergunta Rose.

– Eu não disse que estaria aqui para saber dos relatórios da missão? – Ele se calou ao ver a menina nas costas de Jareth. – Complacência? Não é muito do seu feitio, Valentine.

– Dá um tempo! Culpe meu empregado inútil e o coração mole dele! – alfineta ela com uma careta.

– Digamos que ela deu muito trabalho para nós – completa Jin com uma risadinha.

– É apenas uma garotinha e ela precisa de ajuda! – protestou Jareth.

Rose foi até ele e agarrou a gola da sua camisa violentamente, enquanto forçava um sorriso tenebroso.

– Jareth querido do meu coração! Coloca esse pedaço de bosta em algum lugar e cala a boca antes que eu te mate, pode ser?!

Ele concorda com um aceno apavorado de cabeça e deixa a garota na cama-caixão da vampira. Ao ver aquilo, ela explode em fúria.

– Não tinha outro lugar para colocá-la, querido?! – pergunta Rose franzindo o rosto.

– Não – responde, seco. – Acho que aí ela vai poder se recuperar.

Richard acende um charuto e começa a falar.

– Bem... como não a eliminaram, não posso pagar a mesma quantia que eu pagaria caso tivesse completado esse requisito – explica ele com uma baforada. – Contudo, acho que posso dar alguma coisa a vocês...

– E o que seria?! – pergunta Rose, animada.

– Uma informação. – Ela baixa a cabeça, desanimada.

– Que merda! Não dá para comprar doces deliciosos com informações!

Richard solta uma risada, afagando a cabeça da vampira.

– Não se preocupe, Valentine – Ele fez uma pausa, mudando o timbre da voz. – É sobre o seu “alvo”.

Rose subitamente para com a birra e levanta a cabeça com um olhar perfurante para o velho.

– O que tem ele? – pergunta com seriedade.

– Soube que eles irão se reunir novamente dentro de alguns dias. Provavelmente você será o tema da reunião – informa Richard meio alheio ao assunto.

Rose suspira, parecendo incomodada.

– Droga! Aposto um bolo como foi a tia do cabeção aí que me dedurou! Não queria que eles me descobrissem tão cedo!

– Minha tia? – inquiriu Jareth, confuso. – O que ela tem a ver com tudo isso?

– O conde e a condessa Wolfgang são uns dos membros mais influentes da Corte da Irmandade – explica Richard colocando o charuto ao lado do cinzeiro.

– Provavelmente foi ela quem me entregou para os velhos – diz Rose meio dúbia.

– Corte da... Irmandade? – replica Jareth, pensativo.

– Acho que após a reunião eles vão querer se mobilizar contra nós. Isso vai ser um pé no saco agora! – reclamou a vampira com um suspiro. – E do jeito que aqueles católicos são, vão querer enfiar o dedo nisso também...

– Essa não é a chance que você queria, Valentine? – pergunta o velho para ela.

Rose fica em silêncio enquanto esboçava um sorriso enigmático no rosto.

– Só de pensar nisso, eu...

– Pessoal! A menina está acordando! – chamou Jin. Richard permanece na parte da frente da loja e o resto se dirige para o quarto de Rose.

A menina abre seus olhos lentamente, mirando com cuidado cada silhueta estranha que seus globos oculares captavam. Seus olhos pareciam sofrer com a iluminação do lugar e começam a arder. Ao despertar completamente, ela se assusta com todos os presentes e se encolhe no canto da cama.

– Está tudo bem! – diz Jareth em um tom amigável. – Você está segura aqui!

– Defina o conceito de “segurança” – diz Rose, descontraída.

– Onde eu estou?! Eu estou fora do bosque?! Não pode ser! – Ela ainda parecia estar perturbada com a mudança de ambiente e tinha vertigens.

– Nós te resgatamos de lá – Jareth tenta explicar de forma mais simples possível. – Você estava possuída por alguma coisa e a nossa chefe te trouxe de volta.

Rose parecia incomodada da forma como ele falava com a menina.

– Qual seria seu nome? – pergunta o rapaz, sorrindo.

Ela cora ao se deparar com o sorriso gentil de Jareth e abaixa a cabeça, desconcertada.

