Vainglory

6 Capítulo 6


Notas iniciais
Capítulo especial pra quem pediu Silena e Thalia. Fiquem de olho, mais personagens estão por vir.
Ah, e não odeiem nem a Thalia nem a Silena, gente, elas tem os motivos delas pra fazerem o que estão fazendo.
Vejo vocês lá embaixo!

servo1
ser.vo1
adj (lat servu)1 Diz-se de quem pertence a um senhor, aquele que não tem liberdade própria ou que não pertence a si mesmo.2 Que não tem a livre disposição da sua vontade, dos seus pensamentos, dos seus atos.

Annabeth adormeceu praticamente durante metade da viagem; Zola, a criada de pele escura e cabelos cinza de velhice, disse a ela que tamanho sono era proveniente da gravidez, visto que agora ela tinha que dormir por duas pessoas, alimentar-se por duas pessoas e saciar a sede por duas pessoas, portanto, a jovem não se importou em recostar a cabeça no colo da escrava e descansar até que a carruagem passou dos portões de pedra lázuli da Casa da Coruja.

Quando vislumbrou o castelo cercado dos riachos que tanto amava, Annabeth sentiu lágrimas ameaçando cair de seus olhos. O cocheiro ajudou-a sair da carruagem até que ela correu pela ponte de madeira clara, atravessando o maior dos riachos e caindo nos braços do pai assim que chegou do outro lado, chorando desesperadamente contra o tecido macio de sua roupa azul marinho. Por alguns segundos, ele apenas acariciou os cachos dourados de Annabeth, até que esta teve força para abraçar suas antigas criadas que tanto amava. As moças tocavam sua barriga, agachando-se para beijar aonde o bebê crescia, mesmo que ainda nem fosse visível que ela estivesse grávida.

No jantar, ela e o pai conversaram animadamente sobre Casa do Tridente. Annabeth falou até a língua doer de fadiga sobre Perseu – e como ela adorava chamá-lo de Percy, agora – sobre as criadas, o lugar magnífico e até mesmo os concorrentes ao trono e as questões políticas de que ela adorava ter conhecimento sobre. Frederick, como sempre, esbanjou simpatia, porém, Annabeth podia ver que a doença havia tomado seu corpo mais uma vez, e ela era mortífera, cruel, e ainda, natural: a velhice. Antes de se deitar, Annabeth deu um beijo demorado na testa enrugada do pai, pedindo mentalmente aos deuses que o deixasse viver suficiente para que ao menos conhecesse seu neto em dentro de alguns meses.

Depois de ser banhada na familiar água gelada dos riachos e perfumada com os aromas que marcaram sua infância, Annabeth foi vestida na sua camisola branca de dormir; antes de deitar-se, fora apresentada a uma nova criada. A moça deveria ter mais ou menos 18 anos, a idade de Annabeth, e tinha cabelos escuros e muito lisos, além de uma pele de cor de achocolatado. Seus olhos pareciam grandes jabuticabas e ela era belíssima, certamente a mais bela aia que Annabeth já havia visto. Cumprimentou-a com um sorriso.

- E qual é o seu nome, querida? – ela perguntou gentilmente segurando as mãos trêmulas da aia nas suas. A moça parecia terrivelmente assustada.

- S-Silena. – gaguejou. – Silena, senhorita Annabeth.

Annabeth deu um sorriso suave.

- Silena? É um nome bonito. – disse honestamente. – Vamos fazer um combinado, querida? De agora em diante, você me chama de Annabeth, está bem?

Com um aceno de cabeça, Silena concordou, os cabelos lisos e secos pelos maus cuidados balançaram um pouco de suas raízes. Annabeth deu-lhe um beijo de boa noite na bochecha e as criadas ajudaram-na a se deitar, já que agora era melhor pecar pelo excesso: antes Annabeth fosse mimada e recebesse cuidados demais do que ela corresse o risco de, ao fazer tudo sozinha, perder o bebê. Seria imperdoável, e seria uma desculpa para que os concorrentes ao trono mandassem que algum de seus espiões a matassem. Se eles não o fizessem, o seu próprio querido marido só conseguiria vê-la como uma mulher infértil e inútil, e ela cairia na vergonha eterna de carregar o fardo de saber que o marido tinha relações com amantes na tentativa de ter um filho sem que dependesse da mulher.

No meio da madrugada, ofegante e suada, Silena Beauregard levantou a cabeça de seu colchonete no casebre dos funcionários de Casa da Coruja. Puxou o punhal de debaixo do travesseiro e segurou-o contra o peito. Cuidadosa, saiu do local sem que fosse vista, pé ante pé, segurando a faca afiada. Atravessou a ponte estreita que levava do casebre até o castelo principal, rezando para todos os deuses que conhecia para que não fosse vista. Agradeceu pela pobreza em que havia vivido por todos seus dezoito anos: se não tivesse passado fome, não seria esquelética ou ágil o suficiente para praticamente flutuar pelos cantos do castelo sem que fosse vista pelos guardas, de modo que foi fácil chegar ao quarto da doce Annabeth sem levantar nenhuma suspeita. A porta estava entreaberta. Botou os pés dentro do grande aposento, sentindo-se quase mal por ter que cumprir o dever que lhe fora dado. Apenas de passar poucos momentos com Annabeth ao longo da noite, Silena havia percebido que ela não era a usual esnobe menininha de papai que a trataria como lixo: a mais nova dos Chase era educadíssima e simpática. Ao sentir o aroma de erva-doce que pairava sobre o quarto da moça, Silena pensou em seu filho recém-nascido doente e como o homem de cabelos cor de areia a havia prometido comprar os medicamentos caros que o bebê de apenas um mês de idade precisava; a única coisa que ela necessitava fazer era cobrir a boca da pobre Annabeth com a mão suavemente e pressionar a lâmina pontuda contra o osso que protegia seu coração... Estaria morta em segundos. Depois, era só fugir sem olhar para trás. O homem de cabelos de ouro – Luke era o nome dele? – havia prometido uma carruagem a sua espera assim que realizasse o serviço.

