Valentina
8 Capítulo 7
— Hulda, como estou? — Valentina quis saber de sua dama de companhia. Queria passar o mais desapercebida possível no jantar de boas vindas ao convidados, por isso escolhera um vestido cinza, sem detalhes, de colo alto e mangas retas.
— Bem, como sempre, Alteza! — Hulda sorriu a responder, mas não conseguiu disfarçar uma leve crítica no olhar.
— Diga, Hulda, o que realmente pensa? Notei uma leve olhar de crítica. O vestido não me cai bem? — Valentina procurou os olhos da Dama de Companhia incentivando-a a dizer o que pensava.
— Bem, Alteza, qualquer coisa que esteja trajando, sempre lhe cairá bem, mas... — Hulda fez uma breve pausa procurando as melhores palavras. — mas, essa e uma noite de celebração e não consigo entender porque escolheste um vestido tão simples... tão desinteressante.
— Quer dizer que achas meu vestido desinteressante? — Perguntou Valentina num tom leve e agradável.
— Me perdoe, Alteza, mas sim, o achei desinteressante. — Respondeu Hulda com sinceridade.
— Ótimo! — Valentina sorriu para a Dama de Companhia. — Era exatamente esse o efeito que eu desejava.
— Se me permite, Vossa Alteza, não é a roupa que faz o monge. — Hulda argumentou com um sorriso tímido.
— Seja mais direta, Hulda. — Valentina pediu com um ar curioso.
— Mesmo que o vestido seja desinteressante quem o veste não o é. É como eu disse, a roupa não faz o monge. Vossa Alteza poderia vestir-se de trapos que, mesmo assim continuaria sendo a mulher mais bela do castelo.
— Hum! — Valentina refletiu por alguns segundos a fala de Hulda antes de continuar. — Bem, vamos esperar que você esteja errada, Hulda.
— Sim, Alteza. — Hulda respondeu rindo baixinho da tola esperança da princesa.
Valentina saiu do quarto em passos apressados, seu avô não gostava de atrasos e muito menos ela, mas nesse dia em especial não se importaria em chegar já no final do jantar. Perdida em seus pensamentos não notou quando um vulto surgiu de traz de uma das colunas.
— Valentina, vais me evitar por uma semana? — A voz rouca e grave de Guilhermo surgindo inesperadamente no meio do corredor escuro lhe fez tremer com tanta intensidade que seus joelhos dobraram.
— Não quis assustá-la! — Guilhermo abraçou Valentina impedindo que ela caísse. — Perdão!
O som inesperado somado ao toque mais inesperado ainda, deixou Valentina sem fala e forças por alguns segundos e, consequentemente, nos braços de Guilhermo por mais tempo.
— Fale comigo, Valentina! — Guilhermo pediu preocupado girando Valentina nos braços para que ela ficasse de frente para ele. — Vamos, princesa, tens sempre algo a dizer. — O mão de Guilhermo tocou o rosto de Valentina e seu polegar buscou-lhe lábios movimentando-os suavemente. — Está me deixando assustado, Princesa.
Valentina respirou fundo expulsando do corpo as sensações e emoções que aquele entrevero lhe causara.
— Me solte! — Valentina sussurrou entre os dentes ao mesmo tempo que apoiava as mãos no peito de Guilhermo e o empurrava.
— Certamente, desde que me diga que pode ficar de pé sozinha. — A mão que a pouco estava no rosto e lábios de Valentina agora corriam por suas costas até parar na base de sua coluna. — Não foi minha intenção assustá-la, não é necessário que fique brava comigo.
— Não estou brava. — Valentina respondeu num tom neutro. — Apensa me assustei, o que não é comum. — E o empurrando com força afastou-se dos braços de Guilhermo. — Como pode notar já consigo me manter em pé. — E virando-se em direção ao seu caminho voltou a caminhar. — Alias, não acredite nem por um momento que eu cairia, eu me assustei sim, mas não ao ponto de perder as forças.