– A-A-Angelita... – responde com a voz entrecortada.

– Angelita? Que nome lindo! – elogia o rapaz. A menina começa a chorar. – Ah! Desculpa! Eu fiz alguma coisa?

– N-não... ninguém nunca... disse isso para mim antes – responde, soluçando.

Jareth sorri, meio sem graça.

– Fico feliz! Bem... meu nome é Jareth! Prazer! – apresenta-se estendendo a mão.

Ela responde o cumprimento, ainda acanhada.

– É só uma garotinha – comenta Jin.

– Eu ainda acho que essa pirralha está escondendo alguma coisa! – implica Rose, arqueando a sobrancelha.

– Por favor! Vocês têm que me levar de volta para o bosque! Por favor! – diz ela com a voz pesada.

Jareth apertou os olhos.

– Por quê? Por que você quer voltar para aquele lugar?

– Aqui não é seguro! Não posso ficar aqui! Não é seguro para vocês!

Rose solta uma gargalhada abruptamente.

– O que está dizendo pirralha? Por acaso está insinuando que é mais forte que a gente ou algo assim? – provoca a vampira.

– Para com isso Rose! É claro que ela não quis dizer isso...

De repente, Angelita começa a gemer enquanto segurava a cabeça com as duas mãos. Ela aparentava sofrer de severas dores e perturbações mentais.

– O que foi, Angelita? O que foi? – pergunta o rapaz, preocupado.

– Por favor... se afasta de mim! Eu não quero te machucar!

– A gente quer te ajudar! Diz o que você está sentindo!

A garota começa a rolar na cama, levando suas mãos à cabeça.

– Ele está querendo vir. Tomar o controle... – Angelita dizia palavras desconexas, deixando todos ali confusos.

– Essa garota... – Richard adentra o quarto, com a mão no queixo. – Ela quem estava no coração do Bosque Herktiah?

– Ela mesma – confirma Rose.

– Ela parece estar sobre o efeito de uma obsessão.

– Obsessão? – pergunta Jareth.

– É quando um vampiro não consegue controlar sua própria energia interior e a manifesta em forma de uma explosão de emoções – explica Rose. – Essas emoções podem ser tanto positivas quanto negativas.

– Por favor... saiam... daqui! – suplica Angelita mais uma vez.

– E como podemos ajudar ela? – pergunta o rapaz.

– Isso só quem pode fazer é ela mesma. A única coisa que podemos fazer é impedir sua obsessão de destruir tudo aqui fora. Ela tem que controlá-lo por dentro – elucidou Richard, cruzando os braços.

– Já que a obsessão é proveniente dos sentimentos do vampiro, ela mesma tem que se controlar.

– Valentine! Se ela começar a sair do controle, você já sabe o que fazer, não é? – diz o velho mirando para ela.

– Não precisa nem falar – responde a vampira sorrindo.

A menina começa a gritar em cima da cama e uma sombra pareou sobre o quarto onde estavam. Todos recuaram até que a menina se acalmou novamente, abrindo seus olhos vermelhos e sedentos.

– Angelita! – gritou Jareth.

– Jareth! Não é mais a menina! Agora é a obsessão! – adverte Richard.

– Preparem-se. Eu vou matar todos vocês!

O mais importante

– Jareth! Para trás! – As sombras atacaram Jareth, mas Rose se coloca no caminho e o tira do alcance dos ataques.

Ela é arremessada pela parede e chega até o prédio vizinho com a força do impacto. Jin trata de proteger Richard e o rapaz permanece caído no chão, sem saber como reagir.

– Rose! – gritou ele.

– Finalmente! Eu posso devorar quantas pessoas eu quiser, já que vocês me libertaram do meu cativeiro!

– Cativeiro?! O que...

– Ela está falando do bosque! – berrou Jin, liberando seus fios.

Naquele momento, a ficha de Jareth caiu. Estava tudo claro como o dia e ele se sentiu culpado e triste pela garota.

– Ela... ela se isolou no bosque de propósito! Porque não queria que ninguém se machucasse com essa obsessão! – diz Jareth com a voz fragilizada.