Aproximou-se da cama imensa da moça, muito grande para uma garota só, e segurou sua respiração. Pousou a mão seca sobre os lábios rosados e macios de Annabeth, contemplando-a por um momento. Ela não tinha culpa, tinha? De ter se casado com Perseu Jackson, de ter engravidado dele e de agora carregar sua semente. Porque tinha de morrer? Por quê? Mas estava Silena disposta a sacrificar seu filho por pena? Nunca.


Admirou a jovem por um momento. Era belíssima. Desejou ter sido bela como ela um dia, ter os mesmos cabelos encaracolados e dourados semelhantes a lágrimas do próprio sol ao ver tamanha beleza, os olhos cinzentos, ainda que brilhantes, que a lembravam de um mar calmo após uma tempestade. A pele branquíssima, muito parecida com a neve do Norte, bem cuidada, macia... Tão macia... Tão inocente...

Silena foi puxada de seus pensamentos assim que Annabeth esticou um dos braços. A moça congelou enquanto observava a loira pousar a mão pequena sobre a barriga, acariciando-a gentilmente. Diabos, ela estava matando o bebê também. Ela estava sacrificando a vida de uma dama e de um feto, ainda sem alma, pelo seu filho, porém...

Covarde, apressou-se em enfiar a lâmina debaixo de seu vestido encardido, disposta a escondê-la. Ficaria tempos na Casa da Coruja, como dissera Luke, o rico. Quanto tempo precisar, querida, quanto tempo precisar... Ele havia jurado, portanto, Silena deixou a moça, prometendo a si mesma em ter pesadelos com o filho para que criasse forças para matar a mulher e o bebê crescendo em seu ventre antes que fosse tarde demais. Não haveria dinheiro algum que comprasse o remédio que curasse traição. Ela era só uma criada, afinal de contas... ninguém sabia que seu filho tivera o pai que dominara o mundo antes de morrer, antes de ser brutalmente assassinado... Quem diria, ela, Silena Beauregard, antes amante do rei, havia ela mesma carregado um bastardo deste rei. Agora Charles estava morto – ou era o que queriam que todos no reino acreditassem – e o seu filho também a beira da morte. Não ia permitir nada disso. Seu filho cresceria e seria sim o rei, pelo amor dos deuses. Ele tinha direito, estava no sangue, e não o bebê de alguma riquinha qualquer (que infelizmente, não tinha culpa). Nem que fosse pelo seu próprio cadáver, Silena Beauregard não deixaria que Perseu, Tyson ou nenhum dos outros chegassem ao trono, a não ser seu filho, quando à hora chegasse.

Paciência, ela repetiu para si mesma mentalmente enquanto caminhava de volta para a casa dos criados em silêncio.

~~~

A carruagem chegou até Casa do Tridente em silêncio. Ninguém sabia da chegada da moça, ou ao mesmo de onde vinha – o cocheiro a havia buscado próximo a Casa das Flores, aonde ela disse estar hospedada. Trazia apenas uma pequena mala. Seus cabelos encaracolados e escuros estavam presos em um turbante azul brilhante que combinava com seus olhos, e seu corpo abraçado por um vestido solto e branco. Quando pulou com sua pequena bagagem perto da torre dos funcionários no imenso local, tentou parecer imparcial: o homem que havia contratado seus serviços a avisara sobre as tentações de morar sobre tão belo telhado, ainda que ela fosse apenas uma empregada. Uma empregada que, ainda, tinha em suas mãos a possibilidade de mudar quem ganhava e quem perdia a competição do poder, se realizasse seu trabalho corretamente.

Fora lhe apresentado seu quarto. O dividiria com mais três moças, todas as lavadeiras de roupa, e era por isso que ela se passaria, também, apesar de seu serviço ser muito mais complexo e secreto, até mil vezes mais complicado. Debaixo do travesseiro do colchão gasto, encontrou um bilhete de seu novo chefe com as instruções.

Annabeth Jackson é suave. Espero que seja agressiva. Assim que consegui-lo na “armadilha”, dê o bote.

- L.C.


- Thalia, é o seu nome? – uma das criadas com quem dividiria o quarto, chamou.

- Sim. – respondeu, desenrolando o turbante azul elétrico dos cabelos pretos, deixando-os cair nas costas. Já fazia mais de anos que não cortava os cachos.

Thalia, ela pensou mentalmente com um sorriso diabólico. A menina mulher que seduziria Perseu Jackson.

Notas finais
E aí, o que acharam? Eu particularmente amo esse capítulo.
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