— Se assim o diz! — Guilhermo responder sem sair do lugar.
— Não vai ao jantar? — Valentina quis saber ao notar que ele continuava parado.
— Sim. Vou. — Guilhermo respondeu ainda sem se mexer.
— E o que o impede de caminhar, então? — Valentina controlou sua voz para não transparecer seu aborrecimento.
— Um convite. — Guilhermo ergueu uma sobrancelha e deixou surgir um leve sorriso.
— Ora, Guilhermo, não me faça chacota, desde quando precisas de convite, passamos a infância caminhando lado a lado, e agora me vens com essa? — Valentina usou um tom suave, quase piadista, e fez um movimento com a mão o chamando para acompanhá-la.
— Ora, Princesa, não estou lhe fazendo chacota. — Guilhermo respondeu sério caminhando até o lado de Valentina e lhe oferecendo a mão. — Muito pelo contrário. — Guilhermo seguiu a fala quando a mão de Valentina pousou sobre a sua. — Estou lhe fazendo a corte. — Guilhermo virou o rosto em direção de Valentina procurando alguma reação, e como nada viu aproximou a boca do ouvido de Valentina e, antes de começar a caminhar, lhe disse num sussurro. — Estou apaixonado.
A distância entre o ponto em que se encontravam e a sala de jantar não era mais que vinte metros, porém, pra Valentina, pareceu muito maior. Ela permaneceu em silêncio e Guilhermo, após se declarar, também. Valentina sabia desfazer o contato de suas mãos chamaria mais atenção do que mantê-lo, então assim o fez. Mas os dedos de Guilhermo movimentavam-se acariciando os seus e aquilo a estava desestabilizando, as sensações que aqueles simples movimentos lhe causavam eram de uma grandeza inexplicável e seu coração começou a pulsar com força, com tanta força, que certamente Guilhermo havia sentido também.
— Pare com isso, Guilhermo. — A voz, que Valentina esperava que saísse forte, veio trêmula. — Não sei o que lhe passa pela cabeça e não quero magoá-lo, mas meus sentimentos não correspondem aos seus. — Valentina completou assim que chegaram juntos ao Salão de Jantar.
Guilhermo se virou e a olhou de forma calorosa.
— Talvez sua mente ainda não tenha registrado a reciprocidade de seus sentimentos.... — E trazendo a mão de Valentina até a boca, beijou-lhe o dorso antes de completar o pensamento de forma que só Valentina ouvisse. — Mas certamente seu corpo corresponde.
O toque dos lábios de Guilhermo em sua mão lhe causou um calor imediato, incendia-do lhe o corpo e ruborizando seu rosto.
— Cada um acredita naquilo que lhe convém. — Valentina sorriu ao responder, lhe fazendo uma mesura e afastando-se em direção ao seu lugar a mesa, ao lado do seu avô.
— Interessante sua escolha de traje para essa noite, minha princesa. — Rei Augusto sorriu ao vê-la se aproximar. — Um tanto neutro para uma noite de comemorações, mas assim mesmo interessante.
— Majestade, todas nossas atenções hoje estão voltadas ao nossos convidados, eles são os protagonistas. — Valentina beijou o rosto de avô e preparou-se para acomodar-se ao seu lado, onde era seu lugar.
— Hoje teremos uma composição diferente a mesa, Valentina, deixe que Rei Afonso e Rainha Selena sentem-se próximos a mim, temos muito o que discutir, e nada como uma boa conversa para animar um jantar de boas vindas. — Rei Augusto ergueu a mão indicando um lugar entre Guilhermo e Felipo. — Sente-se junto aos jovens, imagino que tenham muito assunto a colocar em dia. — O sorriso de Rei Augusto não dava espaço para argumentações.