As sombras o agridem novamente, mas Jin repele as investidas, impedindo que elas chegassem até seu companheiro. Ele revida com um ataque rápido utilizando suas armas, mas elas não faziam um arranhão na garota.

– Oh céus! Nem trisquei nela! – exclama o faxineiro.

– Sai da frente Jin! Agora essa cachorrinha vai ver! – Rose vem de longe enfurecida, e com sua mão espectral desfecha um golpe violento que lançou a menina pela parede até a rua detrás, destruindo tudo que estava pela frente.

– Rose! – A vampira estava com suas roupas rasgadas, sua cabeça estava sangrando muito e seus braços estavam machucados. Jareth se sentia mal por ver sua chefe naquele estado.

– Você está machucado, Jareth baby? – pergunta.

– Eu estou bem, graças a você. – respondeu ele.

Ela sorriu confiante para Jareth.

– Que ótimo! Agora eu vou dar um jeito na nossa amiguinha!

– Só não a mate! – pediu ele.

– Isso não depende só de mim e você sabe, não é?

Jareth suspira e se levanta.

– Eu sei. Eu sei também que você vai fazer o possível! – diz sorrindo.

Rose enrubesce, virando o rosto.

– Eu já disse que esse seu jeito ingênuo e estúpido é bonitinho, não é? Essa é sua sorte! – diz a vampira voando até a rua onde Angelita a aguardava.

– Você de novo, vampira! – rosnou a obsessão, enfurecida.

Ela sorri, empolgada com seu oponente.

– Ao vivo e em cores, mi amore! E está na hora de te colocar para dormir de uma vez por todas!

– Saia do meu caminho, vampira! Não é você quem eu quero!

A menina ataca com suas sombras perfurantes, mas vários pilares de energia dourada radiante a protege dos ataques. Rose já estava em seu estado de excitação máxima, onde tudo que importava para ela era o inimigo à sua frente e cada aspecto da batalha, até mesmo as dores e ferimentos, eram convertidos em um inexplicável deleite.

— Ah, mas é você quem eu quero, pirralha! – rebate, com a voz insana.

A vampira revida os ataques da mesma forma, mas a maioria deles, a obsessão que tomava conta do corpo de Angelita, não consegue bloquear e lacera alguns pontos do corpo dela. Rose com a ajuda de seu Red Javelin, encurta a distância entre elas e chega perto da menina para um golpe perfurante com a mão espalmada.

Jin, Jareth e Richard observam do buraco deixado na parede do prédio o desenlaçar do combate, mas não parecia que iria acabar bem para Angelita e o rapaz sentia que deveria fazer algo antes que culminasse em sua morte.

Rose golpeia novamente com a mão espalmada, passando de raspão no rosto da menina, porém ela revida com um soco certeiro em seu rosto.

— É só isso que pode fazer? – Ela gargalha em zombaria. Após isso, retribui com um soco potente no abdômen de Angelita que a faz voar até colidir com o paredão do prédio do outro lado da rua.

— Rose! Eu falei para pegar leve! – reclamou Jareth chegando até ela.

— Dá um tempo, Jareth baby! Não venha cortar meu barato! – censura ela com uma careta.

— Eu pensei em algo. Tem como você me ajudar?

Rose arqueou as sobrancelhas.

— E o que seria, querido? Adoro quando meus empregados pensam – responde com a voz aveludada.

— Teria como prender ela para mim? Eu vou tentar algo.

— Só não vá fazer nada estúpido, está me ouvindo? – repreende ela de imediato. – Lembre-se que eu sou responsável por você e se algo te acontecer, eu vou ter sérios problemas com seus tios.

Jareth riu.

— Não se preocupe! Só preciso que você segure ela o máximo que der!

Rose concorda com a petição dele, mesmo sem saber o que ele pretendia. Angelita vinha enfurecida de onde a vampira havia lhe arremessado com o golpe anterior, cercada por uma nuvem negra e densa, formada pela obsessão. Jareth se separa de Rose, e ela se preparava para imobilizar a garota como o rapaz havia pedido, quando um ataque inesperado surge de baixo dela, empalando o corpo da vampira.

— Rose! Não! – gritou Jareth.