— Claro, Majestade. Como sempre uma ideia perfeita. — O sorriso que Valentina usou para responder ao avô nada condizia com a realidade. Nada lhe seria menos prazeroso do que estar durante todo o jantar ao lado de Guilhermo, ao menos Felipo também estaria ao seu lado, o que possibilitava alguma diversão.
— Muito bem, irmãzinha, agora que já estamos todos confortavelmente acomodados em nossos aposentos, por favor, nos conte, quais delicadezas são essas que preparou? — A voz da Rainha Selena ecoou pela sala e todos os olhos se viraram curiosos para Valentina.
Aquele momento seria ótimo para que ela recobrasse o temperamento e as rédeas de seus sentimentos, então, Valentina sorriu e começou a explicar, com muitos detalhes, as surpresas que havia aos convidados.
— Escolhas perfeitas, Valentina. — Disse Rei Afonso com um sorriso espirituoso. — Mas, me explique, estou com uma dúvida sobre a sua escolha para mim, sou tão enfadonho assim que precisas me enterrar na sala de jogos para não atrapalhar a diversão dos demais?
— De forma alguma, Majestade, a questão é que seus conhecimentos e alcances são tão admiráveis que achei que uma folga lhe era merecida. — Valentina sorriu delicada ao responder.
A resposta de Afonso veio precedida de uma gargalhada sincera.
— Parabéns, Rei Augusto, você criou Valentina maravilhosa bem. Sempre me impressiono com sua delicadeza e perspicácia.
O clima leve se manteve até o final do jantar. Guilhermo, as poucas vezes que trocou palavras com Valentina, manteve a conversa em tom trivial. Já Felipo passara o jantar inteiro provocando os criados com suas piadas.
— Tia Agnes, acabei de ter uma ideia especial. — Felipo se dirigiu a Agnes quando os criados se afastaram. — Já que todos estão apavorados com a ideia de que podes ler pensamento, porque não brincamos um pouco com isso?
— Felipo, não vou participar das suas peraltices. — Agnes lhe respondeu rindo.
— Ora, vamos tia, vamos dar um pouco de diversão aos criados, assim eles terão o que falar a noite toda. — Felipo ria ao falar. — Vamos, Valentina e Guilhermo, me ajudem a convencer Tia Agnes.
— Não acho justo com os criados, Felipo, eles já estão apavorados. — Valentina respondeu séria.
— E sem criados quem vai lhe fazer as vontades, Felipo? — Guilhermo completou.
— Ah! Vocês são entendiantes. Qual é a graça de ter um trunfo desse na manga e não poder usá-lo. — Felipo fez cara de aborrecido.
— Procure outra coisa para se distrair, Felipo, você é sempre tão criativo. — Guilhermo disse em tom amigável.
— Hum.... deixe-me pensar. — Felipo coçava a cabeça de forma caricata.
— Por que não nos delicia com um dos seus poemas? — Agnes pediu docemente. — São sempre tão divertidos.
— Muito bem, então assim será. — Felipo ficou de pé sobre a cadeira e bateu com o talher na taça de chumbo chamando a atenção de todos.
"Me foi rogado um poema — são divertidos – disseram.
Pensei com meus botões, que tema usar, será sobre ler pensamentos ou sobre amar?
Ora, que temas tão distintos, podem pensar de pronto, mas vejam bem, que delícia é a união desses dois pontos.
Se ler pensamentos, eu pudesse, como dizem Tia Agnes poder, poderia eu, num lampejo, o futuro descrever.
Afinal, nossos pais... e avô, no caso... tiveram uma ideia genial, vamos unir nossos filhos num matrimônio colossal..."
Rainha Selena lançou um olhar reprovador para o filho, mas isso não o impediu de continuar.
"... Mas, qual dos meninos, homens por melhor dizer, será que a linda Valentina terá a honra de escolher?
Olhe pra mim, linda princesa, me deixe penetrar seus pensamentos, e quem sabe, como um milagre, eu posso ler-lhe os pensamentos...."