— Cala a boca! – A voz dela ressoa lá de cima, enquanto agarra a sombra. – Até quando vai ficar só gritando?!

A aura dourada da vampira envolve a sombra completamente até chegar à criança, a detendo parcialmente com grilhões de energia resplandecente. A menina tenta se soltar esperneando violentamente e rompendo o fluxo de energia em alguns pontos. Antes que continuasse, os fios prateados de Jin descem e a prendem ainda mais, a imobilizando-a completamente dessa vez.

— Jareth! Vai acordar essa fedelha! – berra Rose, cuspindo sangue.

— Ah... como eu faço isso?! – pergunta ele, nervoso.

— Dá um soco nela, uma cabeçada, um chute... sei lá! Acorda ela logo!

— Não sabemos quanto tempo vamos segurar ela aqui – completa Jin com dificuldade em manter suas cordas firmes.

Jareth, nervoso e trêmulo começa a olhar para todos os lados, onde os dois colocavam muita força para segurar Angelita. A sombra ficava cada vez mais densa e dilacerava lentamente o corpo de Rose, que sentia cada vez mais dor e sua aura definhava a cada instante.

— Vai! Rápido! – grita ela novamente.

O rapaz acata e se aproxima do corpo da menina lentamente, enquanto ela bramia, quase imóvel, tentando se libertar.

— Ah! Me soltem! Eu vou matar todos vocês!

Jareth cerra seu punho, antes trêmulo e sem firmeza e agarra a cabeça da menina, reclinando sua testa até tocar a dela.

— Angelita! Está me ouvindo?! Você tem que acordar! Não deixe essa coisa controlar você! – grita Jareth.

A obsessão começa a rir.

— Que piada! Acha que isso vai mudar algo?! Ela é fraca! Ela nunca vai esquecer do que fizeram a ela!

— Do que... fizeram?!

— Jareth! Deixa de bater papo e esmurra logo essa coisa! – A força de Rose começa a se dissipar gradativamente.

— Todos aqueles que a machucaram! Todos aqueles que desprezaram ela! Ela nunca vai esquecer a dor! Nunca vai me deixar! Eu sou o porto seguro dela! Eu! – bradou a obsessão com um tom de superioridade.

— Cala a boca! Eu... – Jareth fez uma pausa, apertando os olhos. – Eu não te conheço, mas eu sei que ela não é assim! Ela suportou tudo isso só para proteger os outros! Ela não queria que ninguém fosse machucado por você!

— Jareth! – Rose não aguenta manter os grilhões de energia por muito tempo e dissipa-os.

No momento que a energia se esvai, a menina se liberta dos fios de Jin também, fazendo pequenos cortes em todo o corpo de Angelita, e a obsessão salta para cima de Jareth e o ataca. Ela espalma a mão e a penetra no abdômen do rapaz, fazendo-o gritar de dor.

— Jareth! Não! – A vampira se agarra na sombra que a empalava e a destroça, caindo no solo em uma fúria sanguinária. – Como ousa?! Sua cadela!

— Angelita... Se lembre de quem você é. Não... deixe essa coisa... te dominar! Ela não responde... por você.

— Já pode parar com esse sentimentalismo barato! Não vai adiant...

“Para com isso! Agora”

“O que está fazendo, idiota?! Eu sou sua força...”

“Não vou deixar você machucar ele! Ele não!”

“Para com isso!”

“Já chega!”

Naquele momento a menina retira sua mão do corpo de Jareth, se contendo repentinamente. O rapaz fica agonizando no chão enquanto sofria da hemorragia do ferimento. Antes que a menina pudesse se recompor, Rose a acerta em cheio com um soco avassalador de energia, fazendo-a voar até derrubar um poste e destruir um carro do lado.

— Droga! Jareth, seu idiota! – grita Rose indo até ele.

Ela encontra-o semiconsciente e pálido. O sangramento não parava e sua respiração fica cada vez mais densa. Ele conseguia vê-la embaçado e tudo se escurecia lentamente. A voz de Rose também parecia ser perder na escuridão e ficar cada vez mais longe.

Notas finais
Espero que tenham gostado e obrigado por lerem. Até o proximo capitulo! ^^