Felipo se colocou de cócoras na cadeira e olhou pra Valentina de forma cômica, como se esforçasse para ler o que ela pensava e balançando a cabeça como quem está decepcionado levantou-se e seguiu rimando.
"Pelo que vejo... e prevejo, não é a este fanfarrão. Talvez seja com o outro, aquele que dizem ser bonitão.
Não, não me olhem assustados, e muito menos atravessado, a mim pediram um poema, que agora está realizado.
Um poema de amor e de magia, um poema de futuro e quiçá profético, um poema que esclareça a todos que este que voz clama aplausos, pode não estar certo.
Mas a escolha não foi minha, tão pouco de meus amigos, portanto aos nossos pais... e avô, deixo aqui uma lição..."
E com um salto, Felipo jogou-se sentado novamente na cadeira, apoiou os braços na mesa, o rosto nas mãos e fazendo uma careta, finalizou seu poema.
"... Seus filhos... e neta, podem ser jovens, mas bobos, certamente não os são."
Um silêncio tomou a mesa por alguns segundos, até que Rei Augusto levantou-se e, as gargalhadas, começou a aplaudir o poema de Felipo.
— Oras, deixem de ser tão sérios, o poema foi magnífico, venham me acompanhem, o Principe Felipo merece aplausos de pé!
Aos poucos todos foram levantando e, mais relaxados, começaram a aplaudir e a gargalhar juntamente com Rei Augusto, a exceção de Guilhermo e Valentina, que continuavam sentados e olhavam de forma séria para o amigo.
— Oras, deixem de ser estraga prazeres, levantem e me aplaudam também, afinal só deixei claro o que todos aqui já sabiam.
Mesmo contrariado Guilhermo se levantou e aplaudiu o amigo com sinceridade. Valentina também se levantou e aplaudiu, mas num sussurro disse a Felipo.
— Nem tudo que sabemos que todos sabem deve ser exposto, Felipo, você, mais que ninguém, deveria ter consciência disso.
Felipo sorriu ao ouvir a fala de Valentina, mas não foi um sorriso feliz, foi um sorriso triste, dolorido.
— Aha! A princesa colocou as garras de fora? — Implicou Felipo com sarcasmo, o tom que sempre usava para se proteger. — Quer dizer que tens segredos, mais tarde passo por seus aposentos, quero saber todos os detalhes desse segredo.
— O único segredo que você precisa saber, meu caro Principe Felipo, é como manter essa sua língua ferina presa dentro da boca. — O tom de Valentina agora era amigável, mas o olhar não.
— Ai, que medo da Princesa. — Felipo soltou uma gargalhada e abraçou Valentina dando-lhe um estalado beijo na bochecha.
— Deixe de ser inconveniente, Felipo! — Guilhermo disse em tom jocoso.
— Não! Jamais! Ser inconveniente é uma das mais belas facetas de minha personalidade. — Felipo respondeu rindo e dando uma piscadela para Guilhermo complementou. — E minha inconveniência pode ser muito conveniente as vezes.
— Cala a boca, Felipo! — Guilhemo resmungou e sentou-se novamente.
— Ora, Guilhermo, até parece que não conhece Felipo, quanto mais provocado, mais longe vai. — Valentina disse olhando.
— Bem, ao menos a incoveniencia de Felipo foi de alguma valia! — Guilhermo falou charmoso.
— E qual seria? — Valentia quis saber.
— Você, Princesa, se dirigindo a mim por vontade própria! — Guilhermo sorriu abertamente.
— Rapazes, vocês são impossíveis quando se juntam para perturbar alguém, deixe Valentina em paz. — Agnes disse rindo da implicância dos três jovens.
Os três riram e o jantar seguiu em paz, bom, ao menos era que parecia, porque paz não era bem a palavra que vinha a cabeça de Valentina naquele momento.
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